2. CEPHECİLİK KAVRAMI, NEDENLERİ VE KORUMA BAĞLAMINDA
3.4. Kültürel Turizm Ölçütleri ve Cephecilik
O turismo se desenvolve de maneiras diferentes em lugares diferentes: o processo de transformação de um lugar em destino turístico depende dos seus aspectos internos e das forças externas envolvidas. Os atrativos são construídos socialmente, sejam “naturais” ou “artificiais”. A diferença reside, portanto, na orientação do desenvolvimento do turismo e nas peculiaridades locais, nas diferentes respostas locais a um processo mais geral de desenvolvimento do turismo.
Urry (1996) argumenta que o caráter do olhar é fundamental para o turismo. Olhar, no sentido usado pelo autor, não significa apenas ver, mas sim uma maneira específica de entender o mundo, socialmente organizada e sistematizada. O autor discorre sobre como o olhar do turista é construído, desenvolvido e reforçado, inclusive através de formas não-turísticas de experiência e consciência social. Fazendo uma referência a MacCannel (1976 apud URRY, 1996), o autor sugere a complexidade do processo de produção de centros de atração, através do qual, além de tudo, o olhar do turista é gerado e mantido: “as pessoas têm de aprender como, quando e para onde ‘olhar’. Marcos claros precisam ser providenciados e, em alguns casos, o objeto do olhar é apenas um marco que indica algum acontecimento ou experiência, que aconteceram previamente naquele lugar” (p. 26).
Nos estudos acadêmicos no campo do turismo, existem conceitos técnicos para qualificar termos como “destino” e “atrativo turístico”; o destino é uma unidade territorial que possui certa capacidade administrativa, aí inclusos países, regiões, estados, ou lugares.Já o atrativo é o elemento inerente ao lugar que desencadeia o processo turístico, que faz com que as pessoas se desloquem das suas casas e permaneçam fora dela (VALLS, 2006). Como dito no capítulo anterior, considero a transformação de um lugar em destino turístico um processo socialmente construído. Essa construção baseia-se no fator o qual chamo aqui de atratividade – elemento não inerente, mas criado e reforçado por agentes internos e externos à localidade, que encadeiam a “transformação” de um lugar em destino turístico. Por exemplo, enquanto a visitação à favela da Rocinha tem, como principais elementos de atratividade, a
violência, a pobreza e a vista para o mar (FREIRE-MEDEIROS, 2009), o turismo na favela de Paraisópolis é “justificado” pela presença da arte.
Estevão, Berbela e Antenor, os artistas da favela, com trabalhos totalmente distintos, compõem os pontos visitados em Paraisópolis. Os três ficaram conhecidos primeiramente através de jornais e revistas (como discorro adiante). Primeiro a visita era realizada pelos mais variados profissionais que divulgavam a arte que vinha da favela, não tardou para que curiosos – pessoas da cidade e também de fora – começassem a procurar os artistas, que geralmente chegavam até eles diretamente ou em sua maioria por intermédio da UMP.
Distintos também foram os períodos em que a visitação a cada um dos artistas começou a ser realizada, coincidindo com o período em que, individualmente, começaram a criar suas obras. O primeiro artista a chegar à favela foi Estevão, no ano de 1985, que logo começara a construir sua exótica casa – comparada mais tarde com a obra de Antonio Gaudí. Depois, Berbela, que há onze anos mora em Paraisópolis e há dez começou a produzir bicicletas e outros objetos com sobras de materiais de sua oficina. Por último, Antenor, que chegou a Paraisópolis em 1988, e em 2008 começou a construir sua casa com garrafas PET incorporada à estrutura.
Quando as pessoas chegavam à UMP desejando conhecer os artistas, alguém era destacado para acompanhar a pessoa até a casa de cada um deles, de maneira gradual – à medida que cada um se tornou conhecido dentro da favela por sua arte – e então as visitas passaram a compor um único “circuito” 21. Até hoje, a despeito das operadoras de turismo profissionais, a UMP segue levando visitantes para conhecer os três.
