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GENİŞLETİN: YEREL POLİTİKALARI UYGULAMAYA GEÇİRMEK

Ao serem indagados se já haviam ouvido falar do PL122, todos confirmaram que sim. Até aí nenhuma surpresa. Isso mostra o quanto o tema está em evidência na mídia e no cotidiano dessas instituições. Foram apontados como locais em que ouviu falar a os meios de comunicação em geral dando enfoque para a televisão e a internet, além de movimentos sociais.

Quando perguntados se já haviam lido o texto do projeto de lei, pelo menos três informaram que ainda não haviam ou que só tinham conhecimento de partes do texto. A estudante Sthefanny Pazziny menciona que salvou o projeto para lê-lo depois. No entanto, todos souberam responder em linhas gerais do que se tratava o projeto de lei. Alguns foram mais detalhistas ao explicitar que o que se busca é a equiparação com o crime de racismo.

Interrogados sobre a importância de tal projeto, todos são unânimes em concordar com a sua aprovação. O fator mencionado pela maioria foi o aumento dos casos de violência recentemente. O religioso David Kato até mencionou que já existe a Lei Maria da Penha para combater a violência contra a mulher. No entanto, ninguém acredita que essa lei será

50 A travesti Camilee Gerin, de Campinas, do grupo Identidade: Grupo de Luta pela Diversidade Sexual foi morta a facadas e pauladas no ano de 2010.

51 Travesti conhecida na noite por fazer números artísticos, foi assassinada em casa com uma facada no peito desferida por um conhecido. O motivo teria sido ciúme.

suficiente para acabar com a homofobia. Muitos pontuaram a importância de ter um marco legal para impedir que os homofóbicos propaguem seu discurso de ódio ou ajam criminosamente. O militante Lucas Fortuna declarou:

Não, assim como não estão resolvidas as questões do racismo com a Constituição de 1988, ou do machismo com a Lei Maria da Penha. Os preconceitos estão ligados diretamente a fatores de ordem educacional (compreenda educação como todos os espaços de formação família, TV, jornal, revista, escola, sociedade). Enquanto não se mudar a forma como os valores são transmitidos e ensinados ainda haverá homofobia, no entanto passa-se ter uma forma de punir o/a homofóbico/a, pelo menos os que tornarem público seu preconceito.

Com um discurso mais fatalista ainda, a estudante Sthefanny Pazziny disse: “Não acho que resolva, porque o ser humano é assim. Existem leis e sempre existirão aqueles que as burla, mas pode ajudar a colocar na cadeia os criminosos”. Repare no discurso a retórica do cárcere, mostrando que, para alguns, medidas enérgicas devem ser tomadas.

Quando questionados se a lei violaria liberdade de expressão, ninguém concordou, uma vez que o que a lei proíbe é o desrespeito. Alguns colocaram que a Constituição Federal assegura a liberdade de expressão, portanto ela não corre risco desde que não configure crime. A mesma unanimidade se verifica quando se pergunta se a lei violaria a liberdade de crença e de culto. Ninguém acredita nessa suposta agressão. O jornalista Harvey Milk foi categórico numa postura mais positivista: “Não, da mesma forma a liberdade de crença e de culto é garantida pela CF/88”. Já o religioso David Kate preferiu ser mais analítico, trazendo à baila o conceito de laicidade estatal e fazendo a distinção entre o que se pensa e o que se exprime.

O indivíduo pode crer que um homossexual não é digno de compartilhar a sua fé pelo simples fato de ser quem é. No entanto, este mesmo indivíduo não tem o direito de oprimir o (a) homossexual e denegrir sua integridade em nome de sua fé. A lei trata do direito à dignidade humana que o estado tem por obrigação de dar a todos (as) cidadãos e cidadãs. E, uma vez, sendo um estado laico, o Brasil não deve se ater a preceitos religiosos para conceder direitos ao conjunto diverso de sua sociedade.

Com relação a uma suposta ameaça à laicidade estatal em função da existência de uma bancada no Congresso Nacional, quase todos concordaram. Apenas uma entrevistada ficou com dúvida. A profissional do Direito Janaina Dutra afirmou: “Sim. A bancada religiosa não só ameaça a laicidade, como a manutenção do estado democrático de direito e a garantia de direitos humanos tão elementares, como o direito à livre orientação sexual”. O jornalista Harvey Milk ainda soltou um gracejo: “As igrejas deveriam é, antes de qualquer coisa, pagar impostos ao Estado, já que são isentas”.

