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Há um grande desafio posto diante da Lingüística Aplicada contemporânea. As variáveis que contribuem para caracterizar como desafio a tarefa de emancipação desse campo de conhecimento estão presentes nas discussões dos autores que vêm trabalhando nele e com ele, refletindo e criando inteligibilidade sobre suas transformações.

Tivemos como objetivo dar visibilidade às vozes que permeiam e constituem esses discursos enformados nos textos apresentados nos diversos CBLAs. Por meio da compreensão dessas vozes, procuramos, ainda, discutir as transformações desse campo, ressaltando em que medida essas transformações têm aproximado a ética da Lingüística Aplicada de uma ética, conforme o conceito de ética que ancora a perspectiva deste trabalho (BAKHTIN, 1993; 1997), que responda pela vida e pela responsabilidade dos posicionamentos valorativos dos sujeitos que a constituem, na

figura dos pesquisadores que produzem seu conhecimento e na figura dos sujeitos que se constituem como objeto de pesquisa.

Além da clara constatação de que a Lingüística Aplicada dos tempos atuais não é mais a mesma Lingüística Aplicada de trinta anos atrás, já que se transformou e se ampliou ao longo desse tempo, podemos afirmar, segundo a compreensão dos dados analisados, que esse processo de transformação ainda não acabou. Muito pelo contrário, ele tem se renovado e se reinventado, o que é extremamente salutar porque, se entendemos que esse é um campo que tem vitalidade suficiente para se rediscutir periodicamente, é sinal de que nele pulsa a vitalidade da vida e dos sujeitos de linguagem que ele deseja compreender.

As primeiras mudanças foram metodológicas (COHEN, 1989), em função de toda uma discussão sobre a crise dos paradigmas científicos nas Ciências Humanas que se refletem, obviamente nos estudos lingüísticos e na pesquisa aplicada, sobretudo, porque esta última também buscava firmar-se como um campo disciplinar autônomo, defendendo a natureza diversa de sua pesquisa e objeto de estudo.

Tendo marcado sua opção pela linguagem, e não mais pela língua, as mudanças no foco dos objetos de estudo levaram a mudanças na abordagem metodológica destes. Ampliações dos objetos de estudo e diversificação nos modos de olhar para estes levaram à busca por outras contribuições teóricas. Observamos, a esse respeito, que, em 1990, no âmbito do II CBLA, aparece a primeira discussão sobre transdisciplinaridade na Lingüística Aplicada (SERRANI, 1990).

Os vínculos da Lingüística Aplicada com outras disciplinas e ciências estimula, cada vez mais, o debate sobre sua autonomia, sobre a natureza do trabalho do pesquisador no campo aplicado e sobretudo sobre a identidade deste, de sua prática.

A temática da transdisciplinaridade explode, no ano de 1995, em amplas discussões durante o IV CBLA, com reflexos que nos chegam até os dias atuais. No bojo dessas discussões, mais do que simplesmente defender uma associação ou troca de informações entre teorias para criar inteligibilidade sobre fenômenos da linguagem, intensifica-se a preocupação com a postura ética desse campo do conhecimento que declara ter como propósito o estudo da linguagem em uso por sujeitos nas práticas sociais. Em outras palavras, a linguagem pressupõe não somente o sujeito que fala e que significa em seu discurso mas, igualmente, o fato de que esse sujeito é situado em seu contexto histórico, social e cultural. Assim,

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uma ciência que deseje assumir seu lugar na busca pela compreensão das reais questões de linguagem, produzidas por sujeitos reais, necessita livrar-se dos velhos conceitos de objetividade e neutralidade e assumir a subjetividade inerente a seu discurso. Isso leva a uma necessidade de posicionar-se valorativamente diante das escolhas teóricas, metodológicas e paradigmáticas de seu campo de estudo.

Nesse sentido, as discussões sobre a natureza da Lingüística Aplicada aproximam-se das discussões circulantes nas Ciências Humanas, que destacam a necessidade de resgatar, para a pesquisa, o lugar do sujeito social, político, ideológico e cultural, que tem raça, cor, sexualidade, subjetividade – enfim, um sujeito plural nos múltiplos aspectos que o definem, porém único em sua existência.

As Ciências Humanas querem humanizar-se e também a Lingüística Aplicada entende ser esse o caminho para sua prática. Essa humanização passa pela tarefa de buscar produzir um conhecimento da vida e sobre a vida. Se o objeto de estudo da Lingüística Aplicada é a linguagem em uso nas práticas sociais, materializada nos textos e nos discursos, é preciso buscar nestes a dimensão do humano, dando voz às vozes que falam, sem apagamentos, sem desqualificações, mas com respeito às possibilidades de manifestação das opiniões, dos pontos de vista. A busca pela humanização é, nesse sentido, uma busca ética pois abre a possibilidade para que as vozes sejam ouvidas e levadas em consideração.

