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HAREZMŞAHLARIN ÇÖKÜŞÜ VE CELALEDDİN HAREZMŞAH’IN

Essa seção apresenta as principais causas para o uso e o recrutamento de crianças soldado com base na revisão bibliográfica sobre o tema. Há uma literatura crescente evidenciada no relatório de Graça Machel sobre Crianças em Conflitos Armados (1996), que elenca três principais razões para o aumento do uso de crianças soldado no mundo: as chamadas “novas guerras”, a utilização e a proliferação das chamadas “armas leves” (small arms), como as AK-47, e a vulnerabilidade das crianças para o recrutamento forçado. No entanto, o fenômeno das crianças soldado é complexo e sua explicação não se esgota com base nesses três fatores. Como defende Rosen (2005), eles são justificativas do discurso humanitário sobre a questão.

Há uma literatura que defende que a natureza do conflito está mudando no sentindo de que não há mais uma real distinção entre civis e combatentes. De fato, esta clara separação entre ambos nunca existiu e o uso de crianças em combate não é um fenômeno novo. Newman (2004) argumenta que não há uma clara diferenciação entre formas contemporâneas de conflito e suas antecedentes, principalmente envolvendo tipos de violência organizada, atores, objetivos, contextos espaciais, impacto humano e estrutura social, política e econômica do conflito. Dessa forma, as chamadas “novas guerras” não conseguem explicar porque crianças são empregadas no conflito.

Há, ainda, o argumento de que os avanços tecnológicos na produção de armas mais leves facilitaram o envolvimento de crianças no conflito armado (SHEPPARD, 2000, p. 38). Contudo, Rosen (2005) refuta essa tese ao demonstrar que as armas utilizadas durante a Guerra Civil Americana ou Guerra de Secessão (1861 - 1865) eram mais leves e com a mesma capacidade mortífera das armas pequenas associadas ao tema de crianças soldado, como é o caso das AK 47. Além disso, Rosen (2005) também mostra que a maior parte das atrocidades cometidas por crianças soldado na África não aconteceu com armas de fogo, mas com facões e armas consideradas pouco tecnológicas. Nwoko (2011) afirma que a participação de crianças em conflitos armados é facilitada quando não há a utilização de armas caras e tecnológicas, mas quando armas tradicionais estão disponíveis (p. 12).

66 Obviamente, o tráfico e comércio de armas é um assunto preocupante que estimula conflitos em todo mundo, mas não há necessariamente uma relação direta entre o seu aumento e o uso de crianças soldado.

O terceiro pilar da vulnerabilidade das crianças – devido ao seu menor desenvolvimento psicológico e emocional (SHEPPARD, 2000, p. 38) – revela claramente a concepção de infância previamente discutida como incapaz de realizar um cálculo racional de custos e benefícios. Há, de fato, uma parte das crianças que são abduzidas e coagidas a virarem soldados, mas, a existência de crianças que se envolvem na guerra de maneira “voluntária”, como será discutido nesse capítulo, invalida a visão desse tipo de vulnerabilidade das crianças como explicação principal para seu uso em conflitos armados.

O uso de crianças soldado pode ser explicado por meio de variáveis macro (que estão no nível sistêmico e se relacionam a fatores estruturais) e de variáveis micro (que envolvem as decisões de indivíduos). Os fatores micro podem ser divididos em dois grupos: variáveis que impactam o cálculo realizado pelos recrutadores e variáveis que impactam o cálculo realizado pelas próprias crianças de se envolverem no conflito. Esses últimos serão mais bem discutidos na seção sobre alistamento voluntário.

2.2.1 Fatores Estruturais

Grande parte das crianças soldado está em grupos armados não estatais (apesar de também haver forças armadas regulares que as empregam). Contribui para isso o fato de que a maioria dos conflitos atuais é intraestatal e envolve frequentemente baixos níveis de segurança pessoal, colapso das estruturas e instituições estatais (o que caracteriza primariamente o fenômeno de “Estado falido”), quebra de poder entre diferentes atores militares, erosão na coesão e confiança sociais e desigualdades na distribuição de recursos, promovendo um clima de insegurança, impunidade e criminalidade (BOYDEN, 2003, p. 344). Dessa forma, a falta de soberania estatal e a erosão do Estado estão no centro do problema das crianças soldado (VAUTRAVERS, 2009, p. 105). Isso estimula o aumento do uso de crianças soldado, porque esse Estado falha em oferecer proteção e segurança para a população e em promover educação e oportunidades de emprego para os jovens (NWOKO, 2011, p. 12).