O outro militante, Lucas Fortuna, preferiu fazer uma análise que levasse em conta também o ponto de vista do eleitor que votou em tal parlamentar para que chegasse àquela função e o decorrente pacto político eleito-eleitor.

Essa pergunta é complexa. Logicamente eu vejo que há um comprometimento da laicidade, uma vez que se legisla a partir de preceitos religiosos, por outro lado é um comprometimento programático desses candidatos com os que o elegeram, desta forma, eles cumprem o papel para o qual se propuseram durante a campanha. É complicado o cargo público, mas apesar de tudo quem está no mandato deve ter consciência que as leis elaboradas devem ser boas sociedade como um todo, não apenas para uma parcela. Assim, eu acho complicado uma bancada que reivindica uma religião, pois não se governa para uma igreja, mas para um país todo.

Quando o assunto é a existência da homossexualidade desde que o mundo é mundo, todos concordaram e deram demonstrações, alguns fazendo referências históricas à Grécia Antiga, à natureza em si, etc.

Quanto à homofobia, a maioria pareceu concordar que ela nem sempre existiu. Apenas uma pessoa acredita que a homofobia possa ser natural em alguns indivíduos, logo sempre existiu. Não foi essa a opinião do religioso David Kate: “(...) acredito que só podemos falar de homofobia, tal como a concebemos hoje, a partir do cunho do termo homossexual, denominação que não existia antes do século XIX. Acredito que uma percepção puxou a outra”. No mesmo sentido, o militante Lucas Fortuna discursou: “(...) enquanto não havia uma referência do “certo” a homofobia também não existia”.

Na hora mais aguardada do questionário, os entrevistados foram perguntados se já haviam presenciado algum caso de homofobia. Eis alguns depoimentos:

No ano passado, no dia 17 de maio, presenciei uma manifestação de preconceito no Departamento de Ciências Sociais, onde estudo. Um aluno do curso havia colocado pelo departamento alguns cartazes contra a homofobia e a favor da diversidade, e alguém escreveu algumas coisas muito ofensivas.

(Sthefanny Pazziny)

Sim, durante um desfile de carnaval, um grupo de rapazes agrediu uma travesti (transfobia). A travesti agredida não denunciou.

(Harvey Milk)

Quando interrogados se já haviam sido vítimas de homofobia, relatos bem íntimos encontraram lugar para serem contados. Eis alguns deles:

Sim, na minha infância e em parte de minha adolescência fui alvo de chacotas e ofensas pelos colegas de escola, enfim, memórias incômodas que ainda vem sendo trabalhadas por mim desde então e nunca cogitei fazer nenhum tipo de denúncia.

Sim. Por parte de um segurança do Dragão do Mar que quis expulsar eu e minha namorada de lá por estarmos namorando. Não houve denuncia formal, mas somente para o chefe de segurança do local, que nos pediu desculpas e brigou com o segurança”.

(Camilee Gerin)

“Sim. Recentemente atiraram pedras de gele em um amigo e em mim por conta de estarmos acompanhados de outros caras. Um carro se aproximou gritando palavras homofóbicas e tacando as pedras. Foi algo tenso, não achei que algo assim pudesse acontecer comigo. Não denunciamos. (...) também já houve outro casos, como de receber ameaças de morte pelo facebook onde a pessoa afirmava saber onde eu morava e dizendo que era pra eu me cuidar porque era um viadinho de merda querendo fazer muita coisa”.

(Lucas Fortuna)

“Já, com riscos no muro de minha casa. Não denunciei porque conversei com a vizinha, mãe do possível agressor, e avisei que qualquer outro ato eu iria à delegacia. As agressões cessaram”.

(Harvey Milk)

Pode-se concluir, com base nesses depoimentos, que a homofobia é quase um elemento indissociável da vida dos LGBT, que os acompanha desde cedo e mesmo na idade madura pode ocorrer em qualquer local. O nível de escolaridade não imuniza o LGBT de sofrer essa agressão. Quase todos têm uma história de intolerância para contar. Se não ocorreu na própria carne, viu acontecer com outra pessoa. Só ilustram o quão esse problema está arraigado na cultura brasileira e reforçam a importância de se aprovar uma lei que torne delito tal prática.