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No período de Augusto as inovações na arquitetura foram quase todas ignoradas por Vitrúvio, único teórico romano da arquitetura cujas obras sobreviveram. O pensamento vitruviano refletia a forma como os seus percursores abordavam a arte grega, e não se aproximava das novidades dos empreendimentos grandiosos do fim da República. Vitrúvio, natural do século I a.C., viveu um período de alterações fundamentais nas criações arquitetônicas romanas, por isso não poderia então conhecer o apogeu da criatividade romana no domínio arquitetônico, e portanto, seu tratado não poderia refletir o contributo essencial de Roma. Os romanos buscaram inspiração às gregas, nas ordens arquitetônicas dórica, jônica, coríntia e toscana, não atribuíram uma função somente estrutural, mas sobretudo ornamental. A essência do pensamento arquitetônico romano se fazia na criação de espaços conseguidos através do arco, abóbada e cúpula (STIERLIN, 1997).

Entretanto, o fato de Vitrúvio não explorar este aspecto em sua obra – surgida no início do Império – deve indicar, provavelmente, que este período marcasse a origem de uma certa contenção na arquitetura romana. Ao dedicar a obra à Augusto o autor encorajou a timidez que caracterizou as primeiras fases da arte augustana. A arquitetura poderia revelar as ambições autocráticas de Augusto, assim se justificaria sua atitude cautelosa em encarar as manifestações de poder, em atitudes reservadas e prudentes, evitando-se ostentações e conflitos na política com senadores. Vitrúvio defendeu um estilo tendencialmente clássico e tradicionalista que estagnou temporariamente a criatividade dinâmica dos estilistas romanos do final da República.

A contenção de Augusto em continuar o esplendor imperial em Roma, aliada ao efeito de reação das teorias de Vitrúvio, traduziram-se no congelamento da evolução arquitetônica durante o período augustano, em termos espaciais e tecnológicos. O reinado de Augusto, prolongou-se por 46 anos, após o seu falecimento aos 76 anos, em 14 d.C., se iniciou uma nova era na arquitetura romana. A partir de então o poder imperial se encontrava firmemente consolidado e já não se fazia necessário temer a expressão do caráter absoluto do sistema imperial (STIERLIN, 1997).

A arquitetura grandiosa apareceu aos poucos no período de Augusto e seguiu se desenvolvendo livremente, principalmente no reinado de Nero. Através da magnitude das criações, número de monumentos e qualidade, em termos espaciais e técnicos, pode-se constatar a originalidade e o caráter inovador da arquitetura romana. O sucessor de Augusto, Tibério (14-37 d.C.) revelou um gosto acentuado pela riqueza e pelo esplendor expressados na arquitetura deste período. Depois de Tibério, os reinados de Calígula (37-41 d.C.), e de Cláudio (41-54 d.C.), caracterizaram-se pelos aperfeiçoamentos técnicos, alcançados devido as criações utilitárias do século I a.C. Durante o principado de Nero (54-68 d.C.), aconteceu uma verdadeira revolução arquitetônica, baseada em realizações de obras cada vez mais ambiciosas, cujas as abóbadas e cúpulas foram construídas em concreto sólido, além de favorecimento urbano de Roma (Idem, 1997).

Deste modo, constata-se que o governo iniciado por Augusto continuou sendo consolidado através de seus descendentes familiares, com a dinastia Júlio-claudiana, que prosseguiram com a política urbanizadora e arquitetônica. Tal prática foi adotada também na Península Ibérica, mesmo que em escala menor, como assinalado por García y Bellido, estes elementos da romanização aconteceram de forma mais lenta sob o período desta dinastia (TOVAR; BLÁZQUEZ, 1975), contudo seguiram ajudando no avanço da romanização pelos seus territórios. O que provocou, ao longo do tempo, a reorganização na distribuição urbana da Hispânia, uma das províncias que mais sofrera, desde o princípio do processo da expansão de Roma, os efeitos da romanização (SÁNCHEZ, 2009).

No período da dinastia Júlio-claudiana o Império continuou a crescer e assistiu a consolidação econômica e social, acompanhadas de um aumento na atividade agrícola, na manufatura e no comércio. As estradas, construídas com finalidades comerciais e militares, traçavam uma rede densa por todo o Império e ligavam as províncias entre si e a Roma (LIBERATI; BOURBON, 2005). Ao longo dos dois séculos

seguinte, sob o reinado dos sucessores de Augusto, Roma estendeu e consolidou sua hegemonia, englobando largas parcelas da Europa, África do Norte e da Ásia Menor. Desta forma, Roma tornou-se a cabeça do mundo, onde o comércio e os impostos canalizaram grandes riquezas para a capital e os imperadores a dotaram de suntuosos edifícios e monumentos, que serviam de inspiração para continuar o desenvolvimento da urbanização e da arquitetura pelas províncias (HINTZEN- BOHLEN; SORGES, 2006).

