A Teoria das Representações Sociais é amplamente utilizada em estudos de quase todas as grandes áreas do conhecimento, principalmente nas Ciências da Saúde, Humanas e Sociais Aplicadas, especificamente em áreas como Educação, Sociologia, Geografia e, naturalmente, Psicologia; segundo Brasil (2012), no Brasil, duas temáticas que prevalecem nestes estudos são turismo e meio ambiente/educação ambiental.
Estudos de representação social voltados para questões econômicas e, mais especificamente, para o desenvolvimento, são pouco frequentes no Brasil, sendo oriundos principalmente de Programas de Pós-Graduação Interdisciplinares em Desenvolvimento e em Geografia, e inexistentes em Programas de Economia (BRASIL, 2012).75
Ao analisar pesquisas recentes relacionadas às representações, percepções e visões sobre aspectos do desenvolvimento (vinculados a fenômenos econômicos e sociais) e que tem a cidade como recorte de análise, verificamos que algumas delas têm similaridades com os objetivos de nosso estudo.
Estes trabalhos podem ser divididos em dois grupos: os que tratam da representação/visão/discurso/conceito do desenvolvimento em si (DUNDES, 2001; SAQUET; SAQUET, 2006; QUERINO, 2006; SOUZA, 2006; DELFINO, 2008; IAOCHITE, 2008; OLIVEIRA, D., 2008; OLIVEIRA, L., 2008; CALEGARO, 2010; BELLENTANI, 2010) e os que abordam a representação/visão/discurso do desenvolvimento (ou do bem-estar) da própria cidade (ou região) objeto de análise (DURHAM, 1986; CUNHA, 2005; DUNDES, 2007; FERNANDES, 2010; MARTINEZ, 2011).
Dundes (2001) estudou a emergência, a partir da década de 1960, de um discurso e de uma ideologia desenvolvimentista produzidos pelo novo poder político de Presidente Prudente, que substituiu os velhos políticos populistas ligados à elite agrária, e que preconizava a industrialização/atração de indústrias, por meio de polos/distritos industriais, como a forma mais eficaz de promover o desenvolvimento econômico e social do município, tornando, assim, a sociedade urbano-industrial um paradigma a ser atingido. Com a ascensão destes “políticos-empresários” e sua ideologia industrializante, novo padrão de administração pública municipal passou a ser requerido pela comunidade, que assumiu como seu os interesses do poder local.
Saquet e Saquet (2006), ao estudarem as implicações territoriais da criação de parques industriais em cidades do sudoeste do Paraná, concluíram que a atração de empresas é a forma predominante de industrializar estes municípios que, no discurso das administrações municipais, seria a única forma de desenvolver suas localidades. Assim, na visão dos governos locais, o conceito de desenvolvimento estaria vinculado à expansão industrial.
75 Uma literatura internacional sobre representações sociais de fenômenos econômicos pode ser encontrada no
Programa de Doutorado Europeu/Internacional em Representações Sociais e Comunicação – que congrega 24 universidades de 15 países e é coordenado pela Universidade de Roma, La Sapienza – no qual existe a área temática Representações Sociais e Economia. Não existem trabalhos sobre desenvolvimento, mas há sobre mercado financeiro e de ações, globalização e crise econômica. Por exemplo, Liguori et al. (2012) estudam as representações sociais da crise europeia (iniciada em 2008), em diferentes grupos sociais (comerciantes, bancários, estudantes de Economia e leigos) da França, Itália, Grécia e Romênia (EURO Ph.D., 2013).
Querino (2006) fez uma análise crítica do conceito de desenvolvimento, estudando a introdução de objetos técnicos e equipamentos urbanos em Montes Claros-MG – impulsionada pela chegada da Estrada de Ferro Central do Brasil, em 1926 – os quais, representados como mais modernos e eficientes, assumiram o lugar dos saberes, lógicas e cultura locais, que passaram a ser representados como subdesenvolvidos, símbolos de atraso e de não civilização (por exemplo, a pecuária, que sofreu transformações). “Uma vez presentes na região, as novidades do mundo civilizado serão motivo de eufóricas comemorações, símbolo de vitória e de competência dos políticos que, sob seu mandato, conseguiram trazê- las para o sertão” (QUERINO, 2006, p. 155-156). Assim, os objetos técnicos levaram à visão do desenvolvimento como obrigação, fazendo com que as ações das lideranças políticas regionais passassem a orbitar em torno da busca por eles. Sua presença, por si só, dirá se a cidade é desenvolvida ou não.76
Souza (2006), num estudo que concluiu que o forte crescimento econômico ocorrido a partir da implantação de um complexo industrial em Camaçari-BA, não se refletiu num efetivo desenvolvimento social, identificou também a percepção dos moradores em relação às empresas instaladas no município. Os resultados das entrevistas mostraram que, ao mesmo tempo em que 72,9% dos moradores tinham o que reclamar das empresas (pouco relacionamento com o comércio local, despreocupação com a qualidade de vida da população, poluição do ar e dos recursos hídricos, etc.), 89% deles também não ficariam satisfeitos caso as empresas saíssem do município.
