2.2. Türkiye’de Sağlık Personeli İstihdami
2.2.3. Kamu Kesiminde Hekim Sağlama
Alagoas: 08 Pernambuco: 50
Pará: 07 Sergipe: 17
Maranhão: 07 Guanabara: 01
Piauí: 18 Território do Acre: 01
Ceará: 26 Paraíba: 55
Rio Grande do Norte: 1.915 Alagoas: 02
TOTAL GERAL: 2.105
FONTE: Adaptado do Boletim comemorativo do cinqüentenário da Escola Doméstica de Natal. (1914-1964). Natal: URN, Imprensa Universitária, 1964.
Grande parte do corpo discente pertencia a grupos sociais mais elevados economicamente. A nosso ver, a Escola Doméstica de Natal passou a ser considerada a formadora das elites culturais femininas da cidade do Natal, determinando que suas freqüentadoras fossem educadas dentro do estilo social das camadas mais privilegiadas economicamente, imprimindo às alunas novos hábitos de civilidade e urbanismo, condizentes com padrões da sociedade emergente no país, já solidificada em algumas sociedades modernas.
No século XIX, era uma prática comum às famílias das classes senhoriais rurais serem as responsáveis pela educação dos filhos, fosse através do contrato de preceptores ou enviando os filhos para estudar em colégios internos para meninos ou meninas. Essa prática persistiu no início do século XX, tornando-se comum no Brasil as famílias mais tradicionais enviarem as suas filhas e filhos para estudar em colégios que funcionassem com o sistema de internato, pois essa realidade garantiria (nos seus valores e costumes culturais conservados tradicionalmente de geração a geração) uma formação mais rigorosa intelectualmente, com base em sólidos valores morais e virtuosos à sua prole, bem como continuidade dos estudos em lugares que oferecessem melhores condições estruturais.
Em entrevista, a ex-aluna, Neide Galvão Pereira que estudou na instituição na década de 40 do século XX, lembra com saudades os tempos onde era interna, na primeira
sede da Escola Doméstica, situada na Praça Augusto Severo, no bairro da Ribeira. Ouvimos a explicação sobre dois grandes motivos que impulsionaram os seus pais a matricularem-na, ela e mais duas irmãs, no internato da ED. Um deles foi a necessidade de enviar as suas três filhas para a capital do Estado com a finalidade de prosseguir os estudos, uma vez que, na época, todas residiam na cidade de Currais Novos/RN, local que dispunha de apenas um grupo escolar denominado Capitão Mor Galvão, que não oferecia condições para suas filhas cursarem níveis mais adiantados de estudos. Outro motivo que suscitou essa escolha foi o fato de seus familiares já terem ouvido falar da boa qualidade de ensino ofertado pela ED, do compromisso e da disciplina empregada pela educação das mulheres, assim como informações sobre conteúdos priorizados no currículo escolar do referido estabelecimento. Por esses motivos, os seus pais decidiram enviar três de suas filhas para estudarem na ED. (PEREIRA, 2006).
A aluna recorda com carinho os tempos vividos na escola, a turma que estudava, as (os) docentes que lecionavam, trazendo no seu imaginário a escola em vida nas suas práticas cotidianas.
O internato da escola funcionava com muita organização, tinha hora para tudo, de levantar, dormir, fazer as refeições, muita disciplina. Quando acordávamos tínhamos obrigações a fazer, cada aluna arrumava sua cama, seus pertences que não poderiam ficar espalhados. Agente aprendia a se disciplinar no dia a dia e tinha a professora que nos acompanhava diariamente, supervisionando as nossas açõesquartos do internato eram compostos de seis camas, não tinham banheiro, só camas. O banheiro localizado num corredor, próximo aos quartos, A diretora dormia próximo às alunas. No lugar havia muita disciplina e organização em tudo. A profa. do
curso de Ordem Doméstica era a responsável pela inspeção dos quartos e pela ordem no recinto. Quando o presidente da LERN, à época o prof. e médico Varela Santiago passava no corredor da escola as alunas, em respeito a sua pessoa levantavam-se e cumprimentavam-no. A escola, apesar de muito rígida na disciplina do internato ajudou a me tornar organizada, a aprender a cuidar de muita coisa da vida. Todo mundo conhecia uma aluna que estudava na Escola Doméstica de Natal pela sua forma de se apresentar, de vestir, de se comportar em público, pela educação. Ao pouco que estudei agradeço a ED pelo que sou, pois aprendi a cuidar dos meus filhos, a aplicar injeção, a fazer pratos da culinária, tudo isso me ajudou no meu dia a dia, na família. Meus pais gostavam muito da ED porque era uma escola que disciplinava mesmo, educava as filhas e só consentiam a saída da aluna da escola com a autorização dos pais, mediante um termo assinado pelos mesmos, caso isso não ocorresse, a direção do estabelecimento não permitia em hipótese alguma a saída da aluna. (PEREIRA, 2006).