No período da dinastia Flaviana, entre 69 d.C. e 96 d.C., Roma enriqueceu arquitetonicamente, de novos monumentos, construções de palácios, templos, arcos, novas regras para estabelecimentos junto das insulae que evitavam a propagação de fogo, edificação do anfiteatro Flávio, o Coliseu. O Império construía anfiteatros e demais edifícios romanos em todos os seus grandes centros urbanos, como símbolos da generosidade dos imperadores (STIERLIN, 1997). As fronteiras foram consolidadas por meio de expedições de conquistas (LIBERATI; BOURBON, 2005), e a urbanização e a romanização estiveram muito relacionadas e avançaram juntas no século I d.C. O imperador Vespasiano (69-79 d.C.) implementou a política de criar municípios na Hispânia que favoreciam a romanização e urbanização peninsular, além de facilitar o recrutamento de tropas. Cada cidade possuía em seus arredores um território que formava uma unidade política, social e econômica. A fundação de cidades pelo território hispânico, no período da dinastia Flaviana, fez avançar a assimilação com as cidades da península itálica, podendo ser considerada entre todas uma das regiões mais romanizada (TOVAR; BLÁZQUEZ, 1975).

No século II d.C. ocorreu um aumento e expansão das atividades produtivas e comerciais, e um considerável desenvolvimento cultural da sociedade do Império (LIBERATI; BOURBON, 2005). A dinastia Antonina, entre 96 d.C. e 192 d.C., representou o século de ouro, por criar um período de estabilidade e excelência. Mesmo com as recomendações de Augusto para não estender o Império, o território continuou aumentando com as conquistas realizadas posteriormente ao seu principado (CORNELL; MATTHEWS, 2008), e sob o governo de Trajano (98-117 d.C.) o Império atingiu sua maior dimensão territorial e coesão, e unidade cultural, devido à integração das várias províncias, além de também erguer grandes complexos arquitetônicos (STIERLIN, 1997).

Através de uma filosofia política de paz, o imperador Adriano (117-138 d.C.) construiu um poderoso sistema de fortificações defensivas e se dedicou à solução dos

problemas administrativos do Império e à sua completa romanização (LIBERATI; BOURBON, 2005). Desta forma o imperador conseguiu se dedicar à sua paixão, a arquitetura. Assim, em suas longas viagens pelas províncias, mandou construir templos, teatros, bibliotecas e estádios, e implementou importantes sistemas de planejamento urbano em muitas cidades, em ambas as zonas ocidental e oriental do Império romano. Dedicado à arte helênica, o imperador manteve suas criações arquitetônicas com o caráter romano, determinou os princípios e a modalidades fundamentais dos projetos e criou uma série de obras-primas (STIERLIN, 1997).

No período romano, uma província geralmente indicava um território situado fora da Itália, anexado a Roma de modo pacífico ou por conquista, e sujeito à competência de um magistrado. No antigo período republicano havia uma separação entre a situação jurídica dos habitantes da Península Itálica, que gozavam de privilégios, e os outros, obrigados a pagar uma contribuição territorial (LIBERATI; BOURBON, 2005). Ao longo do tempo essa diferenciação foi lentamente atenuada, por meio da universalização da cultura desenvolvida pela romanização, até que em 212 d.C., quando o imperador Caracala (211-217 d.C.) concedeu a Constitutio

Antoniana, que estendia a cidadania romana a todos os habitantes livres do Império,

e se completou com Diocleciano, ao assimilar as províncias e o território da Península Itálica (Idem, 2005; TOVAR; BLÁZQUEZ, 1975).

No século III d.C. o Império Romano foi marcado por crises econômicas, revoltas e revezes militares. A ordem militar tendeu a declinar e registraram-se algumas invasões germânicas e sassânicas, determinando que o apogeu do Império permaneceria no passado. Mesmo assim, Roma conseguiria se recuperar. O imperador Diocleciano (248-305 d.C.) tentaria apaziguar a situação através de uma completa reorganização do Império e uma descentralização da administração (HINTZEN-BOHLEN; SORGES, 2006). A remodelação total de toda a estrutura da sociedade romana acentuaria a influência do Estado na vida cotidiana dos cidadãos. Assim, os maiores empreendimentos arquitetônicos deste período visaram proporcionar luxo e bem-estar a todos do Império. Grandes obras públicas e utilitárias se afirmaram nesta fase, especialmente construções de muralhas, balneários públicos e basílicas (STIERLIN, 1997).

Mesmo com o fim do esplendor do Império romano, a administração imperial, altamente complexa, chegou a uma eficiência dificilmente igualável. A concessão de cidadania nas províncias tinha aumentado, a economia chegado a um ótimo nível e

se assistia aos mais pobres (LIBERATI; BOURBON, 2005). O fim do Império Romano foi muitas vezes considerado um período de declínio, menos na arquitetura, onde encontra-se o seu apogeu de realização. A criação de espaços interiores, o aperfeiçoamento da tecnologia da construção em concreto, e o luxo das instalações destinadas a população em geral, beneficiaram o conforto e a beleza da decoração em magníficos materiais (STIERLIN, 1997).

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