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A romanização urbanística e arquitetônica foram fatores de mudança na situação prévia da conquista, para além de mudanças na moda ou capacidades econômicas e técnicas das cidades, constituíram-se, ao final da República, como uma forma de fazer política a partir de obras arquitetônicas nas cidades. Os núcleos urbanos formavam um conjunto de edifícios públicos e privados distribuídos por diferentes áreas da cidade, e sua importância dependia da situação jurídica de cada assentamento, assim como de sua condição econômica. Para avaliar o status e prestígio de uma cidade a arquitetura se converteu no principal ponto de referência de influências e, como em época imperial, tornou-se um veículo de propaganda política dos imperadores (Idem, 2000-1).
A relação de impulsos sociais e a arquitetura conduziu as cidades a uma identificação entre a própria cultura e a paisagem antrópica modelado por ela, um dos elementos definidores dos centros urbanos, e todo quanto demonstrava a projeção da cidade a uma natureza interiorizada e dominada, onde se tinham um papel primordial as calçadas, pontes, aquedutos, obras de engenharia de grande interesse aos romanos. Deste modo, Roma queria perceber a todos a realização de um cosmos novo, civilizado, estendido a todas as regiões com a expansão do Império (Ibidem, 2000-1).
A arquitetura romana fora convertida num poderoso sistema de linguagem de alta capacidade de transmissão, prestigiada pelos seus elementos formais e materiais, que foram difundidos pelos dirigentes romanos através do Império, e pelo seu prestígio se converteriam também em uma linguagem veicular dos dirigentes provinciais que assumiram tal arquitetura, propagando-a pelos territórios das cidades coloniais romanas (Ibidem, 2000-1).
Roma assumiria a chegada de um fator determinante no papel urbano e da arquitetura no âmbito da cidade, impulsionada pela ação dos conquistadores e pela aceitação progressiva por parte das elites locais que incorporavam a expressão que sintonizavam com a linguagem e os usos dos poderosos. As incorporações dos novos parâmetros arquitetônicos, ao modo romano ou itálico, nas cidades hispânicas formavam expressões de aproximação conveniente para ambas as partes, elites romanas e nacionais. Em época republicana, magistrados locais se uniram com magistrados romanos para custear obras públicas para suas cidades, caminho que se acentuaria a partir do Principado (BENDALA GALÁN, 2000-1).
Para os romanos a arquitetura ocupava uma posição privilegiada, devido tanto ao seu aspecto prático, como também ao significado político que alcançava na escala de valores romano. A arquitetura com sua evidência e inserção no contexto cotidiano, representava a arte romana por excelência, expressão direta da sociedade. Durante o período republicano, Roma procurou se empenhar e se esforçar em resolver os problemas práticos mais necessários, como a construção de ruas, aquedutos, esgotos, termas, pontes e muralhas. Os módulos urbanísticos romanos tiveram uma difusão mais ampla com a anexação de diversas colônias, elevadas ao nível de cidadania romana através do cumprimento de rigorosas diretrizes políticas (BOVO, 2006b).
Com a criação de novas cidades ou novos centros, por transferência e sinecismo de assentamentos ou cidades anteriores, permitiu-se a projeção de novos centros cívicos com aplicação de fórmulas urbanísticas e arquitetônicas romanas (BENDALA GALÁN, 2000-1). Durante o Principado, Augusto alavancou um grande impulso na construção de edifícios, de caráter urbano, pontes e calçadas (TOVAR; BLÁZQUEZ, 1975). A transformação do Estado, por Augusto, foi implementada em Roma de forma rigorosa e levou a uma época de paz interna que permitiu o desenvolvimento econômico e cultural de todo o Império (LIBERATI; BOURBON, 2005). A partir do tempo de Augusto nota-se a ocorrência de um estímulo cultural nas artes plásticas, na literatura e nas ciências (HINTZEN-BOHLEN; SORGES, 2006).
