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Belgede Ortadoğu Araştırmaları Merkezi (sayfa 146-153)

A partir da perspectiva desenvolvida, trazemos as teorizações de Pierre Bourdieu (1987, pp. 34-57), sobre a relação das sociedades complexas com o grau de hierarquização de uma dada religião que se dá por meio da divisão do trabalho religioso. Segundo

Bourdieu, à medida que uma sociedade mantém relações mais complexas, como a divisão social do trabalho e a divisão do trabalho intelectual, há, no campo religioso, uma desapropriação da produção religiosa das mãos dos leigos passando para o controle de um corpo especializado, o clero. O processo, acima de tudo, acompanha o tipo de sociedade na qual está inserida a religião.

Ora, se o campo religioso complexibiliza-se com a sociedade, o culto sofre o mesmo processo. Novamente nos deparamos com a doutrina e a práxis cúltica. Ambas, na realidade, passam pela sistematização e são desapropriadas das mãos dos leigos. A sistematização teológica é acompanhada pela sistematização cúltica e vice-versa. Nessa hierarquização do campo religioso, as funções são pré-determinadas, e exigem-se requisitos para exercícios religiosos específicos. Na grande maioria, os exercícios religiosos são empreendidos no culto. Nisto, a complexibilidade dos ritos legitima um grupo especialmente treinado para executá-los: trata-se dos especialistas da religião, ou seja, a criação de um corpo de especialistas religiosos que está diretamente relacionada à divisão do trabalho religioso e ao exercício da autoridade religiosa. Este grupo é formado pelos clérigos em distinção ao grupo dos leigos.

A religião é produtora de um enorme contingente de bens intangíveis e tangíveis, que podem ser objetivamente analisados, tais como liturgia, símbolos, vestes, discursos, teologias, e no caso que estudamos, a música cúltica. Ao colocarmos a religião dentro dessa perspectiva teórica, confrontamo-nos diretamente com a inclusão de categorias analíticas tais como “interesse religioso”, “trabalho religioso”, “produção religiosa”, “produto religioso” e “consumo religioso”. De imediato, relacionamos estes termos com concepções mercadológicas – e, de fato, estão. Assim, a teorização sociológica abre-se numa discussão bem mais ampla que pode inverter a posição da própria religião e colocá-la como produto e não produtora. De fato, ela pode ser considerada como um produto, mas isso não lhe tira o caráter de campo social produtor de bens simbólicos. Dentro desse contexto, segundo Bourdieu (1987) e Otto Maduro (1983) há um ponto crucial em todo o processo da produção religiosa: o produto religioso tem de ser efetivamente consumido para que a ideologia religiosa seja propagada. Isso significa afirmar que a cosmovisão produzida pelos especialistas/clérigos, de acordo com a ideologia religiosa, precisa ser recebida e incorporada pelos leigos. É a esta situação que denominamos consumo religioso. Para que se efetue o consumo religioso, é necessário,

porém, existir uma relação entre a procura religiosa – ligada aos leigos – e a oferta religiosa – relacionada ao produto oferecido pelo clero.

Desse modo, o corpo clerical encontra-se em uma posição de constante ajuste da produção religiosa, delimitado de modo a não descaracterizar a ideologia religiosa da organização. O corpo clerical precisa observar as demandas dos leigos e adaptá-las, à medida do possível, às concepções doutrinárias da organização. Há, nisso, um mecanismo que assegura a sobrevivência do grupo religioso, o que significa manter os adeptos vinculados à igreja. Para tal, é necessário que se proporcione o mínimo de satisfação religiosa, que nunca ocorre de forma total e sim apenas parcial, visto as sub- divisões que existem tanto no grupo de leigos, como no clero.

Um pressuposto institucional básico para a ocorrência do consumo é que o produto seja exposto, e que tal exposição seja garantida pela instituição e esteja totalmente sob o seu controle. Nota-se, então, a necessidade de se criar mecanismos que garantam a produção, reprodução e difusão dos bens religiosos. Por meio dessas instâncias, os bens religiosos encontram uma legitimidade sobrenatural, e gera-se o tabu da contaminação, que proíbe o consumo daquilo que não foi resultado da produção religiosa institucional. Estas instâncias encontram seu grau de equivalência à sistematização da ideologia religiosa e podem ser organizadas de diferentes formas.

