A violência familiar, regra geral, retrata fatos que ocorrem no espaço privado, dentro do lar. Entretanto, muitas das vezes, os familiares e parentes que deveriam se incumbir de efetuar providências para banir e cessar o cometimento de tais ocorrências, se fazem omissos. Nesse contexto, passa-se a enfatizar a necessidade de uma intervenção supletiva da sociedade e do Estado.
À sociedade cabe intervir de várias formas a fim de resguardar os direitos infanto- juvenis; uma delas é através da realização de denúncia por parte de vizinhos, escolas, membros de igreja, etc., às autoridades e entidades competentes (Ministério Público, Conselho Tutelar, Polícias Militar e Civil, Disque Denúncia, etc.).
Em relação ao Estado, a Lei 8069, de 13.07.90, conhecida também como Estatuto da Criança e do Adolescente (o ECA) prevê uma série de mecanismos (administrativos/políticos e jurídicos) visando a coibir a vitimização no âmbito das relações familiares.
Tratar de proteção integral e medidas protetivas que visam garanti-la implica em falar sobre uma rede institucional que possibilite garantir flexibilidade, conectividade e efetividade das ações desenvolvidas por cada instância, respeitando-se sua identidade, competência e metodologia de trabalho. O trabalho em rede alcança eficácia somente quando se trabalha em prol de um objetivo único. Nos casos de vitimização de criança ou adolescente é necessário o estabelecimento de relações horizontais entre as instituições com o objetivo único de resgatar os direitos da vítima,
agressor e seus familiares, por meio de ações e projetos conectados, de forma a se interromper o ciclo de violências vivenciadas no lar.
Os órgãos de atendimento a criança e ao adolescente são destacados como relevantes neste processo e, especificamente, o judiciário, que é acionado, regra geral, como última instância de intervenção em casos do tipo. Por esse motivo, o colocamos como espaço prioritário de nossa pesquisa de campo.
A intervenção legal ao nível de violência contra crianças é complexa. Envolve um conjunto de instituições e profissionais, como a polícia, o Ministério Público, o judiciário, a medicina legal, os agentes do serviço social, da saúde, do direito, entre tantos outros.
A análise da violência deve perpassar pelas condições gerais de vida da família, à dinâmica das relações intra e extra familiares e as concepções globais da sociedade sobre infância e práticas de educação e criação infantil. Ao transitar do campo puramente conceitual para o campo social, a concepção de violência conquista um valor operacional que pode ser traduzido como valor moral. Adams (1991) lembra que a violência é um evento carregado de valor a partir do qual se produz uma categoria social por sua vez carregada da mesma força de valor do evento. Assim, o sistema judicial deve perscrutar as representações sobre a família, os mitos e concepções disseminados socialmente, inculcados não só entre os entes familiares, mas também nas instituições de intervenção.
A intervenção que vise minorar a ocorrência e minimizar os efeitos somente alcançará seu escopo, se levar em consideração que, não havendo uma causa única (porque os fatores são multidimensionais), não há também uma solução única: a prevenção e o tratamento da violência contra a criança não podem chegar a resultados satisfatórios atuando-se sobre uma única causa. Por outro lado não é possível estabelecer prioridade de intervenção nessas causas, nem tampouco sabe- se de antemão qual a intervenção pode alcançar resultados mais efetivos, ou em que prazo.
Diante da complexidade da violência familiar, a “racionalização jurídica” denota que os mecanismos legais ainda são incapazes de estabelecer, de pronto, uma solução para o problema.
No terreno minado das contradições (mesmo porque, nos lares em que há violência, as relações familiares são contraditórias), a intervenção que desconsidera os valores que circundam o núcleo familiar pode acarretar resultados indesejáveis. “A intervenção pode às vezes ser traumática, iatrogênica, e assim constituir-se ela própria numa forma de vitimização que termina por atingir a criança e toda sua família” (GONÇALVES, 2003). Portanto, os órgãos interventores,
devem, antes de impor qualquer medida no caso concreto, efetuar uma análise sensível e detida das provas existentes em relação aos fatos e traçar uma estratégia de atuação, a fim de evitar uma revitimiização não só do infante como de toda a família.
