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Martinho Lutero (1483-1546) contrariou o pai, que era camponês e o desejava na carreira de Direito, entrando para o mosteiro agostiniano, prestes a completar 22 anos de idade. Os temas da salvação e da condenação estavam em foco na sua época: a vida presente de uma pessoa não era mais que uma preparação e uma prova para o devir. A vida monástica era uma das propostas da Igreja, que oferecia a salvação. De acordo com Gonzalez (1995) a visão de Lutero sobre Deus era de austeridade, severidade e temor. Costumava castigar seu corpo constantemente, conforme ensinavam as autoridades monarquistas e utilizava o confessionário constantemente. Mesmo tendo memorizado os pecados muitas vezes, na ocorrência de esquecimento na confissão, passava por momentos de desespero.
Este temor e horror por si sós já bastam (para não falar de outras coisas) para produzir a pena do purgatório, uma vez que está próxima do horror do desespero. É-me certíssimo que existe um purgatório. Não me impressiona muito que blateram os hereges, visto que, já há mais de 1.100 anos, no livro IX de suas Confissões, o B. Agostinho ora por sua mãe e seu pai e pede que se ore [por eles], e sua mãe, ao morrer (como ele lá escreve), desejou que sua memória [fosse lembrada] junto ao altar do Senhor; mas ele conta que isso também aconteceu com o B. Ambrósio. E mesmo que na época dos apóstolos o purgatório não existisse, como se estabelece o altivo Begardo – acaso deve-se, por esta razão, crer num herege que nasceu mal-e-mal há 50 anos e pretender que a fé de tantos séculos seja falsa? Principalmente porque ele não faz outra coisa exceto dizer: “Não creio”, tendo assim, provado todas as suas [asserções] e rejeitado todas as nossas, como se também a madeira e a pedra não crescem. Mas isto ficam para uma obra e um tempo apropriados.Portanto, está admitido que há horror nas almas. Agora vou provar que esse horror é uma pena do purgatório, ou melhor, a máxima. (Lutero, 1987, p. 97).
No ano de 1517, o professor universitário Martinho Lutero, sem saber que se tornaria um agente da história mundial, exteriorizou seu inconformismo com a venda das indulgências fixando na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg as noventa e cinco teses. A incursão na biografia de Lutero aponta para momentos de experiência mística. Um desses episódios ocorreu após sua sobrevivência em uma tempestade, na qual vendo-se terrorizando diante da imaginação que seria atingido por um raio devido aos seus pecados, Lutero converteu-se. Posteriormente, formou a convicção que Deus se importava com ele e o salvaria. Durante a primeira missa que celebrou teve uma experiência arrebatadora, da qual resultou a idéia que deveria lutar pela dignidade da condição sacerdotal. Em outro evento de sua vida, Lutero acreditou que lançara um tinteiro contra o demônio, quando esse lhe aparecera. Pode-se assistir na História, o desabrochar das idéias teológicas de Lutero na declaração que os homens podiam ter esperança na salvação sem a Igreja, confiando no seu relacionamento particular com Deus, desde que tivessem fé em Jesus. Deste modo, simbolicamente pode-se
dizer que o Papa foi destronado, e a Bíblia, enquanto Palavra de Deus, foi colocada em seu lugar. Nesse período histórico havia mais de uma forma de autoridade, uma vez que cada governante na Alemanha decidiria a religião que prevaleceria em seus domínios: protestante ou católica. Tal possibilidade desdobrou-se em muitas lutas e guerras por convicções, espaços religiosos, formas de conduta social, e poder.