Tem-se notícia de uma agência, a Check-Point, ter tentado organizar, sem sucesso, visitas guiadas à favela. Durante cerca de seis anos a empresa Unique Turismo Cultural Personalizado detinha exclusividade na realização de passeios à favela, mas recentemente, no ano de 2011, uma nova agência também passou a realizar visitas, a Around SP. A seguir apresento os artistas e
Flavia Liz, guia da agência Unique Turismo Cultural Personalizado. Essas quatro pessoas merecem uma primeira atenção, por serem os principais atores no desenvolvimento de Paraisópolis como destino turístico 22.
22 No próximo capítulo trarei para a discussão a UMP e a agência Around SP, essa segunda pouco explorada, porque o início da sua atuação na favela coincidiu com a etapa final da minha pesquisa de campo.
3.1 Estevão
Natural de Santo Estevão na Bahia, Estevão, 44 anos, mora há 16 anos em São Paulo. Na infância trabalhou como lavrador junto com seus pais; com 18 anos mudou-se para a capital, Salvador, onde permaneceu por seis meses como ajudante de pedreiro e logo depois decidiu ir junto com um amigo “tentar a sorte” em São Paulo. Estevão começou a trabalhar em uma construção em Guarulhos e morava com colegas de profissão em um alojamento. “Assim que eu cheguei aqui pra essas bandas tinha muito emprego, mas era coisa rápida, acabava em no máximo seis meses, aí eu tinha que ir atrás de outro, nisso eu mudei de cidade mais ou menos umas seis vezes para cidades aqui mesmo no interior de São Paulo, mas cheguei até o Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro. Até que um dia um amigo meu, aqui de São Paulo capital, disse que tinha uma vaga pra jardineiro e como eu sempre gostei de plantas resolvi pegar esse emprego. Eu gostava, mas não sabia como trabalhar com elas, lá mesmo eu fui aprendendo e estou no mesmo emprego até hoje”.
Estevão sempre morou em alojamentos, mas em 1985, com um dinheirinho que ele tinha conseguido juntar, comprou uma casa em Paraisópolis, a mesma em que vive até hoje. Pouco a pouco, foi adquirindo terrenos ao redor e aumentando o espaço da casa.
Estevão conta que ficava pouco tempo em casa, e foi gostando cada vez mais de trabalhar com jardim; quando estava em casa gostava de relaxar, arrumar tudo para se sentir confortável, já que havia passado quase dez anos sem morar em uma casa de verdade. Decidiu então colocar um banco de madeira no jardim que de início continha poucas plantas. Um dia Estevão comprou uma muda de roseira, plantou e teve a ideia de fazer com que o jardim subisse, criando uma estrutura de concreto, já que não havia espaço para o jardim se expandir horizontalmente. O pé de roseira não parava de crescer, seus galhos se tornaram pesados; Estevão resolveu criar uma estrutura de ferro e cimento que serviu para apoiar os galhos, mas a roseira cresceu ainda mais, tomando o espaço também das outras plantas que já ocupavam a parte de cima do jardim. Toda essa estrutura de concreto fazia com que o interior da casa ficasse muito quente, foi então que Estevão teve a
ideia de colar pedrinhas sobre os “galhos” da estrutura, deixando o ambiente mais fresco. Durante muito tempo, a estrutura tinha apenas as pedrinhas, por isso a casa de Estevão ficou conhecida em Paraisópolis como a “casa de pedra”. Certo dia quebrou-se um prato da casa de Estevão (de que ele gostava muito), ao que ele decidiu fixá-lo em um dos galhos de concreto; Estevão gostou do resultado e a partir daí passou a adicionar os mais variados objetos à estrutura da casa.
Primeiro prato afixado na casa de Estevão. Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora
O primeiro andar da casa abriga os quartos do casal, Estevão e a esposa Edilene, e dos filhos, Stefânia e Enrique. A decoração dos quartos é feita com objetos recortados em tábuas finas de madeira, que foram lixadas e pintadas por Edilene e que ficam grudados nas paredes. Estevão disse que fez essa decoração, em que predominam os recortes de estrelas, porque tinha “saudades de vê-las no céu como as via na Bahia”.
