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A homofobia é tratada internacionalmente como crime de ódio e até como crime contra a humanidade. Alguns poucos países no mundo experimentaram criminalizar as práticas discriminatórias fundadas na orientação e na identidade de gênero. Eis algumas experiências.

No Chile, nosso vizinho de América do Sul, foi aprovada a Lei Zamudio, que proíbe a discriminação fundada em orientação sexual, identidade de gênero, entre outras, em julho de 2012. Essa norma leva o nome do jovem morto brutalmente naquele ano após ser atacado por neonazistas, queimado, apedrejado, teve uma das pernas amputadas e o corpo foi marcado com suásticas. O projeto de lei tramitava há sete anos. Passou com votação apertada na Câmara dos Deputados, mas, com a trágica morte e o forte clamor nacional, obteve ampla maioria no Senado. Lá o casamento gay também foi aprovado.

Em Portugal, nossa antiga metrópole, reconhece-se o casamento civil gay, tal qual a Espanha desde 2005. O país também legalizou o aborto. A lei, após uma revisão do Código Penal, passou a prever a punição da homofobia.

Naquele país o que houve foi aumento da pena pra crimes dolosos em razão da orientação e identidade de gênero. Segundo o antropólogo Miguel Vale, da ILGA Portugal, que se candidatou deputado independente em 2009 e conseguiu eleger-se e aprovar o casamento gay e uma lei de identidade de gênero pra os trans, que é considerada a melhor do mundo, a tônica do discurso foi: atacar, punir ou impedir que tenham direitos aqueles que proferem discursos que incitam ódio e não são meras liberdades de expressão.

Para ele, Portugal não é um país católico nem o Brasil, mas são países onde a Igreja tem certa influência. Só que até certo ponto. As pessoas “privatizaram a crença”, negociam a que ritos se submetem ou não.

Na França ainda não tem uma lei que criminaliza a homofobia, no sentido do discurso homofóbico em si. O que há é a punição dos atos materiais de discriminação, ou seja, os crimes em razão dos “costumes” nos termos da lei. Em 2003, houve uma mudança legislativa e passou-se a punir com prisão perpétua os assassinatos motivados pela orientação sexual da vítima, verdadeira ou não. O Código de Trabalho impede a demissão em razão de motivo discriminatório. O casamento gay é vedado. Naquele país o que há é o PACS (pacto civil de solidariedade), símil à união civil. Em 1999, quando da sua discussão, houve uma manifestação com 100 mil pessoas contra a medida. Na ocasião um parlamentar chegou a discursar: “Os homossexuais... mijo em cima” (BORRILLO, 2010). Em 2013, 800 mil pessoas (em sua maior parte, cristãos) saíram às ruas para expor sua oposição ao casamento gay.

Em Quebec (Canadá), foi aprovada uma lei que combate a homofobia através de uma educação pública anti-homofóbica, ações junto a rádios e emissoras de TV para eliminação de clichês contra os gays além da adoção de medidas específicas para as vítimas da violência homofóbica.

Na União Europeia, foi feita uma alteração no Tratado de Amsterdã no sentido de reduzir a discriminação, mencionando pela primeira vez o termo “orientação sexual” em um documento internacional daquele bloco.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos, órgão consultivo da OEA, manifestou preocupação em outubro de 2012 com o elevado número de casos de violência homo/transfóbica na região e recomendou aos Estados adotarem medidas urgentes como revisão da legislação penal e intensificação das linhas de investigação para apurar se foi homofobia.

4.7 “É o que tem pra hoje”: Efeitos Práticos na Atual Conjuntura e Outras Leituras O tema da homossexualidade e da homofobia não são tratados como eram há algumas poucas décadas. Muitos conceitos foram reformulados, novos postulados científicos apareceram, novas necessidades se impuseram. Enfim, o cenário foi reconfigurado. Mas a exigência mútua de ora cerceamento e ora garantia de direitos para uma convivência social harmônica continua idêntica.

No aspecto religioso, já há uma maior aceitação dos homossexuais, como já foi explanado supra. Um cenário melhor à vista? Pesquisa feita nos EUA (federação laica com elevado número de cristãos) pela organização religiosa LifeWay mostra que a crença de que a homossexualidade é um pecado diminuiu de 44% em 2011 para 37% em 2012. Pode ter influenciado na decisão o discurso do então candidato Barack Obama nas eleições presidenciais daquele país em prol dos direitos dos LGBT. Pesquisa realizada pelo Senado em outubro de 2012 apontou que 77% da população é a favor da criminalização da homofobia. No entanto, no Brasil, uma pesquisa realizada pelo Observatório das Metrópoles em 2008 informou que entre os religiosos a rejeição ao casamento gay está em alta. 92% dos evangélicos pentecostais e 72% dos católicos são contrários à medida (OLIVEIRA, 2011: 149-150).

