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F.4. Hassas Yöreler :

F.4.2. Ülkemizin Taraf Olduğu Uluslar arası Sözleşmeler Uyarınca Korunması Gerekli Alanlar :

F.5.17.1. Kültürel Miras Kapsamına Giren Alanlar:

F.5.17.1.1. Anıtsal Yapılar

Ocorrem, a todo momento, movimentos sociais de diversas naturezas nas sociedades modernas, seja pela ação direta do Estado, seja pela mudança – mutação de comportamentos de grupos dessa sociedade. A esses comportamentos, podemos analisar certas movimentações sociais em nossa sociedade da informação em outro texto87 da obra Mil platôs, de Deleuze e Guattari – O liso e o estriado.

Assim, faremos uma breve introdução a esses conceitos: o conceito de liso se aplica aos sujeitos que operam de forma nômade na sociedade, migram constantemente, se desvencilham das máquinas de captura do Estado (escola, exército, sistema penal, etc.), operam na constituição das turbas, grupos organizados agenciados geralmente em caráter provisório. O conceito de estriado é referente aos sujeitos que operam nos espaços ocupados pelo Estado e pelas instituições; esses operam de forma a demarcar espaços, codificar leis, determinar as fronteiras entre os cidadãos.

Podemos citar como exemplo de movimentação social envolvendo os conceitos de liso e estriado a Revolução de Maio de 1968, ocorrida na França, que ressonou por

87 DELEUZE, G.; GUATTARI, F.. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. 2a ed. Vol. 5. ed.34. São

98 toda a Europa. Deleuze e Guattari88 fazem uma análise de como essa revolução se iniciou dentro do âmbito da micropolítica:

Diz-se erroneamente (sobretudo no marxismo) que uma sociedade se define por suas contradições. Mas isso só é verdade em grande escala. Do ponto de vista da micropolítica, uma sociedade se define por suas linhas de fuga, que são moleculares. Sempre vaza ou foge alguma coisa, que escapa às organizações binárias, ao aparelho de ressonância, à máquina de sobrecodificação: aquilo que se atribui à evolução dos costumes, os jovens, as mulheres, os loucos, etc. Maio de 68 na França era molecular, e suas condições ainda mais imperceptíveis do ponto de vista da macropolítica. Acontece então de pessoas muito limitadas ou muito velhas captarem o acontecimento melhor do que os mais avançados homens políticos, ou que se acreditam do ponto de vista da organização. (DELEUZE, G.; GUATTARI, F,2005,p.94).

Dessa forma, as autoridades francesas foram pegas de surpresa, alguns fatores incógnitos lhes escaparam ao conhecimento, impedindo a compreensão do que acontecia. O que não se percebia é que as mudanças que ocorriam estavam no âmbito da micropolítica, pela percepção de um novo referencial de análise de mudança comportamental das “massas”, principalmente por parte dos movimentos estudantis.

Seguiu-se a isso todo um movimento de união de diferentes classes sociais, entre as quais os estudantes e os operários configurados como máquina de guerra contra o poder do Estado. As estratégias encontradas por esses segmentos sociais para confrontar o Estado Estriado foram práticas nômades de Lisificação do espaço, estratégias de sobrecodificação e reterritorialização do espaço ocupado pelo Estado. Como parte do legado deixado por tais estratégias de operação do espaço liso, temos no material iconográfico produzido pelos ateliês populares um rico referencial imagético.

Todo o movimento de maio de 1968 foi também efeito da ressonância mundial de outros movimentos de sobrecodificação e reterritorialização em espaços estriados, como a revolução promovida por Fidel Castro e Che Guevara em Cuba, a chegada de Mao Tsé-Tung ao poder na China com sua cartilha revolucionária comunista, etc.

Correspondendo aos sujeitos que operam dentro do espaço liso, Deleuze e Guattari nos confronta com a ideia de “ máquinas de guerra” em oposição à ideia de “aparelhos de captura”, denominação das instituições encarregadas de estriar/regular o espaço ocupado pelo Estado.

88 DELEUZE, G.; GUATTARI, F.. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. 2a ed. Vol. 5. Ed.34. São

99 Aqui temos de fazer uma ressalva no sentido de que o termo “máquinas de guerra” não se refere a um sentido bélico, mas a um caráter de organização e operação no espaço liso.

Estamos todos vinculados de alguma forma às máquinas de guerra ou aos aparelhos de captura, uma vez que estamos a interagir em nosso cotidiano com essas modalidades.

A estrutura organizacional das máquinas de guerra se dá no espaço liso, por meio de sujeitos em permanente estado de fluxo nômade de movimentação/mutação. Já os aparelhos de captura operam com tendência à reprodutibilidade de padrões, de regras que podem ser multiplicadas com a finalidade de estriar o espaço, ocupá-lo da maneira mais eficiente possível. Os inúmeros sistemas de vigilância e monitoração de áreas públicas e privadas são prova disso.

