“Fenomenologia do Ethos” e
os Ambientes Construídos.
9.2. Physis e Ethos: Dois Conceitos Primeiros / A Physis Como a Primeira Unidade do Mundo / A
Arquitetura e o Ethos em “Virtude de Uma Necessidade Natural” / A Arquitetura e o Ethos como “o
Habitual e o Natural” / A Arquitetura e o Ethos Segundo o “Hábito Como Possessão Estável” / O Nómos
e a Transposição da Ordenação da Physis ao Logos / A Diferença Entre os Estatutos dos Ambientes
Construídos: “Instância Nomotética” Grega e a “Instância Hipotética” Moderna .
Conforme o exposto no primeiro capítulo dessa dissertação, physis e ethos formam o núcleo semântico central ao desenvolvimento da ciência da Ética. Naquele contexto, por physis deveria se entender
“natureza” e por ethos o “modo habitual de vida”. Contudo a amplitude desses dois conceitos entre os
gregos ultrapassa em muito essas primeiras formas de aproximação e os seus significados são tanto mais amplos quanto férteis.
Conforme o já exposto anteriormente o termo physis entre os gregos não coincide exatamente com a moderna idéia de natureza. SOUZA (1989) adverte sobre essas diferenças:
“... Pois é muito provável que o que os gregos entendiam por „physis‟ absolutamente não coincide
com o que nós, com nossa ciência e nossa tradição, entendemos por „natureza‟. E mesmo, sem
exagerar, o nosso „sobre‟ que inadvertidamente colocamos a „natureza‟, conforme um velho hábito que em si abriga a possibilidade da dissertação erudita, talvez não corresponda também ao „peri‟ dos
gregos, que é concretamente um „em torno de‟, e portanto designa, com relação ao escrito, e ao que está escrito, uma aproximação em círculo. Uma pequena diferença, que implica uma outra maior, a que abrange o nosso comportamento e o dos gregos com a linguagem, com a fala.” 547
É a partir dessa diferença básica, colocada inicialmente na forma de representação da linguagem que se
apresentam as primeiras diferenças entre o que o “mundo grego” entendia por physis e o que
modernamente se entende por natureza. Talvez essa forma distinta de apropriar-se do mundo se devesse aos conteúdos míticos indissociavelmente justapostos às coisas da natureza grega. Para ela convergiam a um tempo não só uma miríade de divindades como também o sentido de ordenação cósmica. Nessa perspectiva do divino do “mundo grego”, a physis não pode ser compreendida por uma natureza externa àquele homem, submetida a modelos matematizados e distantes do sujeito conforme hoje se vê. Muito mais do que isso a physis encerrava uma potência animada para além do entendimento moderno. VERNANT (1993) ao comentar as diferenças entre o conceito de natureza contemporâneo e o de physis grego indica que:
“A physis, termo que nós traduzimos por „natureza‟, quando, seguindo Platão, dizemos que os
filósofos da escola de Mileto foram os primeiros a elaborar, no século VI a.C., uma historia perì
physeos, um estudo sobre a natureza - não tem muito em comum com o que constitui o objeto das
nossas ciências naturais ou da física. Quer faça crescer plantas, caminhar os homens ou mover os astros nas suas órbitas celestes, a physis é um poder animado e vivo. Para o „físico‟ Tales, até as coisas inanimadas como as pedras fazem parte da psyché, [548] que é simultaneamente sopro e alma,
enquanto, para nós, o primeiro destes termos tem uma conotação „física‟ e o segundo „espiritual‟. Animada, inspirada, viva, a natureza está, pelo seu dinamismo, próxima do divino e, pela sua animação, próxima daquilo que nós próprios, enquanto homens, somos. Retomando a expressão utilizada por Aristóteles quando se refere ao fenômeno dos sonhos que enchem os nossos sonos, a natureza é propriamente daimonia, „demoníaca‟ e, dado que, no mais profundo de cada homem, a
547 Coleção Os Pensadores - Pré-Socráticos - Volume I, São Paulo, Nova Cultural, 1989, pg. 01.
548“Psyché: respiração da vida, fantasma, princípio vital, alma, anima.” Termos Filosóficos Gregos - Um Léxico Histórico, op.
