C. Arama
9. İncelemenin Sonlandırılması
De acordo com que apresentamos na subseção 2.1 “Memória e História – Oralidade e Literalidade”, ressaltamos que o advento da escrita alterou profundamente as produções e relações sociais. A escrita passou a assumir uma característica intrínseca de registro documental, pois sua materialidade acabou lhe conferindo superioridade sobre a intangibilidade da fonte oral. Além do já destacado cientificismo que orientou a produção da história no século XIX e parte do XX, acrescentamos a rejeição as narrativas, pois elas estavam associadas aos “grandes feitos” de “grandes homens” (grifos nossos), com uma supervalorização dos líderes políticos e militares. A presença positivista no domínio dos documentos escritos como fontes, em detrimento da tradição oral, denota “[...] uma história narrativa, restrita a uma descrição linear e sem relevo, que concentrava sua atenção nos grandes personagens, desprezando as multidões trabalhadoras” (FERREIRA, 1992 apud FERREIRA, 1994, p. 01).
Entretanto, após o desenvolvimento e os desdobramentos da Escola dos Anais, com o advento da História Cultural, a narrativa passou a ser encarada de outra forma. Nessa abordagem, carrega e expressa uma preocupação com a preservação e a divulgação de histórias de vida das “pessoas comuns” (grifo nosso). A atenção da historiografia com a reunião, coleta, conservação e compartilhamento dessas narrativas dá ênfase para outros enfoques que não os da história oficial. “Narrativas complexas, expressando uma multiplicidade de pontos de vista, são uma maneira de tornar inteligíveis os conflitos” (BURKE, 2004, p. 160).
Outro ponto importante da historiografia para o desenvolvimento da história oral foi a criação do Instituto de História do Tempo Presente24 (IHTP), na França, entre os anos de 1978 e 1980, com objetivo de trabalhar sobre o passado próximo e sobre a História Contemporânea. Nessa perspectiva, o foco do historiador fica concentrado em seu próprio tempo com testemunhas vivas e com uma memória que pode ser a sua (ROUSSO, 2009, p.02).
O trabalho sobre as fontes orais denotam uma valorização do prosaico. O compartilhamento de vivências, experiências, percepções, enfim, a possibilidade de reunir e apresentar o vivido sobre a perspectiva da primeira pessoa é uma forma de agregar as demais vozes gramaticais que constituem a realidade social, a partir de uma construção plural, baseada na alteridade.
De acordo com Ferreira (1994), a coleta de depoimentos, realizada com o auxílio de um gravador, teve início da década de 1940. A proposta, desenvolvida pelo jornalista Allan Nevins nos Estados Unidos, constituiu um programa de entrevistas com objetivo de recuperar informações sobre a atuação dos grupos dominantes nos Estados Unidos. Posteriormente, esse programa constituiu o Columbia Oral History Office, que acabou servindo de referência para criação de outros centros criados em bibliotecas e arquivos. Acrescentada a outros fatos, como a guerra do Vietnã e as lutas pelos direitos civis de grupos vulneráveis (mulheres, negros, imigrantes etc.), a história oral se desenvolveu nas décadas de 1950/60/70 no cenário norte-americano.
24 Sobre a História do Tempo Presente, o historiador Henry Rousso, professor da Université Paris-
Ouest (Nanterre-La Défense), membro colaborador da criação do IHTP enfatiza que “nós fazemos uma história inacabada. Nós fazemos uma história do inacabado. Nós assumimos o fato de que as análises que vamos produzir sobre o tempo contemporâneo, provavelmente, terão certa duração e que os acontecimentos vindouros podem mudá-las” (ROUSSO, 2009, p. 205-206).
No Brasil, destacamos a atuação de duas importantes instituições25 que desenvolvem e trabalham com a história oral: o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), criado em 1973, e a Associação Brasileira de História Oral (ABHO), fundada em 1994. Dois anos após a criação do CPDOC, desenvolveram o Programa de História Oral (1975), com o objetivo de registrar a história contemporânea brasileira através do recolhimento de depoimentos de personalidades que atuaram no cenário nacional. Atualmente, o seu acervo conta com aproximadamente mil (1.000) entrevistas, grande parte disponível à consulta26. A ABHO foi criada em abril de 1994, durante o II Encontro Nacional de História Oral, realizado na cidade do Rio de Janeiro, com o intuito de agregar pesquisadores que utilizam a história oral em seus estudos27. Sobre o CPDOC, Alberti (1996) reforça que é uma instituição reconhecida no Brasil e no exterior como centro de excelência nas áreas de documentação, pesquisa e história oral.
Ultimamente tem crescido muito o interesse de instituições e do público em geral pela história, ou melhor, por diferentes formas de resgate do passado, em sua maioria plasticamente atraentes, que se multiplicam na exata proporção em que cresce o número de entidades - empresas, associações, comunidades - preocupadas com suas "memórias" (ALBERTI, 1996, p.01, grifo da autora).