Importante mencionar que Agostinho, uma das referências de Lutero, escreve u vários volumes sobre a Cidade de Deus, tratando da história temporal e eterna da humanidade, representada em duas cidades: uma terrena, cujo amor a si mesma, chega ao desprezo de Deus e a outra, seu oposto. Tomando como referência o apóstolo Paulo, Agostinho aponta para a união do fiel com Cristo mais que com Deus. À distância entre Deus e o homem é diminuída ou superada não por atitudes do próprio homem, mas pela graça do próprio Deus. A revelação de Deus não se encontra no aspecto da subjetividade huma na, ou da objetividade dos atos cotidianos, mas, sobretudo através da pessoa de Jesus Cristo e em sua morte na Cruz. Na origem da identidade Cristã pode-se pensar que há ao menos um ponto comum entre Paulo, Agostinho e Lutero, que implica em uma concepção de que o encontro do homem com a divindade depende de Deus, mais do que da vontade humana. Do ponto de vista da eclesiologia protestante, o movimento de Lutero como reformador foi o deslocamento da concepção de salvação da Igreja como intermediária, tal como se encontra no catolicismo, para a fé e a graça agindo no indivíduo, conforme faz observar Mendonça (1998). Ainda em uma ótica comparativa ao catolicismo pode-se afirmar que esse movimento enfraqueceu o poder da Igreja sobre os fiéis protestantes, uma vez que qualquer um pode se salvar mesmo sem participar da instituição, já que considera sua comunidade formada pela “comunhão dos santos”, ou seja, a “comunidade dos salvos” afirma Mendonça (1998 p.83). Para manter os fiéis unidos no caso do luteranismo de origem missionária, fatores como a liturgia e os sacramentos, bem como no caso do Brasil, a proximidade étnica tornou-se relevante.
As concepções de Lutero são mencionadas por Delumeau (2003) em seus estudos sobre o imaginário social que sustenta as idéias de paraíso, fez referências a imagística cavalheiresca, que exortavam o fiel a fugir Babilônia e rumar para a cidade celeste. A leitura da Bíblia seguia a rota de novos céus, e de uma nova terra. Mostrava-se bem contido em configurar imagens e detalhe s da vida eterna. Direcionava os fiéis a frear sua imaginação interpretativa, tecendo um giro ao indicar que o reino de Deus não estava no exterior, mas no
interior. Portanto, o reino não estava distante, mas dependia de cada um iniciar um processo de buscá-lo em si mesmo. A presença do céu se dá pela fé, e todo fiel deve desconfiar da imagem “corporal” do além. A fé é concebida como movimento em relação à Palavra Divina, e torna-se necessário ao fiel ser prudente em relação à imaginação que bem pode servir para as ilusões do diabo. Calvino, segundo Delumeau (2003) também estaria na esteira de Lutero, sugerindo que não se desse muita importância às visões dos místicos. O invés disso, uma série de práticas religiosas poderia compensar a ausência dessas visões, como por exemplo, os cânticos coletivos, especialmente os corais, que foram ganhando ao longo do tempo grande destaque na difusão do Protestantismo.
O referencial teológico permite inicialmente clarificar algumas das influências de Paulo e Agostinho sobre Lutero, relacionado algumas das observações de Borriello et al. (2003) sobre esse processo. Paulo em sua linguagem mística refere-se não tanto a união do cristão com Deus, mas com Cristo. Dois fatores distinguem Paulo do Helenismo e do Judaísmo: o primeiro é que à distância entre Deus e o homem geralmente é superada por um ato da graça do próprio Deus, não havendo nada que o homem possa fazer por isso. A revelação de Deus não se encontra no aspecto da subjetividade humana, tão pouco na objetividade, mas, sobretudo através da pessoa de Jesus Cristo, e sua morte na Cruz. Na origem da identidade Cristã há um extra, que é um ponto comum entre Paulo, Agostinho e Lutero, isto é, algo que se processa fora e sem o nível humano. Um ponto semelhante e ao mesmo tempo divergente entre Lutero e Paulo, é que o primeiro fala de uma justiça forense, enquanto Paulo fala de uma união que une o Cristão ao seu Senhor. Quando Lutero fala de um renascimento, ou uma nova criatura, refere-se ao processo de imputação, enquanto Paulo fala de uma verdadeira transformação. Portanto observa-se que tanto o apóstolo como Lutero postulam a existência da mesma identidade mística para todos os cristãos. A santidade é uma espécie de a priori, que não se mede em termos morais, mas por seus frutos. Por essa graça o homem já está salvo, mediante a fé, cuja origem é atribuída a Deus. A santidade define a mística de todo batizado. A perfeição é o status de todo indivíduo que crê. Há interpretações sobre a frase de Paulo “não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”. Não se sabe se estaria ligada a influência helenística, na qual uma divindade cultural como Perséfone, ou mesmo Osíris, se tornava um com o fiel. Tal concepção o afasta das idéias judaicas da época, mas o aproxima das concepções pagãs de seu tempo. Já o conceito de fé o afasta da mística pagã. Pela fé se mantém a idéia de diferenciação entre Cristo e o cristão, não permitindo que
se confundam. O termo “místico” mostra aí toda sua ambigüidade34, na qual a diferenciação é a condição da busca de união, e a imitação é o legado da união obtida pela semelhança ilusória que atesta uma presença distante. A temporalidade da experiência mística que se encontra em Paulo e Lutero mostra uma concepção de futuro, deslocando-se a esperança sobre a experiência intima e pessoal com Cristo, aguardada, mas imaginariamente vivida no presente.
