1.2. Vergi Ceza Kavramı Hakkında Genel İlkeler
1.2.1. Kanunilik İlkesi
Vimos anteriormente que fortalecer o judaísmo pode significar também fazer de- saparecer as particularidades culturais de cada grupo étnico-geográfico, um pouco como a premissa ‘os fins justificam os meios’. O que estará ocorrendo no judaísmo produzido nas sinagogas e reproduzido nos lares judaicos de São Paulo? Sem duvida algo muito diferente do que foi feito na primeira metade do século XX, com a primeira geração de imigrantes judeus de diferentes países integrando-se na sociedade brasileira e tentando ao mesmo tempo conservar os valores e os costumes judaicos. No caso do judaísmo paulistano temos um fator que não podemos desprezar: imigração judaica foi majoritari- amente asquenazita até os anos 1950. Esse fato é importante, pois como vimos no capí- tulo anterior tratava-se de uma parcela da população judaica que já havia se integrado no mundo não judaico europeu, deixado de lado certas crenças e práticas. Ao chegar ao Brasil tratava-se mais uma vez de assimilar-se culturalmente, o que levou mais uma vez ao abandono de valores e costumes, o pouco que se havia mantido das gerações anterio- res (Rattner, 1977). Mas não devemos esquecer que nesse período as sinagogas foram conservadas com a primeira geração de imigrantes tanto asquenazitas como sefaraditas,
mas que ao longo do tempo essa instituição tão essencial da vida judaica deixou de fazer parte do cotidiano das novas gerações.
Hoje percebemos um retorno à frequência da sinagoga, porém com característi- cas distintas daquela realidade da primeira metade do século XX. A característica prin- cipal desse momento é a presença indiscriminada de sefaraditas e asquenazitas nas mesmas sinagogas, algo impensável há meio século atrás. Essa ‘mistura’ entre sefaradi- tas e asquenazitas não é recente, vem acontecendo desde a segunda metade do século XX, através de casamentos entre membros de famílias pertencentes aos dois sistemas culturais distintos. Entendemos que nos lares, no âmbito do privado já existe, portanto, a adoção de costumes e valores tanto sefaraditas como asquenazitas por essas famílias ‘mistas’. Entendo esse fenômeno como parte do processo de desetnização do judaísmo. Isso a despeito do costume asquenazita de afirmar que o pertencimento étnico é transmi- tido pela patrilinearidade. No que tange o âmbito do privado, do lar, quem rege é a mu- lher, ela é a responsável pela manutenção dos costumes. Apesar do pertencimento étnico ser transmito patrilinearmente e do lar ser mantido pela mulher, entendo que os costu- mes sefaraditas acabam prevalecendo no lar. Isso porque os sefaraditas, sendo mais con- servadores do que os asquenazitas do ponto de vista religioso e cultural, pouco se deixa- ram influenciar pela modernidade.
No entanto, o objeto desse estudo é observar a desetnização nas sinagogas e não nos lares, isso por que entendo que a sinagoga que durante séculos foi o centro da vida judaica está retomando esse importante papel na vida do judeu contemporâneo. A sina- goga nunca deixou de ser um local de estudos, mas agora é um local de aprendizado de como ser judeu. A sinagoga é o espaço da vivência do judaísmo.
É na sinagoga que, para muitos descendentes de imigrantes que abandonaram a mais de uma geração os costumes judaicos, se dá o primeiro contato com as tradições culturais e religiosas. Assim como no período pós-exílico (70 DC), ela continua sendo um local de estudos. No século XX, Mordehai Kaplan, rabino e filósofo fundador da teologia judaica Reconstrucionista, formulou o conceito de ‘centro sinagogal’, dando à sinagoga um papel significativo na vida judaica. Kaplan entendia que em vista da desin- tegração dos valores tradicionais judaicos nos Estados Unidos, esta deveria ser mais do que uma casa de oração e mais do que uma casa de estudos. Um século depois o juda- ísmo brasileiro passa pelas mesmas etapas de distanciamento e aproximação, mas prin- cipalmente revendo qual a importância da instituição na família e na comunidade judai- ca.
Certamente no Brasil é possível perceber a mesma desintegração dos valores tra- dicionais judaicos e, esta se dá no âmbito do privado, nas famílias onde a transmissão desses valores foi interrompida da segunda para terceira geração. Entendo que mesmo sendo um centro de convivência, a sinagoga é para inúmeros judeus brasileiros um dos únicos lugares onde é possível experimentar sua condição de judeu, mesmo que para a grande maioria isso ocorra apenas um dia no ano, em Iom Kipur.
