Em julho de 2012, a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH - PR) divulgou um levantamento inédito sobre denúncias de casos de homofobia no país. É a primeira estatística oficial na América Latina sobre crimes dessa natureza.
A sistematização ocorreu com base nos dados de:
(a) Disque Direitos Humanos – Disque 100: Serviço de denúncia vinculado à Ouvidoria da SDH/PR. Abarca, desde dezembro de 2010, módulo específico para violações
cometidas contra a população LGBT. Existe, em âmbito governamental, desde 2003, voltado para o enfrentamento à exploração sexual de crianças e adolescentes. Em dezembro de 2010, foi incorporado o módulo referente à população LGBT, entre outros grupos;
(b) Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180: serviço ofertado pela SPM. Recebe denúncias ou relatos de violência, reclamações sobre os serviços da rede e orientações sobre direitos das mulheres;
(c) Disque Saúde e Ouvidoria do SUS: serviço do Ministério da Saúde que oferece informações sobre doenças e recebe denúncias de mau atendimento no SUS;
(d) E-mails e correspondência direta para o Conselho Nacional de Combate à Discriminação – LGBT e para a Coordenação-Geral de Promoção dos Direitos de LGBT.
O Governo contratou uma consultoria especializada para acompanhar a pesquisa e avaliar os dados. Apesar de todo o esforço, o Governo alega haver subnotificações, pois muitas vítimas não denunciam por medo, por desconhecer ou ter acesso dificultoso ao canal de comunicação ou ainda por descrença na repercussão de sua denúncia.
Os números revelam que de janeiro a dezembro de 2011, foram registradas 6809 denúncias de violações de direitos humanos nos canais disponíveis, envolvendo 1713 vítimas (média de quatro violações por pessoa) e 2275 suspeitos, o que nos leva a crer que o agressor não age geralmente sozinho e que sua conduta principal vem acompanhada de outras igualmente humilhantes. Somente o Disque 100 apurou, em 2011, 4614 denúncias relacionadas à homofobia, isto é, uma média de cerca de 20 denúncias com quatro vítimas por dia. De janeiro a novembro de 2012, a referida Secretaria apresentou o dado de que foram feitas 2830 denúncias envolvendo discriminação contra LGBT no Disque 100 (equivalente a oito denúncias por dia em média). A baixa pode ser avaliada tanto como a redução real dos casos de homofobia por consequência do sucesso de políticas públicas (hipótese menos provável, a nosso ver), quanto à constatação de uma redução da divulgação do canal de denúncia nos meios de comunicação e a consequente baixa nos atendimentos (justificativa mais aceitável).
Em números absolutos, os estados com maior número foram São Paulo (1110), Minas Gerais (563), Rio de Janeiro (518), Ceará (476) e Bahia (468). Considerando o número de denúncias a cada 100 mil habitantes, a classificação muda. O estado com maior taxa é o Piauí, com 9,23 violações denunciadas ao poder público, acompanhado de Distrito Federal (8,7) e Ceará (5,6), com médias bem superiores à média nacional (3,46). Os locais mais comuns são a rua e o ambiente doméstico (42%), sendo em 21% deles a casa da própria vítima. Vulnera mais homens, jovens de 15 a 29 anos, negros e pardos. A explicação talvez
seja o fato de que eles não limitem suas sociabilidades aos guetos LGBT (boates e bares especializados), frequentando os espaços comuns e se expondo com mais facilidade. Também é preocupante o número de travestis e transexuais que sofrem homofobia.
Com relação ao tipo, 42,5% das denúncias são de violência psicológica, 22,5% de discriminação e 15, 9% de violência física. Em relação ao denunciante, 41,9% das ocorrências é a própria vítima, 26,3% é de desconhecidos e 12% de familiares e amigos. O agressor é, em 61,9% dos casos, próximo da vítima, sendo 38,2% familiares da vítima inclusive.
Os dados denunciam que a sociedade brasileira ainda é bastante sexista, machista e misógina. O relatório propõe entre outras medidas: disponibilização de um campo no atestado de óbito para a identificação da orientação sexual ou identidade de gênero, empoderamento de jovens LGBT e mulheres para denúncias de homofobia doméstica, publicização anual dos dados sobre tais crimes e a criminalização da homofobia, nosso próximo objeto de estudo.
4 “DESCENDO DO SALTO”: O PROJETO DE LEI Nº 122/2006
“E a gente vai à luta E conhece a dor
Consideramos justa toda forma de amor” (Lulu Santos)
Homofobia carrega em si um quê de identidade predatória, no conceito de Baduray, em que se faz uma identidade com a destruição da identidade do outro. Por ser extremamente danosa à convivência social, urge que ela seja combatida.
Tramita no Congresso Nacional um projeto de lei que visa à equiparação da homofobia ao crime de racismo. Além disso, faz algumas alterações na legislação penal para que a política criminal seja mais eficaz.
Contrariamente ao que muitos opositores da reivindicação têm alardeado, no atual projeto, a homofobia não vai ser um novo tipo penal, com esse nomen iuris ao pé da letra. Apenas se fará a inclusão de “orientação sexual” e “identidade de gênero” na lei que já criminaliza o racismo e nas condutas que já estavam previstas na legislação extravagante. É um reconhecimento do objetivo fundamental do Estado de combater as mais variadas discriminações em prol de uma “sociedade fraterna”, no dizer do ministro do STF Carlos Ayres Brito. Parece ser esse o espírito do Projeto de Lei nº 122/2006.
A inclusão do termo “orientação sexual” e “identidade de gênero” no artigo da Constituição Federal referente às discriminações cujo combate seria o objetivo fundamental da República foi pleiteada pelo movimento homossexual, mas não se conseguiu. (CAMARA, 2002). A própria palavra “sexual” só aparece na Constituição quando aborda a “exploração sexual” (art. 227, §4), repetindo uma tendência constatada internacionalmente.
Importante registrar desde logo a diferença entre preconceito e discriminação. Preconceito diz respeito a uma concepção de juízo equivocada, errônea acerca de determinada situação. Encontra-se resguardado na blindagem ideológica dos seres e é decorrente da nossa liberdade de pensamento. Não há como se policiar nessa seara tão erma da mente humana. Discriminação, a seu turno, é a exteriorização desse preconceito. Não é apenas a ideia, mas a materialização dessa concepção no mundo externo através de um discurso, uma atitude ou outra forma possível. Pelo irreprochável inconveniente à vida em sociedade, ela deve ser arrostada, deslegitimada pelo Estado. Sendo assim, o que tal lei de criminalização intenciona é o enfrentamento à discriminação, buscando minimizá-la e a longo prazo erradicá-la. Não
visa à abolição do preconceito em si por se reconhecer que só o bisturi da norma não é capaz de costurar um novo horizonte de sociedade.
Dessa forma, o Direito de Antidiscriminação abrange o conceito jurídico de discriminação (a exata aferição do juízo que deve ser desestimulado), a discriminação direta ou intencional (a manifestação direcionada para evidenciar o discrimen), a discriminação indireta ou não intencional (a modalidade que não tem como objetivo promover essa diferenciação) e as ações afirmativas (discriminações em escala mais avançada, que têm sobrelevada importância para correção de injustiças sociais), conforme a lição de Roger Raupp Rios.