5. İŞ TATMİNİNİN TANIMI, ÖNEMİ, BUNUNLA İLGİLİ KAVRAM VE
5.5. İs ̧ Tatmini ve Tatminsizliğinin Sonuçları
5.5.1. İş tatmininin sonuçları
A unicidade do sujeito, construída por meio da alteridade, e o signo ideológico são questões fundamentais para a compreensão da constituição das vozes no enunciado, segundo estudos de Bakhtin. Vale ressaltar que essas questões não foram contempladas na teoria linguística de Saussure, que concebia a língua como um signo estável, homogêneo, abstrato, neutro e como um fenômeno social. Ademais, Saussure rejeitou o estudo da fala porque a compreendia como um objeto instável, um ato individual, efêmero, condicionado à vontade do indivíduo. Sinteticamente, ele explica a sua visão de língua e fala: “Separando-se a língua da fala, separa-se ao mesmo tempo: em primeiro lugar, o que é social do que é individual; em segundo lugar, o que é essencial do que é acessório e relativamente acidental” (SAUSSURE apud BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, 2010a, p. 89).
Bakhtin/Volochínov (2010a), ao analisarem tais postulações, tecem críticas ao pensamento do linguista em relação à língua e à fala e apresentam a concepção de língua como um fato social, como signo ideológico, concreto, cuja função é atender às necessidades de comunicação dos sujeitos, em contexto determinado, que leva em consideração os aspectos espaço-temporais. Diante disso, eles afirmam que
[...] toda palavra comporta duas faces. Ela é determinada tanto pelo fato de que procede de alguém, como pelo fato de que se dirige para alguém. Ela constitui justamente o produto da interação do locutor e do ouvinte. Toda palavra serve de expressão a um em relação ao outro. Através da palavra, defino-me em relação ao outro, isto é, em última análise, em relação à coletividade (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, 2010a, p. 117).
Ampliando o conceito de palavra, Bakhtin/ Volochínov (2010a) argumentam que a palavra veicula a ideologia e define a língua, conforme ressalta Yaguello (2010), como expressão das relações e lutas sociais, veiculando e sofrendo o efeito dessa luta, ou seja, a palavra não é neutra, ela é por natureza ideológica.
A interação do eu com o outro é um fenômeno determinante para a compreensão das noções empreendidas pelo filósofo russo, pois os sujeitos, em sua totalidade, são construídos na relação social, por meio da interação eu/outro, portanto, a sua linguagem, em todas as modalidades, estará carregada da especificidade da relação social, conforme argumenta Bakhtin (2010b, p. 350):
É extraordinariamente aguda a sensação do seu e do outro na palavra, no estilo, nos matizes e meandros mais sutis do estilo, na entonação, no gesto verbalizado, no gesto corporal (mímico), na expressão dos olhos, do rosto, das mãos, de toda a aparência física, no modo de conduzir o próprio corpo. O acanhamento, a presunção, o atrevimento, a desfaçatez (Snieguirióv), a afetação, a denguice (o corpo se torce e dá voltas na presença do outro), etc. Em tudo através do que o homem se exprime exteriormente (e, por
conseguinte, para o outro) ─ do corpo à palavra ─ ocorre uma tensa
interação do eu com o outro: luta entre os dois (luta honesta ou
impostura mútua), equilíbrio, harmonia (como ideal),
desconhecimento ingênuo de um a respeito do outro, ignorância mútua deliberada, desafio, não reconhecimento (o homem do subsolo, que “não dá atenção”, etc.), etc. Repetimos que essa luta ocorre em tudo através do que o homem se exprime (revela-se) exteriormente (para os outros): do corpo à palavra, inclusive à última, à palavra confessional (BAKHTIN, 2010b, p. 350).
Diante do exposto, não há como negar o caráter social, tanto da língua quanto da fala, uma vez que ambas, assim como a totalidade do homem, são resultados das construções sociais, na interação eu/outro. A luta à qual o autor se refere está relacionada ao travamento de ideias, de ideologias, da relação das vozes do eu e do outro.
Bakhtin (1997, p. 182-183, grifo do autor) mostra que na linguagem, enquanto objeto da linguística, não pode haver relações dialógicas:
Na linguagem, enquanto objeto da linguística não há e nem pode haver quaisquer relações dialógicas: estas são impossíveis entre os
elementos no sistema da língua (por exemplo, entre as palavras no dicionário, entre os morfemas, etc.) ou entre os elementos do “texto”, num enfoque rigorosamente linguístico deste. Elas tampouco podem existir entre as unidades de um nível nem entre as unidades de diversos níveis. Não podem existir, evidentemente, entre as unidades sintáticas, por exemplo, entre as orações vistas de uma perspectiva rigorosamente linguística.
Não pode haver relações dialógicas tampouco entre os textos, vistos também sob uma perspectiva rigorosamente linguística. Qualquer confronto puramente linguístico ou grupamento de quaisquer textos abstrai forçosamente todas as relações dialógicas entre eles enquanto enunciados integrais.