Essa tem sido a postura que identificamos nos discursos recentes sobre a Lingüística Aplicada. As vozes apontam para a construção de um campo de saber que se oriente pelo rumo da vida, que acompanhe as transformações desta, que escute as vozes que dela emergem – um campo ético o suficiente a ponto de entender que não pode ser neutro, que tudo aquilo que disser e produzir terá de ser feito na dimensão da responsabilidade dos envolvidos por seu discurso.

Apontam ainda para um campo de saber que tenha a capacidade de se redescobrir uma vez mais e sempre e que, ancorado no mundo da vida, manifeste a mesma vitalidade desta. Um campo de conhecimento, porém, que não abra mão de sua especificidade e de seu objeto de estudo, ou seja, da linguagem e dos critérios para estudá-la e compreendê-la como uma ciência, mas que, nem por isso, a isole e a abstraia das relações sociais nas quais ela se constitui.

Em síntese, percebemos que as vozes dos discursos circulantes sobre a Lingüística Aplicada como campo produtor de saber são vozes em plena transformação: umas mais cautelosas, outras mais abertas para o novo, para o

inesperado, até mesmo para o transgressor, mas, sem dúvida, vozes transformadoras. São vozes com as quais uns podem concordar, outros não; mas são vozes que estão se posicionando, assumindo uma responsabilidade por seu dizer e seu fazer científico, assumindo, em suma, uma postura ética.

Na busca pela aproximação da ciência com a vida, percebemos os caminhos abertos para a Lingüística Aplicada: caminhos que não são únicos nem têm a pretensão de serem a única escolha possível, uma vez que é possível fazer Lingüística Aplicada de outra forma; caminhos que são uma questão de escolha, coerência e de responsabilidade.

Os caminhos, entretanto, não se confundem com relativismo e indiferença. Ao assumir a postura ética da responsabilidade e do posicionamento não-indiferente, aqueles que fazem esse tipo de pesquisa lingüística aplicada escolhem o local, as armas e a batalha que desejam travar. Nesse sentido, o caminho a ser trilhado não é qualquer um, mas aquele que se escolheu, com conseqüências e implicações futuras. O desafio é, de fato, grande e está apenas começando.

Estas foram considerações feitas com base nas vozes que falam sobre o campo de estudos da Lingüística Aplicada, porém perguntamo-nos: e suas pesquisas? Em que medida elas se orientam pelas transformações disciplinares apontadas? O modelo de pesquisa postulado pela vertente de pensamento da Lingüística Aplicada que apresentamos terá se transformado, de fato, em realidade ou ainda se configura como um projeto para o futuro? No capítulo a seguir tentamos responder a essas questões.

7 UM EXEMPLO DA DIMENSÃO ÉTICA NA

PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO EM LINGÜÍSTICA

APLICADA: O CASO DO ENSINO DE LÍNGUAS

7.1 A DIMENSÃO ÉTICA NA PESQUISA

“Um ato de nossa atividade, de nossa real experiência, é como um Jano bifronte. Ele olha em duas direções opostas: ele olha para a unidade objetiva de um domínio da cultura e para a unicidade irrepetível da vida realmente vivida e experimentada. [...] Um ato deve adquirir um plano unitário singular para ser capaz de refletir-se em ambas as direções – no seu sentido ou significado e em seu ser; ele deve adquirir a unidade da dupla responsabilidade – tanto pelo seu conteúdo (responsabilidade especial) como pelo seu Ser (responsabilidade moral). [...] Esse é o único meio pelo qual a perniciosa divisão e não interpenetração entre cultura e vida poderia ser superada”. Mikhail Bakhtin, 1993. p. 2

No capítulo anterior, em um passeio por textos de lingüistas aplicados brasileiros sobre a produção do conhecimento no campo de estudos da Lingüística Aplicada, procuramos identificar as vozes que perpassam os enunciados que tratam desse campo de estudo, ao longo de suas transformações, discutidas e debatidas no cenário dos Congressos Brasileiros de Lingüística Aplicada.

Procuramos igualmente discutir a dimensão ética desse campo de saber evidenciada em algumas vozes representativas do fazer científico dessa área que se pronunciaram ao longo do período selecionado para objeto de análise.

Se, por um lado, tais objetivos pretenderam responder às questões de pesquisa, da forma como explicitado no capítulo anterior, por outro lado, apontaram para a perspectiva de buscar identificar, nas várias faces da pesquisa em Lingüística Aplicada, a concretização dos rumos e transformações desse campo do saber.

Considerando que o enunciado é um elo na cadeia discursiva (BAKHTIN, 2003) e pensando na produção do conhecimento da Lingüística Aplicada como discursos (conjunto de enunciados) responsivos a outros, percebemos a necessidade de identificarmos os elos entre o discurso sobre a área e as pesquisas por esta produzidas. Essa necessidade nos remete à quarta questão da pesquisa:

4- Como se faz representar o discurso orientador do campo de estudos da Lingüística Aplicada, na pesquisa produzida nos CBLAs?

