O metodismo, este novo caminho.710
John Wesley A união, que eu desejo, entre as pessoas que eu mencionei, é uma união inteira do coração, desafiando-as a trabalhar como se fossem um, ao espalhar a religião vital através da nação.
Mas para isso nem tenho mais esperança, mesmo que saiba que alguns acham isso louvável de coração. A unidade que eu proponho é de um nível mais simples:
eu proponho que eles deveriam amar como irmãos e se comportar como tais.711
John Wesley
“Amigos de todos e inimigos de ninguém” era uma orientação pragmática numa reali- dade conflitante. O interesse de Wesley em Jonathan Edwards, as diversas ramificações do pi- etismo alemão, as suas tentativas de estabelecer uma aliança com outros grupos do avivamen- to da época, como o metodismo calvinista do País de Gales (Howell Harris (1714-1773), a conexão da condessa Huntingdon (1707-1791), George Whitefield (1714-1770), e um número de anglicanos com paróquias avivadas como o arminiano John William Fletcher (1729-1785)) e o calvinista John Berridige (1716-1793) mostram o interesse de Wesley em alianças funcio- nais. À condessa Huntingdon, Wesley dedicou uma coletânea de poemas (1744)712, a prega- ção do funeral de George Whitefield foi integrada nos Standard Sermons713 como pregação
número 53, Fletcher, anteriormente designado como seu sucessor (apesar de não ter participa- do na conexão metodista como pregador itinerante!), foi apresentado por Wesley postuma- mente como “o” cristão modelo da Grã-Bretanha.714 Rack lembra que o modelo de crescimen- to do movimento não era tanto uma forma de expansão missionária que parte de um ponto,
710 AMJW, vol. 4, fev. 1781, p. 83 - John WESLEY. An account of Mr. C. Hopper: “Methodism this new way.” 711 JJW, vol. 12, 1770, p. 250 carta [n. 212] para ?: “The union which I desire among the persons I mentioned is an entire union of heart, constraining them to labour together as one man, in spreading vital religion through the nation. But this I do not hope for, though I know a few who would cordially rejoice therein. The union which I proposed is of a lower kind: I proposed that they should love as brethren, and behave as such.”
712 John WESLEY. A Collection of moral and sacred poems from the most celebrated English authors, 3 vol., 1744. Era um dos livros de texto na escola de Kingswood.
713 WJW, vol. 2, 18. nov. 1770, p. 330-347 – sermão 53 [A sermon on the death of the rev. Mr. George White- field].
714 WJW, vol. 3, 24. out. 1785, p. 610-629 – sermão 114 [A sermon preached on occasion of the death of the Rev. Mr. John Fletcher, Vicar of Madely, Shropshire]; John WESLEY. A short account of the life and death of
mas de contínua integração de grupos e trabalhos iniciados por um grupo bastante heterogê- neo de pregadores. 715 De fato, o metodismo nascente parecia mais um patchwork e o papel de John Wesley era o de um costureiro e, depois, de contínua supervisão. Isso explica expressões como “As sociedades religiosas em conexão com os irmãos Wesley”. Por causa disso projetou no Arminian Magazine em cada edição “...um resumo de uma pessoa santa, seja ela luterana, da Igreja da Inglaterra, calvinista ou arminiana.”716
Esta conexão em diversidade precisava de um centro, de uma identidade. Uma forma de projetar o metodismo como parte de um movimento em nível nacional foi a disponibiliza- ção para o povo metodista de textos chaves de outros representantes do movimento de aviva- mento, mas, também de grupos, como os latitudinaristas, através de edições particulares ou pela integração na Biblioteca Cristã e no Arminian Magazine.
As sociedades do povo chamado metodista fizeram, então, parte de um sistema maior de grupos distintos. Esses grupos e seus representantes compreenderam-se como promotores de um avivamento evangélico (Evangelical Revival, Inglaterra) ou de um revivalismo (reviva-
lism, colônias britânicas na América do Norte). Eles formavam um movimento que transcen-
dia cada grupo particular, e mesmo que o movimento nunca fosse organizacionalmente unido, mantinha-se uma rede de contatos nacionais e internacionais mediante correspondências con- tínuas entre seus líderes e viagens ocasionais. Na sua essência, os conceitos de avivamento e de revivalismo refletem uma maior preocupação com uma teologia da vida, sua transformação e ênfase na práxis, do que na defesa confessional ou organizacional da igreja. Houve uma fo r- te tentativa de criação de uma identidade funcional e tão universal quanto possível, em vez de organizacional, com ênfase na distinção dos diversos grupos – mesmo que questões confes- sionais continuassem a provocar tensões e acusações. Apesar disso, as sociedades metodistas distinguiram-se dos outros grupos religiosos principalmente pela abertura a pessoas de outras igrejas, sem, necessariamente insistir na desvinculação de sua igreja de origem:
Há algo novo nesse mundo. Essa é a glória particular do povo chamado me- todista. Apesar de tantas formas de tentação, eles não se separaram da Igreja da Inglaterra. [...] Mas um fato é bastante específico, isto é, em relação às condições segundo as quais uma pessoa é admitida nas suas sociedades. Quanto à admissão, nenhuma opinião é imposta. [...] Deixe-os ser pessoas da Igreja da Inglaterra, dissidentes, presbiterianos ou independentes [...] Deixe-os escolher um ou outro modo de batismo, não é um obstáculo. Eles
715 Henry D. RACK, Reasonable enthusiast: John Wesley and the rise of Methodism. London: Epworth Press, 1992, p. 183-250. Veja o capítulo “`A new species of Puritanism´: The emerging and rise of Methodism (1738- 1751)”.