O depoimento da aluna externa afeto, carinho e admiração do período vivenciado como aluna interna na ED. Destaca grandes momentos vividos com o grupo de alunas internas, vislumbrando um modelo de internato onde a rigidez e a disciplina eram dispositivos empregados no dia-a-dia da escola, mas que trazia em seu teor rotineiro uma certa direção nas ações das alunas sem causar constrangimentos, temores e ressentimentos. A vida numa escola interna, que poderia ser para a aluna um grande dissabor, devido à ausência da família no convívio diário, é ressaltada com um dos momentos vivenciados no passado que possibilitou aprendizados válidos e aplicados a sua vida fora da Escola.
Esse destaque positivo da vida interna na Escola fica evidente na fala da ex- aluna Eulália Barros, lembrando que os quartos onde as alunas dormiam eram compostos por seis ou oito camas, continha um armário que não dispunha de porta e ficava aberto constantemente, com os objetos pessoais de cada aluna visível e acessível a sua proprietária. Essa idéia criada pelas professoras suíças seria na sua visão, uma forma de ensinar que os objetos pertencentes às discentes deviam estar sempre visíveis, pela sua forma de organização, ao olhar da professora de Ordem Doméstica e, ao mesmo tempo, ensinar às discentes a serem organizadas, zelosas e disciplinadas com os seus pertences, de forma a usar apenas o que era específico de cada uma. A aluna destaca que os aprendizados adquiridos na escola foram muito válidos na sua vida, pois nunca precisou de uma enfermeira, de babá para cuidar dos seus filhos, sentia-se muito preparada para lidar com várias situações cotidianas, fruto dos conhecimentos adquiridos na instituição, da qual só saiu para casar-se.
Maria Eunice de Araújo Sá, em entrevista concedida também ressalta os bons momentos vividos durante o período de seu internato na ED de 1944 a 1945. Recorda que era um sistema de internato em que as discentes tinham que apresentar muita organização no seu dia a dia. “Era um internato que as alunas tinham liberdade de brincar, ir ao recreio. Destaca que os quartos do internato eram compostos de seis camas, não dispunham de banheiro, pois esse último era localizado num corredor, próximo aos quartos, A diretora dormia próximo às alunas, num quarto individual. No lugar havia muita disciplina e organização em tudo. A professora do curso de Ordem Doméstica era a responsável pela inspeção dos quartos e pela ordem no recinto. Nas recordações de Maria Eunice Sá:
Meus pais gostavam muito da ED porque era uma escola que disciplinava mesmo, educava as filhas e só consentiam a saída da aluna da escola com a autorização dos pais, mediante um termo assinado pelos mesmos, caso isso não ocorresse a direção não liberava as saídas. (ARAÚJO SÁ, 2006).
Essas lembranças da ex-aluna advinda de família residente na cidade de São Paulo do Potengi, interior do Estado do RN, ressaltam que quis desde cedo estudar na ED para preparar-se para um futuro casamento, porque ouvira falar que essa instituição, de fato, garantiria conhecimentos teóricos e práticos necessários a uma futura dona de casa, tanto que estudou apenas um ano na escola, abandonando a vida estudantil para contrair matrimônio. A rigidez na educação dos seus pais, segundo os seus depoimentos, também possibilitou essa escolha como a melhor via para garantir, sem muitas preocupações, a educação de suas filhas. A ex-aluna ainda ressaltou que a época em que estudava na instituição coincidiu com o período da II Grande Guerra Mundial e, por ter sido considerada cenário estratégico da ação dos militares, sofreu algumas modificações nos costumes e hábitos da população, como as formas de lazer, de vestir, de falar,...
