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İlhanlı Tahakkümünün Artan Boyutları ve Buna Tepkiler

C. II MES’UD’UN İKTİDARA YÜRÜYÜŞÜ

4. İlhanlı Tahakkümünün Artan Boyutları ve Buna Tepkiler

Villas Boas e Souza (2011, p. 35) apresentam um exemplo de ancoragem e objetivação que pode auxiliar o leitor na elaboração desses conceitos. Trata-se de um excerto da carta do cronista português Pero Magalhães Gândavo, escrita no século XVI, em sua tentativa bem- sucedida de inserir o desconhecido em um sistema de pensamento preexistente e, assim, explicar aos lusitanos o que vinha a ser um tatu.

O mais fora do comum de todos os animais [...] chamam-lhes tatus e são quase como leitões: têm cascos como de cágado, o qual é repartido em muitas juntas como lâminas e proporcionadas de maneira que parece totalmente um cavalo armado. Têm um rabo comprido todo coberto do mesmo casco. O focinho é como um leitão, ainda que mais delgado e só botam fora do casco a cabeça. Têm pernas baixas e criam-se em covas como coelhos. A carne destes animais é a melhor e mais estimada que há nesta terra e tem sabor quase como galinha (1575, apud VILLAS BOAS E SOUZA, 2011, p. 35).

As autoras comentam que Gândavo transformou o estranho (tatu) em familiar por meio das aproximações com os animais conhecidos (cavalo, coelho, galinha, cágado, leitão). Esse processo, segundo elas, poderia ser aplicado a qualquer outro objeto que precisasse ser inserido em uma dinâmica social: a objetivação e a ancoragem.

a) ANCORAGEM

A ancoragem e a objetivação são os dois processos que geram as representações sociais.

Moscovici explica: “[...] a familiarização é sempre um processo construtivo de

ancoragem e objetivação através do qual o familiar passa a ocupar um lugar certo dentro de

nosso mundo familiar” (MOSCOVICI, 2002, p. 20).

De acordo com Sá (1993), com base nos estudos de Jodelet, a ancoragem, um dos dois processos formadores da representação social, consiste “[...] na integração cognitiva do objeto representado – sejam ideias, acontecimentos, pessoas, relações etc. - a um sistema de

pensamento social preexistente e nas transformações implicadas” JODELET (apud SÁ, 1993, p. 37).

Ancorar é, pois, classificar, dar nome a alguma coisa, colocando-a em um contexto familiar e comum. “[...] coisas que não classificadas e que não possuem nomes são estranhas, não existentes e ao mesmo tempo ameaçadoras [...] não podemos representar o não usual em

nosso mundo familiar” (MOSCOVICI, 2011, p. 62).

A ancoragem, segundo Chamon (2014), tem como função a integração cognitiva do objeto representado a um sistema de pensamento já existente, ou seja, a uma categoria de pensamento já elaborada pelo grupo. Assim sendo, o “novo” é incorporado, enraizado ao antigo, ao familiar, dando ao objeto a familiaridade necessária para que a estranheza inicial desapareça. Neste sentido, há um reajustamento do objeto de modo que ele possa se enquadrar no sistema de pensamento existente.

Ancorar implica, segundo Santos (2005, p. 33), três processos: atribuição de sentido, instrumentalização do saber e enraizamento no sistema de pensamento.

Atribuição de sentido- o enraizamento de uma representação inscreve-se numa rede

de significados articulados e hierarquizados a partir de conhecimento preexistentes na cultura.

Instrumentalização do saber- possibilita um valor funcional à representação na

medida em se torna uma teoria de referência possibilitando a tradução e compreensão no mundo social.

Enraizamento no sistema de pensamento - as novas representações se inscrevem

num sistema de representações preexistente, desta forma o novo torna-se familiar ao mesmo tempo em que transforma o conhecimento anterior. Assim, o sistema de pensamento preexistente ainda predomina e serve como referência para os mecanismos de classificação, comparação e categorização para o novo objeto (SANTOS, 2005, p. 33).

DOISE (1996, apud Villas Boas e Souza, 2011, p. 36) apresenta três “tipos” de ancoragem: a ancoragem psicológica (interação do conhecimento a crenças e valores), a ancoragem psicossociológica (como os indivíduos se situam simbolicamente em função das relações sociais) e a ancoragem sociológica (vínculo entre a representação social e o sentimento de pertença a um determinado grupo).

No caso da formação de professores, segundo Chamon (2014, p. 119), a ancoragem poderá ocorrer a partir desses três “tipos”: por meio das crenças e valores gerais existentes na sociedade e que o grupo partilha (ancoragem psicológica); a partir do posicionamento dos sujeitos em relação a um campo social (ancoragem sociológica); e, ainda, a partir das relações simbólicas entre os grupos, ou seja, a forma como outros grupos concebem a formação docente e intervêm na apropriação que o grupo faz desse objeto (ancoragem psicossociológica).