5.1- INTERVENÇÃO DO SISTEMA JUDICIAL
No sistema judicial, por exemplo, o Ministério Público, diante de uma representação que verse sobre violência, ao constatar que os fatos relatados encontram-se devidamente comprovados, elabora uma petição inicial, instruindo-a com as provas coligidas, requerendo a aplicação das medidas protetivas a fim de coibir a vitimização no âmbito familiar. As medidas protetivas a serem implementadas deverão ser estabelecidas, no caso concreto, a partir de uma análise sistêmica, multifacetada e complexa envolvendo todos os membros da família. Conforme estabelece o art. 98 do ECA, as medidas protetivas são aplicáveis sempre que os direitos de crianças ou adolescentes forem ameaçados ou violados: por ação ou omissão da sociedade ou do Estado; por falta, omissão ou abuso dos pais ou responsável, ou, ainda, em razão de sua conduta.
Verificada qualquer dessas hipóteses, o artigo 101, prevê que a autoridade competente poderá determinar as seguintes medidas:
“ I - encaminhamento aos pais ou responsável, mediante termo de responsabilidade; II - orientação, apoio e acompanhamento temporários;
III - matrícula e frequência obrigatórias em estabelecimento oficial de ensino fundamental; IV - inclusão em programa comunitário ou oficial de auxílio à família, à criança e ao adolescente; V - requisição de tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico, em regime hospitalar ou ambulatorial; VI - inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos;
VII - acolhimento institucional;
VIII - inclusão em programa de acolhimento familiar; IX - colocação em família substituta.”
Relevante é destacar que essa relação é meramente ilustrativa, exemplificativa, portanto, o juiz poderá determinar a adoção de outras medidas que entender necessárias e cabíveis no caso concreto.
Aos pais e responsáveis, por sua vez, podem ser aplicadas ainda as seguintes medidas previstas no art. 129, do ECA:
“I - encaminhamento a programa oficial ou comunitário de proteção à família;
II - inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos;
III - encaminhamento a tratamento psicológico ou psiquiátrico; IV - encaminhamento a cursos ou programas de orientação;
V - obrigação de matricular o filho ou pupilo e acompanhar sua freqüência e aproveitamento escolar; VI - obrigação de encaminhar a criança ou adolescente a tratamento especializado;
VII - advertência; VIII - perda da guarda; IX - destituição da tutela;
X - suspensão ou destituição do poder familiar.”
Observa-se, por oportuno que, na hipótese de maus tratos, opressão ou abuso sexual impostos pelos pais ou responsáveis, a autoridade judiciária poderá determinar, como medida cautelar, o afastamento do agressor da moradia comum” (art. 130, do ECA). Ademais, prevê a lei que a perda ou suspensão do poder familiar não pode ser decretada sob o mero fundamento de “carência de recursos” (arts. 23 e 24 ECA). Por outro lado, conforme o art. 24 do ECA, sua decretação pode se dar nos casos previstos na legislação civil ou quando há o descumprimento injustificado do “dever de sustento, guarda e educação dos filhos menores, cabendo-lhes, ainda, no interesse destes, a obrigação de cumprir e fazer cumprir as determinações judiciais” (art. 22 ECA).
O juiz, diante dos fatos e provas apresentados nos autos, poderá (de pronto ou após determinação de diligências) adotar uma série de medidas protetivas e determinar, inclusive, que seja deflagrada a mais drástica delas, qual seja, o afastamento do convívio familiar. Não se pode olvidar, que, em casos excepcionais e de urgência, as entidades “que mantenham programa de acolhimento institucional poderão acolher crianças e adolescentes sem prévia determinação da autoridade competente, fazendo comunicação do fato em até 24 horas ao Juiz da Infância e da Juventude” (art. 93).
