ESME SAYILARINA GÖRE RÜZGAR GÜLÜ
BİTKİ TÜRLERİ TÜRKÇE İSİMLERİ RED-DATA
F.4. Hassas Yöreler :
F.4.3. Korunması Gereken Alanlar :
F.4.3.5. Bilimsel Araştırmalar İçin Önem Arzeden ve/veya Nesli Tahlikeye Düşmüş veya Düşebilir Türler ve Ülkemiz için Endemik Olan Türlerin Yaşama Ortamı Olan Alanlar,
Parte do processo determinado pelos dispositivos ocorre pela sua mediação do mundo para com o sujeito, em detrimento das identificações e das subjetividades que se estabelecem. O resultado desse embate implica consequências sociopolíticas.
Para Focault, o dispositivo está configurado nas instituições que representam o Estado e se faz presente também em ideias e proposições, na busca de expressão do conceito de operação de um dispositivo, Focault92 propõe-nos pensar de forma sistêmica uma rede de elementos interconectada:
Aquilo que procuro individualizar com este nome é , antes de tudo, um conjunto absolutamente heterogêneo que implica discursos, instituições, estruturas arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais e filantrópicas, em resumo: tanto o dito como o não dito, eis os elementos do dispositivo. O dispositivo é a rede que se estabelece entre estes elementos (...). (AGAMBEN, G,2009,p.28).
A partir das ideias de Foucault, o filósofo Giorgio Agamben busca ampliar as visões sobre o conceito de dispositivo no ensaio93 O que é um dispositivo. Agamben nos propõe pensar sobre um mundo dividido entre dois grandes grupos: de um lado, os
92AGAMBEN, G. O que é o Contemporâneo? E outros ensaios. 1a Ed. Ed.Argos. Chapecó.- 2009. p.28. 93Ibiden
102 seres viventes; no outro, os dispositivos que atuam na captura e na ordenação dos seres viventes. É do embate entre seres viventes e dispositivos que surgirá para Agamben os sujeitos.
A partir dessas elaborações sobre o dispositivo, parece-nos que o dispositivo Voracidade Máxima estabelece agenciamentos de visibilidade do sujeito, ao inserir este em outros dispositivos. O resultado é a reconfiguração identitária do sujeito que emerge do embate entre os dispositivos.
Dos primeiros fundamentos de política elaborados por Aristóteles, sobre a relação do sujeito em sua interação social até a inversão do aforismo de Clausewitz94 por Michel Focault: “A política é a continuação da guerra por outros meios”. Nos parece que esta questão em Focault pode ser dirigida no embate dos sujeitos com os dispositivos. Deste encontro / agenciamento o sujeito obtêm a sua visibilidade dentro de um espectro social.
Aristóteles e Platão concebiam o saber político como o conhecimento de maior importância entre os outros conhecimentos. Porém, para eles, o cidadão que participa em governar e ser governado se insere em um grupo social privilegiado; escravos e artesãos não podem participar de decisões políticas, por não estarem qualificados para tanto.
Sobre tal diferença entre sujeitos de uma mesma sociedade, Muniz Sodré95 nos fala da política dos regimes de visibilidade e invisibilidade:
No recorte dos tempos, dos espaços, da fala. Do visível no âmbito da Polis, a Cidade – Estado. A visibilidade de algum modo “pré-codifica” as posições a serem assumidas por aquelas a quem se destina o suposto jogo livre da política... Aquele que é investido da fala comum, por exemplo, é socialmente visível e assim pode tomar parte no jogo político, já que este, por implicar o governo da Polis, é uma atividade referida ao que se pode ver e falar... O escravo, para Aristóteles, ainda que compreenda a linguagem, não ocupa o lugar de sua “posse”, logo não tem a identidade comunitária imprescindível à cidadania. Em outras palavras, a sua “maneira de fazer” não é suficiente para torná-lo politicamente visível. Estar visível, isto é, integrado no jogo político da sociedade grega, implicava a qualidade de ser visto e falar. Logo, podemos estabelecer a relação entre o dispositivo audiovisual em seu caráter de promover visibilidade social ao sujeito.
94FOCAULT, M. Em defesa da sociedade. 4a ed . São Paulo. Ed.Martins Fontes. 2005. p.22.
