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İktisadi Büyümenin Ölçülmesi ve Milli Gelir Tahmin Yöntemleri …

I. BÖLÜM

1.2. İktisadi Büyümenin Ölçülmesi ve Milli Gelir Tahmin Yöntemleri …

Em 13 de outubro de 1949, nasceu Raimundo Fagner Cândido Lopes, filho do libanês José Fares Lopes e da cearense Francisca Cândido Lopes. Filho caçula de cinco irmãos: Eliete, Fares, Elizete, Marta e o futuro intérprete consagrado da música popular brasileira.

Assim como os demais artistas de sua geração, Fagner nasceu no pós- guerra, quando o Brasil investia massiçamente na modernização das capitais. A família deste artista, embora tenha origem em Orós, veio para Fortaleza onde o menino Fagner cresceu e se desenvolveu no bairro de Fátima, próximo à rua Lauro Maia, região da cidade que também abrigou a família de Ednardo – também futuro artista consagrado da MPB.

Os primeiros capitais que Fagner herdou foram os de mobilidade e musical, através da história de vida do seu genitor. Essa experiência referencial de seu pai será capitalizada, reinvestida e acumulada na estrada do próprio cantor em viagem.

Meu pai cantava o dia todo dentro de casa, cantava aqueles lamentos árabes, isso influenciou demais a minha própria musicalidade. [...] Meu pai foi cantor de rádio lá no Líbano [...] ele veio [do Líbano] direto pro Ceará. Ele chegou novo, com 20 anos, 19, 20 anos. [...] veio embora pro Ceará, pegou um cavalo, foi vender, ser mascate aí pelo interior. Até conhecer minha mãe lá em Orós. Então, eu também sou fruto de uma viagem longa, viagem dele buscando um país, como tantos outros procuraram o Brasil. Brasil um país dessa natureza, desse tamanho e um país novo, um país onde todo mundo podia ir, todo mundo queria ir, sempre foi um país, até hoje, um país muito procurado por aqueles que queriam uma vida melhor.32

32 Todos os depoimentos de Fagner para esta pesquisa foram dados em uma entrevista realizada no

dia 22 de outubro de 2010. Portanto, não colocaremos a referência em cada fala dele, a fim de não repetir essa informação. As referências aparecerão apenas nas falas de outros agentes.

É importante perceber que estamos analisando a vida de um intelectual, ainda que não seja acadêmico, mas um artista que faz reflexões relevantes sobre a sua própria trajetória. Não podemos tomar as declarações como verdades absolutas, sabemos que é um ponto de vista, uma forma de leitura, mas que traz elementos muito interessantes para a compreensão do artista que tem parte de sua formação em deslocamento espacial e social. O fato de Fagner se declarar fruto da viagem de seu pai, nos mostra, no mínimo, que esta é uma informação presente na vida do cantor, na forma como ele mesmo se reconhece.

O filho que se reconhece na história do pai é um dado que podemos trazer para a interpretação sociológica, pois essa é uma experiência existencial que se converte em capital, que pode de fato ser transferido, acumulado, reinvestido e capitalizado pelo agente que herda. Isso também permite afirmar que esta teoria (a

praxiologia) não interpreta a realidade como uma determinação do contexto, pois

aquele que herda pode ou não reaplicar os capitais herdados. Mas, caso utilize as disposições herdadas, esta agregará, em geral, vantagens para sua movimentação no campo.

Vejamos na própria declaração anterior: o pai canta, é ligado ao mundo radiofônico, é comerciante e é andarilho. Seu genitor viaja em busca de um lugar mais favorável para sua sobrevivência, fugindo dos conflitos do Oriente Médio. O mesmo podemos observar na população nordestina de migrantes da seca, em busca de um lugar com mais possibilidades de desenvolvimento. E, da mesma forma, os artistas cearenses do Pessoal do Ceará, da qual Fagner faz parte, viajaram no final da década de 1960 e início da década de 1970 para estados que reuniam melhores condições de reverberação nacional de suas obras. Essas informações permeiam o imaginário de todo nordestino – a ideia daquele que viaja para melhorar, para buscar um deslocamento social. Em Fagner os dois contextos se reforçam – os nordestinos migrantes e o pai libanês estrangeiro – e reaparecem na vida desse cigano da música.

O ambiente musical, além da influência de seu pai, foi muito presente através de seus parentes mais próximos e, especialmente, de seu irmão mais velho.

[...] a minha casa era muito musical, minhas irmãs Eliete, Elizete, a Marta, a mamãe mesmo tinha uma vozinha muito afinada. [...] a minha casa era muito com convívio de música. Então, eu acho que

isso foi fundamental na minha formação de qualidade, pelo que se ouvia dentro de casa [...]. O Fares, meu irmão, era seresteiro, anos conhecido como o grande seresteiro aqui do Ceará. [...] eu tive uma excelente influência, porque ele gostava muito de música, tinha muito disco, toda a geração, desde os grandes cantores: Chico Alves, Augusto Calheiros, Orlando Silva, Caruso, Vicente Celestino, Ciro Monteiro, Ataulfo Alves, Moreira da Silva, Elizete Cardoso.

