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3.2.1 A influência do pensamento de Peter Häberle no processo de democratização do Supremo Tribunal Federal

Peter Häberle40, jurista alemão, é um dos grandes constitucionalistas do nosso tempo,

38 LEAL, Saul Tourinho. O “fora Gilmar Mendes!” como conseqüência de um novo Supremo. Jus Naviganti, Teresina, ano 12, n. 1848, 23 jul. 2008. Disponível em:

<http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=11530>. Acesso em: 14 jan. 2009, p. 3.

39 Em outubro de 2007 o STF se pronunciou sobre o assunto no julgamento dos Mandados de

Injunção nº 670 e nº 708 dizendo que tendo em conta que ao legislador não é dado escolher se concede ou não o direito de greve, podendo tão-somente dispor sobre a adequada configuração da sua disciplina, enquanto a lei não for editada, devem ser aplicadas, no que couber, as disposições da Lei nº 7.783/89, que regula o exercício do direito de greve na iniciativa privada.

40 HÄBERLE, Peter. Hermenêutica constitucional. A sociedade aberta dos intérpretes da Constituição: contribuição para a interpretação pluralista e procedimental da Constituição.

e não seria demais considerar, um dos grandes nomes da história do constitucionalismo ocidental.

Incorporando muito das suas idéias, o Supremo Tribunal Federal vem realizado, de forma muito criativa, uma abertura no espaço de debate acerca da interpretação constitucional, entendendo que aqueles que vivem a Constituição é quem deve interpretá-la, dado o caráter supremo, o alto grau de abstração e também valorativo inerente aos princípios e regras que a compõem, denotando, assim, o seu caráter eminentemente aberto, adequado à satisfação dos anseios sociais de dado momento histórico.

Por sua influência o Supremo Tribunal Federal tem também aperfeiçoado os mecanismos de abertura do processo constitucional a uma cada vez maior pluralidade de sujeitos interessados no sistema de controle de constitucionalidade de normas.

Peter Häberle diz que a Constituição é um projeto em contínuo desenvolvimento. E, portanto, cabe ao Supremo Tribunal Federal propor uma abertura que possibilite o oferecimento de alternativas para a interpretação constitucional. E é isso que tem feito o Tribunal.

Não há dúvida de que a participação de diferentes grupos em processos judiciais de grande interesse para toda a sociedade cumpre uma função de integração extremamente relevante no Estado de Direito. As audiências públicas são exemplo disso.

Ao ter acesso a essa pluralidade de visões em permanente diálogo o Supremo Tribunal Federal passa a contar com os benefícios decorrentes dos subsídios técnicos, implicações político-jurídicas e elementos de repercussão econômica que possam vir a ser expostos pelos especialistas convocados para depor.

Essa inovação institucional, além de contribuir para a qualidade da prestação jurisdicional, garante novas possibilidades de legitimação dos julgamentos do Tribunal no âmbito de sua competência precípua de guarda da Constituição.

Além disso, promovendo esse processo de abertura institucional a Suprema Corte deixa de converte-se em uma instância autoritária de poder – compondo um governo de juízes – que dita de forma unívoca as interpretações oficiais e aproxima-se da sociedade, já que é necessário resgatar a idéia da sociedade aberta dos intérpretes da Constituição formulada por Peter Häberle, segundo a qual o círculo de intérpretes da Lei Fundamental deve ser elastecido para abarcar não apenas as autoridades públicas e as partes formais nos processos de controle de constitucionalidade, mas todos os cidadãos e grupos sociais que, de uma forma ou de outra, vivenciam a realidade constitucional.

De fato, como destinatários e autores de seu próprio Direito os cidadãos têm o direito de participar ativamente do processo de revelação e definição da interpretação constitucional, cabendo tão-somente ao Tribunal Constitucional funcionar como instância última – mas não a única – de tal processo. A capacidade de estabelecer esse diálogo com a sociedade e de buscar consenso em torno de suas decisões conferirá aos juízes maior autoridade e legitimidade. Além disso, embora à Corte Constitucional caiba a palavra final sobre a interpretação da Constituição, suas decisões devem ser amplamente fundamentadas e expostas ao debate público, pois a crítica advinda da sociedade possui um potencial racionalizador e legitimador.

3.2.2 O Supremo Tribunal Federal e as omissões inconstitucionais

A Constituição Federal de 1988, uma Constituição dirigente, que fixa metas, objetivos e programas a serem atingidos pela ação dos governos e da sociedade, no sentido de melhoria das condições sociais e econômicas da população, trouxe uma nova realidade para o Brasil. É evidente que não foi, e não tem sido fácil, assegurar o cumprimento dessas normas de caráter programático dirigente e aberto, principalmente para um País que até há pouco tempo estava em um processo de redemocratização. O problema maior diz respeito a realização das pretensões normativas que dependem de um atuação positiva do Legislativo ou do Executivo.

Um dos mecanismos criados com o objetivo de minorar as consequências advindas das omissões do sistema político foi atribuir competência ao Judiciário para controlar as omissões inconstitucionais cometidas pelos Poderes constituídos.

Assim, além da função tradicional de bloqueio, o Supremo Tribunal Federal passou também a atuar com poderes positivos, nos casos em que a implementação da vontade constitucional depende em larga medida de uma ação positiva dos outros Poderes e ela não exista, restando à sociedade recorrer ao Judiciário para ver realizar seus direitos constitucionais.

O poder das Cortes Constitucionais se avulta, na medida em que lhe foi atribuída a competência de decidir com base em normas de conteúdo aberto ou ainda a partir de normas de conteúdo conflitante, resultantes do caráter compromissório da Constituição.

3.2.3 O Supremo Tribunal Federal como Corte Constitucional

Na mesma proporção do poder, se avoluma o número de processos no Supremo Tribunal Federal, uma vez que ele ocupa um duplo papel no atual sistema constitucional brasileiro: é Órgão de cúpula do Poder Judiciário, pois detém a competência recursal máxima, podendo rever decisões dos demais Tribunais, face sua incompatibilidade com a Constituição; e exerce, também, a função de Tribunal Constitucional, ao apreciar de forma concentrada, as ações diretas de inconstitucionalidade41.

O resultado é que o acúmulo de atribuições pelo Tribunal o impede de desempenhar de forma mais adequada suas atribuições propriamente constitucionais.

A Constituição de 1988 tentou resolver esse problema ao criar o Superior Tribunal Federal e transferir para esse a competência para julgar, em grau de recurso, as decisões contrárias às leis federais, buscando retirar do Supremo Tribunal Federal uma sobrecarga de tarefas não-constitucionais.

Apesar disso, o Supremo Tribunal Federal continua sobrecarregado e impedido de desempenhar devidamente suas funções de caráter propriamente constitucional.

Existem aqueles que defendem, veementemente, que o Tribunal se reserve a exercer tão-somente atribuições constitucionais, convertendo-se em uma Corte Constitucional. Outros 41 VIEIRA, Oscar Vilhena. Supremo Tribunal Federal: jurisprudência política. São Paulo: Revista

entendem que pode haver solução para esse problema, notadamente agora que se tem tentado resolvê-los por meio de outros mecanismos, a exemplo das súmulas vinculantes e do instituto da repercussão geral. Como ambos foram implantados recentemente, os resultados, ainda que venham se mostrando positivos, deverão ser melhor analisados a médio prazo.