“A guerra não é mais que a continuação da política por outros meios”
95SODRÉ, M. As estratégias sensíveis – afeto, mídia e política. 1a ed Petrópolis Rj.ed.Vozes. p. 129.
103 Os mecanismos de poder nos Estados pós-modernos podem ser também observados pelo viés do desenvolvimento tecnológico. Paul Virilio anteviu a revolução informática e a globalização no livro Velocidade e política. Ele desenvolve a ideia de Dromocracia96 para descrever um modus operandi da sociedade capitalista em sua forma de deslocamento veloz no tempo e no espaço, em detrimento dos avanços tecnológicos em conexão com a revolução política.
Nesse panorama, Laymert Garcia dos Santos nos fala97 sobre como estão divididas as classes sociais em função dos regimes de consumo estabelecidos na atualidade:
De um lado há as elites Dromocraticas, que prezam a mobilidade acima de tudo, porque sabem que dominar significa poder-invadir e ocupar uma posição dominante, o que as leva a buscar próteses cada vez mais sofisticadas. De outro, há os proletários – soldados e os proletários operários, cujos corpos serão despotencializados, induzidos a uma morte lenta. E se a progressiva desterritorialização significa para as elites uma intensificação do domínio, para as massas significa desenraizamento, destruição do habitat, privação de identidade, exclusão, perda da anima, do movimento.
Na sociedade dromocrática, estar em velocidade significa ter poder para pilotar dispositivos tecnológicos e assim exercer um domínio temporal e territorial em consequente desestruturação da identidade das classes sociais proletárias “estáticas”.
O dispositivo audiovisual pode se prestar a útil ferramenta de reterritorialização das classes marginalizadas, despotencializadas socialmente. Nesse sentido, vale lembrar McLuhan quanto ao papel do artista dentro desse contexto98:
A arte torna o coletivo e o comunal acessíveis ao indivíduo, cuja tarefa é assimilar a tradição, modificá-la em relação às novas situações que estão em constante formação. O artista faz isso criando contra-ambientes como espelhos do presente. (MCLUHAM, M,2005,p.166).
Nos parece que as questões da sociedade dromocrática / tecnológica podem ser conjugadas com a visão de Mcluhan, o artista na posição de pilotar o dispositivo em favor do sujeito, do coletivo, de transformar realidades, de sobrecodificar os valores vigentes em espelhos da condição sócio-política do presente.
Passaremos agora às nossas considerações finais.
96 VIRILIO, P.Velocidade e Política. 2a ed.São Paulo.ed.Estação Liberdade. 1997. p.10. Neologismo
criado através do significado da palavra grega dromos, que exprime a ideia de corrida.
97 VIRILIO, P.Velocidade e Política.. 2a ed São Paulo . ed.Estação Liberdade. 1997. p.12. 98 MCLUHAM, M.Mcluhan por Mcluhan. 1ªEd .Ed.Ediouro. 2005. p.166.
104
Considerações finais.
Finalizando este trajeto de apreciação em torno do dispositivo audiovisual como processador do sujeito, mais especificamente o audiovisual configurado como dispositivo artístico na obra Voracidade Máxima, dos artistas Mauricio Dias e Walter Riedweg, obra examinada ao longo desta dissertação. Boa parte da análise ao longo do trabalho foi feita com base nos conceitos de sobrecodificação e reterritorialização desenvolvidos por Deleuze e Guattari na obra Mil platôs.
Procuramos nesta pesquisa contextualizar as questões do sujeito processado pela imagem, conduzido através dela à reelaboração da sua subjetividade, desde a imagem da perspectiva elaborada intencionalmente pelos artistas na Renascença, até as obras contemporâneas, as quais se configuram como dispositivo artístico.
Entendemos o dispositivo como um conjunto de ações/medidas nas quais a identidade do sujeito é sobrecodificada, processada em um devir.
O dispositivo, em sua metodologia de operação e enunciação do sujeito, funciona como agenciador de sua aparição nos circuitos de informação. É nesse ponto que o dispositivo encontra sua última instância de processamento, o sujeito implicado como espectador da obra.
Cabe fazer distinção entre o dispositivo audiovisual e o dispositivo artístico: dispositivo audiovisual como medium/mídia, meio de comunicação; e dispositivo artístico como conjunto de etapas/operações que envolvem o processamento da subjetividade do sujeito em um devir, sujeito recodificado na aparição da alteridade. O dispositivo audiovisual funciona como ferramenta documental e como elemento de linguagem visual da mensagem intencionada pelo artista com o seu meio ambiente.
