Francês, Calvino teve contato com o protestantismo provavelmente por meio dos humanistas com quem estudava. Ele é considerado o maior sistematizador da teologia reformada, e a obra As Institutas é seu grande legado para as igrejas protestantes de todo o mundo. Conceitos teológicos e práxis encontram-se minuciosamente elaborados nesta coletânea, e mesmo aqueles que não são calvinistas reconhecem o valor acadêmico da obra.
A França vivia uma instabilidade político-religiosa muito grande na época de Calvino, e tal instabilidade, como mostra a história, foi responsável por muitas perseguições e guerras internas entre católicos e huguenotes – nome pelo qual eram chamados os protestantes do país. O monarca Francisco I tinha atitudes ambíguas em relação ao protestantismo na França, que crescia, independentemente disso, pelos diversos contatos feitos pelos franceses que saíam do país para estudar. A política oscilante de Francisco I fez com que muitos franceses se exilassem, e Calvino encontrou-se em tal situação no ano de 1534. Deixando na França, a caminho de Estrasburgo, passou por Genebra e lá se fixou por insistência do teólogo reformado Guilherme de Farel, que pediu sua ajuda para propagar a nova fé na cidade.
Após cinco anos em Genebra, Calvino saiu da cidade por desentendimentos com os burgueses locais e instalou-se em Estrasburgo, onde se deparou com um grupo de exilados franceses. Estes foram entregues aos seus cuidados pelo reformador que lá se encontrava, Martin Bucer. Foi ali que Calvino fez a segunda edição das Institutas, em 1539, produziu a primeira liturgia francesa e traduziu salmos e hinos para a sua língua natal. Em meados de 1941, Calvino, a pedido do governo, retornou para Genebra e, ao chegar lá, uma de suas primeiras ações foi redigir as “Ordenanças Eclesiásticas”, que, aprovadas pelo governo genebrino, estabelecia, dentre outras coisas, que o governo da Igreja ficaria nas mãos do Consistório, formado por cinco pastores e 12 leigos. Com isso Calvino instaurou uma nova forma de governo no protestantismo; o governo representativo composto igualmente por clero e leigos. Embora houvesse a possibilidade de uma democracia no Consistório, a influência e autoridade de Calvino eram grandes o suficiente para que este órgão aceitasse suas ordenanças sem questionamentos. O maior problema de Calvino eram os intermináveis conflitos do
Consistório com o governo de Genebra e com a ala da alta burguesia que questionava seus métodos e sua rigidez.
A grande luta de Calvino com os magistrados genebrinos estava diretamente relacionada com suas concepções teológicas do culto e referia-se à questão da eucaristia, que, para o reformador, era um momento que deveria estar presente em todo culto conforme o modelo da Igreja Primitiva. Calvino não obteve êxito em sua intenção e teve de se contentar – não sem conflitos – com a data fixada em apenas quatro domingos por ano para a realização da Ceia. Ainda assim, sua ênfase cúltica era mostrar a importância do sacrifício e da comunhão à igreja. Seu objetivo principal no culto era o retorno às práticas da Igreja Primitiva e a maior fidelidade ao modelo descrito no Novo Testamento.
Em Estrasburgo, local onde produziu a primeira liturgia, Calvino adaptou-se ao modelo já seguido pelos franceses que lá estavam; o modelo de Martins Bucer. Bucer tinha uma liturgia intermediária entre a de Lutero e a de Zwínglio. Até ser superintendente em Estrasburgo, no ano de 1530, havia, predominantemente, uma liturgia luterana na cidade. Entretanto, influenciado por Zwínglio, Bucer fez revisões radicais no modelo luterano.
Maxwell (1963, pp. 120, 121) indicou as principais mudanças realizadas por Bucer na missa luterana e mostrou-se crítico à maioria das revisões que, segundo ele, empobreceram a liturgia. As orações aumentaram, mas se tornaram didáticas pela busca da inteligibilidade e racionalidade no culto; desapareceu a maior parte das respostas da congregação, ficando praticamente apenas o amém; as músicas foram eliminadas, restando apenas o texto recitado em prosa e verso; todos os dias dos santos foram eliminados, e as vestimentas clericais foram abolidas. Tais mudanças tornaram o culto cansativo, extremamente didático e muito racional. Segundo Maxwell (1963, p. 123), o rito de 1539 de Bucer, intitulado Psalter mit alter Kirchenunbung, foi muito importante para a história das liturgias reformadas, porque dele “derivam os ritos e serviços calvinistas e escoceses”.