Capítulo 9: Elementos da “Fenomenologia do Ethos” e a Arquitetura Templária Grega: Ética e Arquitetura. 188
alma é um daimom, um demônio, entre o divino, o físico e o humano existe mais do que uma continuidade, existe um parentesco, uma conaturalidade.” 549
Assim, é essa “conaturalidade” que atesta que cada elemento do mundo físico está sempre posto entre o
humano, o divino e o físico. Cada ser ou coisa natural está necessariamente implicada, por sua simples existência, de partes do divino ou preenchida de uma animação inapreensível aos modernos. É a partir dessa idéia indistinta entre o sagrado e o profano, entre o divino e o natural que os gregos concebem a
physis, uma physis repleta de deidades manifestas numa ordem de coisas ao mesmo tempo superior e
inextinguível e que se faz presente em tudo o que é visível. É nesse “mundo grego” que a própria
percepção de mundo físico, ou physis, distingue-se da moderna noção de natureza.
Com o passar do tempo na perspectiva da sofisticação das idéias filosóficas, a idéia da existência de elementos divinos dispersos por tudo o que consiste em mundo será sintetizada na idéia de unidade cósmica transcrita na forma do termo kósmos, conforme explicita VERNANT (1993):
“O mundo é belo, como um deus. A partir de finais do século VI, o termo usado para designar o
universo no seu conjunto é kósmos. Nos textos mais antigos, esse termo é aplicado a tudo o que, devidamente ordenado e regulado, tem um valor de ordenamento que confere graça e beleza ao que é ordenado. Uniforme na sua diversidade, permanente ao longo do tempo, harmonioso na concatenação das partes que o compõem, o mundo é como uma jóia maravilhosa, uma obra de arte, um objeto precioso semelhante aos agàlmata que, pela sua perfeição, eram considerados dignos de
servir de oferenda aos deuses no interior do recinto do santuário.” 550
Assim ao termo physis sucede um outro implicado de uma magistral beleza sempre relacionada à idéia de ordenação desse mundo físico: a idéia sintética de ordenação pela harmonia, ou kósmos. Esse todo harmônico original distende-se na própria idéia de tempo indicando que essa beleza harmoniosa é perpetuada segundo essa forma apreensiva original. Além do mais essa nova idéia de physis apreendida no conceito de kósmos, aprecia a beleza da natureza que se define pela unidade na diversidade.
Contudo, a aparição desse sofisticado conceito, a idéia de kósmos, certamente não consistiu em tarefa fácil. Conforme PETERS (1983), a construção da idéia de physis atravessa séculos e para o termo convergem várias formas de situar-se no mundo e relacionar-se com ele:
“Embora a palavra em si não seja fortemente confirmada até ao tempo de Heráclito, é evidente que a
investigação que usa a abordagem metodológica conhecida como logos e mais tarde conhecida por Pitágoras como philosophia teve, como assunto principal geral, a physis. Foi assim que a compreenderam tanto Platão como Aristóteles o qual chamava aos primeiros filósofos physikoi, isto é, os interessados na physis. Conglobava estas coisas diferentes mas relacionadas: 1) o processo de crescimento ou genesis; 2) a substância física da qual eram feitas as coisas, a arché [551]; 3) uma espécie de princípio interno organizador, a estrutura das coisas.” 552
PETERS (1983) prossegue a sua exposição atribuindo ao termo physis os seguintes significados no decurso de sua evolução:
“... no contexto do teísmo dos pré-socráticos: esta „substância‟ era viva, daí divina, e logo imortal e
indestrutível. ... Com Aristóteles há uma reabilitação geral da physis que toma muitas funções da
psyche platônica: é definida como o „princípio [arché] e a causa [aitia] do movimento e do repouso para as coisas em que está imediatamente presente‟ ... O monismo estóico levou à identificação de
Deus-natureza-fogo. No seu papel imanente e ativo a physis é o logos e, ao nível do existente
549
O Homem Grego, op. cit., pg. 14.
550
O Homem Grego, op. cit., pgs. 14 e 15.
551“Arché. Filos. Segundo Aristóteles, princípio ou fonte ou causa; arché.” Dicionário Aurélio Eletrônico, arquivo citado
anteriormente.
