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A derrota do nazi-fascismo na Europa se deu em 1945, mesmo ano em que se deram, no Brasil, o fim da censura e a articulação dos partidos políticos, entre eles o PRP. Voltam, então, à cena as polêmicas quanto ao integralismo, e, em particular, quanto aos acontecimentos de 1938. Frente a isso, convém lembrar o que afirma Vesentini (1978, p. 22): “Um evento é posto para nós de diversas formas, mesmo por vias que normalmente não examinamos com maiores cuidados. Com demasiada tranqüilidade aceitamos relações entre presente e passado e neles vemos natural continuidade e seqüência”. Essa seqüência de que fala Vesentini estabelece um fluxo, uma grande linha na qual o passado é percebido. Conseqüentemente, no caso específico do integralismo e do seu lugar na memória histórica, o que se tem são valores e expectativas previamente definidos que serão retomados e recontados.

Diante dessa questão, projeta-se a advertência que Janice Theodoro formulou ao analisar a memória, relacionando-a à narrativa:

Por que gostamos de narrar a ascensão social? Por vaidade? Não. Narramos a ascensão social, porque este é um modelo pronto. A ascensão pode se tornar mais significativa para mim e para os meus, se a narrativa for bem elaborada, ou

seja, posso colocar chantilly na história, mas a história já está dada (Theodoro, 1998, p. 64).

Claro que aqui não nos interessa perceber as histórias de ascensão social, mas como a narrativa bem elaborada, que “guarda esquemas de inteligibilidade” (idem, ibidem), é mais facilmente transformada em memória. Interessa, sim, a história já dada, a dos integralistas como covardes, traidores, ridículos, fanáticos, uma história repetida tantas vezes nos primeiros momentos da ditadura de Vargas e retomada no pós-guerra. E o “chantilly” da segunda metade dos anos 1940 será a pecha de nazismo brasileiro que recai sobre o integralismo.

Portanto, no plano das representações compartilhadas, durante os anos 1945-1947, o integralismo representa o nazismo. Ou melhor, representa não só o nazismo, mas também o nazismo. Pode-se mesmo dizer, a partir de reflexões desenvolvidas por Pierre Bourdieu (1988),41 que, nesse caso, o poder simbólico confirma essa visão de mundo, esforça-se em explicar, em desdobrar no espaço essa tal equivalência simbólica: integralista = nazista. E o logos que se passa a ter sobre o integralismo não dirá outra coisa. Que se veja a imprensa.

O Diário de S. Paulo, por exemplo, em sua edição do dia 2 de dezembro de 1945, evidencia tal discurso num título alardeante: O integralismo era o nazismo brasileiro. Trata-se de uma entrevista com Belmiro Valverde, na qual ele diz que a doutrina do integralismo era igual à do nazismo e que o PRP, do qual ele afirma estar totalmente afastado, é a tradução do sigma em três letras. Depois, vem o subtítulo A covardia

e o egoísmo de Plínio Salgado, no qual se percebe que a velha história é retomada.

Os termos fascista ou nazista, durante os anos 1930, não carregavam necessariamente uma conotação negativa. No caso do Brasil foi a partir da tomada de posição na Segunda Guerra Mundial ao lado dos aliados e da ruptura com os países do Eixo que esses dois termos foram ganhando uma coloração pejorativa. Mais ainda, foi a partir do envio de tropas brasileiras para a guerra, com a missão de lutarem contra os fascistas no norte da Itália e com a posterior derrota dos nazi-fascistas que os termos fascismo ou nazismo adquiriram um sentido negativo e, efetivamente, só mais tarde, com os julgamentos de Nuremberg, é que se configuraram como o “mal absoluto”.

O famoso discurso proferido por Vargas a bordo do encouraçado Minas Gerais, em 1940, revela que o universo político ainda estava nuançado e que ainda inexistia o discurso maniqueísta em relação ao nazi-fascismo. No trecho a seguir, é possível perceber o quanto, naquela oportunidade, Getúlio Vargas explorou as nuanças do universo político em que estava inserido:42

Atravessamos, nós, a humanidade inteira transpõe, um momento histórico de graves repercussões, resultante de rápida e violenta mudança de valores, marchamos para um futuro diverso de quanto conhecíamos em matéria de organização econômica, social ou política e sentimos que os velhos sistemas e formas antiquadas entram em declínio. Não é, porém, como pretendem os

pessimistas e os conservadores empedernidos, o fim da civilização, mas o início tumultuoso e fecundo de uma nova era. Os povos vigorosos, aptos à vida, necessitam seguir o rumo de suas aspirações, em vez de se perderem na contemplação do que se desmorona e tomba em ruína. É preciso, portanto, compreender a nossa época e remover o entulho das idéias mortas e dos ideais estéreis.43

A partir daquele discurso de Vargas constata-se que o fascismo, em 1940, podia significar, para alguns grupos, “o início tumultuoso e fecundo de uma nova era”. Assim, o logos do nazismo presente em meados dos anos 1940 estava sendo deslocado para os anos 1930 e início dos 1940 e colado ao integralismo, de maneira a enriquecer o discurso caricaturizador do integralismo.

