Embora o Novo Testamento não especifique as práticas litúrgicas do culto, há indícios de que o caráter democrático da sinagoga tenha sido uma realidade entre os primeiros cristãos. A ausênc ia de uma doutrina fixa fez com que a dialética das construções rituais e doutrinárias se estabelecesse de forma mais enfática no culto das primeiras eras do cristianismo. As reinterpretações religiosas deveriam ganhar novos ritos, que trouxessem novos significados. Dialeticamente, à medida que se intensificavam os ritos, a teologia era incorporada, de modo que o culto se tornara o local onde a nova doutrina se disseminava e enraizava.
É claro que a ausência de liturgia fixa estava relacionada com a posição na qual se encontrava o cristianismo dos primeiros séculos, de não ser ainda a religião institucional do império romano. Todavia, o próprio caráter racionalizante e subjetivo do cristianismo, observado nos evangelhos sinótico, encontra-se em oposição ao estabelecimento de liturgias muito fixas e, por conseqüência, à presença de um corpo
clerical altamente hierarquizado8. Nesse ponto, a dinâmica do culto cristão se faz paradoxal: a teologia cristã pressupõe o sacerdócio universal dos crentes, mas o exercício cúltico pressupõe a existência do sacerdote (Weber, 2000b, p.294). Eis uma contradição implícita na função sacerdotal no cristianismo que, embora legitimada pelo ofício cúltico, tem de abrir amplamente as participações dos leigos para que sua essência não seja perdida. Os processos de objetivação e a interiorização dos ritos são freqüentemente questionados pela racionalização implícita no exercício do culto cristão. Todavia é impossível existir culto sem um mínimo de objetivação e interiorização ritual e, em tempos específicos e por razões circunstanciais, as forças, leigas e clericais, operam de forma irregular, e a liturgia tende à extremos de objetivação ou subjetivação ritualístic as. Em ambos os extremos, o exercício sacerdotal se realiza, mas com condições bem distintas.
Por isso, os processos que envolveram os desdobramentos litúrgicos do culto cristão foram os mais diversos. Somente com um estudo detalhado da história deste culto é que conseguiríamos pontuar todas as mudanças e tendências litúrgicas que, a partir dos elementos básicos encontrados no Novo Testamento, estruturaram-se como prática cúltica. Infelizmente, não poderemos empreender tal estudo neste trabalho. Todavia, é importante atentarmos ao movimento de clericalização pelo qual passou o culto cristão, desde sua institucionalização com Constantino, sofrendo o processo de expropriação da produção religiosa dos leigos que, no século 15, já estava totalmente transferida para as mãos dos clérigos. A missa medieval, principalmente no modelo da Missa Maior9, significou o auge da clericalização da prática cúltica. Nas palavras de Maxwell (1963, p. 83) durante a Idade Média: “a missa se converteu cada vez mais em um espetáculo, no tempo que o rito era quase todo inaudível. A atenção (dos leigos) estava toda focada quase que exclusivamente na ação visível”. Segundo o autor, a prática das orações
8 Alguns livros do Novo Testamento indicam o que escrevemos. Em I Cor.14:26 a idéia de uma
democratização da prática cúltica é facilmente verificada na expressão do autor: “...um tem salmo, outro doutrina, este traz revelação....” . O sentido de sacerdócio enquanto grupo separado para o trabalho cúltico também é enfraquecido no livro de Hebreus, que difunde a concepção de “sacerdócio universal”.
9 A missa maior era o modo tipicamente pontificial da celebração eucarística. Era uma missa cantada,
celebrada por um bispo e assitida por vários clérigos, hierarquicamente diáconos, subdiáconos e servidores. Para a celebração era necessária a presença de cantores especializados para entoarem as partes dos corais. Na falta de especialistas cantores e ministros assitentes, celebrava-se a missa menor, na qual o celebrante detinha a maoria das funções, necessitando apenas de um ou dois assistentes. A missa menor era recitada e não cantada. As orações em ambas eram inaudíveis à congregação, sendo compreendidas apenas pelos clérigos.