Nesse caminho de compreensão do modus operandi do dispositivo, investigamos sua matéria-prima básica, a imagem, que passa a adquirir novo estatuto no século XIX com a invenção do dispositivo fotográfico, invenção que reposicionou o olhar do homem acerca de si e do mundo.
O homem da sociedade industrializada, com o advento da fotografia, passou a ter seu imaginário mediado por imagens feitas em profusão. Assim, seu cotidiano não se restringia mais ao uso da percepção visual para lidar com aspectos de sua vida, pois a superfície da imagem passou a referenciar o sujeito na compreensão do mundo a seu redor. Nesse aspecto, procuramos examinar o dispositivo artístico como produtor de imagens codificadas, processadas na intenção de provocar deslocamentos da subjetividade do sujeito. De fundamental importância na organização do dispositivo artístico, a sobrecodificação dos códigos constitui método de operação característico do dispositivo artístico. Assim, parece-nos se tratar de operação de
105 subversão de códigos culturais vigentes. Sobre o uso do homem dos códigos na comunicação, podemos recorrer a Flusser,99
(...) um código é um sistema de símbolos. Seu objetivo é possibilitar a comunicação entre os homens. Como os símbolos são fenômenos que substituem (“significam”) outros fenômenos, a comunicação é, portanto, uma substituição: ela substitui a vivência daquilo a que se refere.
Os homens têm de se entender mutuamente por meio dos códigos, pois perderam o contato direto com o significado dos símbolos. O homem é um animal “alienado” (verfremdet), e vê-se obrigado a criar símbolos e a ordená-los em códigos, caso queira transpor o abismo que há entre ele e o “mundo”. Ele precisa “mediar” (vermitteln), precisa dar um sentido ao “mundo”. Onde quer que se descubram códigos, pode-se deduzir algo sobre a humanidade. (FLUSSER, V,2007,p.130).
É nesse sentido que nos referimos aos conceitos estabelecidos por Deleuze e Guattari sobre a sobrecodificação, a substituição ou o reordenamento de código existente na mediação do mundo em favor do sujeito, como visto nas produções citadas no microestado da arte. Produções artísticas que envolvem o dispositivo do cinema e o dispositivo audiovisual no diálogo com processos de recodificação da imagem do sujeito na contemporaneidade. Aventamos no início do trabalho a hipótese de que dispositivo artístico agencia a aparição do sujeito, e que tal mediação teria efeito sobrecodificador/reterritorializador de sua identidades. Portanto, faremos uma breve reconstituição de como isso foi identificado em algumas produções artísticas relacionadas no microestado da arte, produções que dialogam com a obra Voracidade Máxima.
No dispositivo audiovisual Seven UP pudemos perceber a máxima jesuíta “Dê- me a criança antes de ela ter sete anos, que eu te darei o homem” se reterritorializar conceitualmente no dispositivo audiovisual programado para processar os sujeitos através dos tempos, da sua infância até a maturidade. Revelou-se também que o agenciamento tutelar daquelas identidades pelo dispositivo audiovisual por longo período demonstrava uma perigosa experiência, uma vez que a visibilidade dos êxitos e dos fracassos vividos pelos sujeitos levou alguns participantes a crises existenciais.
Já em Andy Warhol encontramos o artista em busca da adequação semântica do dispositivo artístico para a captura da verdadeira alteridade. Warhol, na série Screen Tests, agencia a aparição de Mario Montez e, com isso, reterritorializa o imaginário das estrelas de Hollywood. No Filme Lixo Extraordinário, de Vik Muniz, nota-se o dispostivo articulado em seu caráter agenciador da aparição das
106 identidades/subjetividades lixo dos catadores de lixo em contraste ao mundo das subjetividades luxo da arte institucionalizada. O recurso artístico do dispositivo elaborado pelo artista consiste do uso do meio fotográfico como captador da imagem do sujeito, a qual posteriormente é recodificada em imagem – lixo. Nesse trabalho percebe- se que o dispositivo artístico em seu agenciamento das identidades retratadas reterritorializa os sujeitos em algumas direções: reterritorialização psicológica do lugar ocupado por esses sujeitos dentro de um quadro social e reterritorialização física das pessoas que largaram a atividade de catador de no Jardim Gramacho para se engajar em outras atividades com os recursos financeiros que receberam da venda das obras de arte em que são protagonistas. No filme, estabelecem-se conflitos éticos vividos por Muniz em relação aos efeitos produzidos nos sujeitos pelo contato com o dispositivo artístico. Essas produções relacionam-se com Voracidade Máxima pela forma como agenciam os sujeitos no segmento da produção audiovisual dos reality shows.