[...] a linguística estuda a “linguagem” propriamente dita com sua lógica específica na sua generalidade, como algo que torna possível a comunicação dialógica, pois ela abstrai consequentemente as relações propriamente dialógicas. Essas relações se situam no
campo do discurso, pois este é por natureza dialógico [...].
Portanto, isso ocorre devido ao fato de a linguística ter como base o estudo puramente linguístico ─ da unidade mínima da língua ao texto ─ e não levar em conta aspectos extralinguísticos, como os sujeitos participantes do discurso, marcados por suas vozes sociais, suas posições axiológicas, que são fundamentais para a ocorrência das relações dialógicas.
O autor continua a sua crítica ao pensamento da linguística pura em relação à linguagem, afirmando:
As relações dialógicas são irredutíveis às relações lógicas ou às concreto-semânticas, que por si mesmas carecem de momento dialógico. Devem personificar-se na linguagem, torna-se enunciados, converte-se em posições de diferentes sujeitos expressas na linguagem para que entre eles possam surgir relações dialógicas (BAKHTIN, 1997, p. 183, grifo do autor).
Nesse trecho, o filósofo russo, ao tratar das relações dialógicas, deixa claro que estas somente ocorrem quando há “posições de diferentes sujeitos expressas na linguagem para que entre eles possam surgir relações dialógicas” (BAKHTIN, 1997, p. 183). Nesse sentido, Faraco (2006, p. 64) confirma que as relações dialógicas são
[...] relações entre índices sociais de valor – que [...] constituem, no conceitual do Círculo de Bakhtin, parte inerente de todo enunciado, entendido este não como unidade da língua, mas como unidade da interação social; não como um complexo de relações entre palavras, mas como um complexo de relações entre pessoas socialmente organizadas.
O autor russo cita dois exemplos de como as relações dialógicas podem ocorrer, levando em conta as relações lógicas ou concreto-semânticas:
“A vida é boa”. “A vida não é boa”. Estamos diante de dois juízos revestidos de determinada forma lógica e em conteúdo concreto- semântico (juízos filosóficos acerca do valor da vida) definido. Entre esses juízos há certa relação lógica: um é a negação do outro. Mas entre eles não há nem pode haver quaisquer relações dialógicas, eles não discutem absolutamente entre si (embora possam propiciar matéria concreta e fundamento lógico para a discussão).
“A vida é boa”. “A vida é boa”. Estamos diante de dois juízos absolutamente idênticos, em essência, diante de um único juízo, escrito (ou pronunciado) por duas vezes, mas esse “dois” se refere apenas à materialização da palavra e não ao próprio juízo. É verdade que aqui podemos falar de relação lógica de identidade entre dois juízos. Mas se esse juízo puder expressar-se em duas enunciações, de dois diferentes sujeitos, entre elas surgirão relações dialógicas (acordo, confirmação) (BAKHTIN, 1997, p. 183-184, grifo do autor).
Nesses dois exemplos, observamos que o autor não nega a importância da relação lógica ou concreto-semântica nos enunciados. No entanto, mostra que, da forma como os exemplos se apresentam, não existem informações suficientes para que ocorram relações dialógicas. Da maneira que os exemplos foram escritos, não há informação alguma da presença dos sujeitos (que devem ser no mínimo dois ─ mesmo que esses dois sujeitos sejam: o indivíduo e a sua consciência, como nos modelos de diálogo interior) para delimitar o enunciado de um e o enunciado do outro ─ e, consequentemente, seus posicionamentos. Portanto, nesses exemplos, não se trata de enunciados, e, sim, simplesmente, de frases soltas. Porém, elas podem tornar-se enunciados e entre eles surgir relações dialógicas, desde que se tenha a nítida percepção de enunciados de diferentes sujeitos num dado contexto social ─ em forma de embate, de acordo, de desacordo, de adesão, de
questionamento, de confirmação etc., pois “o Círculo de Bakhtin entende as relações dialógicas como espaços de tensão entre enunciados” (FARACO, 2006, p. 67).
Ampliando a discussão no que concerne às relações lógicas e concreto- semânticas, Bakhtin (1997, p. 184, grifo do autor) declara:
As relações dialógicas são absolutamente impossíveis sem relações lógicas e concreto-semânticas, mas são irredutíveis a estas e têm especificidade própria.
Para se tornarem dialógicas, as relações lógicas e concreto- semânticas devem [...] materializar-se, ou seja, devem passar a outro campo da existência, devem tornar-se discurso, ou seja, enunciado, e ganhar autor, criador de dado enunciado cuja posição ela expressa.
