2.2. Cumhuriyet Dönemi’nden Günümüze Türkiye’de Ekonomik Politikaları ve
2.2.1. Türkiye’de Ekonominin Seyri: Dünü ve Bugünü
2.2.1.3. İkinci Dünya Savaş’ı ve Sonrası Ekonomi Politikaları
Só pergunta "que fazer?" aquele cujo desejo se apaga. Jacques Lacan (1974/2003, p.539)
Este trabalho propôs uma investigação sobre a violência escolar, concebendo-a como um novo sintoma do fracasso na contemporaneidade. Esse novo sintoma tem sido um incômodo à sociedade, principalmente porque os supostos responsáveis por essa violência são os próprios alunos da escola. Encontrar explicações para esse agir dos jovens era o objetivo do trabalho.
O enigma se tornou ainda mais instigante quando a escolha do campo de pesquisa se apresentou como um diferencial importante. Investigar esse fenômeno junto aos alunos de uma escola pública escolhida pelo poder público para se tornar uma escola de tempo integral para jovens era uma grande oportunidade. Isso porque o projeto fracassara pelas próprias ações dos jovens.
Conceber a violência como sintoma do fracasso escolar, orientação teórica dada pela psicanálise aplicada, significa que ele fala da relação do sujeito com o seu tempo de viver. Trata-se de uma relação conflituosa, subjetivamente falando, pois ao sujeito não é possível tudo realizar. Há um mal-estar que se manifesta nessa relação de impossibilidade ou, dizendo de outra forma, de completude total, que se mostra como expressão de uma recusa a algo com o qual o sujeito tem que se defrontar. Essa recusa é simbólica. Está relacionada aos valores sociais, às instituições, a alguma dimensão da cultura à qual o sujeito não se "adapta".
Ter o sintoma como orientação é assumir a sua positividade. É descartar a ideia de déficit presente no discurso da ciência, que, ao excluí-lo da sua discursividade, não trabalha com o sintoma como uma resposta particular do sujeito. Essa orientação impede que o sintoma seja segregado pelas instituições, como nos alerta Tizio (2006). Um sintoma segregado entra no circuito do discurso dominante que o esmaga e o torna uma categoria de ordem pública. Ou seja, é visto como um problema a ser erradicado, como o é o fracasso escolar e tantos outros que conhecemos. Ainda segundo essa autora,
é dessa situação que nascem as maneiras de intervir que cronificam, por fixação do sintoma, os dispositivos de gestão de instituições que lidam com crianças e jovens.
A autora alerta que vários outros sintomas acabam por serem criados com ações urgentes fundadas na ideia de trauma, da medicalização do sintoma e da judicialização, chegando-se mesmo a fazer uso dos aparatos repressivos do Estado, às vezes de maneira preventiva. Para ela, o que se vê nessas situações é um controle que está do lado do Outro que segrega o sujeito e seu sintoma. Desconhecer essas formas de sintomas produzidos pelas ações políticas traz sérias consequências, já que fixam o gozo e produzem reações que aumentam o problema que se quer resolver. E acrescentaríamos: produzem o seu avesso, mais fracasso, ou seja, mais sintoma.
É o que podemos observar na situação investigada. Há um saber prévio, científico, sobre a escola e os alunos que permitiu a elaboração de uma proposta de intervenção para a educação de jovens. Ao intervir por essa lógica, a resposta obtida foi a continuidade do fracasso, agora manifestado por meio de uma reação agressiva: a violência praticada pelos jovens contra a escola. Por conceber o problema da escola como uma questão de ordem técnica pensada a partir da ciência, a Secretaria extraiu o sujeito e o sintoma da situação, o que fez por produzir mais sintoma.
O saber científico diz: quando se tem professores mais bem qualificados e uma infraestrutura adequada para o exercício contemporâneo da atividade docente, o sucesso escolar se propaga. Dar a palavra aos jovens nos ensinou que esse discurso científico não funciona bem assim. Há um ideal que fracassa quando o sujeito se faz presente. Este é o impossível a que Freud já se referia. O sujeito é desorganizador de qualquer lógica científica, pois, com sua particularidade, ele faz a exceção da regra. É ele quem vai exigir que os dispositivos criados na sociedade sejam revistos a partir de sua diferença.
