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Para Alcoba (2005), o esporte é um dos gêneros específicos mais solicitados pelos leitores, telespectadores e ouvintes. São milhares de páginas diárias dedicadas ao tema nos jornais e nas revistas, um sem número de notícias e opiniões publicadas em sites na internet e incontáveis horas de transmissões esportivas ou programas veiculados no rádio e na televisão. Enquanto área do jornalismo especializado, o jornalismo esportivo transcende fronteiras, uma vez que aborda um assunto compreensível a todas as mentalidades: é linguagem universal.

Quizá una de las principales causas de ese interés de clientes y receptores de la prensa, la radio, la televisión y (…) internet se deba a que los periodistas deportivos informan de un género especifico comprensible a todas las mentalidades a través de un lenguaje universal que todos entienden, producto del espíritu y filosofía del deporte, como fenómeno cultural más seguido y practicado desde comienzos del pasado siglo y que va en aumento en este68. (ALCOBA, 2005, p. 10).

O esporte é uma manifestação cultural democrática e de livre acesso. Por se destinar a todos os públicos ao mesmo tempo – e por estar situada no limite do entretenimento –, essa área do jornalismo especializado conta com uma espécie de “licença poética” para utilizar uma linguagem mais informal: tem-se, portanto, a quarta particularidade do jornalismo esportivo. Quanto mais as matérias, os programas e as transmissões soarem próximas ao telespectador, tanto melhor. No contexto apresentado anteriormente neste capítulo, referente à terceira fase do jornalismo esportivo, a opção pela linguagem informal marca uma mudança na posição do público – e do jornalista. Enquanto o telespectador passa a interagir ativamente com a cobertura, o profissional deixa de ser observador para se tornar participante dos eventos esportivos. Segundo Carvalho (in VILAS BOAS, 2005, p. 67), essa alteração não acontece sem traumas; pelo contrário, cobra o altíssimo preço do patrimônio maior do jornalismo.

O envolvimento profissional passou a ser muito mais intenso, o repórter passou a conviver com os atores (...) Essa vulnerabilidade exigia do profissional doses extras de equilíbrio, distanciamento e postura – numa palavra, ética – sob o risco de acusar reflexos em seu próprio discurso. (...) A vitória da seleção passou a ser “nossa vitória”, a medalha do judoca se transformou em “nosso ouro”. (...) o risco de um escorregão que comprometesse a credibilidade era enorme.

Para o autor, depois da morte do piloto Ayrton Senna, em 1º de maio de 1994, o jornalismo esportivo brasileiro nunca mais foi o mesmo. O acidente fatal diante das câmeras de televisão e o estado de perplexidade que se instalou no país permitiu a liberação do

68 “Talvez uma das principais causas desse interesse de clientes e receptores dos jornais, rádios, televisão e (...)

internet se deva ao fato de os jornalistas esportivos informarem sobre um gênero especifico que é compreensível a todas mentalidades por meio de uma linguagem universal que todos entendem, produto do espírito e da filosofia do esporte como fenômeno cultural mais seguido e praticado desde começos do século passado e que está em ascensão neste século” (tradução livre).

jornalista/protagonista. “Agora, era preciso chorar ou vibrar juntamente com o público. Na prática, virar um personagem também”, ressalta Carvalho (in VILAS BOAS, 2005, p. 69). De acordo com Alcoba, o jornalismo esportivo quebrou alguns tabus da linguagem jornalística.

El periodismo deportivo ha aportado un nuevo modelo de realización e explicación de los temas, que ha pasado como una apisonadora sobre las teorías de la seriedad informativa, al integrarse en el sentimiento de los aficionados, especialmente por dirigirse a clientes y receptores de los medios con un lenguaje visual y literario común y inteligible a todos69. (ALCOBA, 2005, p. 111).

A linguagem comum e compreensível a todos a que se refere o autor espanhol constitui a quinta particularidade do jornalismo esportivo: a universalidade. Afinal, como afirma Giradoux (apud ALCOBA, 2005, p. 26), “el deporte es el esperanto de todas las razas70”, na medida em que, por meio das regras do jogo, abismos culturais, econômicos e sociais se desfazem. “Si veintidós muchachos de veintidós países que hablan distintas lenguas,

pertenecen a razas diferentes y profesan religiones diversas se les da un balón y un árbitro, tienen muchas posibilidades de entenderse, jugar y divertirse71” (ECHEVARRÍA, 1976, apud

ALCOBA, 2005, p. 26). É nesse sentido que o esporte e a televisão se assemelham: ambos agem como pontes encurtando as diferenças. Um iletrado pode comentar com mais propriedade um gol da seleção brasileira (visto pela televisão) do que o maior dos intelectuais. Mais do que isso: os dois podem estabelecer um diálogo sobre o tema em nível de igualdade. Por isso, Intosh (apud ALCOBA, 1984, p. 224) afirma que “la prensa deportiva no puede

solucionar todos los problemas del mundo, ni siquiera los del deporte, pero llega al alcance de más gente en más países que cualquier otro grupo profesional72”. E o autor ainda vai além: “(…) a través de la pericia profesional y de la consciencia social, la prensa deportiva

es capaz de aumentar enormemente la cantidad de buena voluntad y felicidad en el mundo73”.

69“O jornalismo esportivo implantou um novo modelo de realização das matérias que suplantou as teorias da

seriedade informativa ao integrar o profissional ao sentimento dos torcedores e, especialmente, ao dirigir-se aos clientes e receptores dos meios com uma linguagem visual e literária compreensível a todos” (tradução livre).

70 “O esporte é o esperanto de todas as raças” (tradução livre).

71 “Se damos uma bola e um árbitro para vinte e dois homens de vinte e dois países que falam idiomas distintos,

pertencem a raças diferentes e professam religiões diversas, eles tem muitas possibilidades de se entender, jogar e se divertir” (tradução livre).

72 “A imprensa esportiva não pode solucionar todos os problemas do mundo, nem sequer os problemas do

esporte, mas chega ao alcance de mais gente e em mais países do que qualquer outro grupo profissional” (tradução livre).

73 “Através da perícia profissional e da consciência social, a imprensa esportiva é capaz de aumentar