Lembra também, que na época, foi proibido soltar fogos de artifício em Natal (devido aos treinamentos constantes dos militares) e que as alunas internas da ED muito temiam os black-out que ocorriam constantemente na cidade.
Havia simulações sobre possíveis falta de energia na cidade, onde a sirene tocava acenando para um toque de recolhida das pessoas. Isso fazia parte do treinamento dos militares e Quando isso acontecia a ex. aluna recorda que na ED as discentes ficavam assustadas e algumas tinham que ser acalmadas pela diretora, muitas delas ficavam apavoradas com o acontecimento da guerra e caiam em pranto durante a noite. (ARAÚJO SÁ, 2006).
Nessas recordações da vida estudantil ressaltou que:
Durante o período do internato saia para ambientes reservados, onde não houvesse muita presença do sexo masculino. A diretora na época, Sra. Noilde Ramalho era muito energética, rigorosa e disciplinada no funcionamento da escola, nos levava para fazer um lanche em lugares bem aceitos pela sociedade, eram passeios para a gente conhecer melhor a cidade e aprender a não freqüentar um restaurante sozinha, porque essa atitude não era bem vista pela sociedade”, estudávamos perto do teatro Carlos Gomes e não podíamos ir, mas agradeço a escola pelo que aprendi. (ARAÚJO SÁ, 2006).
afirmar que: “aprendi a estudar melhor, de forma mais organizada, onde tive aprendizados para a vida, que levo comigo até os dias atuais”.
O fato de a Escola Doméstica ter sido desde os primórdios uma instituição que não pregava uma única religião, ao contrário, abria as portas para que famílias de religiões diferentes buscassem para as suas filhas uma educação sem pregação de um único credo, também foi um dos motivos de muitas escolhas de pais de família; é o que lembra Francisca Nolasco Fernandes, mais conhecida como Dona Chicuta11:
Não havia, pois, muito o que escolher, pelos pais, que, residindo no interior, ou mesmo na cidade, quisessem mandar suas filhas, internas, para um educandário modelo. Era adotado, então, um critério interessante. A maioria dos católicos, os mais fervorosos, preferiam o Colégio da Conceição. Os tíbios, os protestantes e os católicos, ou ateus escolhiam ou aceitava, a Escola Doméstica, se pudessem faze-lo. (FERNANDES, 1973, p. 17)
Mais adiante, em suas memórias, destaca a opção dos seus pais para que estudasse na Escola Doméstica de Natal:
Mas como, e para onde mandá-la, se não tinha parentes, nem amigos, nem conhecidos na Capital? Ele não procurava apenas uma boa escola, mas também um lugar para onde mandasse a filha, quase criança e com ela não tivesse preocupações, que naquele tempo, filhas haviam de ser bem guardadas. Mas, ele, indiferente às críticas, como não gostava de qualquer religião, escolheu a Escola Doméstica. Segundo as informações contidas no ‘Prospecto’, relativas ao internato naquela casa, as alunas ou pais, escolheriam livremente a religião que quisessem adotar. E a sua recomendação expressa foi que nenhuma religião seria imposta àquela filha enfezadinha e mal acanhada. Nem Católica Apostólica romana, nem Protestante de qualquer seita, pois a esses últimos tinha ele verdadeiro horror, a ponto de dizer, naturalmente por pilhéria, que, se ao morrer, fosse para o céu com Francisquinho ensinando a Bíblia, preferiria o inferno. Francisquinho era um vizinho protestante que, temendo ver perder-se a alma impenitente de meu pai, propunha-se a tarefa de salvá-la do fogo eterno, através da leitura da Bíblia, acompanhando cada versículo da competente e prolixa explicação. (FERNANDES, 1973, p. 62).
11
Aluna laureada da Escola Doméstica de Natal, diplomada na turma de 1929, que atuou no corpo docente durante trinta e cinco anos. No seu vasto currículo consta de ter sido professora da Escola Normal de Natal e a primeira mulher a exercer o cargo de diretora dessa mesma escola. Publicou em 1973 um belíssimo livro de memórias, onde recorda os tempos vividos como docente e discente nas instituições mencionadas.