552
Capítulo 9: Elementos da “Fenomenologia do Ethos” e a Arquitetura Templária Grega: Ética e Arquitetura. 189
individual, os lógoi spermatikoí [553]. É um princípio moral pelo fato de que a finalidade do homem
era viver „harmoniosamente com a natureza‟. ... A doutrina plotiniana da natureza está ligada à sua
idéia de alma; tanto a alma do universo como as almas individuais imanentes aos homens têm dois aspectos diferentes: um lado superior e contemplativo, a alma em si e um lado inferior, a physis, que está eternamente afastada do nous [554] e cujo enfraquecimento resultante do seu poder contemplativo
a faz decair da theoria para a atividade (praxis); ...” 555
Assim as várias acepções do termo physis entre os gregos, que além de indicar várias formas de sua representação ideal, encontram-se intimamente associadas à idéia de um princípio de ordenação primordial, um princípio que a tudo envolve, e no qual tudo se situa. De suas várias tonalidades e articulações com outros conceitos depreende-se ainda o sentido de reciprocidade e organicidade. A
physis, ao desdobrar-se como arché (princípio), logos (razão), e posteriormente, em lógoi spermatikoí
(razões seminais) permanece como uma ordenação subjacente a todos os seus significados. Distende-se espetacularmente sobre tudo o que envolve o mundo grego e inunda de um novo sentido a vida nas cidades.
A mesma perspectiva de homologias entre o mundo físico, forma estética e a ordem divina encontram-se alinhadas nas considerações de VAZ (1992). Segundo o autor :
“Na filosofia antiga, a noção de kósmos ou mundus era empregada num sentido explicitamente
ontológico, ou seja, para designar o Todo (tó pãn) enquanto ordenado e adornado. Era, pois, uma noção filosófica com uma dimensão estético-religiosa, sendo que essa última prevalece na concepção do mundo como grandeza teológica. ... Ao conceito de kósmos na tradição antiga permanece próximo o conceito de physis (natura) no sentido de que kósmos, ou como ordem eterna (filosofia grega) ou como criado por Deus (teologia cristã), exprime a ordem das coisas na sua inteligibilidade intrínseca, ou seja, na sua natureza (physis).” 556
Uma especial atenção deve ser dada à inequívoca simetria existente entre os termos physis e logos, ou razão, quando ambos podem se definir por princípio. Essa simetria indica, sobretudo, uma inclinação grega muito anterior à organização da razão, de uma instância de apreensão da realidade por certa unidade conceptiva na qual ambos os conceitos se situam. De algum modo a imanência da physis é apreendida na forma ordenadora do logos, o que conforme VAZ (1988) ocorre,
“... não segundo a sua necessidade transiente [da physis], mas segundo o finalismo imanente do logos ...” 557
Conforme se vê, reside nesse movimento de apropriação das regularidades da physis pelo logos uma
diferença que se explicita por esses dois termos: a “necessidade transiente da physis” e o “finalismo
imanente do logos”.
A idéia de “necessidade 558
transiente 559 da physis”, definida pela justaposição dos dois termos em negrito, expressa os vínculos causais observáveis nos eventos do mundo natural, ou as regularidades da
physis. Ou seja, no interior da própria idéia de natureza encontram-se os eventos correlacionáveis
segundo o efeito de causação ou a verificação de que a causas semelhantes sucedem eventos similares, indicando as possíveis regularidades do mundo físico apreendidas pela razão na amplitude do ethos. Trata-se, de certo modo, da imanência do mundo físico.
553 “Lógoi spermatikoí: razões seminais, rationes seminales.” Termos Filosóficos Gregos - Um Léxico Histórico, op. cit., pg. 11. 554“Nous: inteligência, intelecto, espírito.” Termos Filosóficos Gregos - Um Léxico Histórico, op. cit., pg. 160.
555
Termos Filosóficos Gregos - Um Léxico Histórico, op. cit., pgs. 190 e 191.
556
Antropologia Filosófica II, op. cit., pg. 16.
557
Escritos de Filosofia II - Ética e Cultura, op. cit., pgs. 11 e 12.
558“Necessidade: Desde Aristóteles, entendeu-se por necessário aquilo que não pode ser de outro modo e aquilo que, por
conseguinte, só existe de um modo. Pode-se entender-se esta noção de duas maneiras: a) como necessidade ideal, que expressa o encadeamento das idéias, e b) como necessidade real, que expressa o encadeamento de causas e efeitos.” Dicionário de Filosofia, op. cit., pg. 279.