Neste período começavam os grandes projetos de construção do Império, desenvolvimento de uma vasta política urbanística nas cidades e exaltação do novo soberano e sua família (Idem, 2006). Os centros antigos e de criação foram feitos com programas arquitetônicos ao serviço da política imperial, com atenção à marmorização – como expressão de Roma – para construções de edifícios correspondentes ao
cenário político e à propaganda ao imperador e sua família, como teatros, e um conjunto de fenômenos que impunham novas formas arquitetônicas nas cidades romanas ou romanizadas (BENDALA GALÁN, 2000-1). Após a morte de Augusto e sua divinização pelo Senado, o culto imperial foi adotado pela Itália e as províncias, tornando-se o elo de união entre elas e o Império. Tal fato exprimiria a lealdade de todos a uma dinastia que garantia a perenidade da paz (HINTZEN-BOHLEN; SORGES, 2006).
Assim como o latim se convertia em língua oficial manifestado nas escrituras, o aparecimento de cidades pelas províncias foi definindo como linguagem comum à arquitetura do Império, linguagem aceitada pelas populações que podiam cultivar ao mesmo tempo suas próprias tradições (BENDALA GALÁN, 2000-1). Paralelamente ao desenvolvimento urbano, Augusto iniciava um programa de reformas religiosas que previa a reformulação de antigos cultos, a renovação dos preceitos e o saneamento de velhos templos (HINTZEN-BOHLEN; SORGES, 2006). Augusto apoiou o culto às divindades romanas e não impediu que se difundissem novas correntes religiosas, um dos fatores que permitiu que vigorasse a paz universal proposta (LIBERATI; BOURBON, 2005).
Os administradores romanos toleravam as tradições nativas, contanto que as mesmas não interferissem nas prerrogativas imperiais, como o recolhimento de impostos ou a cumprimento dos rituais do Estado. A população que residia nas áreas rurais ficaria mais apegada aos seus costumes locais, diferentemente dos habitantes que moravam nas cidades, que logo aprenderiam a se comportar como os romanos, até na preferência de estilo de roupa, com uso da toga (SÁNCHEZ; ALMARZA, 2008). São muito significativos os avanços da urbanização e transformações das estruturas indígenas: “La creación de concentraciones urbanas destruía poco a poco la vida
indígena tradicional y favorecía la introducción de la cultura romana (TOVAR;
BLÁZQUEZ, 1975, p. 313)”. O desenvolvimento da romanização na Península Ibérica deslanchou, e a manifestação de aceitação da civilização romana pelos nativos ficou expressada nos monumentos e obras importantes realizadas e encontradas nas províncias ibéricas, e também pela difusão e conservação da língua e da religião romana (LIBERATI; BOURBON, 2005).
Com a passar dos anos, a população das províncias começava a absorver não só a língua e a cultura, mas também as leis romanas, e tornaram-se cidadãos. Os romanos conquistavam a simpatia dos provincianos, em parte, por construírem
pequenas versões completas de Roma por todo o Império, erguia-se templos, anfiteatros, teatros, aquedutos, termas públicas e fóruns pelas cidades coloniais (SÁNCHEZ; ALMARZA, 2008). Deste modo, as colônias romanas se organizavam como uma extensão da pátria-mãe Roma, e se constituíram como uma rede básica de difusão da romanização, uma vez que concentravam a língua, usos e costumes, organização jurídica, arte e cultura, características absorvidas e elaboradas por todo o Império romano (LIBERATI; BOURBON, 2005).
Portanto, as cidades coloniais romanas representaram símbolos de poder e de sociedades complexas, que se tornaram refinadas e exigentes por abrangerem toda uma heterogeneidade de experiências. Essas cidades se manifestaram em uma monumentalidade constante de desenvolvimento devido à carga de influências filtradas e assimiladas, que ditaram, muitas vezes, o gosto do Império, na arte e na arquitetura, nas ciências e literatura, e também na religião (Idem, 2005). Os monumentos espalhados por todas as províncias romanas passaram a atrair a população pelo estilo de vida romano, ajudando a proliferar a era de prolongada paz relativa, a Pax Romana, para o Império forjado por meio de conquistas (SÁNCHEZ; ALMARZA, 2008).
