2.6 Futbol Kulüplerinde İmaj
2.6.5 Futbol Kulüplerinde Sosyal Sorumluluk
Sabemos que os estudos sobre o processo só podem acontecer efetivamente no estabelecimento entre as relações construídas pelo crítico ao longo da leitura dos documentos de processo de uma obra. Como discutido no primeiro capítulo, tomaremos o conceito de rede como recurso metodológico para ler os livros de processo de Luiz Fernando Carvalho que nos apresentam confluências narrativas advindas de movimentos tradutórios estabelecidos em relação ao romance de Suassuna. Essa opção metodológica foi adotada por duas razões. A primeira diz respeito ao fato de um movimento escritural não seguir um pensamento linear, sendo incoerente reconstituir o processo de criação dentro de uma suposta ordem cronológica, já que o que nos interessa é o movimento do processo tomado como rede de conexões. Além disso, na dinamicidade e incerteza do percurso criador, não se consegue determinar um ponto inicial e final para um processo criativo. Por esse motivo, como vimos, a pesquisa de documentos genéticos se estabelece como uma interpretação, como uma rede de relações escolhida pelo pesquisador para analisar um dado processo de criação, o qual seria acionado pelo crítico de processo como uma construção, ou seja, como uma interpretação realizada a partir da escolha de um recorte analítico.
Cecilia Almeida Salles nos lembra que, ao escolher a rede como paradigma, estamos diante de um campo semântico estabelecido a partir da ideia de interação. A esse respeito, Salles reforça que a ideia de complexidade estaria intimamente ligada à escolha de pensar relações em rede e, não, de uma maneira compartimentada.
Ao adotarmos o paradigma da rede estamos pensando o ambiente das interações, dos laços, da interconectividade, dos nexos e das relações que se opõem claramente àquele apoiado em segmentações e disjunções. Estamos assim em plena tentativa de lidar com a complexidade e as consequências de enfrentar esse desafio. 169
Assim, a crítica de processo tem no conceito de rede um operador de leitura dos documentos de processo que, tomados pelo crítico capaz de ler tais registros de uma forma relacional,
poderá criar nós que articulam, sem obedecer a uma ordem linear, pontos de conexões capazes de elucidar picos de um pensamento em criação:
Incorporo desse modo, também o conceito de rede, que parece ser indispensável para abranger características marcantes dos processos de criação, tais como simultaneidade de ações, ausência de hierarquia, não linearidade e intenso estabelecimento de nexos. Este conceito reforça a conectividade e a proliferação de conexões, associadas ao desenvolvimento do pensamento em criação e ao modo como os artistas se relacionam com seu entorno.170
A segunda razão da escolha da rede como modo de ler os livros de processo de Carvalho diz respeito às próprias escolhas tradutórias do diretor em conjunto com sua equipe criativa. Veremos que o fato da microssérie ser construída a partir das lembranças do protagonista da história, Pedro Diniz Quaderna, torna verossímil para o espectador toda a quebra de tempo e espaço, bem como estabelece uma porosa fronteira entre realidade e fantasia. Quaderna, já idoso, transformado em uma mistura de palhaço e mestre de cerimônias, conta sua história por meio de um grande flashback, narrado no seu característico estilo narrativo. Tal estilo particular é uma mistura de devaneios com informações históricas, formulações populares e eruditas, crenças populares com discussões políticas, denominado por Quaderna como “estilo régio”. Logo, a própria configuração narrativa da microssérie, como se evidencia nos livros de processo, é avessa à linearidade não cabendo uma perspectiva analítica pautada na busca linear de um processo criativo.
A memória instaura, na microssérie, um território de recriação e reordenamento da existência em que a objetivação cronológica dos eventos vividos pelo protagonista cede lugar a novos regimes de percepção das suas experiências, que passam, inclusive, pela via da imaginação. Desse modo, podemos verificar que, no percurso criativo do diretor e de sua equipe, são apresentados registros em consonância com essa atmosfera de imprecisão mnemônica. Fica evidente, portanto, que o modo de apreensão da tessitura da microssérie não seria condizente com escolhas metodológicas que não estivessem em sinergia com a perspectiva analítica da rede. Podemos afirmar, então, que os documentos de processo da microssérie necessitam de um olhar que seja capaz de abarcar a enunciação não linear pensada para a obra final, bem
como a capacidade de estabelecer relações ao longo desses registros. Nesse sentido, como já foi dito, não cabe apenas apontar os índices de um pensamento em criação, mas traçar relações entre os registros estabelecidos ao longo do movimento criador no intuito de formar uma rede de conexões. Essa rede deverá ativar relações que, provavelmente, tornaram a construção da obra possível, apresentando direcionamentos que atuam como condutores, mesmo que maleáveis, desse particular processo de criação. Assim, o crítico, ao estabelecer nexos entre os elementos dispersos ao longo dos documentos de processo, busca compreender a criação como um processo relacional, mostrando que ideias aparentemente dispersas estão interligadas.
