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KANUNLA KURULMUġ MAHKEME TARAFINDAN YARGILANMA

Primeiramente, será aqui abordado o trabalho de enquadramento da memória a partir de representações acerca de Getúlio Vargas e Plínio Salgado, personagens representativos das memórias de que trata o presente trabalho: Vargas, no plano da memória histórica e Salgado, no da memória integralista. Em seguida, com a mesma preocupação, qual seja, a de perceber o enquadramento da memória, o foco se voltará para o golpe de 1938.

Em Miguel Reale, por exemplo, o trabalho de enquadramento da memória se torna visível ainda uma vez mais, sobretudo quando ele fala de Vargas, personagem que, na memória histórica, é sempre senhor da situação, e de Salgado visto nessa mesma memória como um chefe indeciso. Aquele autor, ao retomar, em

sua já citada rememoração, os acontecimentos que culminaram na implantação do Estado Novo, tece as seguintes considerações:

Estávamos na presença de dois chefes, Getúlio e Plínio, este vacilante [...]; aquele, frio e impassível, deixando o tempo correr, por estar certo de que as águas fluíam no sentido de suas ambições pessoais. [...] Getúlio Vargas, de seu lado, havia sabido conduzir os acontecimentos com a sua proverbial habilidade [...] (Reale, 1987, pp. 119-120).

Quando em 1987, em função deste seu trabalho de rememoração, Reale afirma, referindo-se a Vargas, que “as águas fluíam no sentido de suas ambições pessoais”, a temporalidade do vencedor já estava impregnada na memória dele e o passado já possuía seu futuro. É nesse contexto, que o integralismo perde sua vivacidade e o passado sua multiplicidade. Enquadrada a memória, não será possível ver nela o chefe dos camisas-verdes, Plínio Salgado, como agente político que joga um jogo que não está definido a priori, pois “as águas fluíam no sentido de suas ambições pessoais” (de Vargas).

Na memória enquadrada, até Getúlio Vargas e o golpe de 1937 que implantou o Estado Novo, vão sendo relembrados dentro de uma nova perspectiva.

O Estado Novo, colocou o integralismo na ilegalidade e o perseguiu implacavelmente, mediante perseguições policiais e políticas que levaram o movimento do sigma quase que completamente ao colapso. Entretanto, o integralista Mário José Maestri, ao rememorar 1937, parece aceitar bem o golpe dado por Vargas: “(...) agora estamos chegando em 1937 (...). Conscientemente – eu sou um cara que fui prejudicado politicamente por 1937 – mas eu, tranqüilamente, quando o Getúlio deu o golpe, eu vi que, para o país foi dado o golpe na hora” (Calil; Silva; 2000, p. 103). O golpe de 1937 é visto como decisivo para o país: “foi dado o golpe na hora”. 1937 impõe-se como marco em que se ancora a memória histórica e, por conseguinte, a memória integralista enquadrada.

No limite, o próprio Chefe dos camisas-verdes acabou reconhecendo as “vantagens para o país” do governo de Getúlio Vargas. Ao discursar no Congresso Nacional, em sessão de 10 de outubro de 1972, Salgado argumenta: “(...) não se pode negar que esse Governo Discricionário, chefiado pelo Sr. Getúlio Vargas, constituído de políticos experimentados, procurou (...) defender a nação contra as manobras dos convertidos ao credo moscovita” (Salgado, 1982, p. 512).

Uma das questões mais caras aos integralistas, seja na fase da AIB seja na do PRP, foi o anticomunismo.26 No discurso de Salgado anteriormente citado, proferido mais de três décadas depois de sua prisão e exílio pela ditadura estadonovista, indica que ele, efetivamente, consegue ver as “virtudes” do governo Vargas. Alguns anos antes, em 22 de fevereiro de 1960, num discurso na Câmara dos Deputados, mesmo ao rememorar sua prisão e exílio, Plínio Salgado parece aceitar Vargas também como pessoa, pois havia feito o seguinte comentário: “fui preso, exilado, curti a saudade da Pátria, para não ceder às imposições

ou ofertas de um regime totalitário, muito embora reconhecesse qualidades no Presidente Vargas e lhe devesse repetidas gentilezas e provas de confiança” (idem, p. 124). Nesse caso, o tempo verbal no “embora reconhecesse” revela caminhos da memória, sendo que dificilmente, nos tempos de perseguição aos integralistas, da “traição” de Vargas, ou mesmo no tempo das prisões e exílios, Plínio Salgado “reconhecesse qualidades no Presidente Vargas”. Portanto, na memória enquadrada, já em 1960, foi possível a Plínio, ao aceitar a temporalidade do vencedor, reconhecer qualidades em Vargas que não terão sido por ele reconhecidas no passado. No enquadramento da memória a exterioridade se impôs.