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Para dar conta desse último objetivo, procuramos olhar para as pesquisas em uma de suas subáreas temáticas em busca de exemplos que possam, primeiramente, nos apontar os caminhos trilhados pela pesquisa desse campo e, em segundo lugar, nos esclarecer se o percurso da pesquisa em Lingüística Aplicada e as transformações postuladas no campo de estudos têm caminhado juntas, no mesmo passo.

Embora as subáreas da Lingüística Aplicada tenham se ampliado bastante, conforme apontado na discussão sobre as temáticas dos CBLAs23, ao longo de sua história, é ainda visível o fato de que as subáreas de ensino-aprendizagem de língua materna e ensino-aprendizagem de língua estrangeira continuam a merecer destaque, ainda que não necessariamente se façam apresentar sob o mesmo rótulo de ensino-aprendizagem de línguas.

A opção pelo ensino e a generalização por línguas é interessante para nossa proposta pois não nos limitará às especificidades das questões de linguagem que caracterizam as línguas estrangeiras ou a língua materna, apenas. Nesse sentido, a opção por essa grande área mista nos permitirá obter um panorama mais geral de uma parte da produção do conhecimento da Lingüística Aplicada no Brasil, nos últimos anos, o que garante a concretização dos objetivos que estamos buscando nesse momento.

Nosso propósito, repetimos, é o de observar que tipo de pesquisa a Lingüística Aplicada vem apresentando, quais suas temáticas e como essa prática científica acompanha a discussão teórica sobre o campo, suas características e suas transformações. Além disso, faz-se necessário questionar se o espaço dos CBLAs, no momento em que traz à tona uma discussão nacional sobre a Lingüística Aplicada como área de estudos ou como ciência autônoma, orienta as pesquisas nas diversas subáreas temáticas que dão corpo a essa ciência, no sentido de fazer com que as transformações discutidas reflitam nas escolhas metodológicas, nos objetos de estudo ou nas interfaces teóricas delas.

Em suma, será que as transformações vividas ou ainda almejadas pelo campo da Lingüística Aplicada, em sua busca por uma área que transcenda os limites da disciplinaridade fechada em si mesma, que assuma uma postura ética de unir o mundo da vida ao mundo da cultura resgatando para os indivíduos sua

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humanidade, sua voz e a responsabilidade por seu agir e existir, estão se fazendo representar nas várias faces de sua pesquisa? É o que procuramos responder no decorrer deste capítulo.

O quadro a seguir apresenta o conjunto de textos de pesquisa24, objeto da

análise subseqüente.

I CBLA 1) BORTONI, S.M. (1988) Situações dialógicas assimétricas: implicações para o ensino.

II CBLA 2) TERZI, S.B. (1990) A interação em sala de aula e sua influência noesquema de perguntas e respostas das crianças.

III CBLA

3) MOITA LOPES, L.P. (2001a) Padrões interacionais em sala de aula de língua materna: conflitos culturais ou resistência.

4) KLEIMAN, A. (1993) Diálogos truncados e papéis trocados: o estudo da interação no ensino de língua materna.

IV CBLA

5) ROJO, R.H.R. (1995) Linguagem e surdez: perspectivas interacionistas. 6) MENDES, P.E. (1995) As teorias rediscutindo as práticas da alfabetização do surdo: oralidade, gestualidade e escrita.

7) CAVALLIERI, S.R.B. (1995) Algumas considerações sobre aspectos interacionais em sala de aula de crianças surdas.

V CBLA

V CBLA

8) MOITA LOPES, L.P. (1998b) Narrativa como processo de construção da identidade social em uma sala de aula de leitura de língua materna. 9) MAGALHÃES, M.C. (1998) Formação contínua de professores: conscientização e transformação da identidade profissional.

10) BOHN, H. (1998b) A globalização, a interculturalidade e as propostas hegemônicas na política de ensino de línguas.

11) MENEZES, V. (1998) O papel da internet na implementação de uma política de ensino de línguas estrangeiras.

12) CORACINI, M.J. (1998) A questão da heterogeneidade nos discursos da Lingüística Aplicada e da sala de aula (LM e LE).

13) SERRANI-INFANTE, S. (1998) Papel das identificações na produção- compreensão em língua estrangeira.

24 Priorizamos os trabalhos apresentados nas conferências, seminários e mesas-redondas. Quando necessário, recorremos a trabalhos apresentados em sessões de comunicação; entretanto, esse levantamento não é realizado de modo exaustivo uma vez que o número total de trabalhos dos congressos ultrapassa os limites práticos desta pesquisa.

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VI CBLA

14) BARCELOS, A.M.F. (2004) Crenças sobre aprendizagem de línguas, Lingüística Aplicada e ensino de línguas.

15) MOITA LOPES, L.P. (2001b) Discurso, corpo e identidade: masculinidade hegemônica como comunidade imaginada na escola.

VII CBLA

16) COLLINS, H. (2004) Educação à distância, interação e pensamento crítico.

17) GRIGOLETTO, M. (2005) Ideologia e processos identitários: o simbólico em questão.

Quadro 4- A pesquisa sobre o ensino e seus desdobramentos