Portanto, essa questão do nazismo, além de enriquecer o discurso que caricaturizava o integralismo, encontra uma outra questão: a da impossibilidade de pensar-se, em 1945, um poder que estivesse associado ao nazismo. É bom lembrar que, em 1945, com a crise do Estado Novo, acontecera, no Brasil, a reordenação dos partidos políticos. O integralismo rearticulara-se num partido com base legal, o PRP – um partido que não terá a expressividade que o integralismo tivera no passado, porque carregava consigo a pecha de nazista.

Nesse ponto, se a reflexão tiver como parâmetro as análises de Michel de Certeau (2002) desenvolvidas em A invenção do cotidiano, pode ocorrer um deslocamento das preocupações: elas irão dos “produtos culturais oferecidos no mercado de bens” para as “operações de seus usuários”. E aí, a indagação: o que é que, do texto, faz efeito? O receptor se apropria desses produtos culturais?

Ainda que sem a pretensão de aprofundar numa abordagem semelhante à sugerida por De Certeau, é possível perceber a impossibilidade de, naquela conjuntura, o PRP ter poder. É de se supor que, naquelas circunstâncias, a equivalência simbólica integralismo = nazismo tenha sido apropriada pelo receptor e que ela tenha confirmado o logos integralismo = nazismo, sendo que nazismo, aqui, antes de ser uma organização política e ideológica, é uma estratégia. Portanto, em 1945, o integralismo (agora PRP) estará fadado ao fracasso: ele é nazismo (isto não equivale a dizer que outros fatores não tenham contribuído para o fracasso do referido partido naquele momento, apenas destaca, embora sem medir a intensidade, que o texto fez efeito).

Ao participar das eleições de 1945, o PRP apresentou 147 candidatos a deputado federal, além de ter apoiado a candidatura de Goffredo Silva Telles, pela legenda do PSD em coligação com o PRP, tendo sido este o único eleito.44 Em 1950, o partido lançou Plínio Salgado candidato ao senado pelo Rio Grande do Sul. Mais uma derrota. Quando desta candidatura, os jornais gaúchos retomam o logos integralismo = nazismo, sendo o integralismo visto como o nazismo brasileiro. Mas, em matéria publicada em primeiro de outubro de 1950, no Correio do Povo, constata-se uma inversão que, parece, dá mais força ainda ao referido tipo de discurso: “o nazismo, que era o integralismo alemão (...)”.45

Mário José Maestri, ex-dirigente do PRP gaúcho, em poucas palavras, avalia tal situação: “Depois da guerra, é o seguinte: Integralismo é nazismo. O nazismo matou judeus. Pronto acabou-se” (Calil; Silva,

2000, p. 130). Essa simplória e precisa declaração de Maestri revela o efeito que produz o logos integralista no imaginário do destinatário. Efeito este que se pode chamar de simbólico para que se possa distingui-lo de um simples efeito de conhecimento; e, também, para marcar que ele não tem necessidade de ser formulado explicitamente; e, ainda, para sublinhar que é estruturante, pois faz ver os integralistas.46

A percepção interna obviamente se distanciava bastante dessas representações. Mas, em muitos casos, era nítida a dificuldade em se afirmar perrepista e/ou integralista. Os militantes então se esforçavam no sentido de reverter a memória: fazer da memória coletiva integralista parte da memória histórica. Eduardo Martinelli, membro do PRP desde 1945 considera a primeira fase do partido (1945-1950) como heróica e relata as dificuldades enfrentadas por ser integralista:

Os primeiros cinco anos é a fase heróica do PRP. Para ser do PRP precisava ser muito valente, porque tinha que enfrentar os comunistas, que não perdoavam, e todo o resto que diziam que nós éramos ‘quinta coluna’. Para tu provar que vaca não é boi...então as coisas eram difíceis [...]. (Calil; Silva; Batista, 1998, pp. 39- 41).

Assim, durante o pós-guerra, as possibilidades de sucesso político do PRP como herdeiro do integralismo permaneceram, a priori, bastante limitadas. Os discursos estabeleciam, no espaço simbólico, uma forma para o integralismo/PRP, sendo que, no entanto, essa forma estava razoavelmente interditada. Nessa perspectiva de análise, caso se considere o efeito do texto como simbólico, de maneira a diferenciá-lo do efeito de conhecimento, pode-se concluir que também a imprensa, naquele período, ao se apropriar do integralismo, não o fez por inteiro, apenas se apropriou de particularidades disponíveis naquilo que se denomina memória histórica, algo que ela própria ajudou a construir. Daí terá decorrido, então, a estigmatização do movimento que, assim, portará características não memoráveis e mergulhará no Lete.