Assim como o jornalista de outras editorias, o profissional que trabalha na cobertura esportiva deve ser capaz de eleger, entre inúmeros acontecimentos, aqueles que serão noticiados. Também precisa dominar as técnicas de apuração, redação e apresentação das informações, além de estar familiarizado com o universo no qual irá atuar. Em outras palavras, o jornalista especializado nessa área precisa entender de esporte. Mais do que isso: é fundamental que o profissional compreenda o contexto em que as modalidades se desenvolvem. “Além de conhecer as regras e os regulamentos de cada esporte, o jornalista precisa inteirar-se de uma série de fatos que, por serem infringidos ou esquecidos, podem constituir base para um bom noticiário”, ressalta Erbolato (1981, p. 13). Para o autor, entre esses fatos estão, por exemplo, a obrigatoriedade da divulgação de balanços financeiros, a repressão ao doping, o funcionamento da Justiça Desportiva e as condições dos estádios.
A notícia esportiva, portanto, não deve – ou não deveria – ficar restrita à publicação dos resultados dos principais campeonatos. Ela pode – e precisa – ir além, como afirma Coelho.
É possível fazer uma brilhante matéria de economia falando de futebol. A crise do Flamengo, incapaz de saldar dívidas e de manter seu orçamento no azul há mais de dez anos, pode render peça jornalística primorosa e repleta de realidade sobre a administração dos clubes do país. A maneira como os campeonatos do Brasil são organizados, sempre levando em conta algum acordo político (...), poderia valer um prêmio Esso de cobertura política. (COELHO, 2008, p. 22-23).
A possibilidade de amplitude da cobertura67 é a segunda particularidade do jornalismo esportivo e está intimamente relacionada, conforme Erbolato, à visão de notícia adotada pelos veículos de comunicação. “Aplicando-se as regras gerais sobre entrevista, reportagem, redação e diagramação, pode uma seção esportiva abordar aspectos variadíssimos, dependendo da orientação da editoria e da produção” (ERBOLATO, 1981, p. 14). Assim, a opção pelo enquadramento da notícia no campo do jornalismo esportivo varia de acordo com
66“É evidente que não estamos carregando as tintas de maneira exclusiva sobre o futebol; ele é apenas um
elemento a mais da espetacularização dos meios na atualidade” (tradução livre).
67 Essa possibilidade, na maioria das vezes, não é colocada em prática; Alcoba (1984) ressalta que 90% do
o meio em que os acontecimentos são propagados – rádio, televisão, jornal ou internet – e, principalmente, conforme a linha editorial dos veículos. O noticiário pode, dessa forma, se restringir aos resultados dos principais campeonatos de futebol ou, então, abranger acontecimentos de outros esportes, bem como seus aspectos sociais, econômicos e culturais.
Nesse sentido, tem-se a terceira particularidade do campo do jornalismo esportivo, percebida principalmente na televisão: a supremacia da lógica comercial sobre os critérios jornalísticos. Na escolha do que será noticiado, o primeiro aspecto a ser observado são as notícias “da casa”, ou seja, o andamento dos campeonatos sobre os quais a emissora detém os direitos de transmissão. Trata-se de valorizar o produto e, acima de tudo, de promover o show; é o jornalismo esportivo a serviço da publicidade. “Não se pode falar mal de um espetáculo quanto o jogo é de doer os olhos e arriar as meias. É a lei número um do entretenimento esportivo em TV escancarada: vamos levantar a bola da transmissão” (BETING in VILAS BOAS, 2005, p. 24). Da mesma forma, um segundo critério não menos importante é o da audiência. É notícia o que os telespectadores desejam ver na tela, e não o que determinam os jornalistas por meio dos princípios técnicos e deontológicos da profissão.
É função básica da imprensa tornar interessantes os assuntos importantes. Como a tática de um jogo; como as jogadas de bastidores e as cartolices dos donos da bola. É chato, mas é preciso falar, criticar, questionar, procurar. Poucos veículos e ainda menos jornalistas conseguem entrar de sola nas questões de campo e extracampo. Os jargões “o público não se interessa”, “isso não dá Ibope”, “é assunto técnico e político e as pessoas só querem ver bola na rede” tiram o assunto da pauta, e o futebol, do sério. (BETING in VILAS BOAS, 2005, p. 17).