A construção da experiência mística com características de intimidade com Cristo, não se encontra somente em Lutero, mas também em expoentes como A Devotio moderna. Chama-se Devotio moderna movimento do início do século XIV, originalmente surgido nos países baixos, que exaltava a purificação da alma e o crescimento nas virtudes. Opunha-se às penitências extraordinárias e tradicionais. Mantinha uma oposição a um aspecto anti- intelectualista e anti-escolástico. Acentuava uma parte afetiva da espiritualidade, centrada na pessoa de Jesus, mas que em seus atributos divinos. O livro a Imitação de Cristo, muito difundido é um exemplo típico desse movimento. O ponto importante é seguir o modelo de Jesus, assimilando maximamente suas virtudes e aplicando-a a vida terrena. Poderia haver orações comunitárias, leituras de texto bíblico, seguidas de meditação, na quais os fiéis poderiam dar sugestões de aplicação dos ensinamentos em sua vida e na vida de outros. Não eram simpáticas as tendências humanistas, e tão pouco as posturas dos eremitas. O autor que mais popular foi Tomás Hemerken de Kempis a quem é atribuída à obra acima citada. Esse tipo de prática religiosa presente no tempo de Lutero, já indicava o papel do indivíduo como agente de sua experiência religiosa, independente de seus conhecimentos ou estudos bíblicos. De acordo com Vicente T. Lessa (1960) há influências Agostinho, Tauler e dos místicos alemães em Lutero, que o fizeram desaminar-se diante dos ensinos da escolástica, ou ao menos relativizá-los.
A respeito da mística é preciso lembrar que Lutero fez um pequeno tratado Sobre a
Liberdade Cristã (1520) no qual estabeleceu duas proposições iniciais, que partiam de idéias
bíblicas contraditórias sobre a liberdade espiritual e à servidão. A primeira postula que o todo homem cristão é livre de todos os senhores não devendo a eles se sujeitar e a segunda que todo homem cristão é o mais cumpridor de todos os servos e está submetido a todo o mundo.
34 Uma possibilidade interpretativa é pensar que Paulo se aproximaria das histórias das heresias cristológicas,
que dizem que há uma inserção do Divino em Jesus, o que o despersonaliza e o desresponsabiliza por seus atos, tal como ocorreu no apolinarismo.
Nas concepções de Lutero, o homem tem uma dupla natureza, a saber: espiritual e corporal. O homem espiritual é interior e é novo, uma vez que se renova dia a dia. Por sua vez, o homem corporal está sujeito à corrupção do mundo, uma vez considerado é físico, exterior, antigo. Faz menção direta a Paulo em 2Cor. 4,16. Ainda frisa Lutero que se pode encontrar no texto bíblico, várias alusões a essa dupla natureza, que se mostra em oposição. O homem só é livre quando se considera a sua interioridade, que se alimenta da palavra de Deus e não pode jamais dispensá-la. O ver de Lutero, quando a alma possui a palavra está em uma condição de riqueza, não precisando mais nada, uma vez que “se torna o Verbo da vida, da verdade, da luz, da paz e da justificação, da salvação, da liberdade, da alegria, da sabedoria, da virtude, da graça, da glória e de todos os bens”. (Dunstan, 1964, p.33). A alma só necessita do Verbo para sua vida e justificação, portanto não inclui qualquer obra.