A casa de Estevão chamou a atenção dos vizinhos – afinal a construção é bem diferente das outras casas de Paraisópolis – e logo os membros da UMP também tomaram conhecimento da casa. Sempre procurada por jornalistas, ONG’s e documentaristas para a realização de projetos e reportagens, a UMP, em um desses contatos, falou sobre a existência da casa de Estevão à jornalista, arquiteta e artista plástica, Carla Caffé, que na época, há cerca de 20 anos, escrevia a uma coluna da Revista da Folha de São Paulo intitulada “Cidade Nua” 23. A coluna tinha o objetivo de retratar, através de um pequeno relato e uma pintura realizada por ela, algum aspecto interessante da cidade de São Paulo – geralmente relacionado à arte. A casa de Estevão foi tema de uma dessas reportagens. Essa foi a primeira “aparição” pública da obra de Estevão e desde então as visitas à sua casa se tornaram frequentes – profissionais, estudantes, curiosos da favela e de fora e, por fim, de turistas.
Primeira reportagem de Estevão por Carla Caffé. Fonte: Revista da Folha. Ano IV. Ed: 83, 1992
23 Pelo que pude perceber, a grande procura pela UMP, por parte desses profissionais está relacionada com a multiplicação cada vez mais recente de organizações não governamentais e realização de projetos sociais na favela.
O trabalho de Estevão é constantemente comparado ao de Antonio Gaudí, artista nascido em 1852 em Reus, na Catalunha, Espanha, e falecido em Barcelona. De inspiração neogótica, Antonio Gaudí criou um estilo único – marcado pela verticalidade, com curvas próximas de formas da natureza (Ambrosio, 2007). No ano de 2000 uma estudante de arquitetura visitou a casa de Estevão e percebeu a semelhança entre seu trabalho e o de Gaudí. Ela levou livros com a obra do artista espanhol para que Estevão visse a semelhança. A partir daí o jardineiro começou a ser apresentado nas reportagens como “o Gaudí brasileiro”.
Em 2001, quando foram celebrados os 150 anos de nascimento do arquiteto catalão, os organizadores da comemoração ligados ao Centro de Estudos Gaudinistas, buscaram pelo mundo inteiro artistas que possuíssem trabalhos parecidos ao de Gaudí, chegando então a Estevão, que teve sua casa e seu trabalho filmados em todas as suas atividades. Naquele ano levaram Estevão a Barcelona para conhecer as obras de Antonio Gaudí. Em 2007, Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), escreveu um pequeno livro, “Contando a Arte de Estevão”. O livro faz parte de uma coleção que tem por objetivo contar a história de artistas autodidatas brasileiros. No ensaio, Ambrosio (2007) recupera um pouco da história de vida de Estevão, chegando a como Estevão começou a desenvolver seu trabalho “artístico”, comparado minuciosamente – numa linguagem artística e técnica – com o trabalho de Gaudí. No livro, o autor conta ainda um pouco da impressão de Estevão sobre sua ida à Espanha:
“Ele comenta que adorou tudo e reconhece que sua obra é de pequenas dimensões perante as grandes construções do arquiteto, que incluem prédios inteiros, casas, igrejas e parques. O trabalho que mais o impressionou e no qual viu mais proximidade com o que fez é o parque Guëll. Ali estão, também, troncos falsos que parecem ser de madeira, mas que são de fato de pedra. O traçado repleto de curvaturas é parecido, além do próprio processo de montagem, em que pedras são coladas na estrutura para que o resultado final pareça natural. Antes de ser convidado pelos espanhóis, Estevão tinha em Gaudí uma referência apenas distante”. p. 23
O apelido de “Gaudí brasileiro” de início agradava a Estevão, mas hoje o jardineiro, sempre que pode, tenta se desvincular da imagem do artista. É o caso, por exemplo, de um comercial gravado em 2011 de uma marca de
cachaça que reuniu alguns brasileiros que tivessem tido uma “boa ideia” – relacionando com o slogan da cachaça – para fazer uma peça promocional que contasse em dois minutos como a pessoa tinha desenvolvido essa “boa ideia”. No final da peça Estevão declara:
“Todos os gringos e madames que vêm aqui, falam que parece com as coisas daquele artista espanhol, Antonio Gaudí, mas não sei quem é ele não [...]. Eu fiz mais assim porque eu queria criar a roseira, mas eu não sabia que ia virar isso e ter essa repercussão toda. Vim lá da Bahia com a moringa debaixo do braço, chegar aqui e fazer essa obra de arte e depois dá toda essa reviravolta.”