Quero ainda destacar um evento observado nos serviços de encerramento de Iom
Kipur, quando foi possível ouvir do rabino Ruben Sternschein, contratado em 2008, na sinagoga fundada por judeus alemães, a CIP, sua surpresa e decepção por não estar in- cluído na liturgia da CIP o Einor Alila. De tradição sefaradita, a canção Einor Alila está presente nas comunidades da Espanha até Istambul, passando ao norte e ao sul do Medi- terrâneo. O rabino garantiu aos correligionários sefaraditas, uma minoria, e a todos os presentes, que a partir de 2009 essa tradição seria incorporada ao serviço religioso. Sur-
preendente ouvir do rabino oficiante de como uma sinagoga não ortodoxa, alemã, por- tanto asquenazita, querer incluir uma canção de tradição judaica espanhola, cuja sonori- dade se aproxima mais do árabe do que do ladino ou do próprio alemão. No entanto, não houve qualquer mudança no serviço de Iom Kipur da CIP. Por quê? Será que os descendentes dos alemães fundadores da CIP não aprovaram essa inovação? Talvez ainda seja cedo demais para transformações na liturgia na CIP. Lembro que essa é a maior congregação judaica do Brasil, fundada em 1936 por judeus alemães liberais e, mesmo com a contratação do rabino Henri Sobel50 no final da década de 1970, esta não
aceitou as propostas de modernização dos rituais religiosos propostos pelo rabino for- mado em seminário reformista nos Estado Unidos. A proposta do rabino Sobel de abolir a separação entre homens e mulheres nos cultos religiosos só foi aceita pelo público fiel, ainda que parcialmente, no ano de 2008.
Ainda é possível perceber de imediato, quando se entra em uma sinagoga sefara- dita ou asquenazita, a pronuncia diferenciada da palavra hebraica amem: os sefaraditas dizem “amin” e os asquenazitas diziam “omen”, característica que está porém desapare- cendo juntamente com as gerações imigrantes e fundadoras das respectivas sinagogas. Atualmente ouvimos “amem” em qualquer sinagoga no Brasil. Todavia não é possível concluir se essa mudança se deve a uma aproximação da pronúncia da língua portugue- sa ou por uma padronização do uso do idioma hebraico nas sinagogas.
No que diz respeito ao modo de rezar, existem algumas diferenças notórias entre sefaraditas e asquenazitas. Zimmels notou que ao recitar o kadish, texto que santifica o nome divino, os sefaraditas baixam os olhos enquanto os asquenazitas os elevam ao céu. Aliás, nesse caso, o texto não é exatamente o mesmo. A leitura da haftará, trecho dos
50 Henri Isaac Sobel natural dos Estados Unidos, formado pelo Hebrew Union College — Jewish Institute
of Religion — seminário reformista. Foi afastado da CIP em 2007, não foi contratado por nenhuma sina- goga, porém participa de vários eventos religiosos e laicos da comunidade judaica de São Paulo.
profetas lido após a leitura da porção semanal da Torá, é feita entre os sefaraditas por um fiel, e por todo o público entre os asquenazitas.
Mais um exemplo a título de ilustração da desetnização: no serviço de cabalat
shabat realizado em dezembro de 2008 no Rio de Janeiro, a Congregação Judaica do
Brasil liderada pelo rabino Newton Bonder51 entoou melodias e traduções do hebraico para o ladino dos trechos dos salmos cantados no início do serviço. Ao perceber a me- lodia e a sonoridade ladina, não pude conter minha surpresa e admiração pelo belo tra- balho de pesquisa e recuperação da tradição sefaradita e pelo fato de uma sinagoga de linha não ortodoxa, portanto de ‘tradição’ asquenazita ter, não apenas incluído elemen- tos da liturgia sefaradita, mas realizado um esforço de pesquisa. Será uma tendência atual recuperar a tradição sefaradita nas sinagogas não ortodoxas? De imediato é preciso destacar que as sinagogas não ortodoxas, até o final do século XX no Brasil, reuniam apenas judeus de tradição asquenazita, atraindo atualmente também judeus de origem sefaradita, o que justificaria a inclusão de aspectos litúrgicos sefaraditas em seus servi- ços religiosos, contribuindo para as desetnização.
Foi na sinagoga sefaradita que as melodias aprendidas em Castela e Andaluzia se mantiveram por séculos, curtidas sob o sol do Saara e temperadas pelas diásporas oto- manas ou salônicas. Tais melodias vinculadas a textos bíblicos ou trechos litúrgicos foram mantidas com tanto fervor que, hoje, causa espanto e surpresa aos espanhóis que reconhecem nessas melodias sua memória coletiva. Ao conservar as melodias espanho- las e islâmicas em sua liturgia, a sinagoga teve um papel de conservatório para a cultura espanhola e para o islã norte africano (Malka, 1997).
51 Newton Bonder: A Congregação Judaica do Brasil — CJB- no Rio de Janeiro, fundada em 1989 por um grupo de dissidentes da Associação Religiosa Israelita, é liderada pelo rabino Nilton Bonder, natural