Veremos nos seis livros de processo que a microssérie foi pensada por Carvalho a partir de um tempo denominado por ele, ao longo de seus registros, como circular. Esse tempo circular foi obsessivamente registrado em ilustrações que remetem a círculos e anotações interlineares a respeito das digressões mnemônicas de Quaderna. Por sua vez, a memória de Quaderna, como veremos, está simbolizada nos livros de processo pela figura do olho. Constatamos que as imagens de círculos e olhos que ora se apresentam de uma maneira mais figurativa nos registros, ora se apresentam de um modo menos referencial, são imagens com uma forte carga sensível. O olho e a mandala171 demonstram sua importância não só pela repetição de inscrições ao longo do processo, mas por indicarem momentos importantes das escolhas, no que se refere à própria dicção narrativa da microssérie. Veremos que foram encontradas várias formas circulares que se diferem por sua “exatidão gráfica”, bem como pela adição e omissão de elementos verbais explicativos.
Buscamos, pois, formar nossa rede a partir dessas imagens que remetem ao tempo circular, por percebermos que essas anotações visuais operam como nós ou picos da rede, retomados pelo diretor em vários desdobramentos do seu pensamento em criação. Ao longo de nossa análise, iremos traçar relações entre tais registros que escolhemos como movimento escritural para nossa leitura.
Interessante ressaltar a importância e recorrência dos desenhos nos livros de processo de Carvalho172 que indicam que o pensamento em criação do diretor é, marcadamente, visual.
171 Encontramos a palavra mandala, em dicionários da língua portuguesa, tanto como substantivo masculino, quanto como feminino. O dicionário de símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, traz a palavra como masculino. No entanto, mesmo valorizando acepção simbólica da palavra no campo de significação da microssérie, optamos por usar a palavra como substantivo feminino para seguir o uso corrente da mesma. 172 Vale lembrar que o diretor estudou Arquitetura e trabalhou como ilustrador em jornais e revistas ainda em sua adolescência, antes de entrar no núcleo de teledramaturgia da Rede Globo de televisão.
Cada processo criativo é composto por tramas semióticas singulares e, no caso de Carvalho, o desenho possui grande potencial criador. Seus desenhos de criação parecem assumir o lugar de uma reflexão visual que passa pela capacidade de reter uma grande quantidade de ideias, funcionando como síntese de um pensamento complexo. Esse é o caso do desenho do olho que sintetiza um fluxo mnemônico e das formas circulares que guardam conexões complexas em torno da ideia de tempo circular. A respeito da importância do desenho nos documentos de processo Salles afirma que:
Como ficou claro nessa discussão sobre os diálogos entre linguagens, os desenhos da criação desempenham um papel de extrema relevância. Não ficam restritos, porém, aos processos das artes visuais e passam, nesses casos, por contínuas traduções. Essas anotações visuais aparecem de modo recorrente, cumprindo diferentes funções e exibindo grande potencial criador. São representações gráficas que desempenham o papel de auxiliares para os artistas. A criação, observada sob o ponto de vista processual, é um pensamento que se constrói ao longo do tempo. Como vimos discutindo, obras surgem como resultado de reflexões de toda ordem. Percebemos que o próprio pensamento se dá sob a forma de diálogo e o desenho é certamente parte integrante dessa conversa. 173
Em nossa leitura, as reflexões visuais de Carvalho serão analisadas nas relações estabelecidas com o conjunto de registros – anotações interlineares, anotações em margens e outros significantes gráficos – ao longo do dossiê genético que são direcionados à escolha do tempo circular, construído via memória de Quaderna, como parte fundamental do jogo narrativo da microssérie. Vale ressaltar ainda que o modo de apreensão de um pensamento em rede só pode se dar também em rede. Por isso mesmo, a análise segue um movimento do “vai -e - volta”, expressão retirada do próprio título da obra de Suassuna, bem como dos documentos de processo analisados, e que traduz os jogos temporais que ocorrem tanto na obra original quanto na tradução. Assim, em alguns momentos da nossa rede analítica, podemos passar a impressão de uma repetição que, para o nosso olhar interpretativo relacional, seria inevitável.