Além disso, como mostra Nwoko (2011) com o estudo de casos africanos, relações sociais e familiares são modificadas em um contexto de violência. A família, seguida pela comunidade, é a principal unidade de proteção das crianças e essas são gravemente afetadas em um contexto de conflito por causa de mortes, deslocamentos, desaparições e separações

67 forçadas (p. 12). Assim, crianças são colocadas na pior situação em conflitos armados porque as rápidas modificações sociais que precedem ou acompanham guerras levam a uma quebra nas redes familiares e comunitárias essenciais para a sua sobrevivência e socialização (FERNANDO, 2001, p. 17).

Deve-se pensar, ainda, que a pobreza e as condições sociais adversas que já vigoravam em muitos países são agravadas por um conflito armado. Assim, crianças ficam mais suscetíveis ao recrutamento como soldados por questões, como aumento da violência urbana, da pobreza extrema, da discriminação, da exclusão política e econômica, da falta de proteções e estruturas de apoio legais e formais para a infância e de instituições que as garantam (NWOKO, 2011, p. 11). Crianças soldado são geralmente das faixas sociais mais pobres e vulneráveis (VALENTINE, 2003, p. 120). Nos conflitos atuais, crianças mais ricas de áreas urbanas dificilmente são recrutadas porque grande parte do recrutamento ocorre nos setores mais pobres e marginais, nas zonas onde o conflito ocorre de fato (DRUBA, 2002, p. 271). Como causas estruturais a nível global do uso de crianças soldado, Singer (2004) elenca a pobreza mundial, a falta de oportunidades econômicas e educacionais para muitas crianças no mundo e a difusão de guerras e doenças (p. 563).

Por fim, haveria uma causa burocrática que impactaria no recrutamento de crianças soldado. A ausência de registro formal de nascimento, um direito básico de toda criança, também é uma das causas do uso de crianças soldado (NWOKO, 2011), porque o critério para responsabilização internacional de uma pessoa pelo uso de crianças soldado depende de que ela tenha ciência de que estava envolvendo menores de 18 anos em conflitos. A ausência de documentos que comprovem a idade de um jovem pode servir para justificar seu uso por grupos armados, que alegam desconhecerem que estavam empregando crianças quando demandados em cortes nacionais, internacionais ou pela comunidade internacional. Ao mesmo tempo, um Estado frágil em meio à pobreza e a um conflito armado dificilmente conseguirá garantir que todas as suas crianças sejam devidamente registradas e possam comprovar sua idade em caso de recrutamento forçado.

2.2.2 Cálculo dos recrutadores

Grupos militares recrutam crianças por realizarem um cálculo de que os benefícios de utilizar esse recurso humano são maiores do que os seus custos. Em um contexto de crise do Estado e conflito interno, dificilmente um país terá como fiscalizar e punir grupos armados por recrutarem crianças (WATSON, 2004, p. 160). Ainda que para terem suas causas

68 internacionalmente legitimadas e receberem apoio da população, alguns desses grupos não utilizem deliberadamente crianças soldado, a maior parte desses aproveita a impunidade para recrutar o maior número de crianças possível, e, quando demandados pela população ou internacionalmente sobre isso, escondem ao máximo essa prática, afirmando que recrutam apenas maiores de 15 anos.

Grupos armados em conflito com o Estado precisam mobilizar recursos e populações para a guerra total com o intuito de resistir contra o poder central (normalmente o Estado), obter independência e sobrevivência políticas e exercer controle sobre populações e territórios. Sendo assim, recrutar crianças seria uma boa saída, principalmente quando há a ausência de adultos para essa tarefa. Em conflitos armados prolongados (nos quais os adultos estão exaustos [PLUNKETT; SOUTHALL, 1998, p. 73]) ou em locais onde a população jovem menor de 18 anos corresponde a cerca de 50% da população, o envolvimento de crianças torna-se quase inevitável dada a sua disponibilidade e a busca por mobilizar o maior número possível de recursos. Mesmo que os menores sejam recrutados para desempenharem atividades de apoio e não serem combatentes, Sheppard (2000) afirma que é irrealista supor que, em casos de emergência ou necessidade, crianças não serão envolvidas em algum tipo de participação em hostilidades. Além disso, o envolvimento de crianças em atividades que não abarquem diretamente o combate é perigoso porque líderes militares podem se sentir tentados a empregar todos os recursos disponíveis na luta e porque todo o pessoal militar, independentemente da idade, pode ser objeto de ataque de forças inimigas (p. 51-52).

O uso de crianças soldado também é uma tática psicológica e econômica de guerra destinada a atingir o inimigo psicologicamente (BOYDEN, 2003, p. 343). O uso de crianças soldado é uma forma poderosa de aterrorizar a população civil adulta (PARK, 2006, p. 320) porque crianças possuem um simbolismo particular (relacionado à ideia de futuras gerações) para determinado grupo étnico ou religioso ou porque elas simbolizam uma possível mudança política e social no futuro ou simplesmente porque a perda da infância machuca tais comunidades (WATSON, 2004, p. 161). Crianças soldado são, ainda, uma tática psicológica de guerra contra militares adultos que terão que enfrentar combatentes que ainda não viveram o suficiente para morrer ou que lembram seus filhos ou eles próprios quando mais jovens. Além disso, em atividades de espionagem e inteligência, elas não são consideradas suspeitas e podem cumprir tais missões com mais facilidade do que adultos.

