3. ESERLERİ
1.2. Çok Zincirli Olay Örgüsü
2.1.2. Sosyal Durumlarına Göre Kadınlar
2.1.2.4. Hayat Kadınları
A Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 5 de outubro de 1988 pelos representantes do povo reunidos em Assembleia Constituinte, ficou conhecida como Constituição Cidadã. Foi o alvorecer da democracia após as trevas autoritárias do regime militar e fez consolidar todas as etapas da afirmação dos direitos humanos. Cristalização dos anseios da sociedade brasileira de seu tempo, a Constituição foi pródiga ao reconhecer um amplo espectro de direitos humanos individuais e sociais.
“Repito: essa será a Constituição cidadã, porque recuperará como cidadãos milhões de brasileiros, vítimas da pior das discriminações: a miséria. Cidadão é o usuário de bens e serviços do desenvolvimento. Isso hoje não acontece com milhões de brasileiros, segregados nos guetos da perseguição social. Esta Constituição, o povo brasileiro me autoriza a proclamá-la, não ficará como bela estátua inacabada, mutilada ou profanada. O povo nos mandou aqui para fazê-la, não para ter medo. Viva a Constituição de 1988! Viva a vida que ela vai defender e semear!”69
Espelho das confrontações políticas do momento histórico em que surgiu, a Constituição de 1988 leva esses direitos ao ápice da ordem normativa e vinculante dos poderes estatais70. Todavia, ao pararmos para pensar, percebemos que, após quase vinte
anos da promulgação da nossa Constituição, esses direitos, expressos de forma tão clara, não vêm sendo respeitados. Aqui e ali se depara com o portador de deficiência sem escola e sem acesso a lugares públicos, idosos sem amparo assistencial, presos sem garantias, doentes sem atendimento – são apenas alguns exemplos da falta de eficácia71 daqueles direitos tão evidentes no texto constitucional.
69Discurso proferido por Ulysses Guimarães, presidente da Assembléia Nacional Constituinte, na sessão de
27 de julho de 1988.
70CANOTILHO, Joaquim José Gomes. op. cit., p. 150.
71A importância crescente do Estado Social no seio do constitucionalismo forçou o recrudescimento da
questão da eficácia, posto que a atribuição ao Estado de responsabilidades impôs o crescimento de normas programáticas e, em conseqüência, a reflexão sobre a chamada eficácia técnica.” (FERRAZ JUNIOR, Tércio Sampaio. Interpretação e estudos da Constituição de 1988. São Paulo: Atlas, 1990. p. 15).
O fundamento dos direitos humanos no Brasil é, portanto, encontrado dentro do próprio ordenamento jurídico72, já que há normas que os reconhecem positivadas na própria carta constitucional. A Constituição Cidadã instituiu um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos individuais e sociais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos – fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias.
A dignidade da pessoa humana foi eleita como um dos fundamentos do Estado brasileiro73, cujos objetivos fundamentais são a construção de uma sociedade livre, justa e solidária74, a garantia de desenvolvimento nacional75, a erradicação da pobreza e da marginalização76, a redução das desigualdades sociais e regionais, a promoção do bem de todos – sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação77. O repúdio à discriminação – reflexo do movimento de generalização dos direitos humanos – é especialmente favorecido ao ser incluído no rol dos princípios que devem guiar a ação do Brasil na esfera internacional78, e pela tipificação do racismo como crime imprescritível79.
No capítulo destinado aos direitos e deveres individuais e coletivos, foi assegurada a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade80 além dos direitos à saúde, ao trabalho, à moradia, ao lazer, à educação e à cultura, bem como a previdência social, a proteção à maternidade e a assistência aos desamparados81.
72"O problema do fundamento de um direito apresenta-se diferentemente conforme se trate de buscar o
fundamento de um direito que se tem ou de um direito que se gostaria de ter. No primeiro caso, investigo no ordenamento jurídico positivo, do qual faço parte como titular de direitos e de deveres, se há uma norma válida que o reconheça e qual é essa norma; no segundo caso, tentarei buscar boas razões para defender a legitimidade do direito em questão e para convencer o maior número possível de pessoas (sobretudo as que detêm o poder direto ou indireto de produzir normas válidas naquele ordenamento) a reconhecê-la”. BOBBIO, Norberto. op. cit., p. 35.
