As escravas temporárias são prescritas nas sentenças casuísticas em Ex 21,26- 27. Estas sentenças evidenciam mais uma vez a violência física contra os corpos das escravas (’amah) e dos escravos (‘ebed). Todavia, pode-se perceber de maneira visível, através das sentenças, que há um reconhecimento maior dos direitos das escravas temporárias em relação às escravas domésticas. Daí nossa pergunta: onde está a diferença e em que se justifica?
“E se o homem golpear o olho do seu escravo ou o olho da sua escrava e o inutilizar,
deixará sair livre pelo seu olho”.
“E se fizer cair o dente do seu escravo ou o dente da sua escrava, deixará sair livre pelo seu dente” (Ex 21,26-27).
Novamente encontramos o verbo nkh que significa “golpear”, “bater com força”, “ferir”. Os agressores dirigem seus golpes na face das vítimas, atingindo os olhos e os dentes das mesmas. O sujeito da agressão é o ’ish, “o homem livre”. A prescrição não indica qual é o recurso que o agressor usa para ferir as vítimas. Em Ex 21,18, há homens que estão brigando e estão se golpeando com pedras (’eben) e com os punhos (’egrop). Possivelmente, estes eram alguns dos recursos que usavam nas disputas e agressões físicas.
A prática de agredir as pessoas no rosto parece ser um costume muito antigo, já presente no Antigo Oriente. As agressões se davam no olho, no dente, no rosto.176
176 No Código de Hammurabi encontramos uma coleção de artigos referentes à violência no rosto
(Art. 195 a 205). Cito um exemplo: “Se destruiu o olho do escravo de um awilum (livre) ou quebrou o osso do escravo de um awilum, pesará a metade de seu preço” (art. 199). Os textos do período babilônico antigo, em especial as leis de Eshnunna e o Código de Hammurabi, parecem apresentar os
A diferença que se encontra entre os diversos códigos jurídicos antigos está apenas nas penalidades atribuídas a estes crimes. Uma lei hitita determina: “se alguém cegar um escravo ou uma escrava ou quebrar seus dentes, ele dará 10 ciclos de prata e dará sua propriedade em garantia.”177 Constata-se que, no Código de Hammurabi178 e nas
leis hititas, geralmente as pessoas são punidas com um pagamento em dinheiro ou em espécie. Nas sentenças bíblicas, o preço do delito é a liberdade da escrava, embora seu corpo fique marcado com as seqüelas da violência. Sairá com seu olho inutilizado ou com seu dente caído (Ex 21,26-27).179 Há uma diferença entre as escravas citadas nas leis do Antigo Oriente e as escravas dos v.26 e 27. As escravas das leis mesopotâmicas são agredidas por terceiros. Estes são punidos e devem ressarcir o proprietário pelo prejuízo causado ao seu patrimônio. Nas sentenças bíblicas, as relações de poder se desenvolvem entre o credor e a escrava que está sob seu domínio por causa da dívida. Mas ela não é seu patrimônio. Ela não tem dono. A sentença garante a ela, como escrava temporária, o direito à liberdade.
No terceiro capítulo aprofundarei mais a relação das leis do Antigo Oriente com o direito bíblico, no que se refere à violência contra as mulheres escravas.
muskêtum como um grupo social intermediário entre os awilum e os escravos. Entre os especialistas,
porém, o termo continua em discussão. Não existe uma resposta satisfatória e definitiva para esta questão. O muskêtum formava, certamente, um grupo social, que parece ter gozado da proteção do palácio. A partir do ano 1000 a.C., aparentemente, o termo muskêtum começou a ser empregado para expressar um pobre, que, em geral, vivia uma situação social de opressão (Emanuel BOUZON, O
Código de Hammurabi, p.32-35).
177 LH, art. 8, em George Arthur BULTRICK, Collections of Laws from Mesopotamia and Asia Minor, p.189.
178 Nas leis pré-hammurábicas, quando era cometida uma violência contra um awilum sempre era
aplicado o princípio da compensação financeira. Com a legislação de Hammurabi, nas agressões aos que pertenciam à classe dos awilum normalmente aplica-se a lei do talião (art. 196, 197, e 200). O
awilum era o homem livre com todos os direitos de cidadão. Este grupo constituía a camada mais
ampla da sociedade (funcionários, escribas, sacerdotes, comerciantes, profissionais liberais, trabalhadores rurais e grande parte dos militares). A camada mais ínfima da sociedade babilônica era formada pelos escravos, denominados em acádico wardum=escravo e amtum=escrava. Na agressão dirigida a um escravo, a lei determinava uma compensação financeira, sempre menor, porém, do que qualquer pessoa superior a ele; e o pagamento era feito ao dono do escravo (Emanuel BOUZON, O
Código de Hammurabi, p.181-183).
179 O verbo shlh no Piel, muito freqüentemente tem o significado correspondente a Qal “soltar”,
“deixar livre”, “despedir”, “acompanhar a distância”. O verbo shlh é usado nos v.26 e 27 para restabelecer a liberdade. O seu sentido original é “enviar”. Quem envia, envia para algum lugar. O texto indica que o “senhor” deverá enviar as escravas e os escravos para as suas famílias ou tribos. Eles não serão vendidos (M. DELCOR e Erust JENNI, Diccionario teológico manual del Antiguo
Quando Rubens, filho de Jacó, se deita com a concubina do pai (Gn 35,22), a tradição diz que Jacó pune Bilah, sua concubina, batendo-lhe no rosto, quebrando-lhe os dentes.180 As sentenças mostram que o local da violência é no rosto. São os olhos que são machucados. São os dentes que são quebrados.