No aspecto da política criminal, existem algumas políticas esparsas que levam em consideração a especificidade dos crimes contra os LGBT. Uma iniciativa elogiável vem do Rio de Janeiro. Havendo suspeita de crime homofóbico, a vítima passará por uma triagem será atendida por um atendente que não é policial e poderá usar seu nome social. Essa medida tenta coibir a dupla vitimização principalmente de travestis e transexuais quando vão registrar suas ocorrências (GERBASE, 2012: 175).

No âmbito do Estado, em relação às políticas públicas, o panorama parece contar a favor. Para exemplificar a questão das potencialidades e dos desafios das políticas públicas tomemos como exemplo os próprios atores que participam de sua formulação através das conferências temáticas, que culminarão na elaboração de planos nacionais. Cite-se a Conferência Nacional de Juventude.

Na 1ª Conferência Nacional de Juventude, realizada em Brasília em 2008, pouco mais de 4% dos jovens presentes afirmaram que a sua principal bandeira de luta no campo da juventude era a política voltada para o segmento LGBT, a diversidade, a sexualidade e questão de gênero e das mulheres, representando o 6º maior grupo votante dos 32 totais,

conforme se infere da pesquisa realizada nesse espaço político. (CASTRO, ABRAMOVAY, 2009: p. 40).

O movimento LGBT dedicou boa parte da década de 1980 até meados da década de 1990 para retirar das costas dos gays a responsabilização pela AIDS, considerada como “praga gay” na época. Somente quando conseguiu minimizar essa associação preconceituosa, trazendo para o rol as prostitutas e os usuários de drogas injetáveis, é que pôde expandir suas reivindicações políticas. De parte da década de 1990 para cá, vem se emplacando uma luta por políticas públicas nos campos da educação, da saúde e da segurança pública, por exemplo.

Nessa mesma pesquisa, foi perguntado aos jovens a respeito da legalização do casamento de pessoas do mesmo sexo. Mais de 55% declararam-se “completamente a favor” ou “a favor”. Uma observação interessante é que nem todos os que são favoráveis pertencem à parcela LGBT e que nem todos que são contrários advêm das representações religiosas. Destaque para os jovens ciganos que disseram não haver homossexualidade entre eles, pois as tradições são muito presentes e o casamento é arranjado desde cedo entre homem e mulher. Esse grupo se dividiu entre favoráveis e contrários.

Outro aspecto importante são os argumentos repetidos nos grupos focais da conferência tanto entre os favoráveis quanto entre os contrários. Esses sustentaram que o casamento é um sacramento, que tal aprovação constitui a degeneração da instituição da família e que a Igreja não é contra o homossexual, sendo que apenas não aceita o pecado. Alguns até são a favor da união estável, mas não do casamento em si. Aqueles frisaram que o objetivo é a legitimação do casamento civil, sem ingerências sobre o casamento religioso, que o Estado não pode impedir essa união, devendo, pois, assegurar os direitos dos cônjuges e que isso já é uma realidade. Alguns ponderam que, com a aprovação, deve haver um respeito nos espaços públicos, cumprindo deveres para uma melhor convivência.

Infelizmente nessa pesquisa não houve pesquisa de opinião acerca da criminalização da homofobia especificamente. No entanto, foi aprovada uma importante resolução na assembleia da 1ª Conferência Nacional de Juventude, quanto ao tema da “Cidadania LGBT”:

1. Incentivar e garantir a SENASP/MJ a incluir em todas as esferas dos cursos de formação dos operadores/as de segurança pública e privada em nível nacional, estadual e municipal no atendimento e abordagem e no aprendizado ao respeito à livre orientação afetivo-sexual e de identidade de gênero com ampliação da DECRADI– delegacia de crimes raciais e intolerância.

Trata-se de uma medida que visa ao combate da homofobia institucional garantindo um atendimento não discriminatório e um acesso à justiça que respeite a dignidade da pessoa humana. É visível seu sucesso onde já está instalada até o momento, em São Paulo.

Por que a Conferência de Juventude foi escolhida para essa análise? Porque ela permite fazer uma reflexão sobre o jovem de hoje, mas também possibilita um exercício prognóstico. O saldo positivo dessa conferência aponta para uma juventude brasileira mais cabeça-aberta, menos intolerante.