Quando utilizadas e consideradas, as memórias orais podem ser percebidas como representações, dando assim um caráter multidimensional e plural sobre as possíveis análises, interpretações e produções de uma narrativa histórica. Tal afirmativa, não tem propósito de reduzir a importância da escrita, pois “as fontes escritas e orais não são mutuamente excludentes” (PORTELLI, 1997, p. 26).
25 Além do Museu da Pessoa que desenvolve o projeto de memória do caso analisado,
posteriormente, neste trabalho.
26 Informações coletadas no site da instituição, disponível em:<http://cpdoc.fgv.br/sobre>. Acesso
em: 30 nov. 2012.
27 Informações coletadas no site da instituição, disponível em:
Quando tratamos sobre fontes orais, é importante considerarmos aspectos fundamentais da oralidade: o volume e o ritmo do discurso, as pausas, o silêncio, a entonação, as exclamações. No processo de transcrição, a pretensa proposta de uma reconstrução literal fidedigna do falado ao texto passará, inevitavelmente, pela interpretação do transcritor. A adição arbitrária de sinais de pontuação se constitui como um caminho possível de representar as nuances da fala do relator. Porém, a transcrição transforma o auditivo no visual, fato que implicará percepções individuais que, invariavelmente, acarretarão em alterações no e do discurso.
A primeira coisa que torna a história oral diferente, portanto, é aquela que nos conta menos sobre eventos que sobre
significados. [...] Fontes orais contam-nos não apenas o que o
povo fez, mas o que queria fazer, o que acreditava estar fazendo e o que agora pensa que fez. Fontes orais podem não adicionar muito ao que sabemos, por exemplo, o custo material de uma greve para os trabalhadores envolvidos; mas conta-nos sobre seus custos psicológicos (PORTELLI, 1997, p. 31, grifos do autor).
As considerações de Portelli (1997) sobre a importância das fontes orais são muito significativas para pensarmos os programas de memória oral desenvolvidos por empresas com seus funcionários, bem como sobre o uso desses depoimentos, ou seja, da gestão dessas memórias/informações. Conforme aponta Damante (2000), “[...] história e memória podem ser poderosas ferramentas para a construção de marca, imagem institucional e consolidação da cultura e da comunicação organizacional” (DAMANTE, 2000, p.01).
O historiador inglês Paul Thompson28 destaca pontos importantes sobre a relevância da história oral. O pesquisador aponta a história oral como um caminho interessante para que as pessoas se percebam como integrantes e constituintes da história, reforçando as identidades. Nesse sentido, Thompson (2000, p.01)
28 Em entrevista concedida a Nara Damante, em 2000, quando veio ao Brasil palestrar no II
Encontro Internacional de Museus Empresariais, organizado pela Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE).
ressalta que “[...] não é só onde as pessoas vivem, mas também no local de trabalho, [...] cria um vínculo com a empresa, mas também dá um caráter local e mais comprometido da pessoa com aquele lugar em que ela está”. Em pergunta sobre como uma empresa pode começar a pensar em história oral, qual a filosofia que ela precisa ter, o autor postula que,
O essencial é que, na medida em que uma empresa tenha como filosofia o fato de ser feita por pessoas e que a motivação e o comprometimento delas com esse trabalho é o que faz o sucesso da organização, essa instituição tem uma consciência perfeita para usar a história oral. Se ela acredita no potencial de criatividade de seus trabalhadores, percebe que suas pessoas são fontes não só de força mecânica, mas de criatividade, de trabalho, de comprometimento, de avanço, essa empresa está muito aberta para a história oral. Filosoficamente, quando a empresa não percebe isso, não está pronta para o trabalho de história oral (THOMPSON, 2000, p.04).
Ao pensarmos e ponderarmos sobre a possibilidade de gestão das memórias/informações coletadas, outro ponto importante a ser ressaltado é a perspectiva relacional da fonte oral, que se constitui sob um processo compartilhado entre entrevistador e entrevistado. Mesmo que a entrevista seja conduzida de forma aberta, sempre haverá o interesse do entrevistador por trás, indicando o caminho a ser percorrido pelo entrevistado.
Nesta perspectiva, ressaltamos que não acreditamos na neutralidade absoluta, pois entendemos que essa é uma propriedade inalcançável entre nossas potencialidades reais. Portanto, esta pesquisa se estrutura na busca de compreender a relação entre memória, comunicação e poder no contexto empresarial não de forma estratificada, mas como latência que se apresenta sobre as relações da e na contemporaneidade. Para tanto, buscamos realizar uma breve contextualização da trajetória e orientações da história oral para qualificar nossa análise a respeito dessa prática, que é desenvolvida no Projeto de Memória BNDES, que abordaremos mais adiante.
2.5 Memória, Informação e Conhecimento: uma possibilidade de gestão das