Grupos militares percebem as crianças como mais passíveis de doutrinação, mais leais e menos propícias a questionar seus comandantes e apresentarem dificuldades morais para

69 cumprir ordens (BOYDEN, 2003, p. 347), ou seja, essas seriam mais fáceis de liderar e comandar do que os adultos (VAUTRAVERS, 2009, p. 104). Por seu envolvimento e crescimento em um cenário de violência, por seu treinamento e pela ausência de modelos morais, tais crianças podem ser treinadas para terem menos remorsos e serem mais brutais do que os adultos (BOYDEN, 2003, p. 348). Crianças também são recrutas desejáveis porque são mais ágeis, menos socializadas, mais dóceis e mais maleáveis do que os adultos e, portanto, são mais obedientes e mais fáceis de serem coagidas a cometerem atrocidades (HAPPOLD, 2002, p. 1143-1144). Comandantes militares reconhecem, ainda, que seus tamanhos pequenos e a maneira como podem ser fisicamente e psicologicamente controladas sem dificuldades seriam vantagens (WHITMAN, 2004, p. 3).

Crianças, em um contexto de conflito armado, são consideradas baratas porque comem pouco e demandam treinamento mínimo, além de um recurso ilimitado, visto que estão “disponíveis para serem recrutadas” após a ruptura de relações estatais, familiares e sociais (VAUTRAVERS, 2009). O emprego de crianças soldado também permite que os adultos e líderes dos grupos militares possam dedicar suas atenções a tarefas mais complexas de planejamento e estratégia do conflito, delegando menores para tarefas rotineiras e usando-os como para abrir caminho em campos minados ou para se sacrificarem pela causa (PLUNKETT; SOUTHALL, 1998, p. 73).

Uma parte significativa dos jovens se envolve em conflitos armados em decorrência de recrutamentos forçados que ocorrem por meio de sequestro e abduções em casa ou em escolas e de ameaças físicas contra eles próprias e suas famílias e entes queridos (PARK, 2006, p. 319; WHITMAN, 2004, p. 2). Crianças vulneráveis, como refugiadas, crianças de ruas e aquelas que durante conflitos armados ficam rondando escolas e mercados em busca de abrigo, possuem um maior risco de serem recrutadas (PARK, 2006, p. 319; WHITMAN, 2004, p. 2). Achvarina e Reich (2006) concluíram que há uma relação robusta entre acesso a campos de refugiados e de deslocados internos18 e taxas de recrutamento forçado. Isso significa que crianças protegidas em campos, sejam essas órfãs ou não, são menos suscetíveis ao recrutamento. Por outro lado, um grande número de menores reunidos em um local facilmente identificável e desprotegido é um alvo fácil para beligerantes buscando recrutas (p. 163). Meninos e meninas separados e desacompanhados (AGNU, A/60/150), aqueles

18 Deslocados internos são pessoas que realizaram uma migração forçada dentro das fronteiras de seus Estados nacionais ou de residência habitual e que, apesar de ainda estarem nos territórios nacionais, carecem de proteção do Estado em questão. A Colômbia, por causa da situação de conflito armado, é um dos países no mundo com maior número de deslocados internos, que somam cerca de 5 milhões de pessoas, segundo informações do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR).

70 pertencentes a minorias, a populações móveis ou deslocadas, possuem um maior risco de recrutamento e uso por grupos e forças armadas devido à sua reduzida proteção social e mecanismos para tal, à discriminação com base em seus status de deslocamento e em outras relações presumidas dessas populações com beligerantes (VAUTRAVERS, 2009, p. 102).

Por fim, os grupos e forças armados manipulam fatores religiosos, étnicos e ideológicos para conseguirem vincular as crianças. Um dos argumentos utilizados por recrutadores é que o grupo rival ou o Estado seria o responsável por todas as desgraças ocorridas no conflito armado (e sofridas pelo menor e sua família). Assim, esses conseguem motivar os menores a se vincularem às suas fileiras buscando vingança contra o grupo rival. Tal situação é especialmente delicada nos programas de DDR, visto que crianças soldado normalmente são vítimas de lavagens cerebrais que envolvem exposição a mídias violentas e doutrinação para ódio dos seus “inimigos”. Em programas de DDR, apesar de estarem afastados dos combates, crianças de grupos rivais possuem dificuldades de romperem o ciclo de ódio (BEAH, 2007).