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2.2.1.3.1. Kredi Kültürü ve Risk Profili

3.1.2.1. O “arrabalde” de Cascais até 1889

Em 1873, Pedro Barruncho, ao fazer a descrição das novas construções de Cascais, começa por dizer que, “depois do visconde da Luz, foi o sr. José Jorge de Andrade Torresão o primeiro edificador, construindo no alto de um morro, junto ao forte de S. Roque, perto do convento do Estoril, um lindo chalet, com quatro frentes, apresentando de todas elas uma encantadora vista, tanto para o mar como para a terra”353. Antes ainda dos palacetes Palmela ou Loulé parece, de facto, ter sido este capitalista de Lisboa o primeiro a descobrir os encantos do sítio magnífico que se viria a chamar Monte Estoril354. Segundo o mesmo autor, a construção da Casa da

Serra começou em dezembro de 1869 e foi um incentivo importante para as

que se lhe seguiram. Na verdade, Torrezão terá sido, nestes começos do Monte Estoril, “o primeiro cenógrafo do seu panorama”355 já que, depois desta moradia, fez construir pelo menos mais três, todas no mesmo local, escolhendo as melhores situações paisagísticas do futuro Monte Estoril. A primeira casa, depois de ter pertencido ao capitalista Seixas356, foi adquirida pela Companhia Portuguesa de Hotéis que a fez demolir quando “esta se propunha construir sobre o terreno que margina a praia, um hotel maravilhoso (...) ao qual se daria o nome de Esplêndido Hotel”357. Perto desta, e também na riba sobranceira ao mar, mandou construir a Villa do

Rio, mais tarde comprada por Fausto de Figueiredo, e também logo

353

Pedro Lourenço de Seixas Borges Barruncho, Apontamentos paraa História da Villa e Concelho de Cascais, Lisboa, 1873, p. 147

354

Monte Estoril é uma toponímia que só aparece depois de 1889; antes chamava-se ao sítio “Costa de Sto. António” ou “Pinhal da Andreza”.

355 Branca de Gonta Colaço e Maria Archer, Memórias da Linha de Cascais, Lisboa, 1943, p. 313 356

Proprietário da casa junto à praia da Ribeira, em Cascais, construída em 1920 com um projecto de Norte Júnior

357

demolida. “Terceiro chalet saiu das mãos expeditas de Torrezão, a Villa

Flora e que também já não existe. No local em que se ergueram as suas

frágeis paredes, em frente do Hotel Atlântico, está agora a moradia de. Manuel Duarte.(...) A última das casas de Torrezão, chamada Villa Maria, foi construída nas vizinhanças do sítio onde mais tarde se ergueu o Hotel de Itália. Também a demoliram por a sua aparência ser, como a das outras saídas das mãos do mesmo construtor, em demasia modesta para as ambições do elegante rincão turístico. Nada resta da obra de Torrezão; o panorama que criou no Monte Estoril desapareceu – o primeiro cenógrafo da paisagem maravilhosa morreu pobre, desgostoso dos seus entusiasmos de esteta”358. Estas últimas casas, porque não referidas em Pedro Barruncho são, presumivelmente, posteriores a 1873. Mas estamos ainda numa primeira fase de colonização desta encosta junto ao mar, que se estende entre o velho Convento de Santo António do Estoril, a nascente, e o parque Palmela, a poente. Até ao começo das obras levadas a cabo pela Companhia Monte Estoril, a partir de 1889, a ocupação faz-se, quase exclusivamente, ao longo da estrada real nº67 (Lisboa-Cascais) e por estritas iniciativas particulares. De facto, tratava-se mais de uma continuação de Cascais, para espaços de óptima localização e desafogados, do que de uma nova estância, uma vez que aqui, nada havia além desse conjunto de casas, e em tudo dependia do velho burgo.

