Em primeiro lugar, cabe uma discussão sobre o que chamamos de agente musical. Ele é qualquer indivíduo, independente do grau de especialização, que opera alguma ação musical durante o culto. Esse tipo de serviço é tipicamente religioso. Ou seja, um músico protestante pode desempenhar sua função profissional e não ser um agente musical. Nesse caso, ele trabalharia secularmente com música, mas não desenvolveria nenhuma atividade cúltica nesse sentido. Por outro lado, um indivíduo não-profissional na área pode, geralmente por condições inatas, desenvolver uma atividade musical no culto, sendo caracterizado, assim, como agente musical. Embora a distinção pareça sem efeito, traz a delimitação espacial cúltica da atividade musical.
O culto medieval do catolicismo tinha criado uma especificação clerical que era a de músico. Os clérigos músicos detinham o monopólio da produção musical. O clero era de fato quem detinha o capital e produzia os mais variados bens religiosos, inclusive a música. Acontece que o protestantismo não se preocupou com a formação de clérigos especializados em música. Sua preocupação inicial foi essencialmente teológica, e essa foi a única preparação e formação dos ministros protestantes. Assim, a separação entre leigos e clero ocorreu, no protestantismo, pela distinção do versado em teologia, o pastor, a partir do acréscimo de conhecimento teológico, ou seja, do acúmulo de conhecimento de um lado e da ignorância leiga de outro. Esse conhecimento teológico do clérigo protestante permitia-lhe – e ainda permite – dizer que tipo de produção musical era adequada ao culto. Em outras palavras, o teólogo determinava o que era música litúrgica e, de forma geral, sua concepção teológica interferia na produção. Sabemos, entretanto, que a produção musical é, acima de tudo, produção cultural, e, por tal motivo, é impossível não existir ligação de culturas musicais locais com o que é produzido para o culto. Quando Gregório Magno quis criar uma música para o culto, usou toda a concepção da época de resgate das idéias filosóficas gregas, as quais eram
colocadas sobre o ápice do saber. Assim, o canto-chão representava, na música da igreja, o fascínio pela cultura grega. De igual modo, a história da música mostra o desenvolvimento incrível de formas religiosas e seculares que se mesclavam continuamente durante toda a Idade Média até a Renascença. Isso tudo quer dizer que, de acordo com as teologias e as regiões, a música religiosa ganhava contornos específicos. Mais ainda, isso quer dizer que, de acordo com o pensamento teológico sobre determinada cultura local, é que a produção se realizava.
Com a Reforma, não foi diferente, e a esse fato deve-se somar a atitude anticatólica, que rejeitava as formas musicais eruditas produzidas para a missa. O anti-catolicismo tinha timbres diferentes, como já vimos, e nisso se inclui mais uma variável às possibilidades de produção. De fato, por uma série de fatores, a música ganhou no protestantismo uma gama de variações locais e denominacionais. No entanto, independentemente das circunstâncias, era uma produção que dependia da ação leiga.
Desse modo, o que se viu formar na área musical do protestantismo foi que, embora o teólogo tivesse a legitimação de dizer o que deveria ser produzido, não era especialista musical e precisava da ação de um agente externo ao círculo de produtores. Sem dúvida, essa situação não acontecia em todos os casos, sendo o maior exemplo o do próprio Lutero, compositor de vários hinos alemães conhecidos até hoje. Mas, tal fato, acontecia com a maioria das liturgias protestantes, e, dessa forma, embora o protestantismo tivesse tido uma preocupação até mesmo rígida com a questão da música, em alguns casos o seu clero não era preparado para dar conta de tal produção.
No início do século 16, isso não pareceu problemático, mas os desenvolvimentos posteriores mostraram que essa situação foi cara ao culto protestante. Os primeiros reformadores e as principais igrejas locais contavam com músicos gabaritados e de alta qualidade para produzirem o que era pedido. O problema foi com a continuidade dessa tradição de qualidade, quando o protestantismo saiu do continente europeu. Se a escassez de pastores já contribuía negativamente para o desenvolvimento do culto, a ausência de músicos era ainda maior e provocou danos nocivos à liturgia.
Não há como detectar um motivo para a não-formação musical para o clero protestante. Isso pode parecer positivo, uma vez que coloca a participação leiga como efetiva para que o culto aconteça. E de fato, isso acontece de certo modo não só com a produção,
mas também e principalmente com a reprodução musical nos cultos, realizada na maioria das vezes pela congregação. Porém, no âmbito da produção musical litúrgica, há muitas restrições à participação do leigo. Este é o executor e não o produtor. Para que a produção ocorra de acordo com a vontade do clero, que determina os limites estéticos mesmo sem dominá-los, o agente musical leigo tem de estar com o habitus litúrgico totalmente incorporado. Caso contrário, haverá um tipo de resistência às características típicas dos grupos distintos, clero e leigos. Essa é uma contradição interna à produção musical cúltica do protestantismo.
Não temos como mostrar o que essa situação causou e tem causado no protestantismo europeu. Talvez lá, por questões teológicas e principalmente culturais, a participação leiga seja totalmente harmonizada com o tipo de produção formatada pelo clero. Paralelamente à produção musical católica, que no século 16 baseava-se essencialmente no Canto Gregoriano e na Polifonia Vocal, o protestantismo europeu, libertando-se dos princípios pedagógicos de Lutero e Calvino, produziu formas musicais consagradas pela história como corais, motetos, missas, cantatas, paixões, oratórios, salmos, hinos e antífonas.
Contudo, mesmo o protestantismo tendo esse legado musical na história que por diversos momentos, inclusive, ditou tendências estéticas, seus exímios produtores não eram especialistas cúlticos. Basicamente, os músicos protestantes eram reconhecidos pela técnica no meio secular e aproveitados para a produção religiosa. O queremos enfatizar não é a produção musical em si, mas o sentido inverso que o processo de produção religiosa assume nessa área. No protestantismo, a produção musical religiosa saiu das mãos dos clérigos e passou a depender do trabalho religioso leigo. Trata-se, portanto, de um terreno onde as possibilidades de tensões e insatisfações tornaram-se maiores.
De qualquer forma, não temos a intenção de pontuar lutas específicas, mas mostrar a contradição nesta área do culto que, dependendo de condições internas e externas ao campo, pode resultar em grandes tensões. Por enquanto, levantamos apenas uma questão dessa tensão, procurando detectar sua gênese estrutural.
Os diferentes modelos cúlticos utilizaram-se de estilos musicais que, como nos modelos, influenciavam-se mutuamente. Neste trabalho, abordaremos duas grandes
concepções musicais protestantes, a hinódia e a salmódia, porque ambas influenciaram a produção musical norte-americana e, posteriormente, a brasileira. O anglicanismo é um caso à parte, que, com certeza, mereceria destaque, mas infelizmente não temos como fazer uma explanação desse caso específico19. As duas tradições aqui esboçadas foram responsáveis por quase todos os desdobramentos musicais posteriores do protestantismo tanto no aspecto de concepções quanto em estilos musicais.