Embora um pouco confuso, no depoimento Estevão afirma que não conhece Gaudí, mesmo depois de ter ido à Espanha exclusivamente para conhecer o seu trabalho e com isso perceber que o que ele próprio faz é arte, algo que nunca pensou poder realizar. Essa negação, ao mesmo tempo em que parece mostrar certa recusa pela semelhança a Gaudí, aciona também um referencial para que seu trabalho seja reconhecido como arte. Edilene contou- me que Estevão não gosta mesmo da comparação, que ele sempre diz: “aqui não é nada de Gaudí brasileiro, aqui tudo é obra do Estevão” 24
. Quando perguntei a Estevão se ele é um artista, a resposta vem prontamente, deixando claro que seu papel de artista é legitimado por ser comparado com a obra do “maior arquiteto do mundo”, Antonio Gaudí:
“No começo eu não me considerava artista não, mas agora eu acho que sou sim, pela divulgação meu trabalho já é conhecido no mundo inteiro, já fui comparado com o maior arquiteto do mundo, o Antonio Gaudí, lá da Espanha, o que não é pra qualquer um, então eu sou sim um artista. Cada artista tem um dom de fazer uma arte, eu faço quadro, vaso, além de todo esse trabalho aqui na minha casa. Tem muita gente que coloca nos jornais que eu sou pedreiro, eu nunca trabalhei de pedreiro, eu até sei fazer serviço de pedreiro, sei rebocar, arrumar uma laje, mas nunca foi meu trabalho. Eu sou jardineiro e artista plástico”.
Estevão continua falando que seu trabalho artístico tem uma importância para Paraisópolis:
“Minha arte é muito importante aqui para a favela porque junto com os outros, o Berbela e o Antenor, conseguimos divulgar o que há de bom
24 Nas entrevistas e conversas que tive com Estevão, nunca tive coragem de abordar esse assunto, por saber que é algo que lhe deixa chateado e por não ter conseguido construir um relacionamento tão próximo com ele, considero isso um ato falho na minha pesquisa e que merece ser investigado em pesquisas futuras.
em Paraisópolis e pode também incentivar outras pessoas aqui dentro a fazerem igual, ou melhor”.
Atualmente, a casa de Estevão tem 8 metros de altura, dois pavimentos e mais um emaranhado de caminhos que levam até os jardins e os inúmeros cantos da casa. Estevão sempre repete que a sua casa não está pronta e que nunca vai estar.
“Todos os dias eu acordo cedo e antes de sair para trabalhar eu arrumo alguma coisa, coloco uma peça nova, faço algum quadro ou vaso. Nos dias que tenho folga eu aproveito pra ficar o dia inteiro arrumando ou então saio pra comprar mais alguma coisa para colocar na casa”.
Pouquíssimos objetos que compõem a casa de Estevão são doações, ele compra quase tudo em bazares, antiquários e lojinhas de variedades no centro da cidade, além do material de construção que é necessário para encaixar as peças (cimento branco e argamassa). Todo o material custa caro, o cimento, por exemplo, que não poder ser de baixa qualidade, segundo Estevão, “custa cinquenta reais o pacote e dá pra fazer pouca coisa... Às vezes eu vou num bazar e quando os vendedores me reconhecem, aumentam o preço, eles pensam que eu tenho muito dinheiro”. Na casa de Estevão apenas ele possui renda fixa; seus filhos ainda são menores de idade e sua esposa é dona-de-casa, por isso a renda mensal da família é baixa. Cabe a Edilene a limpeza e organização da casa:
“Sou eu que faço tudo aqui, todo dia de manhã Estevão rega as plantas lá em cima, aí cai água e folhas em baixo, eu venho, varro, seco tudo e passo o pano. Sou eu também que faço almoço, cuido das crianças e recebo as visitas, quando tem”.
Edilene também faz as vezes de secretária de Estevão, anota os recados dos inúmeros telefonemas, agenda visitas; cabe a ela também a tarefa de lidar com o dinheiro, dilema sempre presente.