Prevê a norma que esse procedimento será necessariamente judicial, contencioso, de competência exclusiva do poder judiciário. Assim, diz o art. 101, parágrafo 2o:
sexual e das providências a que alude o artigo 130 desta lei, o afastamento da criança ou adolescente do convívio familiar é de competência exclusiva da autoridade judiciária e importará na deflagração, a pedido do Ministério Público ou de quem tenha legítimo interesse, de procedimento judicial contencioso, no qual se garanta aos pais ou ao responsável legal o exercício do contraditório e da ampla defesa.” (grifo nosso)
Portanto, nos casos em que há possibilidade de afastamento de crianças e adolescentes do lar, o poder judiciário deverá ser acionado, pois trata-se de medida a ser apreciada obrigatoriamente pelo Juiz da Vara da Infância e Juventude, ou aquele que exercer essa função (art. 146 do ECA).
Mas, apesar de o ECA ser uma legislação avançada e de ter introduzido formas de tratamento mais digno, ele não trouxe solução decisiva, pois o Estatuto ainda é insuficiente pela falta de ações que correspondam a ele. Os resultados de pesquisas realizadas (FALEIROS E FALEIROS, 2001; FALEIROS,2003; SANTOS,2009) revelam que a questão da violência contra crianças e adolescentes, embora esteja na agenda política do Estado Brasileiro, não se expressa objetivamente como compromisso no contexto das políticas públicas. As respostas institucionais, apesar da mobilização e da visibilidade do fenômeno no Brasil, não têm garantido o orçamento, o uso adequado de seus recursos ou o atendimento necessário nessa área. Esses dados sobre a rede de enfrentamento foram colhidos a partir de avaliações do fluxo do processo de denúncia que revelou, nos dizeres de Faleiros (2001 e 2003), os “curtos-circuitos” e os “descaminhos” das ações políticas, institucionais e sociais na garantia de direitos e proteção integral, dentre eles: a escassez de subsídios logísticos e de recursos humanos e de investimento do poder público; a ausência de clareza quanto ao objetivo comum a todas as instituições envolvidas, qual seja, a proteção integral das pessoas em situação de violência sexual – vítimas, agressor e familiares – por meio da garantia de direitos; a ausência de comunicação e circulação de informações entre as instituições.
A existência de obstáculos de acesso ao judiciário que enfrenta uma grande parte da população, também é ponto de relevância no trato da intervenção da criança em situação de risco. Para compreendê-lo melhor, estudiosos apresentam dois conceitos distintos: acesso formal e acesso efetivo à Justiça (CAPPELLETTI, GARTH, 1988; AZEVEDO, 2000). O primeiro consiste na possibilidade legal de acionar o judiciário em caso de conflito, ao passo que o segundo consiste na possibilidade real de pedir proteção ao judiciário. Diante das barreiras de acesso efetivo à Justiça, o judiciário continuaria a aplicar o direito de maneira parcial e seletiva.
jurídicas (distância geográfica dos tribunais, incompetência profissional de advogados, número limitado de juízes, de promotores e de servidores do judiciário), existem as barreiras sociais (desconfiança do sistema de Justiça, medo de romper as relações familiares ao apresentar os embates ocorridos em família diante órgão público, por exemplo) e, ainda, barreiras pessoais (falta de informações sobre direitos de proteção judiciária, possibilidade de assistência gratuita; muitas vezes as diferenças culturais dificultam a comunicação com advogados e juízes - uso de terminologias jurídicas, etc.).
A dificuldade de intervenção judicial se agrava porque as normas legais, por si só, não contemplam todas as dimensões da violência nas famílias. Gonçalves (2003) afirma que: “A violência é complexa, polissêmica, controversa; fala de uma realidade plural, cujas especificidades são ainda desconhecidas. Sua definição é um desafio permanente, que não se submete à descrição fácil, nem ao entendimento imediato”. Por fim, há que se considerar que cada cidade, localidade, vila, aldeia desenvolve o seu próprio sistema de intervenção, nem sempre atuando como está legalmente estipulado, mas como entendem dever ser ou ser possível fazer no contexto fático.