MİSYONERLİK FAALİYETLERİ
2.4. ANTEP AMERİKAN KOLEJİ (MERKEZÎ TÜRKİYE KOLEJİ–CENTRAL TURKEY COLLEGE) KOLEJİ–CENTRAL TURKEY COLLEGE)
2.4.2. Kolejin Ermeni Olaylarıyla İlişkisi
Como foi possível perceber, conforme o subitem anterior, o fenômeno do encarceramento em massa tem se apresentado cada vez mais nas sociedades contemporâneas por conta do processo de globalização e mundialização das políticas neoliberais, refletindo características peculiares, conforme cada país. Assim, ao debruçar-se diante do caso brasileiro, é possível delinear um recorte singular, baseado em seus aspectos histórico- culturais.
O Brasil é um país com forte histórico de desigualdades sociais e trajetória conservadora, o que denota a existência de segmentos da sociedade, composto por trabalhadores (ativos ou desempregados) de modo geral, mulheres, jovens, negros etc., em situação de vulnerabilidade social (IAMAMOTO, 2013). Neste contexto, o trato das disparidades sociais no país tem vivenciado um processo de minimização de esforços do Estado no que diz respeito à esfera social, em prol de investimentos para a economia, resultando no sucateamento da coisa pública e supervalorização da iniciativa privada, conforme aponta Bravo (2011).
Em outras palavras, protagonizando uma forte tendência de focalização de políticas públicas, seletividade, terceirização e privatização de acesso a direitos, reforço à lógica
filantrópica ou, simplesmente, aniquilação da camada pobre, o Brasil segue os passos do reforço à intervenção penal, protagonizado pelos norte-americanos e europeus, e tal constatação pode ser feita através do retrato caricaturado de suas prisões.
Na pesquisa realizada pelo Sistema de Informações Penitenciárias – Infopen identificou-se que, em Junho de 2014, o Brasil chegou à marca de quarto país com a maior população prisional, ficando atrás dos Estados Unidos, China e Rússia, respectivamente, nesta ordem. Nesse sentido, o montante geral de pessoas em privação de liberdade contabilizou 607.731 indivíduos distribuídos entre prisões estaduais, federais e delegacias, sendo importante destacar que tal dado aponta cerca de 300 presos8 por cada 100 mil habitantes (BRASIL, 2015).
Não obstante, Lucia Re (2006), partindo de uma pesquisa a qual retrata os casos dos Estados Unidos e Europa aponta para a consolidação de um processo globalizado de superencarceramento, sobretudo nas últimas décadas do Século XX e início dos anos 2000. Tal prenúncio, dada a situação de crescimento nas taxas de encarceramento, continua sendo uma realidade gritante e desenfreada no Brasil, assim como em outros países.
No que concerne às características específicas do caso brasileiro, Salla (2006, p. 289) sintetiza com exatidão:
A criminalização da miséria, a repressão às ilegalidades e estratégias de sobrevivência das camadas pobres e o combate ao tráfico de drogas compõem os principais ingredientes que explicam a explosão nas taxas de encarceramento em praticamente todos os países do mundo ocidental. O Brasil parece representar um bom exemplo desta linha de análise.
Nesse sentido, a implementação de uma política criminal a qual tem levantado a bandeira da “guerra às drogas” no país, quando na verdade operacionaliza um combate estigmatizante contra seus usuários, tem contribuído bastante para a massificação e mudança do perfil da população prisional (VIEIRA, 2010). Basta utilizar enquanto confirmação disto, as estatísticas crescentes de mulheres inseridas no sistema penitenciário que, em sua maioria, é acusada por tráfico de entorpecentes.
Segundo o Infopen (BRASIL, 2015), das 37.380 mulheres presas no Brasil, até Junho de 2014, 68% delas configuravam a tipificação penal por tráfico de drogas, mesmo sem vinculações com as maiores organizações criminosas. A partir disso, também foi possível demonstrar que muitas delas ocupam uma situação coadjuvante na atividade do comércio
8No que concerne à movimentação no Sistema, o Infopen também revelou que para cada 75 egressos, 100 pessoas foram presas, isto é, 155.821 indivíduos entraram e apenas 118.282 saíram.
ilícito (transportadoras, usuárias, inseridas em pequenos comércios) e, em menor escala, a posição de liderança.