Na casa de Estevão, o pagamento das visitas é obrigatório; Edilene justifica: “o dinheiro aqui é sempre pouco, a gente vive apertado, tudo que Estevão pega é pra comprar as coisas, material pra continuar construindo, quando não tem dinheiro de visitas ou de alguma coisa que ele vende, ele pega do salário mesmo, aí aperta mais ainda, ele trabalha demais aqui, investe também o tempo dele, por isso que a gente cobra”.
O dilema do dinheiro é motivado por várias questões. Edilene e Estevão querem receber, mas sentem vergonha de cobrar, alguns turistas sabem que a visita é paga, mas, como explica Edilene,
“se eles não lembrarem, a gente não tem coragem de cobrar; quando a pessoa vem visitar com Flavia Liz, aí ela fala pra eles e fica tudo certo, mas quando vem pela UMP, por exemplo, a gente recebe quando eles tomam iniciativa. Só que muitas vezes vêm grupos grandes trazidos pelo presidente da UMP e ninguém paga, ele fala que não é pra cobrarmos porque a presença deles é bom aqui pra Paraisópolis, mas não vemos nada melhorar pra gente. Depois que os turistas saem os vizinhos comentam – é hoje vocês ganharam muito dinheiro, com todas essas pessoas que visitaram a casa – mas na verdade nem ganhamos”.
Berbela e Antenor não cobram pela visita. Berbela ainda recebe, mas se a pessoa não quiser pagar não tem problema. Como a casa de Estevão é o único lugar onde a visita deve ser paga, o jardineiro acaba sendo criticado pelos outros dois. Para Estevão, melhor seria se todos cobrassem, assim ficaria como um padrão e não acarretaria desconforto para cobrar dos turistas, por isso o jardineiro sempre que pode tenta convencer os outros dois a imporem essa “regra”, fazendo isso, por vezes, de maneira impositiva – fato que gera conflitos que serão analisados no próximo capítulo.
Em campo, meu contato com Estevão foi pouco, a maioria das informações foi-me passada por Edilene; quando ia à favela deixava para ir à casa deles no final, geralmente à tarde, quando ela não tinha tantos afazeres. Conversávamos bastante e pude perceber sua preocupação constante em relação ao dinheiro. Ela afirma que em certos períodos, como nos finais de ano, a visitação é muito baixa e por isso o dinheiro arrecadado é muito pouco:
“Já falei pro Estevão, se continuar assim eu vou procurar serviço fora, gosto muito de receber os turistas, mas tem que ser uma coisa que dê um retorno, que compense, os meninos estão agora em casa, de férias, aí eles começam a pedir as coisas, pra comprar, pra passear e a gente não tem como dar, eu fico doente com isso, não vou ficar aqui esperando turista, olhando pro teto e correr risco de virem e ainda não pagarem, e eu ainda tenho que ficar aqui engolindo desaforo e todo tipo de pepino”.
Edilene refere-se a episódios constrangedores que já teve que passar por conta do dinheiro. O primeiro deles foi o clássico da “Cowdí”: em 2005 o evento “Cow Parade” espalhou, entre 4 de setembro a 6 de novembro, 83
vacas de vibra de vidro pela cidade de São Paulo, em tamanho natural e com peso aproximado de 50 kg; elas foram trabalhadas por artistas que as personalizaram com as mais diferentes técnicas, e Estevão foi convidado para participar do evento. Batizara sua vaca de “Mimoz”, mas os organizadores do evento mudaram seu nome para “Cowdí”, aludindo à semelhança do trabalho de Estevão com as obras de Antonio Gaudí. No final do evento a Cowdí foi leiloada e arrematada pela quantia de 31 mil reais; desse montante apenas mil reais ficou com Estevão (segundo Edilene esse valor cobriu apenas o material utilizado por Estevão) e o restante foi doado ao projeto “Vivendo com Arte”, que trabalha com crianças carentes em Paraisópolis. Sete anos se passaram desde o Cow Parade, mas sempre alguns curiosos lembram da exposição e do valor que a Cowdí rendeu e perguntam sobre o dinheiro e o que Estevão teria feito com ele; cansado da insistência, certa vez Estevão respondeu: “foi para o