Tomando como ponto de partida que o homem cristão já está ligado a Deus desde o início, Lutero firma uma espécie de misticismo, como constitucional dessa relação, e não como algo a ser alcançado, mas sim alimentado e reconhecido em si, pela fé. A intimidade e diretividade da relação entre Deus e o homem cristão já está posta como gênese inicial, não necessitando de qualquer mediador terreno. O homem bom, aquele que pela fé mantém o cultivo dessa relação, praticando boas obras. Claro está que as obras decorrem da fé e não que essas possam fazer o homem bom. A fé torna o homem livre de toda lei: os homens interiores, habitantes da Cidade de Deus. A relação dos homens entre si pode estar permeada de obras boas, às quais se dedicam com alegria e amor, de formas vo luntárias e generosas, apoiadas apenas na plenitude da fé.
Há, portanto em Lutero a contribuição para o surgimento de um paradigma individualista de prática religiosa, que aponta para a pluralidade da institucionalização protestante, palco no qual se debaterão a autonomia própria à ligação do indivíduo com o sagrado, e as modalidades de exercício de poder, autoridade, dogmas, crenças e organizações presentes nas relações sociais próprias aos contextos sócio-econômicos nos quais se historicizaram. Lutero a princípio enfrentou as autoridades religiosas, na medida em que negava os diversos princípios católicos como o poder espiritual do clero, o direito exclusivo do magistério de interpretar a Bíblia, o privilégio do Papa de convocar o concílio geral, os sacramentos, o celibato dos padres, o jejum, os votos monásticos e todas as imposições feitas pela Igreja para defender os interesse materiais. Apesar da condenação da intelectualidade pertencente à Universidade de Sorbonne e as faculdades de Colônia e Louvain, Lutero passou
a receber apoio de todas as camadas sociais da Alemanha, principalmente da pequena burguesia. Do ponto de vista da história, vale lembrar que o luteranismo esteve durante muito tempo ligado ao Estado alemão, embora para alguns fiéis isso não significasse a sujeição total às diretrizes governamentais, como ocorreu posteriormente diante do advento do nazismo na Alemanha, quando se constituiu a Igreja Confessante, cujos membros se recusavam a servir de propagandistas ao III Reich. Na perspectiva política, pode-se observar que as divergências de Lutero com o catolicismo romano convergiam com os interesses dos nobres que desse modo secularizavam os bens do clero, apoiados inclusive pelas Guerras dos camponeses, até que essa tomasse às feições próprias a um movimento de classe social. E vale lembrar ainda que Lutero seguia os passos de Wyckif (1370), Wat Tyler (1381), Huss (1400) Joan Darc (1430). Havia novas forças sociais em conflito envolvendo o clero, príncipes, nobres e a burguesia nascente, compostas pelos pequenos artesãos e comerciantes. Em 1525, dentro de uma visão conservadora, Lutero escreve contra os Bandos de Pilhadores e Assassinos
Camponeses solicitando dos príncipes que massacrassem os anabatistas revoltosos, o que
ocorreu em 1536.
Da perspectiva da relação do Protestantismo luterano com o paradigma da liberdade humana, as posições políticas de Lutero lhe custaram o distanciamento dos humanistas, que esperavam da Reforma um resgate dos valores relacionados á a origem da doutrina cristã, levando Erasmo a denunciar o pessimismo do reformador na obra De Libero Arbítrio. Essa questão percorre as discussões sobre a modernidade, que conta com a contribuição da antropologia comparada de Louis Dummont (1983), para quem nas sociedades tradicio nais, sejam primitivas ou medievais, a tradição se impõe ao individuo, sem que a escolhesse, geralmente na forma de transcendência radical que deve ser obedecida de forma semelhante à obediência às leis da natureza. A característica básica é a dependência do indivíduo ou do grupo dessa tradição. Já a dinâmica das sociedades moderna, que se abre à democracia, será conquistada pela erosão progressiva dos conteúdos tradicionais, minadas pela idéia de auto- instituição. O principio norteador é a fundação da lei sobre a vontade dos homens, subtraindo a autoridade das tradições. Esse princípio está vislumbrado na idéia de livre arbítrio, presente no Protestantismo na forma inicial de individualidade, presente enquanto “espírito protestante”, que vai desenvolver-se conflitivamente entre individualidade/democracia; democracia/totalitarismo nos séculos vindouros a Lutero, permeando as posições das instituições protestantes e dos fiéis. Certamente o conceito de fé como relação direta com o
sagrado e não mediatizada pela autoridade religiosa, contribuiu para a instauração do conceito de liberdade na modernidade e os conflitos sociais a ele relacionados.