O modelo usado por Calvino em Estrasburgo foi ligeiramente simplificado e usado, depois, em Genebra, onde a prática cúltica anterior baseava-se no modelo de Farel, também influenciado pelo modelo zwingliano. No modelo proposto por Farel, o culto
tinha a finalidade quase única de ensinar a Palavra de Deus. Portanto, os dois modelos cúlticos de Calvino, o de Estrasburgo e o de Genebra, foram adaptações de cultos, cuja influência racionalista e didática de Zwínglio se fazia presente. Não é possível afirmar se Calvino aceitou e adaptou-se às condições do culto de Bucer e de Zwínglio ou se, de antemão, já concordava com esses modelos. Tendo Calvino respeitado as tendências regionais que encontrou, não podemos deixar de relacioná-las ao seu próprio pensamento, que, por certo, facilitou a adaptação dos modelos.
Ao verificarmos o que John Leith (1997, pp. 286-288) chamou de princípios básicos do pensamento de Calvino a respeito do culto, encontramos algumas semelhanças entre ele e o pensamento de Zwínglio. De acordo com Leith, são quatro os princípios do culto em Calvino: 1) integridade bíblica e teológica; 2) ênfase na inteligibilidade; 3) liturgia a serviço da edificação; 4) simplicidade litúrgica. O primeiro princípio pontuado por Leith parece-nos extremamente abrangente, mas, analisando-o com base em outros princípios, pode indicar uma rejeição a elementos que não são bíblicos. Desse modo, o pensamento de Calvino aproxima-se muito mais do pensamento de Zwínglio do que do de Lutero. Isso pode ficar mais nítido quando verificamos os princípios de inteligibilidade e simplicidade que, de modo muito especial, levam à discussão dos elementos estéticos do culto, como a beleza da música ou da arquitetura. Assim como em Zwínglio, tais elementos, para Calvino, seriam obstáculos à verdadeira adoração, que deveria ser pura e incontaminada por formas humanas.
A tendência zwingliana e calvinista de separar expressão humana e ação divina é notada em vários teólogos e estudiosos do culto. A conclusão de Leith sobre o culto de Calvino mostra a separação que o autor faz entre a expressão humana e o culto, provavelmente resultado da influência do pensamento calvinista. Leiht (1997, p. 286) escreveu: “Todo verdadeiro culto é modelado, não pelos desejos humanos, mas pela manifestação que Deus faz de si mesmo”. Esse tipo de concepção de culto, como atividade que não pode ser humana, tira-lhe todo o caráter expressivo, uma vez que expressão é ação humana, e, ao mesmo tempo, enfatiza a compreensão bíblica, já que a Palavra revelada é ato divino recebido pelo homem.
Esse é um ponto crucial no culto calvinista: nada da liturgia poderia desviar a atenção ou atrair os sentidos a não ser aquilo que Deus desejava fazer. Dessa maneira, Calvino fez inúmeras simplificações litúrgicas, despojou o culto de qualquer rito pomposo,
simplificou a música cantada tornando-a monofônica e não aceitou nenhum tipo de ostentação arquitetônica, como templos com entalhes artísticos ou ornamentados. O culto calvinista, partindo de seus pressupostos básicos, teve características muito fortes que o acompanharam em seu percurso.
A liturgia de Calvino primava pela centralidade da prédica. O reformador considerava os ministros como “sendo a boca de Deus” e o sermão como “sendo a palavra de Deus” (Leith, 1997, p. 198). A eucaristia exercia papel fundamental, mas, uma vez que os magistrados genebrinos não permitiram a realização da ceia em todos os cultos, Calvino não pôde realizar sua intenção litúrgica. Sobre esses dois elementos, Maxwell (1963, p. 139) escreveu:
Para Calvino os meios de graça eram dois e consistiam tanto na Palavra como nos sacramentos. O ministério era um ministério de palavra e dos sacramentos a tarefa e ofício de um ministro não consistia somente em predicar e instruir, mas também em celebrar todas as semanas a Ceia do Senhor e ensinar e instigar a congregação a comungar semanalmente.
Leith (1997, p. 302), a respeito da postura de Calvino em relação à eucaristia e à palavra, mostrou o quanto o reformador priorizava o elemento didático e racional do culto:
Calvino, entretanto, concordou com o culto de pregação, sem os sacramentos. Ele nunca teria concordado com os sacramentos sem que houvesse a pregação e o ensino. As palavras pronunciadas na pregação e no ensino eram necessárias para a inteligibilidade do culto e, particularmente, dos sacramentos. O caráter pessoal e responsável do culto tinha de ser mantido contra o elemento mágico que deixa de lado a decisão pessoal e a responsabilidade.
A influência de Calvino foi grande por toda a Europa. Maxwell (1963, p. 142) relatou que seu culto converteu-se em modelo para as igrejas calvinistas na França, Suíça, Alemanha do Sul, Holanda, Dinamarca e outros lugares. Embora existissem variantes locais todas as igrejas calvinistas européias seguiram a mesma família litúrgica