Em contrapartida ao poder exercido pelo Estado e suas corporações associadas, há movimentos nômades que instalam a sua máquina de guerra no sentido de manipular o espaço estriado na geração de produtos artísticos, como no caso do dispositivo artístico Voracidade Máxima. Félix Guattari89 nos fala do efeito provocado pelo contato do sujeito com a máquina de guerra:

O que importa aqui não é unicamente o confronto com uma nova matéria de expressão, é a constituição de complexos de subjetivação: indivíduo-grupo-máquina-trocas múltiplas, que oferecem à pessoa possibilidades diversificadas de recompor uma corporeidade existencial, de sair de seus impasses repetitivos e, de alguma forma, de se re- singularizar.

Assim se operam transplantes de transferência que não procedem a partir de dimensões “já existentes” da subjetividade, cristalizadas em complexos estruturais, mas que procedem de uma criação e que, por esse motivo, seriam antes da alçada de uma espécie de paradigma estético.( GUATTARI, F,1992,P.17).

Tal descrição de como o sujeito é processado em sua subjetividade em um paradigma estético nos reporta ao dispositivo artístico Voracidade Máxima. Nessa obra audiovisual, percebemos o sujeito sobrecodificado/ressignificado em sua identidade e sua posição − serviço dentro do jogo político ao qual ele se encontra implicado.

100 Parece-nos então que, nesse caso, a máquina de guerra/dispositivo artístico se pronuncia como agenciadora coletiva de enunciação, pela forma como os chaperos são retratados.

E o agenciamento ocorre pela forma como o dispositivo mistura conteúdos semióticos, conteúdos sociais, conteúdos libidinosos em mensagem que sobrecodifica o sujeito, ali no quarto onde se dá o encontro entre chapero e artista, tudo participa da enunciação, máscara, partes do corpo, espelhos, etc.

Sobre as características dos agenciamentos coletivos de enunciação, Félix Guattari90 elabora o seguinte:

O agenciamento coletivo de enunciação une os fluxos semióticos, os fluxos materiais e os fluxos sociais, muito aquém da retomada que pode fazer dele um corpus linguístico ou uma metalinguagem teórica. Como é possível tal passagem? À medida que avanço em minha exposição, um paradoxo se interpõe: como é concebível falar dessas espécies de agenciamento coletivo de enunciação, sentado numa cadeira, frente a um público comportadamente arrumado numa sala? Tudo o que estou dizendo leva a estabelecer que uma verdadeira análise política não poderia depender de uma enunciação individuada (...).(GUATTARI, F,1992,p.178).

O agenciamento realizado através do dispositivo Voracidade Máxima justamente estabelece uma visão política do mundo em seus cantos escuros, pelo papel do sujeito michê dentro de certo jogo político e nisso revela-se um olhar sobre as identidades/alteridades do nosso tempo.

Podemos então concluir que o produto audiovisual Voracidade Máxima se organiza como obra artivista?

A grande difusão do audiovisual ocorrida nos anos de 1980 com o advento da criação do formato VHS proporcionou condições tecnológicas à sociedade no geral, e aos artistas condições de processamento da imagem em outros contextos até então restritos ao dispositivo cinematográfico e televisivo. No ensaio Videoarte: uma poética aberta, Walter Zanini91 nos fala da apropriação de diversos segmentos sociais do dispositivo audiovisual:

O Videoteipe, empregado em grande e crescente escala pelos cientistas – a exemplo de sua utilização pela psiquiatria na interpretação das reações

humanas através da interação do verbal e do visual – pelos pedagogos,

90 GUATTARI, F. A Revolução Molecular. 1a Ed. Ed.Brasiliense. 1981. p.178.

91 FERREIRA. G.. organizadora.Crítica de arte no Brasil: Temáticas Contemporâneas. 1ªed. ed.Funarte.

101 por inúmeros profissionais, não poderia ser ignorado pelos artistas, que no seu aproveitamento excedem as fronteiras de uma problemática estética circunscritas. Sua atuação revelou-se frequentemente na análise da própria sensibilidade, de um autoestudo ou, por exemplo, na investigação crítica da realidade social, onde procuram trazer com sua imaginária uma contribuição e interferência nos contextos de vivência massificada. A desalienação do indivíduo diante das pressões que estreitam sua consciência tem constituído uma de suas intenções essenciais, e neste sentido, a imagem eletrônica configura-se como uma contratelevisão. (ZANINI. W,2006,P.400).

Diante da análise do audiovisual de Zanini, entendemos que o dispositivo artístico Voracidade Máxima se configura como obra artivista pela contextualização crítica do segmento social dos imigrantes latinos reterritorializados na condição de garotos de programa em Barcelona, e nesse aspecto se configura também como instrumento de contrainformação perante o sistema alienante das corporações midiáticas.