Essa tensão entre a particularidade e o social é da modernidade e está presente na contemporaneidade pelas especificidades que engendra. A exigência do discurso da igualdade para todos impõe a criação de muitos dispositivos normalizadores, de forma a fazer com que todos estejam incluídos. As lutas sociais exigem direitos iguais. A força dessa igualdade criada pela modernidade elimina as diferenças, mesmo que estejamos num tempo em que elas se fazem mostrar. Mas o empuxo é para que a diferença desapareça pela normalização. A saída é possível quando os sujeitos lançam mão de outras formas de falar do que aprendem, do que criam para lidar com o impossível.
Dar a palavra a esses jovens, com quem ninguém quer conversar, para com eles aprender, coloca-nos de frente ao que eles recusam, o que às vezes nos assusta, traz constrangimentos, principalmente aos gestores públicos e aos bem intencionados cidadãos. Quando se atua no sentido de realizar ações consideradas de boa qualidade para a população pobre, no sentido de garantir o direito, é preciso estar disposto a negociar e ter "orelhas abertas para derrubar conceitos, pré-juízos e fantasmas". (TIZIO, 2006, p.180) Isso significa pensar a política pública a partir do particular, o que se configura um paradoxo. Como agir para todos tendo o particular como premissa? Esta é uma questão que se coloca para todos aqueles dispostos a interrogar o seu tempo de viver. Não penso que haja resposta. Fiquemos com a questão a nos incomodar.
O que esses jovens nos ensinam sobre a violência escolar e a relação com a escola é a sua recusa a diferentes aspectos e o pedido por uma relação autêntica dos profissionais da escola com eles. A violência concebida como sintoma trouxe elementos diferenciadores das teses sobre a violência escolar até então conhecidas.
A violência nem sempre está nos jovens pela influência do tráfico existente nos bairros onde residem. Eles podem recursar as nomeações recebidas, vindas sob a forma de nomes, olhares, atitudes para com eles. Descaso, injúria, discriminação e preconceito por serem moradores da favela é o que recusam. A saída que encontram é a violência atuando no sentido de destruir o que vem do Outro. Por isso, são os "fora da lei" não querendo ser.
Não são só violentos, pois são campeões de futebol, mas, pelo fato de as referências simbólicas serem líquidas, utilizando uma expressão de Bauman (2004, 2008), sua saída é pela violência, pelo ato. Eles usam a violência como encenação, para recusar o que vem do outro como descaso, sabendo que esse outro tem medo da violência que está no bairro e acredita nele estar. Dizendo de outra forma, não tem a violência na sua essência, como instinto, mas usam da violência como uma encenação, querendo afirmar para o Outro outra coisa que não a violência, mas, por não saberem como, respondem com aquilo com o qual eles mesmos não concordam. E depois se arrependem, pois queriam ter feito outra coisa e aproveitado a escola. Mas mesmo não querendo ser violentos, eles o são.
A violência impede o laço social, pois as nomeações que vêm do Outro, como nesse caso, têm o mesmo efeito que as patologias fabricadas pelo discurso da ciência. É uma oferta de identificação, que, na regulação pulsional, tampona o que vem
do sujeito, fazendo crer ser assim, deixando-o sem saída, sem recursos, em situação de “desinserção” social, como nos lembra Santiago (2009a).
Na favela existe oferta de simbólico. Os programas sociais são um exemplo, inclusive pelo seu excesso, e alguns ofertam possibilidades de identificações diferentes. Mas, como afirmamos, algumas ações políticas ainda repetem o discurso social que associa favela a violência e bandidagem. Se não há falta, a uma falha da falta, há um excesso deixando o sujeito entrar num circuito de busca de gozo incessante. Há muitos nomes sobre a favela, em específico a PPL, como demonstramos, e sobre os jovens da localidade.
Sua demanda por ordem e regra na escola, creditando a ela um retorno da função educativa, como Zaluar e Leal(2001) também encontraram, é a tentativa de buscar fora deles, no Outro, uma sustentação simbólica que sirva de evitamento da violência que eles praticam. Mas, encontrar sustentação em um Outro nãotodo não se faz pelo retorno das normas e regras, principalmente se forem excessivamente disciplinares.
Na contemporaneidade a pergunta se esvai. Quando conseguimos introduzir uma questão na conversação podemos dizer que esta é bem sucedida. Isso porque há um tamponamento do vazio por outros elementos efêmeros. Somos impacientes quando as coisas não funcionam. Há uma recusa ao que não traz efeito imediato. A inibição está em descendência, e, diante disso, precisamos estar atentos para as demandas de ações moralizantes que se fazem no discurso das instituições, principalmente as escolares.