O artivismo é outro segmento de produção artística que nos interessou investigar a partir do diálogo com a obra Voracidade Máxima, na ação artivista realizada pelo grupo The Yes Men, ação organizada como dispositivo artístico, agenciador do sujeito simulado/codificado na condição de porta-voz da multinacional química Dow, sujeito codificado como avatar − porta-voz da causa de milhares de pessoas injustiçadas pela tragédia em Bhopal. Paris foi o local escolhido para a entrevista à rede inglesa de televisão BBC, e nesse sentido podemos articular o dispositivo artístico, por meio dos conceitos de Deleuze e Guattari: dispositivo configurado em máquina de guerra a agir no espaço liso, de forma nômade. A aparição do sujeito simulado na figura do Sr. Jude Finisterra configura-se também como reterritorialização do espaço estriado da mídia institucionalizada. A apropriação de espaço midiático no jornalismo televisivo, por parte dessa ação artivista, se configura como veículo de contrainformação.
Nas outras obras relacionadas no estado da arte, estabelecem-se questões referentes à sociedade do controle e da informação no processamento do sujeito em sua movimentação por territórios físicos e virtuais: os artistas Leandro Lima e Gisela Motta articularam seu dispositivo artístico Máquina de guerra/nômade para capturar movimentos da população indígena na videoinstalação Amoahiki, ressignificados em um “Devir espírito da floresta”.
Já no trabalho Bodies, inc., de Victoria Vesna, o dispositivo idealizado está dimensionado como máquina de guerra a operar o agenciamento de data-corpo, o qual o sujeito monta conforme sua preferência, um corpo híbrido, por exemplo, meio
107 macho/meio fêmea constituídos em um só corpo. Nessa obra, o sujeito aparece conforme seu desejo de aparição no espaço social/virtual organizado pelo dispositivo artístico. O nomadismo é característica dessa produção na qual o data-corpo/sujeito criado circula por espaços sociais e assim se qualifica para compor outros quadros sociais, os quais são regidos por sistemas hierárquicos. Se há possibilidade de movimentação social, isso também ocorre no sentido inverso, o sujeito pode ir parar no limbo, espaço reservado para os sujeitos inoperantes do sistema. A obra problematiza aspectos do comportamento do sujeito virtualizado, uma interessante experiência de reterritorialização do espaço da internet por sujeitos representados na figura de seu avatar.
De forma geral, todas as obras citadas revelam peculiaridades de alguns segmentos sociais, proporcionam uma visão de como as micro e as macropolíticas de poder são articuladas através dessas produções artísticas que se ocupam de processar códigos, de agenciar/sobrecodificar o sujeito em um percurso vivido, processos que em muitos casos culminam na reterritorialização desse sujeito. Essas obras compõem pequeno espectro de produções artísticas que dialogam com a obra Voracidade Máxima nos aspectos de agenciamento, regimes de visibilidade e sobrecodificação da identidade. Objetivo primordial desta dissertação é conhecer mais de perto o funcionamento do dispositivo artístico como processador do sujeito, investigado mais detalhadamente na obra Voracidade Máxima, dos artistas Mauricio Dias e Walter Riedweg. De início, fizemos um percurso histórico no Brasil no qual o fazer artístico desses artistas se aproxima dos processos desenvolvidos por Flávio de Carvalho e Hélio Oiticica, artistas cujo fazer artístico se organiza como dispositivo artístico que agencia/desata em movimentações da subjetividade do sujeito, no processamento da sua animosidade, na revelação das alteridades, fruto do embate entre sujeito e obra.
A obra Voracidade Máxima retrata dez imigrantes latinos residentes em Barcelona, engajados no segmento de prostituição homossexual, conhecidos por lá como chaperos. Através do audiovisual, o dispositivo artístico elaborado revela fissuras sociais nas entrevistas feitas em quarto de motel. Nos temas abordados, as origens, a família, a descoberta da sexualidade, as expectativas para a vida, o perfil dos clientes, a decisão de emigrar dos rapazes, etc.