No cristianismo, as escolas teológicas, as famílias litúrgicas medievais e o culto são exemplos de instâncias de produção, reprodução e divulgação dos bens religiosos e, portanto, da música cúltica. No caso das duas primeiras, trata-se de genuínos espaços de ensino, o local do saber teológico que legitimará a distinção entre leigos e clérigos. Nestes locais, a ideologia religiosa é ensinada de modo a formar o que Bourdieu (1983) chamou de capital simbólico. O conhecimento separa os que detêm o capital simbólico e são treinados e constantemente aperfeiçoados para inculcar nos le igos a cosmovisão institucional. Contudo, embora os locais de ensino formem especialistas da religião, também podem fazer surgir novos bens religiosos que se imponha m no próprio corpo clerical, o que está relacionado com os interesses diferenciados que podem existir nos subgrupos do clero.

Enquanto os locais de ensino são praticamente exclusivos ao clero e, portanto, de primazia da produção e reprodução religiosas, é no espaço do culto que o consumo

religioso é realizado pelo leigo na maneira mais pura de controle institucional. No culto, são reproduzidos os discursos teológicos, os símbolos, os sacramentos e as diversas formas de expressão prática da vida religiosa como cânticos, orações, intercessões e unções. É nesse terreno que o grupo de leigos consome, por meio da aceitação passiva das práticas litúrgicas, a ideologia religiosa. É nesse espaço, portanto, que o clérigo (sacerdote) tem de manter habilmente a satisfação religiosa dos leigos sem prejudicar a ideologia religiosa da instituição.

Acontece que o culto também é local de produção religiosa, e isso se deve à sua dialética com a doutrina. Podemos facilmente presumir que a leve subordinação do culto à doutrina encontre explicação na categoria de reprodução religiosa. Esse processo é relativamente fácil de ser verificado. Porém, como o culto não está totalmente submisso à doutrina, surge uma tensão entre as práticas cúlticas e as expressões doutrinárias. Existe até mesmo a possibilidade de que a prática cúltica seja desviante da doutrina. Tal situação pode ser exemplificada a partir dos estudos de Mendonça, que, na obra O Celeste Porvir (1995), mostrou a diferença entre a teologia oficial e a teologia cantada do protestant ismo brasileiro.

Resumidamente, o culto é local da produção e reprodução religiosa que se realiza por meio de um trabalho religioso baseado no monopólio clerical com a finalidade de manutenção da instituição religiosa e satisfação parcial dos leigos. No culto, estes são a ameaça mais latente ao monopólio da produção religiosa por parte dos especialistas, pois, por motivos de insatisfação religiosa, podem subverter a ordem organizacional e fazer uso do trabalho religioso, produzindo, com relativa autonomia, bens religiosos cúlticos que lhe sejam mais agradáveis e com maior eficiência simbólica. Tal questão está intimamente ligada às demandas sócio-culturais dos leigos e ao tipo de organização clerical especializada para o culto.

Esta teorização de Bourdieu permite uma aproximação com a atual dinâmica da produção musical cúltica do presbiterianismo brasileiro. O bem religioso musical cúltico, foi produzido por um grupo de especialistas, que no caso do presbiterianismo não está limitado apenas ao clero, como veremos adiante, é e reproduzido no culto. Acontece, porém, que ao que tudo indica esse bem não está mais ajustado aos novos interesses religiosos dos leigos. Além disso, o culto presbiteriano no Brasil dispõe de uma fraca organização clerical especializada em culto. Tais condições, tanto internas ao

culto, quanto externas, em termos de mudanças de interesses religiosos por parte do leigo, colocaram o presbiterianismo em uma situação muito difícil em relação ao culto. A partir das discussões de Bourdieu, é que a análise do culto presbiteriano brasileiro deve ser realizada considerando-se a dinâmica da produção religiosa, os novos interesses dos leigos e a manutenção de uma parcial satisfação religiosa destes. Ora, o pressuposto dessa análise é que os interesses dos leigos podem mudar e por causa disso, o conflito entre oferta e consumo se realiza.

Essa proposta analítica nos leva para fora do campo religioso, porque os interesses religiosos dos leigos se transformam devido às suas interações e vivências em outros campos sociais. Portanto, o que acontece em outros campos pode interferir na demanda religiosa. Se isso acontece é porque a religião é mais um campo social doador de sentido e não o único. É por isso que ela, inclusive, necessita dispor de bens simbólicos que sejam eficientes para satisfazer o grupo de leigos e nisso ela disputa com outros campos e com ela mesma. Essa situação se faz pela condição de pluralismo religioso, que segundo Berger é o resultado do processo de secularização pelo qual passou a sociedade.

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