O estudo das representações sociais dos professores apresenta-se como uma via promissora para a investigação de como se formam e funcionam os sistemas de referência que os professores utilizam para classificar pessoas e grupos e para se orientarem na realidade.

A adoção de um “olhar psicossocial”, segundo Alves Mazotti (2008), é essencial para

que as pesquisas educacionais possam impactar a realidade; “[...] de um lado, preenchendo o sujeito social com um mundo interior, e, de outro, restituindo o sujeito individual ao mundo social” (MOSCOVICI, 1990, apud ALVES-MAZOTTI, 2008, p. 20).

b) OBJETIVAÇÃO

Moscovici inicia sua explanação sobre o processo de objetivação em sua obra Representações Sociais: Investigações em psicologia social, apoiando-se nas palavras de

Maxwell, físico inglês que disse, certa vez “[...] que o que parecia abstrato a uma geração se torna concreto para a seguinte”, ou seja, “[...] o que é incomum e imperceptível para uma

geração, torna-se familiar e óbvio para a seguinte” (MOSCOVICI, 2011, p. 71).

Segundo o autor, essa “domesticação” não se deve apenas ao passar do tempo, mas ao processo de objetivação, que é muito mais atuante que a ancoragem.

Objetivar é descobrir a qualidade icônica da uma ideia, ou ser impreciso; é produzir um conceito em uma imagem. Comparar é representar, encher o que está naturalmente vazio com substância. Temos apenas de comparar Deus com um pai e o que era invisível, instantaneamente se torna visível em nossas mentes (MOSCOVICI, 2011, p. 72-73).

Para Chamon (2014, p. 118), o processo de substituição do abstrato pelo concreto acaba por adulterar o objeto, resultando em uma visão deformada do conceito de origem. Assim, uma representação é sempre vista, por quem a descreve, como forma de verdade: “[...] a maior parte do tempo, cada um está convencido de que fala da realidade das coisas, quando

apenas exprime sua própria compreensão daquilo que percebe” (ROUQUETTE, 1994, apud

CHAMON, 2014, p. 118).

Sá (1993) apresenta a clássica estrutura de duplicação de cada representação elaborada por Moscovici (1976), para explicar a sua relação com o processo de objetivação e ancoragem. Segundo esse autor, a estrutura de cada representação nos aparece desdobrada;

“[...] ela tem duas faces tão pouco dissociáveis quanto a frente e o verso de uma folha de papel: a face figurativa e a face simbólica” (SÁ, 1993, p. 33).

A função de duplicar um sentido por uma figura, dar materialidade a um objeto abstrato, “naturalizá-lo”, foi chamada de “objetivar”. Já a duplicação de uma figura por um sentido também é necessária para fornecer um contexto inteligível ao objeto, à sua

interpretação denominou-se “ancoragem” (SÁ, 1993, p. 34) (grifos nosso). Essa construção

lógica apresentada pelo criador da Teoria das Representações Sociais ao duplicar cada representação favorece a compreensão do sentido por ele proposto: [...] ela faz compreender em toda figura um sentido e em todo sentido uma figura (MOSCOVICI, apud SÁ, 1933, p. 34). JODELET (1984, apud SÁ, 1993, p. 41) descreve três fases de objetivação:

(1) seleção e descontextualização de elementos da teoria, em função de critérios

culturais, normativos; (2) formação de um “núcleo figurativo” a partir dos elementos

selecionados, como uma estrutura imaginante que reproduz a estrutura conceitual;

(3) naturalização dos elementos do núcleo figurativo, pela qual, finalmente, “as

figuras, elementos do pensamento, tornam-se elementos da realidade referentes para

o conceito”.

Moscovici (2011) afirma que ancoragem e objetivação são maneiras de lidar com a memória. A ancoragem direciona o processo para dentro: “[...] está sempre colocando ou

tirando objetos, pessoas e acontecimentos que ela seleciona, classifica, nomeia”. A

objetivação, mais ou menos direcionada para fora, busca nesse local de armazenamento as

informações de que precisa para “[...] para juntá-los e reproduzi-los no mundo exterior para

fazer a coisas conhecidas a partir do que já é conhecido” (MOSCOVICI, 2011, p. 78).

Desse modo são formadas todas as representações do sujeito, não como cópia fiel do objeto apresentado, mas como resultado de um processo de reconstrução elaborado por ele de acordo com o que JODELET (1984, apud SANTOS, 2005, p.25) chama de “[...] matriz cognitiva do objeto que permite ao sujeito agir sobre ele. Desta forma cada sujeito pode

representar a realidade a partir de seu próprio sistema de referência”.