Nesses trechos, o autor, mais uma vez, esclarece sobre a importância das relações lógicas e concreto-semântica nas relações dialógicas, mas confirma que somente a presença dessas duas características não é suficiente para a ocorrência das relações dialógicas no discurso. Outra importante informação nessa discussão diz respeito ao discurso/enunciado: para que as relações lógicas e concreto- semântica se tornem dialógicas é necessário que elas se tornem, segundo o autor, “discurso, ou seja, enunciado, e ganhar autor, criador de dado enunciado cuja posição ela expressa”. Ainda nessa perspectiva, nas palavras de Faraco (2006, p. 64, grifo do autor), compreende-se:
Para haver relações dialógicas, é preciso que qualquer material linguístico (ou de qualquer outra materialidade semiótica) tenha entrado na esfera do discurso, tenha sido transformado num enunciado, tenha fixado a posição de um sujeito social. Só assim é possível responder (em sentido amplo e não apenas empírico do termo), isto é, fazer réplicas ao dito, confrontar posições, dar acolhida fervorosa à palavra do outro, confirmá-la ou rejeitá-la, buscar-lhe um sentido profundo, ampliá-la. Em suma, estabelecer com a palavra de outrem relações de sentido de determinada espécie, isto é, relações que geram significação responsivamente a partir do encontro de posições avaliativas.
[...] todo enunciado tem uma espécie de autor, que no próprio enunciado escutamos como o seu criador. Podemos não saber absolutamente nada sobre o autor real, como ele existe fora do enunciado. As formas dessa autoria real podem ser muito diversas. Uma obra qualquer pode ser produto de um trabalho de equipe, pode ser interpretada como trabalho hereditário de várias gerações, etc., e apesar de tudo, sentimos nela uma vontade criativa única, uma posição determinada diante da qual se pode reagir dialogicamente. A relação dialógica personifica toda enunciação à qual ela reage.
Portanto, para que ocorram relações dialógicas no discurso, é necessária a presença de um autor, nas diversas formas em que o filósofo russo mostrou no
trecho citado, o qual apresenta uma posição axiológica para que, a partir dela, outros sujeitos possam “reagir dialogicamente”, ou seja, responder axiologicamente com outros enunciados.
Bakhtin (1997, p. 184) afirma que as relações dialógicas são possíveis não apenas entre enunciados integrais, mostrando outras formas em que podem ocorrer as relações dialógicas:
As relações dialógicas são possíveis não apenas entre enunciações integrais (relativamente), mas o enfoque dialógico é possível a qualquer parte significante do enunciado, inclusive a uma palavra isolada, caso esta não seja interpretada como palavra impessoal da língua, mas como signo da posição semântica de um outro, como representante do enunciado de um outro, ou seja, se ouvimos nela a voz do outro. Por isso, as relações dialógicas podem penetrar no âmago do enunciado, inclusive no íntimo de uma palavra isolada se nela se chocam dialogicamente duas vozes (o microdiálogo de que já tivemos a oportunidade de falar).
Por outro lado, as relações dialógicas são possíveis também entre os estilos de linguagem, os dialetos sociais, etc., desde que eles sejam entendidos como certas posições semânticas, como uma espécie de cosmovisão da linguagem, isto é, numa abordagem não mais linguística.
Dessa forma, as relações dialógicas podem acontecer tanto em uma palavra isolada ─ desde que ela não seja interpretada como uma forma abstrata da língua, neutra, monológica, como nos esquemas de Saussure ─ quanto em um enunciado
integral, e isso é possível se em ambos os casos se chocarem dialogicamente, no mínimo, duas vozes. Por fim, o autor amplia a questão das relações dialógicas para os campos de estilos de linguagem, dialetos sociais, entre outros, numa abordagem não mais linguística, e, sim, discursiva, dialógica.
A seguir, trataremos do conceito bakhtiniano de exotopia.
3.5 O OLHAR EXOTÓPICO: O OLHAR EXTERNO/DISTANCIADO
O conceito bakhtiniano de exotopia ─ que significa “lugar exterior”, “olhar externo” ─ está presente em toda a sua obra, relacionando-se diretamente às discussões do eu e do outro, que estão fundamentados no princípio da alteridade. Bakhtin (2010b), em seus estudos sobre o olhar exotópico, abordou as questões da atividade estética e da atividade da pesquisa em Ciências Humanas. Nesta seção, iremos abordar o olhar exotópico na atividade estética e no capítulo da metodologia retomaremos esse conceito na perspectiva da atividade da pesquisa em Ciências Humanas.
De acordo com o autor, um sujeito com o olhar distanciado, o olhar externo (o olhar exotópico), é dotado de um excedente de visão ─ que somente esse distanciamento, esse olhar de fora, proporciona. É exclusivamente devido a esse excedente de visão que o sujeito possui que ele é autorizado a dar o acabamento estético ao outro.
Entretanto, ocorre uma problemática quando o sujeito vê a sua imagem externa ─ no espelho, no retrato ou em um quadro, por exemplo ─ e tenta dar um acabamento de si. Em relação a essa problemática, Bakhtin (2010b, p. 28, grifo do autor) argumenta:
[...] é fácil verificarmos que o resultado inicial dessa tentativa será o seguinte: minha imagem visualmente expressa começa, em tons vacilantes, a definir-se ao lado de minha pessoa vivenciada por dentro, destaca-se apenas levemente da minha autossensação interna em um sentido adiante de mim e desvia-se um pouco para um lado, como um baixo-relevo, separa-se do plano da autossensação interna sem desligar-se plenamente dela; é como se eu me desdobrasse um pouco, mas não me desintegrasse