2. İL GELİŞME PLAN BÖLGESİNİN MEVCUT DURUM VE ANALİZİ
2.1. S OSYO -E KONOMİK Y API
2.1.6. Gelir Dağılımı, İstihdam ve Fiyatlar
De todas as teses ortodoxas sobre a persistência do elevado patamar da taxa de juros monetária no Brasil talvez nenhuma goze de tanto prestígio e investigação que a hipótese da Incerteza Jurisdicional levantada pelos economistas Pérsio Arida, Edmar Lisboa Bacha e André Lara-Resende. Os economistas inovam ao tratar o fenômeno com a criação de uma nova categoria de risco – que não está tipificada na literatura – e com isso introduzem um amplo debate entre os economistas de diversas vertentes teóricas.
A questão fundamental para eles é entender porque no Brasil não há um mercado de títulos de longo-prazo se há, por outro lado, um mercado de títulos longos para empresas brasileiras e para o governo no exterior. A inexistência de um mercado de títulos de longo- prazo local pode ser uma das causas para a elevada taxa de juros no curto-prazo, uma vez que diminui a eficácia da política monetária, pois torna menos potente o efeito riqueza (smaller wealth effect) ao longo da curva57.
O pouco mercado de títulos longos que existe, argumentam, é cativo do Estado e indexado à inflação pelo IGP-M, uma medida de preços calculado por uma instituição privada e independente em suas palavras (ARIDA et al, 2004, p. 4). Não é trivial esta menção ao fato do índice de inflação escolhido ser “privado”, implicitamente há o argumento que a independência em relação ao estado é positivo até neste aspecto.
Os autores fazem duas distinções fundamentais logo no início do seu trabalho. A primeira é que a não existência de títulos, ou melhor, de um mercado de títulos de longo prazo
56
Tradução minha.
57 A guisa de provocação teórica poderíamos argumentar que a inexistência de títulos longos canalizaria toda
95 doméstico não é função da residência do credor. Tão pouco da moeda utilizada nos contratos, sendo que há mercado de dívidas em Reais fora do país, mas havendo restrições – e sendo o Real não plenamente conversível – estes contratos são de fato sintéticos, uma vez que são na verdade liquidados em dólares. Bacha, Rezende e Arida argumentam que seria particularmente útil tornar o Real plenamente conversível, uma medida que implica implicitamente na plena flutuação do câmbio.
Seguindo o raciocínio, e eliminando estas duas restrições, fica claro para estes economistas que o problema se restringe à jurisdição, ou seja, o problema é o país, o Brasil. A inexistência de um mercado de longo prazo para títulos no Brasil sinaliza um sério risco, uma incerteza muito elevada.
“The refusal to extend long-term credit in domestic jurisdiction signals the presence of an important uncertainty factor. This affects, to use Keynes’s (1963) terminology, “the stability and safety of the money contract” by which savings are made available to the government and others debtors. It is an uncertainty of a diffuse character, which permeates the decision of the Executive, Legislative, and Judiciary, and manifests itself predominantly as an anti-saver and anti-creditor bias. This bias is not against the act of saving, but against the financial deployment of savings, the attempt to an inter-temporal transfer of resources through financial instruments that are, in last analysis, credit instruments.” (ARIDA et al, 2004, p.5)
Temos neste trecho o fundamental do raciocínio da insegurança jurisdicional: o Brasil, por algum motivo, é voltado ao não cumprimento dos contratos, o que cria um viés anti- credor e consequentemente aborta a criação de um mercado de títulos longos. Este argumento se assenta em parte nos estudos de dois cientistas políticos, Lamounier e Souza, que em 2002 conduziram uma pesquisa junto ao Executivo, Legislativo e Judiciário, confrontando estes sobre a opção de cumprir o contrato e a prática de justiça social.
A pesquisa, conduzida com mais 500 entrevistas, chegou à conclusão que para apenas 48% da amostra o mais fundamental é manter o cumprimento dos contratos ao invés de tentar atingir a justiça social. No caso do judiciário a situação seria ainda mais alarmente uma vez que apenas 7% dos membros do judiciário iriam manter um contrato se este se confrontasse com a prática de justiça social.
96 Estes resultados evidenciam, segundo os autores, que os contratos são sistematicamente desrespeitados e com isto se torna proibitivo alongar no tempo o mercado de crédito, uma vez que os contratos podem ser anulados caso se confrontem com a prática de justiça social.
Obviamente não é este o enunciado que os autores colocaram em seu texto, mas é isto sim que querem exprimir. O Brasil não respeita contratos e por isso não tem como criar projetos de longo prazo.
Uma pesquisa que nem esta pode ser objeto de várias críticas, e este não é nosso objetivo no presente trabalho, mas nos chama atenção que a maneira que a pergunta foi formulada, e como foi expressa no trabalho de Arida, Bacha e Rezende, parece enviesar a resposta. Fora este aspecto passa despercebido pelos autores que este mesmo estudo aponta que para 77% do Executivo o mais importante é assegurar o cumprimento dos contratos, o que nos parece um valor extremante elevado.
A crítica dos autores ao viés anti-credor no Brasil segue até a própria Constituição Federal de 1988, também conhecida como constituição cidadã, que piorou a situação e elevou a incerteza jurisdicional ao abrir brechas interpretativas em relação à propriedade privada e sua função social, sendo esta, segundo os autores, uma marca de um estado paternalista que coloca a máquina estatal como alocador dos recursos ao invés do mercado. Esta é a marca da incerteza jurisdicional: um estado que quer se sobrepor ao mercado e ao fazer isto o sufoca.
Para além da função social e seu potencial conflito com a propriedade privada, os autores marcam que a Constituição Federal criou entraves para diminuir o custeio e tornou os impostos menos racionais (ARIDA et al, PP. 17 – 18).
A questão que se impõe neste ponto é: será que o Brasil tem de fato um sistema legal e fragilidades jurídicas tão relevantes que impõe uma taxa de juros tão elevada? Acreditamos que não e o motivo para isto é simples; hoje, apesar de termos atingido grau de investimento por diversas empresas especializadas em risco soberano, ainda se praticam taxas monetárias elevadas. O pesquisador da London School of Economics, Felipe Monteiro de Salles, em seminário à mesma Casa das Garças em 2006, apontou em seu trabalho que países em situação muito menos “segura” praticam juros ainda muito menores. Ao ponderar a aplicação
97 da lei (Rule of the Law) contra a taxa de juros para a média do período de 1992 a 2004 o Brasil se posicionou em situação despropositada e fora do resultado a ser esperado (SALLES, 2006, p. 37).
Após investigar o tema o autor aponta que seu estudo sugere fortemente que a insegurança jurisdicional não pode ser de fato a causa da elevada taxa de juros monetária no Brasil.