A influência de Fares era ainda maior, pois mesmo com a presença de seu pai, a relação com o genitor não era de grande cumplicidade, e na qualidade de filho caçula, as irmãs cuidavam muito do irmão mais novo, sendo, porém, a figura masculina de referência, além de seu pai, a do irmão mais velho.

[...] não tive a felicidade de conversar muito com meu pai [...] um pouco mais distante, porque meu pai, como árabe era muito silencioso, muito calado. [...] eu era muito danado, filho caçula, com muito querer, muito protegido pelas irmãs, meu irmão, o Fares, já marcava mais colado [...].

Fagner reconhece de uma maneira geral que suas primeiras influências vieram da origem familiar.

[...] uma infância espetacular, com muita referência de música foi um ambiente muito musical. Isso vem do meu pai, da minha mãe [...] eu me sinto como fruto de uma família extremamente [musical] convivendo com a música, tinha que sobrar pra alguém. Às vezes eu comparo com a família do Zico, meu compadre, meu irmão, que todos jogaram bola e sobrou pra ele que era o mais novo, todos já vinham trazendo aquela experiência e quando chega ali no mais novo, você já vem acumulando aquelas experiências que são dos outros também. Eu me sinto fruto de uma família musical.

Fagner, mais uma vez, nos oferece uma autoanálise que se aproxima às nossas reflexões sociológicas, na qualidade de um agente que vem acumulando experiências, que nesse caso classificamos como capital musical, o qual além de acumulado pode ser transferido e herdado no ambiente familiar. O destaque na posição da fratria e a comparação com a família do jogador Zico, nos permite demonstrar com clareza como esse aspecto é relevante na formação de seu habitus musical. Os artistas letrados, recorrentemente realizam reflexões que trazem importantes subsídios para nossas análises, como por exemplo, a canção de Gonzaguinha.

CAMINHOS DO CORAÇÃO (Gonzaguinha)

Há muito tempo que eu saí de casa Há muito tempo que eu caí na estrada

Há muito tempo que eu estou na vida Foi assim que eu quis, e assim eu sou feliz

Principalmente por poder voltar A todos os lugares onde já cheguei

Pois lá deixei um prato de comida

Um abraço amigo, um canto pra dormir e sonhar E aprendi que se depende sempre

De tanta, muita, diferente gente Toda pessoa sempre é as marcas Das lições diárias de outras tantas pessoas

E é tão bonito quando a gente entende

Que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá E é tão bonito quando a gente sente

Que nunca está sozinho por mais que pense estar É tão bonito quando a gente pisa firme

Nessas linhas que estão nas palmas de nossas mãos É tão bonito quando a gente vai à vida

Nos caminhos onde bate bem mais forte o coração

O garoto Fagner ainda muito jovem saiu de casa aos 18 anos de idade; iremos analisar como o futuro campeão de venda de discos foi acumulando seus capitais musicais e de mobilidade. Em suas declarações, Fagner demonstra que reconhece que ―toda pessoa sempre é as marcas das lições diárias de outras tantas pessoas‖. E por que em alguns caminhos o coração bate bem mais forte? Ou, perguntando de outra maneira: por que o agente se reconhece em algumas escolhas? Isso é o que Bourdieu chama de ―senso prático‖. Essa sensibilidade que guia as escolhas dos indivíduos na prática advém, até onde a sociologia consegue enxergar, das referências que foram internalizadas no processo de socialização. Fagner deixa claro a influência de sua família, o que nos faz percebê-la como a mais forte e que cria as disposições mais duradouras. Ele também coloca em destaque o ambiente que envolve o entorno de sua casa e os amigos, lembrando que na década de 1950 – período de infância do agente em pauta – as crianças se encontravam com mais frequência nas ruas e bairros onde se localizavam suas residências.

No bairro em que eu convivi, ali pela Lauro Maia, muita gente gostava de música, logo eu fui induzido a pegar o violão, ficar tocando nas esquinas, fazer serenata [...] a convivência com a música foi o dia a dia, eu respirava música, vivia cantando [...].

O que estamos percebendo até aqui é a familiaridade de Fagner com a música e com a viagem que se tornou uma referência de vida pela trajetória de seu pai. Suas experiências se converterão em capitais a serem reaplicados futuramente na qualidade de músico em profissionalização, através das primeiras tentativas nos festivais de música e que, portanto, vão constituir seu sistema de referências que servirão de bússola para suas escolhas no caminho.