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3.5. Verilerin Toplanması

3.5.2. Asıl Uygulama

3.5.2.1. Birinci Deney Grubu (Sorgulama+Üstbiliş) Uygulama Süreci

Temperança durante a narrativa comenta, várias vezes, que nunca desejou ser professora. Sempre detestou ver a irmã fazendo correções de trabalhos e envolvida com os alunos. Seu desejo maior sempre foi a Medicina. Como não iria conseguir pagar o curso, acabou fazendo Biologia enquanto trabalhava como datilógrafa e depois em um banco, onde não permaneceu muito tempo. Temperança não tolera lugares fechados nos quais não existam pessoas. Esta marca

sedimentada na identidade de Temperança converge ao fato de que ela sempre se sentiu muito só, apesar dos irmãos sempre presentes.

Durante muitos momentos de sua narrativa, aparecem cenas de sua recusa pelo magistério. Um dos exemplos mais marcantes foi a cena em que a mãe a inscreveu para o ensino médio. Sem consultá-la, a mãe matriculou Temperança no Curso de Magistério. Quando ficou sabendo, “armei o maior barraco e fiz a minha mãe refazer a matrícula. Acabei fazendo o Curso Técnico”.

O mais interessante disto é que esta recusa não foi narrada durante a entrevista com Temperança. Três horas depois de ter estado em minha casa, Temperança telefonou-me e comentou que esteve na casa materna e que a própria mãe foi quem a relembrou deste episódio. No tempo presente, adorando a profissão em que está inserida, Temperança omite a cena da recusa.

Depois de formada, não conseguiu emprego na área e começou a procurar “qualquer coisa para fazer”. Foi quando um curso de preparação para auxiliares de enfermagem necessitava de uma professora de biologia. Temperança narra: “e quando eu fui dar aula, era a minha primeira turma. Uma salinha pequenininha... era pra eu começar a trabalhar em alguma coisa, mesmo sendo professora. Porque quando eu era pequena eu adorava... eu não sei se eu fiquei assim... eu sei lá... a minha irmã vai ser professora, eu não vou ser, eu vou ser diferente. Eu sempre quis ser diferente, sempre. Mas eu brincava de quadro negro... não me dava conta”.

Este quadro de admiração pela irmã e, ao mesmo tempo de repulsa, está inserido no contexto de identificação, em que o indivíduo encontra signos necessários para sua internalização subjetiva.

Temperança estabelece este conflito durante muito tempo, aparecendo desde seus primeiros contatos com o grupo primário, depois na relação com o grupo secundário e ainda em suas relações como adolescente entre um grupo e outro.

Observa-se que Temperança já trazia a internalização da irmã, como professora, mesmo que no discurso aparecesse como uma negação (eu não quero ser igual), na construção subjetiva havia uma admiração muito grande, inclusive copiando a maneira de organizar os materiais. O desejo e a cópia estão explícitos na brincadeira de ensinar, nestes jogos simbólicos ela era sempre a professora. É através do jogo e do brincar que a criança vai significando seu mundo, simbolizando suas angústias, seus desejos, seus sonhos. O brinquedo é uma forma de separação entre o mundo interno e externo, revitalizando o contato intra-subjetivo do sujeito com a realidade.

Continua Temperança: “Bem, daí eu fui ser professora nessa turma. Eram 13 senhoras que trabalhavam como auxiliares de enfermagem, mas que tinham de fazer o curso técnico. Eu mais aprendi com elas do que passei conhecimento. Vinham pela manhã, cansadas do plantão, eu não podia despejar um monte de conteúdo. Agente se aproximou muito”. Esta fala revela Temperança em uma atuação bastante próxima à realidade dos educandos, desenvolvendo seu planejamento, considerando suas necessidades mas, principalmente, o caráter humano e aulas práticas.

No mesmo momento, aparece uma proposta para ela trabalhar como bióloga, ganhando muito mais do que “dando aula”. Aceitou a proposta, mas no final do mesmo dia desistiu. Disse ela: “meu Deus do céu, aquelas senhoras precisando de mim! Será que eu fiz certo? Eu estava ajudando elas. Quando chegou às 17 horas eu decidi – vou voltar para o colégio”. Mais adiante complementa: “falei com a orientadora da escola e disse – não agüento laboratório, eu preciso mesmo é de gente. O supletivo mesmo me indicou uma outra escola, e no outro dia eu já estava trabalhando com quatro séries do ensino fundamental dando aulas para adolescentes. Meu Deus do Céu, eu me saí super bem!”.

Necessito colocar esta narrativa na íntegra, já que nela estão contidos muitos significados interessantes e que evidenciam a transmutação de Temperança. O sonho de ser diferente passa a ser realizado em uma professora que se descobre diferente por gostar de gente, por trabalhar com materiais concretos, por valorizar as práticas, mas principalmente, pela paixão eclodida em uma pequenina sala de aula. Inicialmente, ainda havia uma defesa (elas precisam de mim), depois isto se volta para a primeira pessoa (eu preciso de gente).

Será que o sonho não estava se realizando? Esta cena é de extrema relevância por narrar a transformação da bióloga em professora.

É impossível não trazer a figura materna para essa tessitura, já que a mãe de Temperança era, também, uma mulher trabalhadora, estudou para se alfabetizar e acabou fazendo um curso de instrumentalizadora cirúrgica. Mais uma vez, aparece aqui a transposição do grupo primário para o grupo secundário. Na sala de aula, quantas “mães” de Temperança estavam sentadas em frente a ela? Quanto a isto, diz Temperança: “o jeito que eu lidava com elas era respeitar, porque eu tinha a experiência de uma mãe trabalhando, uma mãe que eu ajudava em casa e que também era auxiliar de enfermagem”.

Para concluir, Temperança revela: “mesmo amando Biologia, eu vi que eu sou professora desde que nasci. Eu amo o que eu faço. Eu não fui empurrada. Foram decisões minhas, e os meus caminhos foram se cruzando e eu não poderia viver sem a minha sala de aula”.