Vieira (2010) sinaliza que o modelo penitenciário brasileiro apresenta a peculiaridade de, desde sua gênese, não ter sido instalado com intuito de “moldar” cidadãos civis. Ao contrário, tem servido para reforçar a lógica de controle das estruturas sociais instaurado pelas vias do cárcere, resultando, sobretudo, na criminalização do segmento negro9, o que aponta um caráter destoante das teorias da Escola Clássica, no que concerne à aposta nas práticas de reabilitação.
Outro aspecto que merece ser destacado versa sobre o fato de as prisões brasileiras não se encaixarem na proposta de instituição total e disciplinar defendida pelos revisionistas. No tocante a este detalhe, Oliveira (2011) argumenta que, especialmente no Brasil, o modelo de disciplina e adestramento refutado aos moldes da crítica foucaultiana nunca chegou a ser consolidado.
Sustenta-se a hipótese, conforme o nominado autor, de que o país é uma sociedade indisciplinar a qual carrega consigo altos índices de violência que tampouco passaram pelo processo de normalização das sociedades europeias, em especial, a França e Inglaterra retratadas por Foucault. Indo além, destaca-se que tal sistemática não chegou a ser alcançada por sociedade alguma, embora outras tantas ainda chegaram a ser estruturadas minimamente por esta lógica. Mas defende que no Brasil, ao contrário,
[...] Não tivemos aqui uma sociedade disciplinar – ou “civilizada”, no termo de
Elias, ou “apaziguada”, como quer Chesnais –, mas uma sociedade violenta, uma
sociedade onde nunca houve a universalização da escola, onde os aparelhos da justiça penal sempre foram brutais e muito pouco eficazes, para dizer o mínimo, e onde, finalmente, uma imensa força de trabalho, miserável e informal, não possibilitou – e possibilita cada vez menos, em um planeta dominado pela revolução tecnológica e pela globalização – a constituição de um mundo do trabalho hegemonicamente enquadrado pelo dispositivo da fábrica (OLIVEIRA, 2011, p. 334).
Assim sendo, dada a relação existente entre estrutura social e prisões e, sinalizando o caráter de uma sociedade brasileira indisciplinar, os cárceres do país apresentam, por histórico característico, uma noção contrária à proposta ensejada pelos revisionistas, ainda indicando um funcionamento absolutista violento, pobre e superlotado, conforme argumenta Vieira (2010).
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Cumpre destacar, diante do delineamento do perfil de indivíduos reclusos apresentado pelo Infopen (2015), duas em cada três pessoas que estão nas prisões brasileiras são negras, isto é, cerca de 67%.
Como demonstração de tal prerrogativa, pode-se inferir que, nacionalmente, o Sistema Penitenciário dispõe de apenas 376.669 vagas distribuídas entre 1.070 estabelecimentos prisionais destinados ao público masculino, 238 de caráter misto e 103 unidades femininas, o que denota um déficit total de 231.062 vagas. Assim, sendo a taxa de ocupação um indicador de vagas consubstanciado a partir do cálculo entre o número de pessoas reclusas e a quantidade de vagas existentes nos estabelecimentos para custodiá-las, foi possível identificar que existem dezesseis pessoas num espaço destinado para dez, contabilizando a estatística ocupacional de 161% (BRASIL, 2015).
Neste contexto, o relatório produzido pela organização internacional Human Rights Watch (2015) confirma que a tortura no Brasil configura um problema crônico num cenário o qual aponta que só no intervalo de 2012 a 2014 a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos recebeu o montante de 5.431 denúncias de tortura e maus tratos, sendo 84% desse total advindos de instituições de execução penal, a exemplo de presídios, delegacias e unidades de medida sócio-educativas.
A constatação apresentada por Rusche e Kirshheimer (2004), através do princípio do less eligibility, pode ser utilizada para entender as razões que constituem uma aclamação quase que consensual das péssimas condições no interior do cárcere. Como já tangenciado no primeiro capítulo, a noção de que a pena deva ser empreendida a partir da oferta de condições de vida inferiores ao nível de vida social mínimo fora dela representa a dualidade de acesso a direitos entre “cidadão honesto” versus “sujeito malvado” e, por conseguinte, o aposta em gerir um sistema penal desumano, degradante e vingativo.
Este universo de submissão a tratamento desumano e condições precárias, tais como o déficit no atendimento à saúde, assistência social e jurídica, motiva, em parte, a formação recorrente de motins no interior das unidades prisionais do país. Fala-se “em parte” porque, conforme explicita Salla (2006), os movimentos de rebeldia tanto podem ser desencadeados a partir do inconformismo de situações adversas que vão da má alimentação a maus tratos; como também podem derivar de ações políticas encabeçadas por grupos do crime organizado em busca de afirmação de poder para comandar ações criminosas dentro e fora do espaço carcerário.