73CF, Art. 1º, III. 74CF, Art. 3º, I. 75CF, Art. 3º, II. 76CF, Art. 3º, III. 77CF, Art. 3º, IV. 78CF, Art. 4º, VII. 79CF, Art. 5º, XLII. 80CF, Art. 5º, caput. 81CF, Art. 6º, caput.
Indo mais além, também garantiu o direito à assistência social82, a ser prestada a quem dela necessitar, independentemente de contribuição, tendo por objetivos, dentre outros, a habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de deficiência e a promoção de sua integração à vida comunitária, bem como a garantia de um salário mínimo de beneficio mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover a própria manutenção ou tê-la provida por sua família.
Entretanto, não obstante o aparato jurídico existente para salvaguarda desses direitos, verificamos que os valores neles consagrados existem apenas no plano teórico. Embora escritas com clareza, o caráter vago, confuso e impreciso dessas normas aparece tão logo tenham de ser aplicadas no caso concreto83.
A sociedade brasileira, cujos anseios foram cristalizados em 1988, aguardou, em vão, que o poder Legislativo complementasse as normas constitucionais, dando a elas a eficácia necessária para se tornarem exigíveis. O Executivo, na mesma linha, manteve-se impassível – insistindo na ideia de que a Constituição, dado o seu caráter “programático”84, não delineia obrigações, apenas traçando algumas esperanças e apresenta meros vetores de orientação. Verifica-se, assim, que a ordem jurídica suprema ficou no plano das ideias, seguindo um caminho paralelo ao mundo dos fatos, sem ponto de encontro.
Nesse contexto, surge a pergunta: será que os “direitos humanos” são mesmo “direitos” ou servem apenas de bálsamo para uma sociedade carente de valores85? Será que as regras contidas no texto constitucional são meros conselhos a serem ou não seguidos de acordo com o arbítrio e a conveniência?
A resposta não é simples e nem pode ser dada de pronto, mas é certo que, enquanto se discute a natureza dessas normas ou desses princípios, o Estado não se obriga e o cidadão nada recebe. A Constituição, então, fica relegada ao descrédito, e o Estado de Direito passa a ser meramente formal.
Ante a inércia e o fala de confiança da sociedade nas classes políticas86 que formam o Legislativo e do Executivo, a aplicação dos direitos humanos passa a depender
82CF, Art. 203, caput. 83V. nota 35.
84V. nota 13.
85Cf. NEVES, Marcelo. A constitucionalização simbólica. São Paulo: Acadêmica, 1994.
86CAMPILONGO, Celso Fernandes. Os desafios do Judiciário: um enquadramento teórico. In: FARIA, José
do papel desempenhado pelo Judiciário87. Este, a quem incumbe aplicar a lei nos casos contenciosos, garantindo os direitos humanos vindicados, apresenta-se, por sua vez, tímido, medroso, cheio de dificuldades para reconhecer as pretensões apresentadas. Porém, é necessário que os juízes rompam definitivamente com esse acanhado comportamento, para que possam assumir o papel que lhes cabe, qual seja, a “concordância prática das diversidades”88 inerentes ao Estado social.
“Para os segundos [direitos humanos de segunda geração], por seu turno, o problema está em harmonizar os diferentes tipos de direitos legalmente garantidos para suprir vazios de efetividade e alargar sua intensidade a amplos setores das classes trabalhadoras. Os desafios redistributivos impostos ao sistema político e cobrados ao sistema Judicial são muito mais fortes.
Os grupos sociais têm percebido o Judiciário como um locus de afirmação desses direitos e superação desse déficit. Trata-se, evidentemente, de uma sinalização do cidadão no sentido da legitimação da magistratura89