Conforme foi aqui demonstrado, não há, efetivamente, em “estado puro”, uma memória integralista enquadrada e uma não enquadrada, mas, sim, uma memória nuançada por ambas. De qualquer modo, entende-se por memória integralista não enquadrada, a memória que guarda elementos de leitura interna ao
grupo que não estão partilhados na memória da sociedade em geral, ou seja, que não pertencem à memória histórica.
Quem quer que faça reflexões acerca da memória integralista, poderá constatar que, muitas vezes, os sujeitos sociais integralistas, saídos do próprio processo de luta, não conseguem se libertar do conjunto da memória histórica, não lhe opondo outro foco de reflexão.27 Assim, tem lugar um esforço da liderança integralista para incluir, na memória histórica, elementos da memória integralista. Tal liderança não busca, necessariamente, a definição de uma temporalidade outra, em que os marcos da memória histórica não estejam presentes na memória integralista, mas, sim, busca integrar uma memória banida (a memória integralista) à temporalidade dominante, integrar elementos da memória integralista à memória histórica.
Frente a essas considerações, faz-se necessário agora analisar as posições de Plínio Salgado, como líder da bancada do PRP, na Câmara dos Deputados.
Durante a sessão realizada em 5 de julho de 1959 na Câmara dos Deputados, os parlamentares dedicaram todo o tempo a discursar em homenagem aos revolucionários de 1922, 1924, 1930 e 1932. Todos esses anos datam fatos que se tornaram marcos na história do Brasil, quais sejam, respectivamente: a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, as revoltas tenentistas em São Paulo e no Rio Grande do Sul, a Revolução de 1930 e a Revolução Constitucionalista de 1932. A memória histórica ancora-se nestes fatos, fatos capazes de orientar uma temporalidade, pois que “pela obra da transubstanciação uma enorme gama de significações pode ser alocada aos episódios de um dia, de um mês, convertidos em fato histórico” (Vesentini, 1997, p. 26).
Cada uma das homenagens prestadas pelos deputados naquele 5 de julho de 1959 expressava a “existência de um conjunto de representações já situadas com relativa precisão para todos” (idem, pp. 32-33). Os mártires integralistas não estavam entre os homenageados e os marcos integralistas não eram ali lembrados.
Foi então que, diante daqueles discursos, o deputado perrepista Plínio Salgado pediu um aparte. Ele sabia que o esquecimento que recaía sobre o movimento integralista chegara ao limite. No entanto, naquele dia, ao fazer seu aparte, aquele deputado perrepista não nega e nem se opõe à memória dominante, seus mártires e fatos. Basta observar as suas primeiras palavras: “Nobre Deputado, estou ouvindo os oradores falarem sobre os movimentos revolucionários do Brasil numa justa homenagem àqueles que foram pioneiros de reformas sociais das mais importantes (...)” (Salgado, 1982, p. 455). De certa forma, Salgado demonstra que, para ele, nem todos os mártires que “merecem” ser lembrados estão citados nos discursos dos colegas parlamentares. E aí ele menciona os mártires integralistas que, para ele, faltava mencionar:
E, neste momento, não posso deixar de render homenagem aos mártires – e contamos com trinta e tantos deles – que foram assassinados e derramaram seu sangue para a implantação das idéias democráticas e de uma democracia verdadeiramente representativa dos anseios da Nação, à procura, também, como
todos os outros movimentos, daquele equilíbrio tão desejado desde a proclamação da República no nosso País [...]” (idem, p. 456).
Naquele momento, Plínio Salgado luta pelo direito à memória e se manifesta como que contestando o esquecimento da nação. Na realidade, ele quer ver o movimento que liderava incluído na memória como todos os outros movimentos. Por não se ver presente com seus camisas-verdes na memória histórica, Salgado sente-se injustiçado e luta para que seus mártires estejam disponíveis a todos, luta para que seus marcos – os do integralismo – sejam também, juntamente com os marcos já consagrados, marcos de toda a nação.