Capítulo 9: Elementos da “Fenomenologia do Ethos” e a Arquitetura Templária Grega: Ética e Arquitetura. 190
É a existência dessa sucessão de eventos correlacionáveis segundo uma consecução pretensamente previsível que empresta à physis o seu sentido de ordenação imanente. Entretanto, mesmo que algumas regularidades ou constâncias sejam observadas na sucessão dos eventos do mundo físico, não significa que essas cadeias de sucessão sejam permanentes, ou de outro modo, que essas cadeias de causa e efeito sempre se relacionem de um único modo. É exatamente pelo fato das relações entre a causação e efeito não serem idênticas, que elas não se constituem como verdade, mas apenas como possibilidades de eventos correlacionáveis à suas causas, e nesse sentido sejam apenas transitórias, ou transientes. Sendo assim, as regularidades verificáveis na physis são plausíveis sem que, contudo, sejam constantes. São apenas, conforme se disse transientes.
Eis porque o logos não apreende a physis segundo a sua “necessidade transiente.” Fosse esse o caso o
ethos não se apresentaria como uma natureza de segunda ordem mas como a própria natureza.
É então segundo a intencionalidade humana ou o “finalismo 560
imanente do logos”, que o logos
apreende as regularidades da physis no contexto de uma Ética. Esse “finalismo imanente do logos”, também composto pelos dois termos em negrito, indica que apesar do ethos fixar-se em homologia ao
mundo físico e em conformidade com a “necessidade transiente da physis”, essa fixação não se faz
diretamente mas segundo o finalismo do logos que é a da cultura ou, justamente o humana. Eis como se insere a centralidade do humano, e eis como nesse movimento a physis é atualizada em virtude do finalismo do logos, ou suprassumida pelo finalismo do logos. É a partir desse finalismo, ou causa final do humano, que a natureza é apreendida pelo logos sendo incessantemente modificada. Eis então a razão pela qual o ethos se apresenta como uma natureza de segunda ordem superposta à existência da physis. Assim o ethos se instaura simultaneamente a partir da physis e ao mesmo tempo sobre a própria physis. Nesse sentido a idéia de ethos nega a physis.
Outra característica da physis reside em sua indemonstrabilidade. Segundo VAZ (1988):
“Sendo a physis um gnórimom ou um notum per se e, portanto, um princípio (arché) da
demonstração, querer provar a existência da physis seria uma apaideusía tôn analytikôn, uma
ignorância dos procedimentos analíticos.” 561
A physis apenas é, está lá, existe como é em sua forma indemonstrável e ordenadora. Como esse reduto primeiro da existência do ser, a sua aparição se faz pela imanência, pelas propriedades que lhes são inerentes, indissociavelmente postas lá. É ainda VAZ (1988) quem encontra em Aristóteles outros predicados da physis:
“A physis é dita tou aei (sempre) e o ethos é tou pollákis (muitas vezes).” 562
Emerge aqui a idéia de perenidade do mundo físico, ele é sempre, e a idéia de transformação do universo ético que é muitas vezes, ou seja, variado. Diferentemente da physis, o ethos não encontra a sua forma definida e nem mesmo constante. Ele é, mas o é muitas vezes.
Segundo ainda VAZ (1988), ambos os termos ou conceitos, physis e ethos, possuem existência anterior à sua experiência, são irredutíveis a outros conceitos e essencialmente indemonstráveis. São desde sempre. Conforme mais uma vez o autor:
“Para Aristóteles seria insensato e mesmo ridículo (geloion) querer demonstrar a existência do ethos,
assim como é ridículo querer demonstrar a existência da physis. Physis e ethos são duas formas
560“Fim, Finalidade: „Fim‟ pode significar „terminação‟, „limite‟ ou „acabamento‟ de uma coisa ou de um processo. Pode ser
compreendido: a) em sentido primariamente temporal, como o momento final, b) em sentido primariamente espacial como o limite, c) em sentido de „intenção‟, ou „cumprimento de intenção‟, como propósito, objectivo, finalidade. Desde Aristóteles tem- se compreendido com freqüência a noção de fim (e de finalidade) em relação com a idéia de causa. O fim é „causa final‟, ou „aquilo porque‟ algo se faz.” Dicionário de Filosofia, op. cit., pg. 165.
561
Escritos de Filosofia II - Ética e Cultura, op. cit., nota No 01, pg. 11.