Porém, ainda nestes primeiros anos, as qualidades do sítio continuaram a atrair gente de gosto e dinheiro. Se Torrezão foi o primeiro “cenógrafo” do Monte Estoril, Carlos Anjos foi o seu primeiro promotor importante. Grande capitalista e proprietário de uma bela quinta na serra de Sintra, tem a intenção de levar mais longe a sua empreitada e fazer do sítio um verdadeiro centro de veraneio. Para além da bela moradia que ergueu para si e sua família, “Carlos Anjos construiu casas modestas, alegres,

358

baratas, para alugar, mas vendia-as sempre que lhe apareciam compradores, construindo logo outras. Os seus chalets de madeira, cada qual com o nome de uma filha sua, eram airosos e considerados modelares casas de verão! (...) À propaganda de Carlos Anjos, ao seu amor pelo Monte Estoril, deve-se o ambiente especial que permitiu a criação da Companhia Monte Estoril”359. A casa que mandou construir para si, a Villa Aduar, faz parte de um pequeno conjunto de boas moradias, erguidas no Monte Estoril, antes da urbanização feita pela Companhia. Está situada num dos melhores pontos do sítio e contradiz, um pouco, a tendência dominante do chalet, já que apresenta um aspecto bem “italiano”, com os seus telhados muito baixos, as suas varandas de terraço sobre arcaria, a sua marcada horizontalidade no desenho dos alçados, e até, na combinação das cores dos muros amarelo-ocre com as aberturas verdes escuras. A “villa, no estilo de Pompéia” com os “seus telhados gregos”, como diz Carlos Malheiro Dias360, ocupa um enorme lote, onde logo se plantou um magnífico jardim de plantas exóticas, várias vezes referenciado e elogiado na imprensa contemporânea. Possui ainda alguns anexos, que hoje mantêm melhor a traça primitiva do que o edifício principal, num dos quais funcionava o “escritório” do negócio imobiliário de Carlos Anjos no Monte Estoril. Continuou a sua actividade pelo menos até aos primeiros anos do século XX, pois em Setembro de 1900 se publicava este anúncio no Correio de Cascais:

“Mont’ Estoril

Terrenos de Carlos Anjos

Na Avenida S. Pedro e prolongamento da mesma há diferentes talhões de terreno para construção e chalets já construídos para diferentes preços. Todos os talhões são servidos por diversas ruas e avenidas, com boa vista de

359

Branca Colaço, op. cit., p.315

360

campo e mar, água canalizada de Valle de Cavallos, illuminação e cano de esgoto.

Planta e projecto provisório pode-se examinar no próprio local, na casa designada Serviço de Incêndios.

Para tratar no escriptório do Chalet Aduar no Mont’Estoril”361.

E, numa notícia publicada no mesmo jornal, em Fevereiro desse ano, lê-se sob o título “Desenvolvimento do Mont’ Estoril”, o seguinte:

“O nosso presado amigo e estimado assignante sr. Carlos Anjos, o incansável propugnador do desenvolvimento do Mont’ Estoril, vae construir alli mais umas 30 habitações”362.

Estas casas, para alugar ou vender, são hoje muito difíceis de recensear e quase todas desapareceram mas, através de raras fotografias, publicadas na época, podemos identificar uma delas, bem característica, que ainda está de pé na esquina da Rua Bijou com a Avenida das Acácias. É um pequeno chalet de um só piso e águas furtadas, com os seus rendilhados típicos nos remates dos telhados de duas águas, mas “anichado” num frondoso jardim de espécies tropicais. Aliás, este é um dos aspectos que caracteriza a ocupação do Monte Estoril até 1900, ou seja, antes da urbanização do novo bairro no Monte Palmela, e que é a valorização dos espaços verdes, das espécies exóticas, em detrimento da habitação, aspecto confirmado também pelas descrições feitas nas crônicas de então como esta de um jornalista espanhol: “Lindo effeito que produz aquillo tudo, porque as casas costumam ser pequenas, comquanto os jardins sejam grandes e a vegetação esplêndida. Dir-se-hia uma Biarritz na infância”363. O tipo de jardins que, geralmente, se usaram eram arranjos sobretudo de árvores e arbustos, em profusão e sem simetria, quase sempre sem relva ou canteiros

361

Correio de Cascais, Anno II, nº 66, 23 de Setembro de 1900

362

Idem, Anno II, nº35, 18 de Fevereiro de 1900

363

de flores, no intuito de parecer “natural” como, aliás, defendia Ramalho Ortigão, para este tipo de casas:

“O jardim inglês, com os seus intuitos exclusivamente paisagistas, e a sua rusticidade às vezes falsa e pretenciosa, não se suporta senão em frente da modesta elegância da casa moderna, do cottage e do chalet”364.