Não é o retorno da escola com sua ação moralizante que faz valer a sua função junto ao jovem. Talvez seja por aquilo que Lacadée (2007) nomeia como "o ponto de onde" cada um pode se fazer mostrar pela sua diferença. A escola é ainda afirmada por esses jovens como importante, mesmo com seu sentido utilitário acentuado: formar-se para arrumar emprego, para ter vida melhor, como disseram. Não há um rompimento desse jovem com a escola como instituição social, deixando à margem seu valor.
Eles querem, no entanto, que ela funcione naquilo que é sua função: educar, ensinar, transmitir saber a eles, porque têm direito a ela. Eles recusam uma escola "frouxa", uma relação não autêntica dos professores, com responsabilidade assumida pelos atos cometidos. Fazer isso funcionar no tempo em que o significante não faz laço é um grande desafio. A distância entre fazer isso funcionar e o disciplinamento ou mesmo a recaída para os procedimentos didáticos pedagógicos como certeza para o
funcionamento é mínima. Ter um professor formado é direito do aluno e do professor, uma escola bem equipada também, mas não é garantia do sucesso da educação. Não quer dizer que isso vá romper com o círculo do fracasso escolar. Ele continuará, pois o sujeito sempre vai desestabilizar essa lógica. Aprendemos isso com esses alunos. É importante saber que alunos que fracassam sempre existirão. O que está em pauta é o seu grande número. Aqui o direito é violado. Aqui a política deve atuar e continuar atuando.
É importante que os docentes continuem lutando por melhores condições de trabalho, que os mecanismos de gestão democrática, os recursos destinados à educação, a democratização da educação e a melhoria da escola pública continuem sendo afirmados. A sociedade de extrema desigualdade não é ilusão. Mas precisamos fazer a escola funcionar, por isso essas e outras lutas são necessárias. Elas são o que a psicanálise chama de semblante para fazer o simbólico funcionar nesse tempo de Outro
nãatodo.
Nesse caso, o professor precisa acreditar que a educação transforma o sujeito em algo melhor para poder exercer sua função. Precisa fazer valer a avaliação, a transmissão de saber, assumir a figura substituta dos pais, mas sabendo que tudo isso é provisório. É semblante. Suportaremos isso?
Por fim, gostaríamos de destacar a importância do dispositivo na sua função de provocar um reposicionamento de saber do aluno frente à escola, à favela. Nossa aposta na conversação era que o dispositivo funcionasse no destravamento das identificações e produzisse um efeito de saber. Na conversação, o que se espera é "um certo efeito de saber" que pode trazer algo novo, como nos diz Miller (2005b). Para nós, esse efeito de saber foi obtido: Nem toda favela é periferia; Essa favela é um lugar bom
de morar; Não somos favelados. Moramos na favela; Eu não quero sair daqui para morar em outra favela; Não sou favelado, sou favelado moderno; Depois que perde é que dá valor.
Ao final, poderíamos nos perguntar o que visa a psicanálise no estudo da educação e qual a sua contribuição. Talvez esta seja uma questão já muito debatida. Mas gostaríamos de poder contribuir um pouco mais. Primeiro, são duas práticas diferentes. A psicanálise concebe um sujeito, a educação outro. A educação convoca um sujeito que normatiza, o que deixa a dimensão do particular restrita a alguns poucos momentos. Na psicanálise o sujeito é efeito da linguagem, por isso ela atinge o discurso. O que é visto como déficit, fracasso é onde a psicanálise pode atuar.
A psicanálise contribui quando é convocada pela educação para auxiliá-la a lidar com as crianças e os jovens a partir da seguinte orientação: quem sabe sobre o seu mal-estar é o próprio sujeito. É ele quem deve falar sobre isso, na busca de uma verdade, sempre provisória, pois é modo de gozo, sobre a sua dor de existir. A psicanálise não serve para inserir os desinseridos, “tornar um delinquente um pastor de ovelhas”, nem reagrupar os isolados. Sua função é atingir o discurso, ela atua nele para abalar o dominante, o déficit, os ideais, as nomeações. É por aqui que a psicanálise atua. Ela é uma prática e, como tal, a experiência como analisante contribuiu para pensar que o saber a priori não funciona.