Assim, de modo geral,
As privações materiais e de toda ordem continuam a ser impostas aos presos no Brasil. Elas constituem um poderoso ingrediente na emergência dos movimentos de revolta dos encarcerados. Porém a maior parte das prisões brasileiras vem funcionando com um mínimo de controle por parte do Estado. Isto significa que muitas atividades quotidianas dentro das prisões são organizadas e dirigidas pelos
próprios presos. [...] Essas lideranças, em muitas prisões, controlam o tráfico interno de drogas, comandam ações criminosas de dentro dos presídios e, para tanto, buscam exercer este poder, sem contestação dos demais grupos e dos presos que são muitas vezes extorquidos e forçados a assumir crimes que não praticaram. No curso das disputas pelo controle dessas atividades, as rebeliões e as mortes impostas aos desafetos são estratégias para a obtenção da adesão da massa carcerária ou, pelo menos, para a sua conivência com a liderança exercida por determinado grupo (SALLA, 2006, p. 301-302).
Um exemplo concreto do acontecimento contínuo de rebeliões no interior das prisões brasileiras pode ser descrito a partir do ocorrido no Complexo Penitenciário de Pedrinhas no Maranhão entre o intervalo de 2013 a 2014. O relatório da Anistia Internacional (2015) apontou que, neste período, 78 presos foram assassinados na referida instituição durante a formação de sucessivos motins, os quais ainda estão passíveis a investigações. Estima-se que tais acontecimentos derivem não só da submissão a condições materiais degradantes, mas, principalmente, do descontrole por parte do Estado em conter o jogo de poder das facções criminosas no interior da unidade.
O desrespeito à integridade física e moral, as violações de direitos, sobretudo os Direitos Humanos, e a prática de brutalidades e crime letais configuram o enredo da segurança pública no país, operado desde a execução do trabalho das polícias10 nas ruas, passando pelas detenções provisórias até chegar à ponta da execução penal, conforme descrevem Soares e Guindani (2007).
Cabe mais uma vez reforçar que, no plano prático, não se trata, sobremaneira, da utilização de uma política criminal voltada a um combate efetivo à criminalidade, tendo em vista que esta guerra elegeu uma direção específica para se utilizar as algemas e, quando não, apertar o gatilho: bairros periféricos, estereótipos subalternos, juventude11 com cor de pele escura e gêneros diversos (homens, mulheres e população LGBT, desde que econômica e socialmente desfavorecidos, em grande parte).
Em outras palavras,
No contexto brasileiro, a cultura do medo, guardando a autonomiarelativa que a distingue, não implica a magnitude dos problemas, apenas desloca a hierarquia de prioridades e reinterpreta – segundo interesses ideológicos e políticos específicos – nada universalistas – linhas de conexão causal. O país, efetivamente, atingiu níveis extraordinariamente elevados de violência. Neste contexto as instituições da Justiça
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Conforme dados oficiais reunidos pelo Relatório da Anistia Internacional (2015), no ano de 2013 a polícia assassinou 424 pessoas no Rio de Janeiro/RJ, sendo que só no primeiro semestre de 2014 as estatísticas apresentaram um aumento em 37% de mortes comparadas ao ano anterior. Tal dado sinaliza, em grande parte, as arbitrariedades impetradas pelas polícias em operações oficiais ou clandestinamente.
11De acordo com o Infopen (BRASIL, 2015), a população de jovens na faixa etária de 18 a 29 anos, inseridos no interior das prisões brasileiras, compreende 21,5% da população de jovens total no país.
criminal e da segurança pública, em seu conjunto, têm desempenhado papéis contraditórios, frequentemente negativos, concorrendo, assim, para o aprofundamento da crise (SOARES; GUINDANI, 2007, s/i).
Nítida é a constatação de um sistema penal o qual funciona sob as vias da falência e ineficácia, no que se refere à materialização de seus princípios propostos. Conforme aponta Bittencourt (2001), faz-se necessário não apenas questionar a viabilidade da prisão do ponto de vista ideal ou abstrato, mas, principalmente, observar o transcorrer do cumprimento da pena institucional. Desse modo, sua crítica central se sustenta na afirmação de que a prisão está em crise, considerando a forma, as circunstâncias, as condições, e sua inserção na sociedade a qual tem sido executada a pena.