Finalmente, para que se complete, no âmbito desta pesquisa, a abordagem do processo de enquadramento da memória integralista, cabe agora tratar de um episódio que parece crucial. Trata-se do golpe integralista de maio de 1938, episódio central na emissão de discursos que corroboraram em momentos decisivos (seja durante o Estado Novo, seja no período de democratização) para a construção da memória histórica no que tange ao integralismo. Portanto, abordá-lo se torna, aqui, imperioso frente às representações que dele se fizeram. Percebe-se um evidente trabalho de reordenação e enquadramento da memória entre os que, além de terem militado no movimento integralista, pretenderam lhe dar continuidade no PRP, o que faz dos depoimentos de determinados militantes algo bastante revelador.

O ex-Secretário Provincial de Estudos da AIB no Rio Grande do Sul, Emílio Otto Kaminski, ao ser indagado, em 1996, sobre o golpe, fez o seguinte relato:

[...] Houve primeiro o levante comunista em 1935. Em 1938, foi o levante, mas não era um levante integralista, tanto que o Plínio Salgado não fez parte deste levante, e, pelo contrário, até foi contra. Foram, vamos dizer, integralistas exacerbados, infelizmente que se excederam, fizeram aquilo e mancharam o nome do integralismo, porque o integralismo não queria isso. Tanto que oficialmente o Plínio foi contra. Nenhum dos grandes líderes integralistas participou deste levante. O líder foi o tenente Severo Fournier. Mas isso não foi o levante da Ação Integralista Brasileira, foi de alguns integralistas que se excederam, não tiveram o beneplácito do diretório, dos elementos da direção (Calil; Silva, 2000, p. 53).

Mário José Maestri, outro ex-membro da AIB do Rio Grande do Sul, filho de militantes, contava com apenas 16 anos no momento do golpe integralista. Posteriormente, já militante do PRP, conviveu freqüentemente com ex-militantes da AIB. Em 1997, numa entrevista, quando questionado sobre o golpe, argumentou que “(...) não. Houve...É como em todo lugar, isso em qualquer lugar, sempre há desacato, teve lá uns caras que por conta própria fizeram uma besteira, entraram lá no palácio, mas de uma forma desordenada (...)” (idem, p. 108).

Guido Fernando Mondin, por sua vez, também foi membro da AIB gaúcha. Mais tarde, como membro do PRP, elegeu-se Senador da República pelo Rio Grande do Sul. Em 1997, diante de uma indagação

sobre o golpe de 1938, ele respondeu: “(...) É, mas nós sabemos que não foi. Claro que era fácil atribuir aos integralistas aquele levante, mas não foi. O integralismo não era golpista. Devo admitir que tivesse a participação de um que outro mais exaltado, mas os integralistas não têm nada que ver com isso” (idem, p. 190).

Esses três depoentes, além de terem sido militantes da AIB, foram também militantes do PRP e o assumiram como continuidade do integralismo. Daí a relevância de tais depoimentos neste estudo sobre o trabalho de enquadramento da memória, em que se busca perceber como a memória integralista, em seu refazer contínuo, sofreu violências para ser enquadrada na memória histórica.

No que diz respeito ao golpe de 1938, a memória integralista parece mais uma vez se aproximar do discurso do triunfador. Um discurso em que o golpe de 1938 é representado como farsa, como algo patético, um golpe que não podia dar certo em função do caráter daqueles que o empreenderam – homens covardes, desvirilizados, bisonhos, pusilânimes. Basta ver o que consta dos três depoimentos aqui reproduzidos.

Primeiro, Kaminski, um integralista que proclama: “nenhum dos grandes líderes integralistas participou deste levante”. Depois, Maestri, que admite: “teve lá uns caras que por conta própria fizeram uma besteira”. E por fim Mondin que desdenha: “claro que era fácil atribuir aos integralistas aquele levante, mas não foi”. Ainda que nenhum dos três depoentes negue o integralismo (afinal eles integravam uma organização política que se dizia herdeira da AIB), percebe-se em suas rememorações uma reordenação do passado integralista, um passado que se aproxima da memória histórica.

Na realidade, o movimento que culminou no golpe de 1938 contou com a expressiva participação de figuras significativas das hostes dos camisas-verdes (tais como Plínio Salgado, Loureiro Júnior, Barbosa Lima e Belmiro Valverde). Além disso, outros destacados membros da AIB envolveram-se superficialmente nos preparativos e aguardaram com ansiedade a realização do golpe e alimentaram fortes expectativas de assumir altos cargos no governo que se formaria (Miguel Reale e Gustavo Barroso, por exemplo).

O golpe de 1938 foi um dos principais fatos a partir dos quais se ordenou uma série de discursos que ridicularizaram o integralismo. Contudo, se, de um lado, 1937 consagrou-se como marco, como data necessária por onde passam as reflexões para se pensar os anos 1930 (e, na verdade, não só eles), por outro, 1938 não se afirmou como marco, como lugar em que a luta política teria sido decisiva. Não se afirmou nem mesmo na memória integralista – ao menos não na memória integralista enquadrada. Banido da memória histórica e também da memória integralista enquadrada, o golpe de maio de 1938 ficou praticamente órfão. E se não está totalmente órfão, é por existir uma memória coletiva integralista não enquadrada.