Anos mais tarde, o esforço de Salgado prosseguia. Privado de história, esquecido da nação e já quase no final de sua vida, ele insistia em incluir seus camisas-verdes – e, portanto, se incluir – na memória histórica há muito constituída. Na Câmara dos Deputados, durante a sessão de 10 de outubro de 1972, o deputado perrepista discursa e tenta incluir a data de lançamento do Manifesto de Outubro de 1932 no rol dos marcos históricos:
Sr. Presidente, Srs. Deputados, este ano de 1972 tem sido um ano de comemorações: a do Sesquicentenário da Independência; o quarto centenário de publicação de Os Lusíadas, de Camões; o cinqüentenário da Semana da Arte Moderna; o quadragésimo aniversário da Revolução Constitucionalista de São Paulo e, agora, o do lançamento do Manifesto de 7 de outubro de 1932, que fundou no Brasil a Ação Integralista Brasileira (idem, p. 505).
Ao fazer menção à Semana de Arte Moderna ou a Revolução Constitucionalista de 1932, Salgado dá pistas de que não pretende rever a memória histórica e seus grandes marcos. Não era sua pretensão fundar uma outra temporalidade, mas, sim, fazer com que a memória histórica abranja aspectos da memória integralista.
Entretanto, um dos parlamentares presentes àquela sessão reage, como que a indicar que, na memória já constituída, não há lugar para o integralismo. Em aparte concedido por Plínio Salgado, o deputado Alencar Furtado, depois de comparar o integralismo ao fascismo, separa, explicitamente, a memória histórica da integralista:
V. Ex.ª comemora os quarenta anos do seu manifesto. Nós, nobre Deputado Plínio Salgado – com o respeito à pessoa e à cultura de V. Ex.ª, contraditando hoje, ontem, e amanhã os pontos de vista radicais de V. Ex.ª, homenageamos hoje também, neste ano de 1972, os pracinhas que tombaram em Pistóia (idem, pp. 507 508).
No discurso do deputado Alencar Furtado percebe-se um mapeamento da diferença: ‘nós’ – a nação – homenageando os pracinhas que tombaram na Itália na luta contra o fascismo; V. Exª, ‘fascista’, V. Exª que
tem “pontos de vista radicais”, comemora o que nós não comemoramos, “os quarenta anos do seu manifesto”. O emprego do pronome possessivo “seu”, por Furtado, não deixa dúvidas: o manifesto integralista não pertence ao “nós”, a nação, mas a V. Exª, com quem “nós” estamos “contraditando hoje, ontem e amanhã”.
Durante toda sua vida política, Plínio Salgado realizou esforços pelo direito à memória. Tanto que, no trigésimo aniversário da Ação Integralista Brasileira, em 6 de abril de 1962, esse líder perrepista discursou no parlamento, sempre lembrando os marcos de “seu” movimento, tentando fixá-los na memória da nação brasileira. Estas foram algumas de suas palavras:
Sr. Presidente, a 7 de outubro de 1962 completam-se trinta anos do lançamento de um grande movimento por mim presidido, a Ação Integralista Brasileira. [...] O Partido de Representação Popular, herdeiro daquele movimento, entende ser oportuno reafirmar, perante a Nação, a doutrina que esposa [...]” (Salgado, 1982, p. 465).
Salgado se empenha continuadamente em reafirmar – ou afirmar –, perante a nação, a doutrina do PRP, herdeiro do movimento por ele presidido trinta anos antes. Empenha-se em lembrar à nação os marcos do integralismo – a data de fundação da AIB, por exemplo. Mas seu empenho jamais obterá sucesso, ao menos no âmbito da memória histórica.
Entretanto, em pequenos grupos, a memória integralista sobreviveu. Existem pessoas que homenageiam os mártires integralistas, comemoram as datas importantes para o integralismo e dão ao golpe de 1938 um significado distinto do que lhe é atribuído na memória histórica. Em pequenos grupos, elas reverenciam Plínio Salgado que, mesmo após a morte, é por elas lembrado como um dos mais brilhantes vultos da nação. Portanto, nesses grupos, Salgado venceu, ainda que não tenha sido a eles que o chefe integralista tenha se dirigido.