Delfino (2008) analisou os discursos e as práticas de planejamento urbano de três gestões municipais de Jaguaruna-SC, no período de 1997/2008, e concluiu que elas foram orientadas para o crescimento e a modernização da cidade com a intenção de transformá-la em uma cidade grande no futuro, respaldadas por uma ideologia que enxerga o desenvolvimento como sinônimo de crescimento econômico e industrialização.
A autora também realizou uma inferência sobre o conceito de desenvolvimento, identificando que, para os habitantes da cidade, sejam eles prefeito, vereadores, líderes comunitários, professores ou cidadãos comuns, desenvolvimento está intimamente ligado à ideia de crescimento: instalação de indústrias, construção de novos loteamentos e abertura de ruas. Entrevistas com sujeitos locais mostraram que 90% deles gostavam de morar em Jaguaruna por ser uma cidade pequena e pacata; mas, quando questionados sobre o que
76 Este estudo constitui um caso brasileiro de como a ideologia do desenvolvimento penetra nos territórios do
poderia promover o desenvolvimento da cidade, a mesma porcentagem respondeu ser a instalação de indústrias, o que, segundo a autora, configura uma contradição de opiniões.
Iaochite (2008), estudando o polo cerâmico de Santa Gertrudes-SP, entrevistou os moradores com a questão “O que é desenvolver Santa Gertrudes para você?”, obtendo os seguintes resultados: 32% acreditam ser o crescimento econômico da cidade, 14% a expansão urbana, 31% a melhoria nos serviços públicos e aumento e melhoria na infraestrutura e 23% acreditam ser melhorar a qualidade de vida da população, demonstrando que o desenvolvimento é considerado mais pelo aspecto econômico do que pela qualidade de vida.
Por meio de entrevistas, Oliveira, D. (2008) identificou a percepção da elite do agronegócio de Unaí-MG, acerca da desigualdade social e da pobreza no município, a qual aponta para: a) acredita nos impactos do crescimento do agronegócio no desenvolvimento do município, mas considera que aspectos sociais possuem importância secundária no processo; b) parte dos problemas sociais do município relaciona-se com transformações estruturais que ocorreram no agronegócio local, sendo o Estado o principal responsável por resolvê-los; c) políticas públicas de reforma agrária e de assistência social, como o Bolsa Família, são ineficientes, mas mitigam efeitos perversos da mecanização agrícola; d) a agroindustrialização de Unaí é uma via futura para o desenvolvimento econômico do município e solução para os problemas sociais. Sobre esta pesquisa, podemos dizer que a visão que emana dos representantes do agronegócio local é a do desenvolvimento como crescimento setorial/econômico.
Oliveira, L. (2008) detectou as percepções dos moradores de quatro pequenos municípios às margens do Rio Cuiabá sobre o que é desenvolvimento, identificando possíveis contradições entre essas percepções e as concepções teóricas sobre o conceito de desenvolvimento. Nas entrevistas, a autora substituiu a expressão desenvolvimento por viver bem (“para você, o que é viver bem?”), querendo tornar a ideia de desenvolvimento mais acessível à população sem instrução. Os elementos apontados pelos moradores como essenciais para se viver bem, pela ordem de importância atribuída, são (permitindo-se mais de uma resposta): ter saúde: 37,3%; ter trabalho/emprego: 22,7%; ganhar bem/ter grana/salário: 14,7%; ter casa: 13,3%; alimentação (comer, beber): 13,3%; ter paz/harmonia: 10,7%; educação/estudo melhor: 10,0%. Assim, a pesquisa concluiu que a simplicidade do discurso dos moradores é coerente com os elementos essenciais do desenvolvimento, preconizados por seus principais autores.
Sobre esta pesquisa, julgamos que considerar o viver bem como sinônimo de desenvolvimento direciona o conceito para o paradigma do desenvolvimento humano, o que
justifica as respostas voltadas para o bem-estar do indivíduo; mesmo assim, houve 37,4% de respostas relacionadas à dimensão econômica (ter emprego e salário).