A menção a um estado de alegria e bem estar, que sustenta as ações humanas no mundo, é uma decorrência do estado de união da alma com a divindade e da liberdade que assim é vivida. Há semelhança com os estados emocionais místicos, nos quais se observa esse mesmo estado de espírito, que espontaneamente nasce de um encontro entre o homem e o sagrado. Na sua dupla identidade, o homem tem como modelo maior Jesus Cristo, que enquanto encarnado, segundo a teologia cristã, se mantinha em contato com a divindade. Imagem e semelhança do homem e de Cristo, com exceção, que esse não era pecador. Lutero afirma que Cristo chama a Si mesmo e aos apóstolos de homens livres, uma vez que, são filhos do mesmo Pai. A Obra de Cristo é apenas uma submissão ao sagrado, mas não necessitava dela para sua salvação. É ao poder da fé, ligação suprema e máxima do homem cristão com o sagrado, que a consciência se transforma, tornando-se reta e invulnerável, fazendo com que as obras boas possam se realizar. Os preparativos são válidos, mas não como a garantia da salvação: as cerimônias, os cultos, os rituais, não são um fim em si mesmo, mas apenas manifestações de que o homem interior está possuído pela palavra, ou seja, pela fé. “Deus escreverá a Sua lei em nossos corações; de outro modo, não haverá esperança para nós” (Lutero, 1996).
Vês, portanto: se reconhecermos as grandes e receiosas coisas que nos são dadas, como diz Paulo, logo se difunde por meio do Espírito, em nossos corações o amor, pelo qual somos obradores livres, alegres, onipotentes e vitoriosos sobre todas as tribulações, servos dos próximos e assim mesmo senhores de tudo. Os que, porém não reconhecem o que lhes é dado através de Cristo, para estes Cristo nasceu em vão, estes vivem pelas obras, sem jamais chegar ao gosto e a percepção daquelas coisas. (Lutero, apud De Boni, 2000, p.70).
A proposta de Lutero sobre a justificação pela fé e sua presença no mundo interior, com posterior manifestação nas obras, comporta uma experiência subjetiva. Pode ser pensada como uma subjetividade já numa proposição da modernidade, onde a individualidade se coloca como centro da organização do homem, e a plausibilidade com o mundo exterior, é buscada, e visada a partir dessa condição primeira. Não se nega a força dos fatores exteriores ao homem, nem a necessidade de atentar-se a eles, mas o que se sobressai é que já não são mais imperativos para a concepção da relação homem-divindade, conforme aponta De Boni (2000).
Esta idéia da interiorização da escatologia é também corroborada por Nascimento Filho (1999) que mostra ser a teologia da Reforma dominada por duas perguntas, a saber: como posso ter um Deus grandioso e onde posso encontrar a verdadeira Igreja. Essas perguntas estão implicadas mutuamente tanto na teologia da Lutero, quanto na de Calvino. Para ele é a Palavra de Cristo que cria a Igreja e a torna viva através da pregação constante. Por meio desse ato, o Espírito Santo se presentifica e reúne a Igreja cristã. Este seria um aspecto de concordância entre as várias denominações protestantes e perpassa o ensino dos reformadores sobre o mistério e o seu conceito de missão. Em Calvino encontra-se a idéia de povo reunido. O que constitui a Igreja externamente é a aliança entre Deus e seu povo, e internamente a união com Cristo por meio de Espírito Santo. O que Cristo recebeu por sua união com o Espírito Santo e que constitui os ofícios transborda em bênç ãos aos fiéis, para