Como via de alternativa, Baratta (1987) elucida que o sistema penal, ainda estando legitimado na sociedade vigente funciona reproduzindo a violência punitiva de modo escancarado. E, mesmo o referido autor compreendendo e defendendo a possibilidade de se construir uma sociedade sem cárceres, ao longo prazo, é sinalizada a estratégia de se fortalecer os princípios do direito penal mínimo como proposta de uma política criminal combatente do cenário atual.
Com base nisso, a noção de direito penal mínimo é articulada aos fundamentos dos Direitos Humanos, à medida que apresenta a proposta de inserir a médio e curto prazos a implementação de uma política criminal programática a qual promova o acesso a condições de dignidade humana como ponto de resistência ao cenário das instituições penais no país.
Cumpre esclarecer que os Direitos Humanos possuem um papel de suma importância no contexto do cárcere à medida que sinaliza a necessidade do reconhecimento de direitos a pessoas privadas da liberdade sob a custódia do Estado Democrático de Direito. É importante compreender, segundo Sanches (2002), que o sistema penal pode violá-los de diversas formas que vão desde a propagação da violência individual à violência dos grupos organizados. E, neste contexto, a prisão, por si mesma, já representa outro tipo de violência que se configura institucional, tendo em vista que:
[...] A pena revela-se como uma violência institucional, no sentido de que reprime as necessidades básicas do ser humano. Através dos fins úteis que as teorias utilitárias da pena declaram que ela cumpre, pretendem as mesmas justificar tal repressão. Com os estudos da Criminologia crítica sobre o fracasso da prisão quanto aos seus declarados fins úteis, a pena revela-se, porém como violência inútil aos fins de prevenção geral e especial. Por outro lado, a violação dos direitos humanos apresenta-se mais evidente se considerarmos que a maior parte dos casos de prisão ocorre com indivíduos que ainda nem receberam sentença condenatória (SANCHES, 2002 p.19).
Diante do exposto, os Direitos Humanos se constituem numa forma simplificada de clamar por direitos fundamentais, o que implica dizer que ao situar o indivíduo enquanto “sujeito de direitos” e buscar reafirmar esses direitos em defesa do que se conceitua Direitos Humanos, nada mais é que garantir condições mínimas para se viver uma vida digna e plena. Dessa forma, tais condições, em sua totalidade, correspondem a necessidades imprescindíveis à pessoa humana, segundo ressalta Dallari (1998).
A própria ideia de direitos fundamentais, os quais, segundo Bellinho (s/i), visam assegurar e proteger os direitos de cada ser humano para que se possa ter acesso a uma vida digna, afirmam-se não apenas na razão de existir da pessoa humana, mas também estão assegurados no plano constitucional e derivam dos princípios previstos na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
No que tange ao reconhecimento de direitos das pessoas reclusas, um documento de suma importância difundido internacionalmente é as Regras Mínimas de Tratamentos para Reclusos de 1955, que possui influência da Declaração Universal dos Direitos Humanos à medida que preconiza direitos básicos concernentes à dignidade humana. Já no que diz respeito às disposições legais previstas no Brasil, destacam-se a Constituição Federal de 1988, a Lei de Execuções Penais nº. 7.210 de 1984 e as Resoluções do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária - CNPCP.
Com base no exposto, ressalta-se que o debate em torno da defesa dos Direitos Humanos segue atual, considerando que:
No nosso país vivenciamos, cada vez mais, a dificuldade da implementação de políticas públicas, que são a forma de efetivação de direitos constantes nas leis. Observa-se um movimento recrudescido – em âmbito federal, estadual ou municipal
– de políticas que acentuam a estigmatização dos “socialmente vulneráveis”,
apoiadas no clamor público crescente, em busca de mais controle, mais repressão e mais segregação (CFESS, 2007, p. 8).
Por essa razão, mesmo os indivíduos estando em privação de liberdade, é importante compreender que estes, bem como qualquer outro, devem ser concebidos enquanto sujeitos de direitos e que a leitura sobre os Direitos Humanos no âmbito carcerário se estende ao fato de ser universal e acessível a todos, conforme aponta Dornelles (2006), rompendo com a equívoca ideia de considerá-los como “humanos direitos”, isto é, apenas para indivíduos moral e socialmente aceitos como de “bem”.
2.4 ENCARCERAMENTO FEMININO E AS CONTRIBUIÇÕES DA CRIMINOLOGIA