Para além desta mais valia, em relação a Cascais, e apesar da modéstia destas casas para alugar, elas eram também bem melhores que em Cascais, como sabemos pelo texto de Henrique de Vasconcelos, em 1906:

“No Mont’ Estoril, as casas são feitas com processos um pouco mais modernos. E, embora a arquitectura acuse, em geral, o gosto mestre-de- obras, tão apreciado pela burguesia liberal, as janelas não empenam, as portas não arregoam em frinchas, a cubagem de ar nos quartos é razoável, e em volta dos prédios há alguns metros de jardim que aformoseiam essa estância e a tornam o mais aprazível lugarejo que tem Portugal”365.

Mas regressemos ao nosso conjunto de boas moradias construídas antes de 1890. No lote vizinho da Villa Aduar, do lado poente, ergue-se a mais famosa casa do Monte, comprada pela rainha D. Maria Pia a João Henrique Ulrich em 1893, e que depois passou às mãos de António Herédia, filho do visconde da Ribeira Brava. Logo após a morte de D. Luís, em 1889, a rainha viúva não quis voltar à cidadela e começou por alugar uma casa no Monte, conforme conta Branca Colaço e Maria Archer:

“Instalou-se a família real na casa Vista Longa, uma moradia amarela estilo séc. XVIII, (...) pertencia à família Reynolds. O Infante gostou da instalação e deu-se bem com os ares do Monte Estoril. Então a rainha comprou um chalet no local excelso”366. A nova proprietária realizou, então, obras internas sob a direcção do arquitecto Rosendo Carvalheira (c.1864-

364

Ramalho Ortigão, As Praias de Portugal. Guia do Banhista e do Viajante, Lisboa, 1943, p. 163

365

Henrique de Vasconcelos, in Ilustração Portuguesa, 22 de Outubro de 1906

366

1919)367 e do pintor António Ramalho. Os muros do jardim, de pedra aparelhada, ao contrário da maioria que então se faziam em pedra irregular, o portão e o edifício conservam o aspecto original, inclusive “o principal enfeite” que “era o adorno estranho dum telhado esmaltado, feito com telhas azuis e vermelhas”368. A tipologia utilizada é a do vulgar chalet, com os seus elementos característicos, tantas vezes repetidos nesses anos – “como estilo, é claro, não podia fugir ao torreão de capacete pontiagudo, à frontaria em jeito de gaiola de grilo”369 (telhados de duas águas). Já bem sobre a encosta, e a nascente, erguia-se a terceira importante moradia construída nestes anos e que rivalizava em elogios370 com a Villa Aduar e o chalet de D. Maria Pia. É o palacete mandado construir pela condessa de Pomares, senhora do círculo de D. Maria Pia, mais tarde vendido à família Sommer Ribeiro. Com frentes para a antiga rua Arcachon e a Avenida das Acácias, é uma das mais sólidas construções do Monte Estoril, neste período. Combina elementos variados, quer de gosto, quer de riqueza construtiva, de que resulta um curioso sentimento de indecisão, sem que o todo deixe de ser agradável. No mesmo conjunto, e na mesma fachada, vemos um robusto pórtico de pedra, com cobertura de ardósia à maneira francesa, que se prolonga por um corpo, também de pedra, encimado por forte balaustrada, adoçado ao corpo principal do edifício, muito mais simples, e coberto com um telhado frágil e curvo, de duas águas, semelhante ao dos chalets.

Ainda destes anos é, com certeza, o início da construção do maior, e também de história mais atribulada, chalet do Monte Estoril. Entre as futuras ruas do Pinheiro e de Vitorino Vaz, num enorme lote que findava na

367

Formado no Instituto Industrial de Lisboa, foi responsável de projectos importantes como o Liceu Passos Manuel ou os Armazéns Grandela, em Lisboa, mas é como responsável pelos edifícios ligados à luta contra a tuberculose que teve a sua mais conseguida obra no Sanatório de Sant’Ana, na Parede, em 1912 (cf. J. M. Pedreirinha, op. cit., p. 81)