As sentenças de Ex 21,26-27 indicam que havia conflitos entre os credores e as pessoas que eram obrigadas a se submeter ao trabalho escravo por endividamento. Certamente, a resistência destas escravas se devia aos maus-tratos a que eram submetidas no cotidiano. Possivelmente, discutiam de igual para igual por conhecerem seus direitos; não admitiam, por isso, serem maltratadas. Estas escravas não são patrimônio do “senhor”, mas são escravas temporárias; ou seja, se sofrerem violência, podem sair antes do tempo previsto. As sentenças garantem maior proteção a elas. Podem recuperar sua liberdade. Já as escravas domésticas não têm nenhuma perspectiva de liberdade, porque são “dinheiro” do seu senhor.
A liberdade é a moeda de troca. Em Ex 21,5, o escravo temporário negociou sua liberdade com a permanência para sempre junto com a mulher e as crianças. Nos v.26-27, a sentença confirma que, tanto as escravas como os escravos, têm o direito de resgatar sua liberdade por causa dos maus-tratos. O livro do Deuteronômio (Dt 15,12- 15) fala claramente das mulheres e homens israelitas que se submetem ao trabalho escravo temporário por causa de dívidas. Determina uma tratamento especial aos israelitas, mulheres e homens, que fossem obrigados a se sujeitar ao trabalho escravo por dívidas. Deduzimos daí que as escravas e os escravos citados nos v.26 e 27 sejam israelitas e trabalhadores temporários. Isto também justifica o tratamento diferenciado atribuído às escrava s temporárias em relação às escravas domésticas citadas em Ex 21,20-21. Talvez possamos afirmar que a violência física contra as escravas temporárias era menos brutal, porque os laços de parentesco familiar clânico não estavam rompidos. O mesmo não acontecia com as escravas domésticas, porque estas provinham de povos estrangeiros; tinham seus corpos comercializados e seus laços familiares quebrados. Quando reagiam e se rebelavam frente os maus-tratos eram submetidas ao castigo, à violência. Os senhores tinham o poder de castigar, disciplinar, agredir e também de julgar. Portanto, os corpos das escravas domésticas são símbolo de violências acumuladas e de direitos usurpados.
A violência na face significa que as pessoas estavam frente a frente. Esta atitude mostra que as escravas temporárias não perdiam os seus direitos civis.181 O grupo controlava uma parcela do poder na sociedade. O fato de resistirem às más condições sociais a que eram submetidas pode ser entendido como a reação que está correlacionada com o nível de poder social que o grupo controlava. Comparando os v.26 e 27 com os v.20-21, constata-se uma diferença significativa no tratamento das escravas e dos escravos. Vimos anteriormente, que o senhor só era passível de punição quando as escravas e os escravos morressem em suas mãos devido aos maus- tratos. O credor era punido, parcialmente, quando maltratava as escravas e os escravos com seqüelas físicas (v.26 e 27). Sua punição era a perda do empréstimo. O direito israelita era complacente com o credor. Não punindo o crime da violência, o “direito israelita” torna-se conivente com o direito do credor, ou seja, continuar agredindo as pessoas submetidas por inadimplência.
Mesmo que as sentenças prescrevam as mesmas violências tanto para as mulheres escravas quanto para homens escravos, sabemos que as violências contra as mulheres é sempre maior pelo fato de ser mulher. Apanhar no “tronco” ou no rosto prova a resistência e rebeldia das mulheres frente à dominação e aos maus-tratos. Na visão patriarcal, a mulher escrava deve se submeter e calar. No entanto, o que vimos é que as escravas domésticas, bem como as escravas temporárias, não se submeteram pacificamente.
A existência de mulheres escravas domésticas e temporárias entre os israelitas era uma realidade nova, intensificada no final da época dos juízes. Entre os clãs surgiram grupos que começaram a controlar a riqueza. Consequentemente, foi-se rompendo a rede de solidariedade, que garantia a sobrevivência de todos os clãs. Frente a estas mudanças, de um lado, surge o empobrecimento de muitas famílias clânicas causado pelo rompimento da rede solidária; e, de outro, surge a necessidade da mão de obra escrava para atender à demanda dos grupos que concentram a produção. Neste contexto, desenvolve-se a prática do trabalho escravo na sociedade israelita. Faz-se necessário um sistema jurídico que regularize esta nova prática. A
181 O Direito Civil cuida dos direitos e das obrigações de ordem particular concernente às pessoas, aos
função de uma sentença jurídica é garantir o equilíbrio entre forças em conflito. Mesmo que as sentenças bíblicas estabeleçam limites frente ao excesso de violência física contra as escravas, elas beneficiam os senhores e os credores.
Concluindo, podemos afirmar que as escravas temporárias recebiam um tratamento diferenciado, porque eram pessoas libres submetidas temporariamente ao trabalho escravo por causa de dívidas. Seus credores não podiam apropriar-se delas como patrimônio seu. Elas mantinham laços familiares que lhes garantiam proteção. O limite temporal do seu trabalho escravo dá-lhes poder para reagir. Os laços familiares trans formam-se em energia para resistir frente aos maus-tratos. Quando são maltratadas, podem sair livremente e retornar a seu clã. O grande diferencial está no horizonte da liberdade. As escravas domésticas estavam totalmente desprovidas de qualquer laço familiar ou direito civil. As mulheres escravas domésticas, no direito israelita, são o grupo social mais desprotegido. Sua condição social está abaixo do homem escravo.
A violência estrutura-se no discurso que legitima a prática do acúmulo da produção e permite cobrar juro dos empréstimos. O mecanismo usado para justificar a sujeição ao trabalho escravo é o empobrecimento das famílias. Com o estabelecimento da desigualdade social, justifica-se a supremacia do poder dos credores em relação aos devedores.