O artigo 19, I da Constituição Federal é categórico ao prever o desestímulo do envolvimento do Estado com atividades religiosas em atenção à laicidade estatal:
Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público
Essa necessária separação entre Igreja e Estado impõe uma série de condutas que devem ser adotadas e outras que devem ser negadas pelos demais membros dos três poderes.
Em janeiro de 2013, em Fortaleza, o presidente da Câmara Municipal Walter Cavalcante, vereador cristão, determinou que missas e cultos das igrejas católicas e protestantes poderiam ser difundidos na TV pública, alegando uma colaboração para o interesse público. É uma posição extremamente discutível, pois não se vislumbra uma ajuda ao Poder Público no enfrentamento a um problema social (como o fazem entidades beneficentes religiosas que prestam assistência social a pessoas hipossuficientes), mas uma promoção de um culto específico patrocinado pelo ente municipal. Vale lembrar que as emissoras de rádio e TV são concessões públicas, constitucionalmente reguladas.
O próprio Poder Judiciário está adstrito a essa obrigação legal, de forma que, segundo o art. 93, IX, as decisões jurisdicionais devem ser motivadas e são vedados argumentos religiosos, sob pena de ofender gravemente o princípio republicano.
Quanto às liberdades, consideradas direitos fundamentais de primeira geração, impende uma breve explanação. A liberdade religiosa condensa outras liberdades: crença, culto e organização religiosa.
Sobre a liberdade de crença, não se previa na Carta Magna de 1967, mas somente a liberdade de consciência. A liberdade de crença, na verdade, era encarada como liberdade de consciência. Nas constituições de 1946 e 1988, tem-se que as liberdades de consciência e crença são invioláveis, compreendendo crença como a liberdade de ter ou não uma crença. Assevera que não compreende a liberdade de embaraçar o livre exercício de qualquer religião, de qualquer crença, pois aqui a liberdade de alguém vai até onde não prejudique a liberdade dos outros, conforme nos lega José Afonso da Silva.
Quanto à liberdade de culto, não condiciona a observância da ordem publica e dos bons costumes como nas constituições de outrora. Prevê a proteção legal e inclusive a imunidade fiscal tributária sobre templos de qualquer culto (art. 150, VI, b, CF).
Já em relação à organização religiosa, o Estado não interferirá. Um decreto de 1890 já conferia personalidade jurídica a igrejas e confissões religiosas. Em 1934, a Constituição atribuiu tal personalidade à associação religiosa. Até algumas normas salvaguardam direitos como obrigatoriedade de oferta do ensino religioso nas escolas públicas, sendo ele facultativo. As escolas particulares não são obrigadas. O casamento oficial é na forma civil, mas o religioso pode ter efeito civil na forma da lei.
O art.5º, inciso VIII é utilizado na defesa de liberdade religiosa, uma vez que ninguém pode ser privado de seu direito por motivo religioso. Ocorre que a própria lei faz a ressalva no caso de tal privação tiver a finalidade de eximir o fiel de obrigação legal a todos imposta.
O inciso VI do mesmo artigo fala sobre a inviolabilidade de consciência e crença, na forma da lei (grifos nossos). Tal direito compreende que a liberdade de não ter o exercício da liberdade de qualquer religião é assegura por lei desde que não prejudique direito de outrem.
Ocorre que essa lei não foi aprovada. Seria uma norma de eficácia limitada? Há quem diga que não, pois normas definidoras de direitos fundamentais são de aplicação imediata (art. 5º,§2º, CF) defendendo ser plena.
É importante ressaltar que uma norma constitucional de eficácia limitada não é regra que não produz efeito nenhum, enquanto não for editada a lei regulamentadora. Ela possui, desde a entrada em vigor da Carta Magna, alguns efeitos jurídicos relevantes. Se houvesse, por exemplo, quando do início da vigência da CF/88, uma lei que atacasse aos locais de culto e suas liturgias, esta norma teria que ser declarada revogada, ante a incompatibilidade com a previsão do sua proteção expressa no artigo 5º, VI, da Constituição. Apesar de não ser possível o exercício dessa garantia de direito antes da lei regulamentadora, é ele assegurado constitucionalmente aos religiosos. Tais normas constitucionais possuem o efeito de vincular o legislador infraconstitucional aos seus vetores.
Questão interessante é a que se refere à obrigatoriedade de o Estado editar a norma regulamentadora do preceito, dando-lhe eficácia plena. A CF/88prevê os institutos da ação direta de inconstitucionalidade por omissão (art. 103, § 2.º) e do mandado de injunção (art. 5.º, LXXI), para ensejar a concretização dos direitos previstos constitucionalmente aos cidadãos.
Ocorre que é impensável assegurar liberdade de culto e não proteger os seus locais de realização. Uma impropriedade crer que esse era o espírito do legislado. Válido para todas as religiões. Portanto, melhor crer que era de eficácia plena mesmo.
Modernamente, há quem defenda alterações no Código Eleitoral impedindo partidos políticos de colocarem a palavra "cristão" em suas siglas e coibir a existência de representações religiosas no Congresso nacional. Ofende a laicidade já que o Legislativo é um dos poderes do Estado.
Por fim, diz-se do Estado laico não o que permite a liberdade religiosa, mas aquele que estabelece normas visando a não interferência da religião nos assuntos do interesse público. Pressupõe sim o pluralismo de ideias e o debate, que pode ser prejudicado pela religião por esta apresentar dogmas que não são contestáveis por força de debate, mas sim elementos de convicção íntimos.
4.5.3 As contradições e os percalços para sua efetivação na experiência brasileira