368

Branca de Gonta Colaço e Maria Archer,op. cit., p. 319

369 Idem, p. 313 370

Era então conhecida por Via Longa ou Telha Verde: “é distinta pela sua elegância, sendo, por assim dizer, um dos melhores adornos da pitoresca e poética estação de verão, que em poucos anos alcançou renome” (Correio de Cascais, nº10, 27 de Agosto de 1899

estrada real, erguia-se o grande edifício construída pelo engenheiro Almeida Pinheiro371 para uma “excêntrica africanista”, que entretanto desistiu de o vir habitar e, parece, partiu de novo para as suas terras de África. Abandonado já em fase adiantada de construção, foi comprado, no início dos anos noventa, por um especulador de vistas largas com a intenção de o transformar num casino. O Casino Internacional, incomparavelmente mais vasto que o pequeno clube que já aí existia, de imponente aspecto, veio dar um novo cosmopolitismo à estância e logo se fez tema de inúmeras crónicas, inclusive na imprensa espanhola372. Em 25 de Julho de 1899, faz-se a sua apresentação no Correio de Cascais:

“Obtivemos ampla informação relativa ao “Club Internacional” que vai ser estabelecido no “chalet” do falecido engenheiro Almeida Pinheiro. (...) Os dois grandes salões do rez-do-chão, destinados a bailes e concertos, serão adornados com riquíssimos espelhos. (...) Haverá música todas as noites e concerto de orquestra duas vezes por semana. (...) A direcção do club, na parte relativa a bailes e concertos, será entregue a cavalheiros proprietários de “chalets” na localidade”373. No dia 20 de Agosto realizou-se a inauguração e novas notícias aparecem, dando conta do seu aspecto e funcionamento:

“Achámos as salas bem mobiladas, havendo uma certa simplicidade. (...) Os salões de baile e concerto, destinados em especial a passatempo das famílias que veraneiam na localidade, produziam brilhante efeito pela profusão de luz. (...) A noite foi dedicada à visita do club e inauguração dos jogos, que devem funcionar em duas salas. (...) O restaurant (é) servido pela casa Ferrari”374. Instalado há muito, num dos chalets construídos por Carlos Anjos,que se erguia onde hoje está o English Bar, existia o primeiro clube

371

Nome pelo qual passará a ser identificado.

372 Com o título “El Gran Casino Internacional de Mont’ Estoril en Portugal”, no jornal de Madrid O

Liberal, onde também ficamos a saber que a exploração foi entregue a um sindicato franco-espanhol.

373

Correio de Cascais, Anno I, nº1, 25 de Julho de 1899

374

da praia, o Casino do Mont’ Estoril. Conhecemos o seu aspecto pelas fotografias publicadas nas revistas da época e por algumas descrições que o apontam como o local preferido em toda a baía de Cascais, dizendo que proporcionava “agradáveis noites aos praístas e aos numerosíssimos visitantes que ali vão, tanto de Lisboa, como de outros pontos, attrahidos pela fama de tal casa. (...) A casa é vasta, decorada com gosto, e num dos melhores pontos do Monte. (...) Tem sido, desde que abriu, o casino preferido e sem dúvida o escolhido pela elite”375. Desde logo, a clientela

mais selecta de Cascais, passou a frequentar o novo clube do Monte, e depois que se estabeleceu a ligação ferroviária, habituaram-se os lisboetas endinheirados a ir ao Monte Estoril jantar e jogar, com uma tal freqüência que, o último comboio da noite começou a ser chamado o “comboio da roleta”. Quando abre o Casino Internacional, em 1899, ainda o jogo era permitido, sem qualquer tipo de regulamentação. Mas, logo no ano seguinte, todas estas casas, e por todo o país, se vão ressentir da sua proibição por Hintze Ribeiro. São incontáveis as queixas, críticas e sugestões que, a partir de então, aparecem em todas as publicações e, sobretudo, no que diz respeito ao jogo nas praias portuguesas. Depois da proibição liminar, pediu- se um parecer a um concelho de juízes que defendeu a admissão do jogo exclusivamente dentro de clubes, entre sócios, continuando a proibição para o jogo público, onde toda a gente tivesse livre acesso. Criava-se, assim, uma tolerância que devia abranger os casinos das praias, mas ela não vai chegar a Cascais e ao Estoril, apesar de ter acontecido noutras estâncias como a Figueira, e até em Lisboa.