sussurradas, a separação demarcada arquitetonicamente entre clérigos e leigos, os cantores que faziam o responso no lugar da congregação e a diferença entre uma missa pontifical e uma popular mostram o quanto a liturgia romana perdera o significado. Nesse processo de expropriação da produção cúltica dos leigos, o corpo clerical tornou- se cada vez mais especializado, distanciando-se e diferenciando-se do povo. Como um exemplo que nos interessa particularmente, citamos a música, que foi uma prática cúltica de extrema importância exercida por um tipo de especialista clerical que se desenvolveu prodigiosamente no culto cristão, o cantor10. Embora a música não tenha sido a única prática a tomar conta da complexidade litúrgica medieval, assinalamos que a produção musical litúrgica teve grande participação na alta especialização e complexidade litúrgica. Os clérigos músicos se tornaram altamente especilizados nessa arte e a produção musical cristã seguia normas de composições elaboradas e fixadas. Nisso o catolicismo mantinha toda a produção cúltica restrita ao grupo de sacerdotes de religião.
Em termos de constituição o culto cristão católico se baseou na centralidade eucarística e estrututalmente se dividia em duas partes: a liturgia da palavra e a liturgia da eucaristia, esta última somente para os já batizados. Se pensarmos nos princípios básicos do culto cristão a forma estrutural desse modelo parece equilibrada. Segundo Maxwell (1963, p.50) o grande problema do catolicismo, mais especificamente no ocidente, foi a complexibilização da liturgia da eucaristia a tal ponto que ela se tornou incompreendida pelo povo11. Em suma, o que houve, desde a institucionalização da religião cristã até o século 15, foi uma constante especialização dos processos produtivos e reprodutivos do culto cristão, de tal modo que a liturgia tornou-se somente para os clérigos, desvinvulnado-se do seu próprio sentido semântico.
10 Destacamos nesse contexto o início da clericalização musical com o papa Gregório Magno, que
inaugurou o sistema musical conhecido como “canto-chão” ou “canto-gregoriano”, especificamente para o culto. O canto chão tinha regras bem definidas e austeras e foi um marco na tradição cúltica do cristianismo.
11 Indicamos a leitura de William D.Maxwell (1963) para a compreensão do desenvovlimento litúrgico do
culto cristão. O autor, a partir de fontes documentais, traz exemplos de liturgias modificadas no decorrer da história, realizando uma análise comparativa entre elas, que permite verificar o que chamamos de desenvolvimento da complexibilidade litúrgica.
Todavia, o catolicis mo, altamente hierarquizado e com uma estrutura cúltica complexa, recebeu um embate profundo no início do século 16 com a Reforma Protestante12. As concepções teológicas dos reformadores não eram únicas, mas similares quanto à oposição que faziam à acentuada ignorância religiosa do povo. Por tal motivo, um dos marcos principais do Protestantismo foi a tradução da Bíblia em língua vernácula e a mudança da forma de realização do culto. O modelo cúltico do catolicismo era questionado principalmente pela exclusão do povo. Para este, em última instância, ir à missa era o que importava, porque não havia nela algo que fosse compreendido a não ser o próprio dever religioso de lá estar. Foi contra essa postura religiosa e, conseqüentemente cúltica, que se levantaram os reformadores. Em um sentido geral, mesmo tendo modelos diferentes, a Reforma marcou uma nova forma de culto: o culto entendido pelos fiéis. Acima de tudo, buscava-se a compreensão do que era o culto e o que representava cada ato desta cerimônia religiosa.
Mas, o pensamento protestante, que não se limitava a Lutero, buscava não só uma reforma do cristianismo, mas também uma ruptura com catolicismo e suas práticas religiosas, consideradas, pelos reformadores, como supersticiosas, hereges e malignas. De fato, não há como negar, que o culto cristão medieval assumiu uma forma puramente clerical em seu serviço, desconsiderando, por completo, o povo leigo que ia à missa. O que aconteceu foi que o protestantismo ao opor-se radicalmente ao modelo cúltico católico assumiu uma posição antilitúrgica, que resultou em um esvaziamento ritualístico de seu culto. Quase todos os ritos foram abandonados; elementos, expressões e locais foram substancialmente eliminados. Mesmo a eucaristia e o batismo, sacramentos mantidos pelo protestantismo, sofreram uma perda significativa de expressão simbólica na maioria das igrejas. Se o culto católico havia-se tornado um culto clerical, exacerbado em ritos distantes do povo, o protestantismo, por outro lado, teve consideráveis perdas cúlticas ao abandonar uma tradição ritualística.
