3.4. Geçerlik ve Güvenirlik Çalışmaları
3.4.2. Güvenirlik Çalışmaları
A trajetória de vida de Temperança revela riquezas incontestáveis para esta análise. A infância bastante pobre, vivida em um morro localizado na cidade de Porto Alegre, remonta a influência do grupo familiar, formado por uma irmã cinco anos mais velha, dois irmãos adotivos, uma mãe espírita e um pai que se converteu para uma religião evangélica. Temperança é caçula deste grupo, sendo sua mãe uma dona de casa semi-analfabeta e seu pai um motorneiro de bonde descendente de nordestinos.
O material existente no meio cultural passa a fazer parte de Temperança, introjetado de maneira diferenciada segundo sua constituição subjetiva. A religião do pai é a representação das proibições que Temperança arrasta e dá significado e sentido para sua vida, em uma atividade constante de negação da própria figura paterna, caracterizada pelos signos do poder: “não pode se pintar; não pode usar saia curta; não pode ver tv; não pode escutar música”.
A palavra tem um referencial de significado que leva a comunicação entre os membros de uma mesma cultura e, por outro lado, um referencial de sentido que diz respeito ao indivíduo dependendo de suas vivências afetivas. Assim, as leis religiosas ou negações desenvolvem um sentido de autoritarismo para Temperança, provavelmente em aspectos tão profundos que fazem parte de seu cotidiano como professora. Hoje, em sua atuação docente, este conflito entre obedecer/rebelar-se, ficar presa/buscar o mundo, ser dependente/ter autonomia pode se justificar na luta constante com este pai internalizado. Assim, o pai do passado é sempre evocado no presente, seja para defender, seja para proibir ou acusar.
Apesar da pobreza do local, o morro proporcionava um espaço lúdico, onde as brincadeiras e os jogos com a mãe e os irmãos substituíam a presença da TV e do rádio, coisas proibidas pelo pai evangélico e, conforme narrado, extremamente repressor. Isto se revela na seguinte fala: “minha infância foi muito pobre, mas não passamos fome. Sabe, lá de cima do morro se enxergava toda a Porto Alegre. Eu tinha uma pedra, que era a minha pedra da baleia. Cada um tinha a sua árvore. O que eu queria, ia ali na horta e pegava... agora, toda vez que eu quero refletir, eu vou para a minha pedra da baleia”. Fica evidente uma volta ao passado, um apego com símbolos que revelam fortes significados.
Assim, o morro, a pobreza, a falta de recursos, a luta contra o poder do pai que considerava que “mulher foi feita para cuidar de filhos e de casa”, possibilitam a identificação de relações de poder, sexo, etnia e gênero que constroem a identidade de Temperança, somando a todas as outras influências do mesmo ambiente, como a presença da mãe, da irmã, dos irmãos e, posteriormente, dos professores que interpenetraram estas relações. Estes sentidos dados aos muitos significados fazem a transposição do tempo/espaço para os dias atuais, quando a formação flexível da identidade favorece a reflexão de Temperança, enxergando o pai já de outra forma, valorizando, também, suas qualidades.
Os filhos apresentam alguma dificuldade em enxergar o pai através de seus próprios olhos, pois a relação com a figura materna é predominantemente mais presente, principalmente quando o pai trabalha e a mãe cuida da casa. Esta relação faz com que os filhos construam uma imagem paterna através dos sentidos demandados pela figura materna. Entretanto, acredito que esta idéia deve ser analisada, também, trazendo os esquemas de influência cultural, percebidas e internalizadas por Temperança como já mencionado anteriormente.
Como caçula deste grupo, Temperança sentia-se sozinha, um pouco abandonada e usa o termo “fui levando” para explicar este sentimento. Mas há uma grande contradição em sua narrativa, que no final da entrevista consegue refazer. Esta contradição diz respeito a este “estar sozinha”, pois comenta muito sobre as brincadeiras que fazia, sobre Porto Alegre vista de cima, seu reino encantado em que seus irmãos tornavam-se súditos e ela a rainha. Infiro que este abandono ainda está na falta do pai, pois em um determinado momento Temperança revela que “meu pai era muito ausente, passava dias fazendo plantão... eu acabava indo dormir com a minha mãe”.
A professora comenta que com o pai aprendeu regras, moral e muitas vezes, o medo. Conta sobre a primeira surra e o quanto esta relação a faz acreditar na negação do pai ao assumir uma postura mais dialogada e flexível com os próprios filhos e com seus alunos. Esta negação revela que a identidade se constrói na cultura, no interior das relações sociais e institucionais. Desta forma, a identificação através do ato de dizer “eu sou assim” ou “eu não sou assim”, ou, ainda, “meu pai era desta forma e eu sofri muito”, possibilita uma construção identitária de negação ao vivido.
Entretanto, a negação da figura paterna se desfaz quando Temperança relembra a presença do pai como construtor da casa, aquele que plantou uma horta e aquele que criava animais no pátio. Em sua fala aparece o quanto sua maneira de ver a natureza e sua ligação com o meio ambiente está sedimentada no contato com este pai que, com as próprias mãos, “fez um muro geometricamente perfeito, parece até uma fortaleza, com pedras irregulares”. A emoção dela e a minha se entrelaçam; descobrimos, juntos, o quanto é importante perdoarmos os pais e o
quanto é importante descobrir vivências. Elas acabam desfazendo as culpas que foram acumuladas no percurso. Disse Temperança, no final da narrativa: “... agradeço pelo meu pai, mesmo ele tendo todos os defeitos, mas eu amadureci e percebi quantas coisas boas ele trouxe para mim, a questão da honestidade, dos valores, da organização... e hoje, estou descobrindo isto aqui, contigo”.
Talvez aqui apareça a resilência desta família onde o espaço de carência fortaleceu os laços e proporcionou uma adaptação que os tornavam fortes em vivências. Resilência é a capacidade do sujeito que, apesar de viver em situações adversas, consegue fazer uma transposição, um salto qualitativo, impedindo a desestruturação e encontrando um caminho de transformação (TAVARES, 2001). Nem o morro, nem o pai autoritário, nem mesmo as dificuldades sociais enfrentadas, foram capazes de impedir a estruturação e o desenvolvimento sadio de Temperança.
Há um outro elemento de resilência encontrado neste grupo e de extremada importância: a figura materna. A mãe de Temperança era semi-analfabeta, dona de casa e lavadeira. Contudo, desejava ardentemente sair do morro para “dar uma vida melhor para a família”. Então, foi trabalhar de empregada doméstica, alfabetizou-se, fez curso de instrumentalização cirúrgica e acabou trabalhando como auxiliar de enfermagem. Conforme José Tavares (2001), esta resistência às influências do espaço físico e às pessoas que os compõem estão presentes também no grupo. Conforme minha análise, o grupo familiar de Temperança é um grupo resiliente, pois supera as próprias expectativas.
A figura materna também tem uma influência bastante grande sobre Temperança. Devido a esta presença tão importante, decidi lembrá-la sempre, durante toda a análise da narrativa.