Parte da poética da obra instaura-se no uso de máscara de borracha que veste toda a cabeça do chapero e reproduz os traços do rosto do artista que o entrevista. Tal estratégia do dispositivo artístico permite que o outro possa existir em sua completude,
108 na preservação de sua identidade. Os artistas, por sua vez, assumem a posição próxima da relação de identificação que ocorre entre os profissionais do sexo e seus clientes.
Nesse ambiente de absoluta intimidade, entrevistador e entrevistado falam sobre questões que se relacionam com o vivido e o imaginário popular acerca das pessoas que operam nesses segmentos sociais. Essa aparição da alteridade é o acontecimento a ser registrado: a memória desse outro como existência viva em processo de elaboração, memória atraída e processada pelo dispositivo artístico articulado.
Parte do impacto visual da obra Voracidade Máxima se dá justamente pelas tensões que ocorrem no embate entre as subjetividades lixo, representadas pelos chaperos, em contraste com as subjetividades luxo, representadas pelo segmento homossexual, cliente desse tipo de serviço.
Encontramos no texto micropolítica e segmentariedade de Deleuze e Guattari um operador interessante para pensarmos as micro e as macropolíticas de poder que envolvem movimentos do segmento homossexual no mundo contemporâneo e como estes se esquivam e respondem aos jogos de poder a que estão conectados. O dispositivo artístico Voracidade Máxima, como as outras obras discutidas ao longo deste trabalho, se configura como máquina de guerra/máquina estética que se instala nas áreas de impotência do Estado, no intuito de efetuar operações de sobrecodificação do sujeito. Operações que oferecem condições para que o sujeito possa existir não como presença estigmatizada pelos preconceitos sociais vigentes, mas sim nas diferenças que se estabelecem, nos jogos de poder revelados, na visibilidade do corpo desejado, registrado pelo dispositivo em seus detalhes mais íntimos.
Nas entrevistas, todos os chaperos –se referem a Barcelona como Meca mundial da prostituição, atraindo latinos e europeus para essa atividade. Por meio do relato do chapero galego (único europeu entrevistado), percebemos diferentes motivações para o trabalho na chapa entre latinos e europeus: os latinos, grosso modo, se engajam na prostituição por não ter outra opção de trabalho e colocam a questão financeira como primordial. Já o chapero europeu, grosso modo, opta por esse tipo de atividade simplesmente porque gosta.
Nos relatos, percebemos que a maioria dos os jovens latinos são oriundos de famílias razoavelmente estruturadas, das quais se emanciparam para abraçar “a vida nua”, vida nômade, em outro território. Pelo agenciamento coletivo de enunciação feita
109 pelo dispositivo artístico Voracidade Máxima, os sujeitos são retratados em seu deslocamento no espaço liso, em movimento constante dentro de um plano geopolítico. Configura-se, assim, um panorama das micro e das macropolíticas de poder do mundo atual.
Nos discursos de três brasileiros entrevistados, identificamos a sobrecodificação cultural e linguística a que foram submetidos, uma vez que respondiam às perguntas feitas em português numa mistura do castelhano e do português. Características de sujeitos desterritorializados em seu devir nômade, identidades em deslocamento contínuo no espaço liso, em fuga constante dentro do território estriado dos Estados.
O exame pormenorizado do dispositivo artístico Voracidade Máxima nos permitiu ampliar o espectro de análise do dispositivo audiovisual/dispositivo artístico através do estudo do texto de Jean Marie Baudry,100 Le dispositif: approches métapsychologiques de I´mpression de réalité,101 no qual o autor faz aproximações entre esse ensaio e a descoberta do inconsciente por Freud, mais precisamente com relação “a outra cena” produzida pelo aparelho psíquico, composta por sucessão de imagens, traços mnemônicos, fragmentos imagéticos coletados do vivido pelo sujeito, regrupados de maneira aparentemente aleatória no estado do sonho.
Baudry contrapõe o sujeito prisioneiro da caverna, vítima de alucinação em estado vigília, processado em sua impressão de realidade com o sujeito psíquico de Freud.
Em sua análise, Baudry contrapõe o sujeito descrito por Platão na alegoria da