“Ora, em Cascaes, não há maneira de sustentar um casino ou um club se não se lhe permitir o jogo. No Mont’ Estoril, por exemplo, abriu há pouco o Club Internacional. Abriu porque a direcção, iludida com os boatos que circulavam, chegou a alimentar a esperança de poder dar jogo este ano. A

375

tolerância não vem, e o club terá de fechar a porta, porque sem jogo não tem recursos para funcionar. Em Cascaes, propriamente dito, não abre este ano qualquer casa d’ essas. Teremos apenas o “Sporting” e mais nada.

Isto não pode ser; é um crime arruinar localidades que prosseguiam florescentes; é um erro económico afastar capitaes que nos trariam os estrangeiros e ainda por cima dar-lhes de presente o que deixava no seu paiz a nossa gente de dinheiro, que quer distrair-se, que n’ estes três meses do ano, quer música, jogo e todos os outros passatempos próprios da vida das praias, e que não encontrando nada disto por cá vai procurá-lo lá fora”376.

Apesar destas dificuldades, e tendo que fechar nos meses de inverno, o Casino Internacional sobreviveu ainda alguns anos até que, em 1914, depois de uma nova campanha de obras de adaptação, abriu como hotel, com o nome de Miramar. Em 1927, já no contexto do ambicioso programa do Estoril, foi-lhe acrescentado um andar377. Nesta função se manteve, até há poucas décadas, quando foi quase totalmente destruído por um incêndio e hoje, abandonado, nada mais é que uma ruína completamente devorada pela vegetação dos jardins. Ao contrário das duas casas que vimos anteriormente, este edifício ergue-se na parte posterior do terreno, deixando um considerável espaço ajardinado que, inicialmente, se abria para o mar. É uma confusa e mal resolvida articulação de corpos, sobretudo quando o contornamos, de proporções “duvidosas”, o que também resulta das sucessivas adaptações. Foi comparado a uma praça de touros, num elogioso artigo sobre o Monte Estoril na revista O Ocidente, em 1899378, e dele também disseram que “não era bonito de ver”379.

376

“O Jogo nas Praias”, in Correio de Cascais, 4 de Agosto de 1901

377

Em 1936 era o único hotel de 1ª categoria no Monte Estoril, com 50 quartos, só superado pelo Hotel Palácio, de luxo, no Estoril. (Carminda Cavaco, A Costa do Estoril, - esboço geográfico, Lisboa, 1983, p.41)

378

O Ocidente, nº738, 30 de Junho de 1899

379

Para além destas casas que, alteradas ou arruinadas, ainda existem, podemos recensear também para este primeiro período de colonização do Monte Estoril, mais duas moradias muito características do gosto então predominante. A primeira, é o chalet do conselheiro Mariano de Carvalho, veraneante no sítio desde os anos oitenta do século XIX, e a sua casa é várias vezes citada e fotografada nas publicações da época. Já não existe, mas erguia-se bem no cimo da encosta e também no meio de um vasto jardim, com os típicos caminhos ensaibrados pelo meio do arvoredo exótico. O edifício não foge à tipologia mais comum, inclusive pela utilização da madeira, mas num esquema um pouco mais elaborado e de maiores dimensões que a maioria dos chalets de praia. A segunda casa, ergue-se, ainda hoje, no nº3 da Rua Mondariz, bem no cimo do Monte Estoril, e conserva o nome que lhe deu Thomas Reynolds, que a mandou construir380. Ocupa um grande terreno coberto de densa vegetação, entre ruelas sinuosas, e é outro típico chalet destes primeiros anos de ocupação, quer pela tipologia da construção, quer pela implantação num lote extremamente irregular, e quase enterrada na mata que a cerca.

Este conjunto de casas primitivas, juntamente com o grupo de pequenas moradias de aluguer, quase todas desaparecidas, erguidas num tempo em que ainda não havia qualquer planeamento urbano no Monte Estoril, acabam por marcar, decisivamente o carácter da nova estância, em que, as obras levadas a cabo pela Companhia, de facto, não alterarão. A encosta, descendo suavemente para o mar, pontuada de alegres fantasias arquitectónicas, surgindo entre a exuberante vegetação, é a síntese que encontramos em todas as descrições elogiosas do Monte Estoril, ao longo do tempo em que chamou a si a preferência de cronistas e veraneantes:

“De todo o tracto o Mont’Estoril é incontestavelmente a povoação