À lógica comercial que se impõe a partir dos índices de audiência também podem ser atribuídas outras duas características da notícia esportiva na televisão: a valorização da beleza física, muitas vezes por meio da erotização do noticiário, e a tentativa de transformar o jornalista em artista. Quanto ao primeiro aspecto, basta observar a presença da mulher na cobertura jornalística e enquanto personagem das matérias. “Na era do entretenimento acima de todas as coisas, o jornalismo esportivo (...) virou entretenimento esportivo. Na TV (...) aberta, então, mais importante que a câmera é quem vai estar em frente dela. Se loira de saias curtas e olhos claros, melhor” (BETING in VILAS BOAS, 2005, p. 24). Na apresentação dos programas esportivos, é frequente a presença de mulheres jovens e bonitas; não é difícil encontrar, inclusive, atrizes e modelos atuando nessa função. A beleza física é, pois, um dos grandes estereótipos da televisão. O que é belo é bom; o que não é tão bonito, por sua vez, é relacionado com algo ruim. Conforme Juan Ferrés (1998), esse princípio é aprendido por meio das histórias infantis: heróis e heroínas são jovens e belos; vilões são velhos e feios.
A segunda consequência direta do predomínio da lógica comercial no jornalismo esportivo é a tentativa de transformar o jornalista em artista. “Há quem considere que cobrir competições seja um trabalho artístico, age como artista e julga fazer parte do espetáculo, como se não existisse espetáculo sem ele”, ressaltam Barbeiro e Rangel (2006, p . 93). “Nada contra essa postura, desde que fique bem claro que isso não é jornalismo. É entretenimento”, completam os autores. De acordo com eles, a fronteira é clara: jornalista trabalha com os fatos, com a realidade, e tem a missão de levar ao público as informações sobre os eventos esportivos. O artista ganha a vida com a ficção e, ao contrário do profissional do jornalismo, pretende, com a sua arte, fazer rir e chorar. Devido às características próprias da televisão enquanto meio de comunicação, não raro essa fronteira se torna muito tênue. E o jornalista – especialmente o que atua na área esportiva – acredita que a sua principal missão não é informar, mas emocionar, tomando para si o papel que deveria ser desempenhado pelo artista. A cobertura alegre, descontraída, animada, não deveria nunca se confundir com programa humorístico. É um trabalho que é sério sem ser sisudo e respeita as regras do jornalismo como a acurácia [grifo nosso]. Não se faz
sensacionalismo usando notícias inverídicas, sem nenhuma confirmação, fruto apenas de especulação para construir falsos debates e eletrizar os torcedores. A busca constante da isenção põe jornalismo e teatro em campos opostos, ainda que ambos sejam importantes (...). (BARBEIRO e RANGEL, 2006, p. 94).
Há um agravante na transformação do jornalista em artista ou celebridade da televisão. Os atores não tem qualquer compromisso com a ética jornalística e por isso não existe nenhum dilema no fato de muitos deles estrelarem merchandisings ou publicidades testemunhais (BARBEIRO e RANGEL, 2006). O jornalista, por sua vez, tem compromisso com o interesse público; não pode – ou não poderia – ser contaminado pela lógica comercial. É em grande parte devido a essa terceira particularidade do jornalismo esportivo que, no início do século XXI, a própria legitimidade do profissional da área é colocada em xeque.
O jornalismo esportivo diário é, na realidade, um jornalismo de variedades, amenidades, cujo tema não é o esporte em si, mas os seus conglomerados e actantes (personagens) que compõem essa rede mercadológica. Não existe, no jornalismo factual, informação sobre os esportes, existe propaganda sobre o esporte, publicidade de marcas e logos, propaganda ideológica sobre os suas relações de poder. Sensacionalismo e merchandising. (...) É só construção de imagens. Imagem dos atletas, das grifes e patrocínios, imagens da torcida. (MESSA, 2005, p. 3). Nessa rotina de construção de imagens, o jornalismo esportivo de televisão se vale de dois aspectos principais na tentativa de cativar a audiência: a linguagem informal, mais próxima ao dia-a-dia do telespectador, e o fato de ser um tema universal, acessível a todos, independentemente do grau de escolaridade, do gênero, das condições financeiras e culturais.