Calegaro (2010), por meio de entrevistas, apreendeu a visão dos sujeitos sociais de Entre-Ijuís-RS, sobre o que consideram desenvolvimento local sustentável, que é: a) sucesso econômico da produção agrícola; b) apoio e estímulo para a comercialização destes produtos agrícolas; c) criação de oportunidades de trabalho e renda local; d) cuidados com a eliminação de resíduos no ambiente. Os resultados apontaram para uma visão intermediária entre o desenvolvimento como crescimento econômico e o desenvolvimento sustentável, mas ainda persistindo um forte viés econômico, ou seja, para a autora, os valores acerca do desenvolvimento, institucionalizados na sociedade local, continuam sendo os relacionados ao crescimento econômico e material, de elevados custos socioambientais.
Este trabalho assemelha-se a uma pesquisa iniciada em 2009 por Global University Network for Innovation (2011)77, que identifica e compara a representação social do desenvolvimento sustentável de estudantes na Polônia, França e Alemanha, objetivando analisar o que significa o desenvolvimento sustentável para eles. A pesquisa sugere que existem diferentes modelos de desenvolvimento sustentável, que variam de acordo com o contexto sociocultural e político dos estudantes. Enquanto poloneses destacam a dimensão interespacial, alemães e franceses combinam a dimensão intergeracional com o desenvolvimento sustentável. No entanto, os três grupos conseguem estabelecer, com diferentes intensidades, forte ligação entre meio ambiente e desenvolvimento sustentável.
Como parte de sua pesquisa, que verificou o comportamento de indicadores de desenvolvimento humano em áreas de periferia urbana e de assentamentos rurais em Ribeirão Preto-SP, Bellentani (2010) questionou os entrevistados sobre “o que é desenvolvimento humano para você?”. A autora agrupou as respostas em três categorias: 1) Politicas Públicas, com respostas ligadas às demandas por educação, saúde ou trabalho; 2) Formação Social, com respostas vinculadas à reprodução social e realização dos sujeitos; 3) Questões pessoais/individuais, relacionadas a valores individuais, como equilíbrio, amor e fé. As respostas dos moradores ficaram equilibradas entre as três categorias, com exceção da periferia urbana, onde predominaram fortemente as políticas públicas como sinônimo de desenvolvimento humano.
77 Global University Network for Innovation (GUNi) é uma rede internacional criada em 1999 pela UNESCO,
Universidade das Nações Unidas (UNU) e Universitat Politècnica de Catalunya – BarcelonaTech, para facilitar a implementação das principais decisões da Conferência Mundial da UNESCO sobre Educação Superior, em 1998, que objetiva aprofundar as reflexões e ações para uma troca de valores entre o ensino superior e a sociedade global (GLOBAL UNIVERSITY NETWORK FOR INNOVATION, 2013).
Num clássico estudo de cunho sociológico, Durham (1986) detectou as visões dos habitantes da periferia urbana de três cidades paulistas de porte médio (São José dos Campos, Marília e Rio Claro), a respeito de suas cidades, por meio de perguntas como: “O senhor gosta daqui?" ou “O que acha da cidade?". As referências obtidas foram: a) as cidades são consideradas boas para se viver, pois são tranquilas, limpas e sem violência, sempre se remetendo a uma comparação com as grandes cidades, que seriam sujas, poluídas e violentas; b) as cidades possuem recursos, entendidos como a disponibilidade de serviços públicos (assistência médica, escolas e transporte), equipamentos urbanos como água, luz, esgoto e pavimentação, além da existência de comércio diversificado; neste caso, a comparação desloca-se para as pequenas cidades e para o campo, que seriam carentes destes recursos; c) as cidades em análise têm a grande desvantagem de oferecer poucos empregos (com exceção de São José dos Campos), uma vez que a facilidade ou a dificuldade em se obter bons empregos está associada a grandes indústrias, localizadas nas grandes cidades.
Este estudo, embora não tenha tratado da representação do desenvolvimento em si, mas, sim, do viver na cidade, acabou por mostrar a valorização da grande indústria como elemento dinamizador da cidade e, por que não, de seu desenvolvimento, o que podemos resumir na seguinte ideia: a cidade é boa para se viver, por seus recursos (em comparação com as pequenas) e pela tranquilidade (em comparação com as grandes); mas, faltam os empregos industriais existentes nas grandes cidades. Segundo os habitantes: “o progresso da sociedade que garante a possibilidade de melhoria da vida privada consiste no processo de ampliação do mercado de trabalho e no acesso ao mercado de consumo determinados pela industrialização e na oferta crescente de serviços urbanos à população” (DURHAM, 1986, p. 95)78. Ainda de acordo com a visão dos habitantes, dado que a Prefeitura deveria zelar pelo bem-estar da população, seria sua atribuição atrair indústrias, que trariam empregos.