Essas recordações da vida estudantil externadas pelas ex-alunas da ED desenharam um pouco as vivências da escola na época e a cultura escolar do internato. Os depoimentos confirmam a necessidade das famílias em encaminhares suas filhas para serem educadas em escolas internas por acreditarem serem as mais confiáveis em termos de formação do caráter, dos valores e costumes condizentes com a formação exigida ao sexo feminino (masculino) na sociedade: uma mulher educada, disciplinada e bem prendada, afinal afastar as mulheres de uma possível promiscuidade, do vício e dos chamados maus costumes que incidiam na vulgarização dos novos valores trazidos com a modernidade aflorada no século XX, era também uma das metas das famílias de classe média que tinham condições financeiras de custear os estudos dos seus filhos; era uma forma de resguardá-las e preservá- las de uma vida mundana.
Nos embalos da nova República, o país navegava entre o arcaico e o novo, entre a persistência do provincianismo e a sofreguidão da modernidade. O sociólogo Gilberto Freire (1959) registrou algumas dessas possíveis mudanças de hábitos (ao se referir algumas práticas antes não experimentadas no cotidiano do brasileiro) que marcavam esse momento de transição, como a substituição da latrina de barril pelo water closed, o desaparecimento das escarradeiras usadas nas salas de visita, o começo do telefone e do telégrafo, o aparador, a emulsão de scott, as regatas e os meetings, o surgimento de clubes elegantes e esportivos, a substituição das botinas por sapatos, desenvolvimento do volley-ball e do basket-ball, foot- ball, substituição do entrudo pelo carnaval com serpentina, confete, uso dos pijamas em vez das camisas de dormir, a valsa, (FREIRE, 1962). Dentre essas diversas mudanças encontra-se a redefinição do papel da mulher, pois diante do declínio do patriarcado como instituição dominante, surgiram novos valores urbano-industriais que incidiram numa valorização de estilo de vida regrada numa maior participação do indivíduo na sociedade e o usufruto de novos bens culturais e tecnológicos que primavam por mudanças nos costumes e hábitos rotineiros dos indivíduos. Passaram a ser exaltados também a consagração dos novos princípios republicanos (liberdade de culto, separação Estado – Igreja), que, no geral, eram mudanças que vislumbravam grandes redefinições macro-estruturais no quadro social e cultural do país daquele tempo. Na visão de Ferreira (1993, p. 315):
Entre os anos 20 e 30, a nossa modernidade cheirava a gasolina, brilhava à luz elétrica, tinha a cor cinzenta da fumaça industrial e seu emblema eram as altas chaminés das fábricas. Num país rural, doentio e sonolento, a modernidade emergente apontava para novos tempos e novos hábitos,
mudanças rápidas, estilo de vida mais cosmopolita, apreciador da riqueza e do progresso. Progresso que para muitos, entre artistas, urbanistas e sanitaristas, empresários e assalariados, militares e intelectuais – à direita e à esquerda – passava pela intervenção decisiva do Estado, como agente dinamizador das reformas econômicas e sociais.
Nesse contexto, ganharam destaque no país às instituições de ensino religioso, as chamadas Ordens religiosas que congregavam sob sua direção, padres e freiras. A Escola Doméstica de Natal, apesar de sua administração não ser presidida por religiosos (as), nem tampouco pelo Estado, mas, por intelectuais, poetas, políticos, através da LERN, apresentou alguns pré-requisitos de formação que a tornou depositária da confiança de pais de família que matricularam as suas filhas no sistema de internato.
Quando matriculada na instituição, a aluna deveria adaptar-se a um estilo de vida ritmado pela disciplina e obediência. A vida das alunas internas no interior da escola tinha um ritmo marcado pelos dias e pelas sinetas de horários de acordar, assistir aula, fazer refeições, receber visitas, orar, dormir. O tempo das alunas era meticulosamente medido e racionalizado, dividido entre o tempo de despertar, de estudar, de cumprir tarefas e o tempo de recolher-se aos seus aposentos.
A Escola dispôs de um Regulamento próprio (o qual abordaremos no capítulo IV) elaborado pela Liga de Ensino do RN e nele estavam prescritas as normas internas de organização e funcionamento da instituição, bem como as condições de admissão das alunas. O Regimento Interno, além de conter normas e regras a seguir por parte das alunas, professoras e diretora, trazia no seu corpus uma rígida orientação sobre o uso racional do tempo escolar, de forma que não houvesse desperdício de tempo ou ociosidade entre um horário e outro, como evidencia o quadro de horário a seguir:
QUADRO 4