Os romanos obtinham êxito em seus feitos por também se estabelecerem como excelentes viajantes e mercadores, que comerciavam especiarias, metais e objetos, pelas províncias até os confins do extremo Oriente, agente que também contribuía para a difusão da romanização. Em todas as províncias o intercâmbio econômico e cultural esteve presente. Uma das principais características da civilização romana, junto ao grande impulso de expandir o território, era a capacidade de aceitar elementos profundamente diferentes, e os revivificar, mantendo as características da própria cultura. Além de efetivarem sua influência sobre povos e culturas distantes, os romanos levaram para Roma e para as províncias do Império diferentes ideias urbanísticas e arquitetônicas inovadoras (LIBERATI; BOURBON, 2005).
Em termos de construção arquitetônica as províncias da Hispânia legaram imponentes ruínas monumentais. Encontram-se espetaculares exemplos de arquitetura utilitária e engenharia hidráulica romana com seus aquedutos altivos e extensos, que atravessavam vales e depressões naturais. Um dos anfiteatros com maior capacidade para espectadores do mundo romano foi erguido na Hispânia, em Itálica. A península também foi local de construção da ponte mais resistente e comprida, localizada em Emerita Augusta. Templos com colunas elegantemente
decoradas, restos de teatros, fóruns, circos, palácios, residências e mansões, luxuosas villas, arcos, cemitérios, e outros monumentos; estes exemplos ilustram a importância do território, da romanização e são testemunhos da penetração da civilização romana nas províncias ibéricas (LIBERATI; BOURBON, 2005).
Os edifícios para espetáculos públicos desempenharam um papel importante na sociedade hispanorromana (TOVAR; BLÁZQUEZ, 1975), uma vez que as cidades romanizadas difundiam os espetáculos públicos de tradição romano-mediterrânea: lutas gladiatórias, corridas e jogos circenses, e representações teatrais. Toda cidade de tamanho médio prezava por oferecer lugares para anfiteatros, circos e teatros; tais construções refletiam o refinamento e romanização cultural de sua população. Apresentar construções imponentes como teatro e anfiteatro constituíam-se, frequentemente, como monumentos de orgulho e rivalidade entre as cidades, além de atender às necessidades de seus habitantes (MORENO, 1988).
Outro gênero de monumentos característicos da arte romana eram os relevos de Estado ou históricos, que constituíam-se como portadores e preservadores da ideologia dos governantes. Geralmente eram relevos de grandes dimensões com cenas de guerra e paz, e temas retirados da vida política. Os relevos de Estado faziam parte de monumentos políticos, como altares, templos, colunas, arcos de triunfo, com função decorativa e explicativa que auxiliavam na difusão da romanização. Depois de Augusto, os romanos aperfeiçoaram este tipo de arte política monumental para a manutenção do poder e glorificar o imperador e pessoas importantes (SIEBLER, 2008).
Obras artísticas em grandes mansões e casas romanas, desde pinturas a pisos de mosaicos, foram reveladas através do trabalho arqueológico e também demonstraram difundir a romanização. Todos esses elementos artísticos e citadinos compõem as características que marcaram o esplendor das cidades romanas, a expansão da arte romana, seus destaques sociais e políticos que resistem ainda hoje, em alguns casos, em boas condições – ou até desempenhando suas funcionalidades – em ruínas arqueológicas, testemunhos da durabilidade e qualidade das obras romanas (LIBERATI; BOURBON, 2005).
Tão profundo e contínuo foi o impacto romano nas províncias que muitos monumentos, edifícios e vestígios sobreviveram em vastas áreas do mundo romano, configurando-se como testemunhos da penetração da civilização romana, que em grande parte ainda são visíveis. Tais resquícios remontam ao esplendor da época em
que Roma propunha sua majestade pelas províncias e ilustram a importância e realçam a qualidade das ruínas que ainda hoje existem (SÁNCHEZ; ALMARZA, 2008; STIERLIN, 1997).
Verifica-se que os dois primeiros séculos dataram a época que ficou caracterizada pelos imensos projetos urbanísticos e monumentos romanos que foram construídos nas cidades provinciais (HINTZEN-BOHLEN; SORGES, 2006). Através da arqueologia podemos verificar esta integração do urbanismo e arquitetura deixados na paisagem cultural hispana, por meio da conquista romana e da romanização (BENDALA GALÁN, 2000-1).