pensam, e deixe-os pensar. Uma condição, uma só, é requerida, um desejo real de salvar suas almas.717
Esta abertura, nem sempre aplaudida pelo próprio Wesley – finalmente ele responsabi- lizou os membros de comunidades não-conformistas como os responsáveis pela crescente tendência em favor de uma separação da Igreja da Inglaterra, pela separação – somente era possível pelo caráter de associação livre das sociedades metodistas. Esta abertura em comb i- nação com o talento administrativo de John Wesley e sua freqüente presença, ou pela sua a- brangente correspondência ou no sentido literal da palavra durante as suas visitações às socie- dades religiosas, criou e transformou o patchwork num só tecido.
Para conseguir isso, a linha doutrinária era importante. Um de seus lemas era “Pensar e deixar pensar”, e tem seu paralelo no uso do conceito “opiniões” teológicas. O método en- contra-se em Philipp Melanchton, Georg Cassander e Richard Hooker, Episcopius – o defen- sor da teologia arminiana – e os platonistas de Cambridge e aproxima Wesley aos netos deles, os Latitudinaristas, mas assume em Wesley uma outra dimensão: sua primeira preocupação não é a integridade da instituição eclesiástica, mas a possibilidade de, mediante essa abertura, juntar esforços diante do grande sofrimento do povo.718 A busca de aproximação máxima não vem de um liberalismo racional e abstrato, mas de um evangelismo comprometido com a pro- cura de sua maior eficácia. Além da herança anglicana, Wesley preservava ainda a memória da tentativa do governo puritano de fixar, em 1553, 17 doutrinas como fundamentais. Wesley comentou isso no sermão 55:
...precisamos deduzir que haja dez mil erros que possam compor-se com uma religião autêntica; em relação aos quais cada ser humano sincero e a- tencioso irá pensar e deixar pensar. Mas há algumas verdades que são mais importantes do que as outras. [...] Não as denomino verdades fundamentais, porque se trata de uma palavra ambígua, e porque houve tantas controvér- sias quentes sobre o número dos “fundamentos”.719
717 WJW, vol. 9, 13 jul. 1788, p. 536-537 – Thoughts upon a late phenomenon, Nottingham, §7 e 9. “7. This is a new thing in the world: This is the peculiar glory of the people called Methodists. In spite of all manner of temp- tations, they will not separate from the Church. […] 9. One circumstance more is quite peculiar […] that is, the terms upon which any person may be admitted into their society. They do not impose, in order to their admis- sion, any opinions whatever. Let them hold particular or general redemption, absolute or conditional decrees; let them be Churchmen or Dissenters, Presbyterians or Independents. […]. Let them choose one mode of baptism or another, it is no bar to their admission. […] They think, and let think. One condition, and one only, is required, – a real desire to save their soul.”
718 Pelas referências confere Howe Octavius THOMAS, Jr. John Wesley’s awareness and application of the method of distinguishing between theological essentials and theological opinions. Methodist History, vol. 26, n. 2, jan. 1988, p. 84-97.
719 WJW, vol. 2,1775, p. 376 – sermão 55, §2 [On Trinity];: “…we cannot but infer that there are ten thousand mistakes which may consist with real religion; with regard to which every candid, considerate man will think and let think. But there are some truths more important than others. […] I do not term them fundamental truths, because that is an ambiguous word, and hence there have been so many warm disputes about the number of 'fun-
O tema já aparece no sermão 7, O caminho para o Reino [de Deus] : “Religião não consiste em ortodoxia nem em opiniões certas”.720 No mesmo ano, 1742, Wesley afirma no
Caráter de um Metodista, no primeiro parágrafo que “Em relação a todas as doutrinas que não
atacam as raízes da cristandade, nós `pensamos e deixamos pensar´”.721 Esse lema é transver- sal nas obras de Wesley e aparece continuamente entre 1742 e 1790.722 É importante lembrar que ele se refere às doutrinas considerados não essenciais – para a salvação!