12 Martinho Lutero (1483-1546) foi o grande personagem da Reforma Protestante. Ele foi um monge
agostiniano que se revoltou contra o abuso do clero católico, dentre outras coisas, ao pagamento de indulgências imputado ao povo. A luta de Lutero teve seu marco histórico quando ele fixou suas noventa e cinco teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, em 31 de outubro de 1517. O movimento ganhou adeptos por toda a Alemanha e contou com a força política e econômica dos príncipes, que desejavam a independência da Igreja Católica. Lutero, entretanto, não foi o único reformador de seu tempo. Na Suíça surgiram outros movimentos contra o papado, cujo pioneiro foi Ulrico Zwínglio (1484- 1531). Tais movimentos, cujos centros foram Alemanha e Suíça, propiciaram que a Reforma Protestante fosse difundida por toda a Europa, sendo o século 16 marcado pelas lutas e perseguições religiosas advindas do rompimento com a hegemonia católica. Igrejas protestantes surgiram por todo o continente europeu, divulgando a nova religiosidade cristã e difundindo seu ensino religioso.
Ao proceder desse modo, o protestantismo deslocou a centralidade do culto da eucaristia para a pregação da palavra, a prédica. Jean-Paul Willaime (2002, p. 46) afirmou que, no protestantismo, “a prédica foi colocada no centro do dispositivo pelo qual essa tradição religiosa leva a presença da divindade aos fiéis...”. James White (1997, p. 11), na mesma direção, declarou que a Reforma aboliu as partes da missa e, aos poucos, foi substituindo a centralidade litúrgica da eucaristia pela liturgia da palavra. De fato, mesmo contrariando o pensamento dos principais reformadores, Lutero e Calvino, a eucaristia, no culto protestante, perdeu a eficiência simbólica que sempre teve na história do culto cristão e, em casos específicos, foi colocada em segundo plano.
Entretanto, ao tornar-se tão radical contra seu oponente, o culto protestante acabou por fazer o que sempre contestou e tornou-se um script rígido que tolhia a liberdade e a criatividade litúrgica. A diferença básica entre os dois scripts de culto – o católico e o protestante – é que, no último, a rigidez se fazia pelo viés negativo da proibição: tudo que lembrava o culto católico era proibido. Do mesmo modo, mesmo se opondo a alta clericalização católica, os sacerdotes continuaram a existir distintamente dos leigos, no protestantismo. Os pastores-teólogos assumiam o novo formato do corpo clerical, que mantinha, como no catolicismo, o poder de determinar a produção religiosa.
Tudo o que rapidamente vimos até aqui foi um esboço bem geral da concepção protestante de culto. Mas, se essa era a idéia geral do protestantiso, não faremos justiça à história do culto protestante se, pelo menos, não esboçarmos alguns de seus principais modelos, que representam pensamentos de admiráveis teólogos da época. Infelizmente, não há como pontuar, mesmo que de forma breve, todas as liturgias ou modelos de culto que se instalaram pela Europa protestante. Por outro lado, não há como falar em apenas um modelo cúltico, porque todos tinham interferências que podiam resultar em incorporações ou abandonos de certas práticas. Por esse motivo nos empenhamos em fazer um breve resumo dos principais modelos cúlticos do protestantismo. Cabe, antes de expô-los, salientar que embora tenham sido motivados por posicionamentos teológicos, nem sempre foram resultado apenas dessa área. Condições peculiares como guerras, perseguições e política estiveram entrelaçadas, nos primórdios do protestantismo europeu, de forma que posições cúlticas nem sempre eram derivadas apenas de concepções teológicas.