562 Escritos de Filosofia II - Ética e Cultura, op. cit., nota No
Capítulo 9: Elementos da “Fenomenologia do Ethos” e a Arquitetura Templária Grega: Ética e Arquitetura. 191
primeiras de manifestação do ser, ou da sua presença, não sendo o ethos senão a transcrição da
physis na peculiaridade da praxis ou da ação humana e das estruturas histórico-sociais que dela resultam.” 563
Contudo a definição de ethos deve ser melhor especificada. Segundo Henrique C. de Lima Vaz, três formas distintas de relação com o mundo natural podem ser descritas por três diferentes acepções do termo ethos. VAZ (1988):
“O termo ethos é uma transliteração dos dois vocábulos gregos ethos (com eta inicial) e ethos (com épsilon inicial). É importante distinguir com exatidão os matizes peculiares a cada um desses termos.
Por outro lado, se a eles acrescentarmos o vocábulo hexis, de raiz diferente, teremos definido um núcleo semântico a partir do qual será possível traçar as grandes linhas da Ética como ciência do
ethos.” 564
Mesmo estando circunscritos a um mesmo povo e língua, esses termos ethos guardavam certas diferenças específicas e existentes entre as diversas tribos gregas, quando do nascimento do seu conceito na incipiente Civilização Egéia. Conforme se verá, residem aí, nessas três distintas acepções de ethos e, consequentemente, três diferentes formas das comunidades históricas se representarem nos ambientes construídos e que podem ser concebidas como se estivessem encadeadas segundo um movimento de superação ou suprassunção em relação ao momento anterior.565
Nessa perspectiva uma comunidade histórica se representa primeiramente “em virtude de uma
necessidade natural”. O ethos se apresenta nesse primeiro momento como a “morada do homem”. Num
segundo momento o ethos representa-se segundo a oposição entre “o habitual e o natural”, ou o ethos como costume. Nesse caso a intencionalidade humana coloca-se com mais clareza, pode ser apreendida com mais facilidade nos seus ambientes construídos. Finalmente, o ethos se apresenta segundo o “hábito
como possessão estável”, conforme a determinação de sua autoafirmação no mundo.
Essas três acepções do ethos, podem ser organizadas segundo uma linha conseqüente de evolução ao dispor-se do mundo natural, a qual, ainda que tênue, explicita diferentes modos de relacionar-se com a natureza e com a própria cultura.
Primeiramente, conforme VAZ (1988):
“A primeira acepção de ethos (com eta inicial) designa a morada do homem (e do animal em geral).
O ethos é a casa do homem. O homem habita sobre a terra acolhendo-se ao recesso seguro do ethos. Este sentido de um lugar de estada permanente e habitual, de um abrigo protetor, constitui a raiz semântica que dá origem à significação do ethos como costume, esquema praxeológico durável, estilo de vida e ação. A metáfora da moradia e do abrigo indica justamente que, a partir do ethos, o espaço do mundo torna-se habitável para o homem. O domínio da physis ou o reino da necessidade é rompido pela abertura do espaço humano do ethos no qual irão inscrever-se os costumes, os hábitos, as normas e interditos, os valores e as ações. Por conseguinte, o espaço do ethos enquanto espaço humano, não é dado ao homem, mas por ele construído ou incessantemente reconstruído. Nunca a casa do ethos está pronta e acabada para o homem, e esse seu essencial inacabamento é o signo de uma presença a um tempo próxima e infinitamente distante, e que Platão designou como a presença exigente do bem, que está além de todo ser (ousía) ou para além do que se mostra acabado e
completo.”566
563 Escritos de Filosofia II - Ética e Cultura, op. cit., pg. 11. 564 Escritos de Filosofia II - Ética e Cultura, op. cit., pg. 12. 565
Claro é que esse encadeamento de sucessivas superações não pode ser concebido segundo uma cadeia absolutamente lógica e nem mesmo comparando-se diferentes culturas conforme o exposto nessa dissertação. Contudo para efeito de entendimento desse argumento e ainda na ausência de registros de ambientes construídos especificamente gregos que explicitassem cada um desses momentos, optou-se por ilustrá-los utilizando-se exemplos de outras culturas. Espera-se que esse comentário supra os eventuais prejuízos dessa estratégia.
566
Capítulo 9: Elementos da “Fenomenologia do Ethos” e a Arquitetura Templária Grega: Ética e Arquitetura. 192
Nenhuma referência ao termo ethos poderia ser mais sugestiva e generosa com relação aos ambientes construídos. À abertura do
mundo em conformidade com um “esquema praxeológico
durável”, ou os hábitos e costumes, segue-se a metáfora do ethos
como “morada e do abrigo”. É ao reinstaurar na ordem do
mundo vivido em sua imediaticidade, ou a ordem imanente da