Cunha (2005) estudou a representação de Londrina como metrópole, cujas origens remontam à década de 1930, a partir das representações “Londrina Novo Eldorado”, “Londrina Nova Canaã”, vindo depois o discurso de “Capital Regional” e, na década de 1970, o Projeto Metronor, os quais, junto com o crescimento demográfico do aglomerado urbano Londrina-Cambé-Ibiporã, vieram a influenciar a institucionalização da Região Metropolitana de Londrina, em 1998. Por meio de entrevistas, o estudo também objetivou desvendar a imagem pública que os habitantes de Londrina fazem de sua cidade. Os resultados apontaram
78 Estudos recentes já mostraram a mudança, para pior, de percepção dos habitantes de cidades de porte médio,
tal como estas, em relação à sua qualidade de vida, dado o agravamento de seus problemas sociais e urbanos (mencionados na seção 2.4).
um rol de 23 elementos mais citados, com baixo nível de coesão (conectividade) entre eles e cuja ideia central do discurso está baseada nas expressões Lago Igapó, Shopping, trânsito, grande cidade, comércio forte, catedral e Av. Higienópolis, mostrando, segundo o autor, que o imaginário dos habitantes não produz a ideia de Londrina como uma metrópole.
Dundes (2007), por meio da análise do discurso em artigos, editoriais e propagandas de jornal em períodos de campanha eleitoral, identificou as representações sociais sobre a região de Presidente Prudente-SP, especialmente no que se refere às suas características socioeconômicas. Os discursos do e no jornal revelaram que estão presentes, simultaneamente, formando um par dialético, duas representações sociais aparentemente contraditórias: a região do devir, do vir a ser, do pioneirismo dos desbravadores, da pujança da agricultura e da pecuária, rica em possibilidades de crescimento, forjada durante seu processo de ocupação e expansão econômica baseada no café; e a região do atraso, área de baixo desenvolvimento econômico, representação que nasceu junto com a representação da região do devir (imagem do sertão e suas matas e índios que ameaçavam o progresso), mas disseminada somente a partir da década de 1990, já em outros termos (região pobre do Estado, terra de conflitos fundiários e de presídios).
Fernandes (2010), ao estudar em que medida a instalação de uma grande usina hidrelétrica contribuiu para o desenvolvimento de oito municípios de Goiás, identificou a percepção dos sujeitos locais (representantes do poder público local, empreendedores e população atingida pela barragem) sobre a efetivação ou não do desenvolvimento. Os resultados apontaram que as expectativas de que a usina traria desenvolvimento não foram concretizadas, pois priorizaram-se os interesses do setor elétrico em detrimento dos interesses locais. Afirmou ainda o autor que, na região estudada, a visão sobre o desenvolvimento é muito tradicional e enviesada, ainda que alguns representantes do poder público tenham revelado certo conhecimento sobre a temática do desenvolvimento sustentável.
Martinez (2011), analisando a política pública de atração de empresas para Bebedouro-SP, aplicou um questionário a uma amostra de 349 indivíduos, sendo que duas perguntas faziam referência explícita à temática do desenvolvimento. Para a pergunta “Nosso município está-se desenvolvendo?”, 74% responderam que não, 17% que sim e 9% deram outras respostas; para a pergunta “Qual é considerado o principal ponto forte para o desenvolvimento da cidade?”, as respostas foram localização geográfica privilegiada (51%), quantidade de empresas abertas na cidade (16%), mão de obra qualificada (13%), infraestrutura (10%) e apoio governamental (7%), havendo 3% sem respostas. Embora a última pergunta não tenha sido feita com essa intenção, ela revela uma concepção de
desenvolvimento bastante voltada para o crescimento econômico. Todavia, as perguntas anteriores do questionário faziam referência a aspectos econômicos (principal atividade econômica da cidade, novos negócios, geração de emprego, etc.) e podem ter induzido os entrevistados a responder sobre desenvolvimento em termos de dinamismo econômico.
Enfim, os resultados destes estudos de representação/percepção de desenvolvimento apontam, de modo geral, para a representação do desenvolvimento como fenômeno ligado à expansão e/ou dinamismo econômico/industrial, crescimento urbano e presença de objetos técnicos nas cidades estudadas.