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A tradução intersemiótica, ao contrário da operação tradutora intra e interlingual135 pensada como tradução criativa no âmbito da poesia por Campos, consiste na tradução de um sistema de signos para outro de natureza semiótica distinta.
Conforme pontua Julio Plaza,136 um possível enraizamento genético de uma teoria da tradução intersemiótica poderia se encontrar na Teoria da Poesia Concreta, já que a palavra encontra
133 CAMPOS. Da Transcriação: poética e semiótica da operação tradutora. p. 102-103. 134 CAMPOS. Da Transcriação: poética e semiótica da operação tradutora. p.104. 135
Conforme enfatiza Julio Plaza, deve-se a Roman Jakobson a primeira referência explícita ao campo da Tradução Intersemiótica. Jakobson definiu três categorias possíveis para a operação da tradução: a interlingual, a intralingual e a intersemiótica.
136
Julio Plaza ancora sua reflexão sobre a Teoria da Tradução Intersemiótica na teoria semiótica de Charles Sanders Peirce. Para o escopo dessa pesquisa, não é nosso objetivo aprofundarmos no campo da semiótica peircena, mas sim pensar na tradução no âmbito intersemiótico. Assim, a terminologia da semiótica de Peirce será usada somente quando necessária para algum esclarecimento no âmbito da tradução no nível estético.
nesse tipo de produção poética uma série de relações verbo-visuais, ou seja, de naturezas semióticas diferentes. O autor também menciona outros trânsitos intersemióticos como importantes na fundação de uma teoria da Tradução Intersemiótica, tais como, por exemplo, os que ocorrem em montagens e colagens. No entanto, Plaza deixa claro que se trata apenas de diálogos com a referida teoria, uma vez que, para existir um processo de tradução intersemiótica, deve também existir uma intenção explícita da tradução:
Contudo, todos os fenômenos de interação semiótica entre as diversas linguagens, a colagem, a montagem, a interferência, as apropriações, integrações, fusões e re-fluxos interlinguagens dizem respeito às relações tradutoras intersemióticas mas não se confundem com elas. Trazem, por assim dizer, o gérmen dessas relações, mas não as realizam, via de regra, intencionalmente. Nessa medida, para nós, o fenômeno da TI estaria na linha de continuidade desses processos artísticos, distinguindo-se deles, porém, pela atividade intencional e explícita da tradução.137
Plaza estabelece um profícuo diálogo com as teorias da tradução poética, sobretudo com as reflexões de Haroldo de Campos e Roman Jakobson, pois as considerações advindas de tais teorias servem como ponto de partida para a reflexão que propõe fazer sobre a tradução intersemiótica no âmbito estético. Isso porque as postulações feitas pelos referidos autores a respeito do signo138consistem na analogia inerente ao ícone.
Como ressalta Plaza, ao remeter a uma consideração de Octavio Paz acerca da linguagem poética, o signo é um sistema de escolhas que não pode se repetir e, desse modo, encontra-se “congelado.” Isso indica, num pensamento complementar, que a tradução como deslocamento, sobretudo a tradução entre sistemas semióticos distintos, diz respeito a uma remessa a um outro signo:
Traduzir é colocar esse cristal de seleções em movimento, para voltar a fixá- lo num sistema de escolhas outro e, no entanto análogo. Traduzir, é nessa
137
PLAZA. Tradução Intersemiótica. p. 12.
138 Signo, conforme Plaza, “é algo que, sob certo aspecto, representa alguma coisa para alguém, dirige-se a alguém, isto é, cria na mente dessa pessoa um signo equivalente ou talvez um signo mais desenvolvido. Este signo é o significado ou interpretante do primeiro signo”. Nesse sentido, o signo representa alguma coisa que, em semiótica, dá-se o nome de objeto. Obviamente, o signo não é o objeto, pois todo signo difere-se da coisa significada, tendo qualidades materiais e características que lhe são próprias. O signo presentifica a ausência do objeto, porque a coisa substituída o signo já é signo para o interpretante.
medida repensar a configuração de escolhas do original, transmutando-a numa outra configuração seletiva e sintética.139
Na tradução intersemiótica, acentua-se a necessidade de explorar as informações estéticas de um texto para se chegar a um outro texto de natureza semiótica diferente, capturando uma relação que, ao mesmo tempo que mantém uma identificação, está longe de se estruturar de modo fiel ao texto original. A ideia de fidelidade, já desconstruída no âmbito da tradução interlingual e intralingual, é ainda mais despropositada na tradução entre sistemas semióticos de naturezas distintas. Trata-se de uma questão estrutural, uma vez que o tradutor, num processo de tradução intersemiótica, irá lidar com um sistema de signos estranho ao sistema original, determinando objetos imediatos diferentes, ou seja, uma organização formal distinta do original.
O que pretendo dizer é que o processo sígnico vai transformando e comandando a sintaxe. E, numa tradução intersemiótica, os signos empregados têm tendência a formar novos objetos imediatos, novos sentidos e novas estruturas que, pela sua própria característica diferencial, tendem a se desvincular do original. A eleição de um sistema de signos, portanto, induz a linguagem a tomar caminhos e encaminhamentos inerentes à sua estrutura. [...] Nessa medida a tradução intersemiótica induz, já pela própria constituição sintática dos signos, à descoberta de novas realidades, visto que “na criação de uma nova linguagem não se visa simplesmente uma outra representação de realidades ou conteúdos já pré-existentes em outras linguagens, mas a criação de novas realidades, de novas formas-conteúdo.140
A questão da autonomia do signo estético, já problematizada pelas teorias da tradução poética, também é um ponto importante para a discussão da tradução intersemiótica. Toda tradução deve ao original a sua existência, guardando, portanto, uma relação íntima com este. Desse modo, a tradução intersemiótica não esconde o original, pois, como já mencionado, deve existir uma intenção explícita da tradução, tocando o original num ponto tangencial de seu significado e até mesmo alargando os seus sentidos, como explicita Plaza ao compartilhar o ponto de vista de Haroldo de Campos a esse respeito:
139 Plaza. Tradução Intersemiótica. p. 40.. 140 Plaza. Tradução Intersemiótica. p.30.
É assim que, embora a tradução seja transparente, pois que não oculta o original nem lhe rouba a luz, não obstante todo tradutor tem o desejo secreto de superação do original que se manifesta em termos de complementação com ele, alargando seus sentidos e/ou tocando o original num ponto tangencial do seu significado, “para depois, de acordo com a lei da fidelidade na liberdade, continuar a seguir o seu próprio caminho” que seria o da tradução criativa, isto é, icônica.” 141
Em toda tradução, sobretudo na tradução intersemiótica, torna-se importante atentar para o fato de que, ao criar um signo, cria-se também um Objeto Imediato que não corresponde ao seu Objeto Dinâmico, ou seja, o signo provoca de certo modo um afastamento do seu referente, pois apresenta suas próprias qualidades materiais. Diante de uma fotografia, cinema ou literatura sobre o mesmo objeto, temos uma leitura diferente e, portanto, construímos também significações diferentes sobre o objeto representado: “Traduzir criativamente é, sobretudo, inteligir estruturas que visam à transformação de formas.”142
Ao investigar os documentos de processo como redes de escrituras do percurso criativo e, nesse sentido, também como espaço de sobreposições e confluências narrativas, advindas de movimentos tradutórios, busca-se investigar esse texto instável, transitório, efêmero. Texto este que pode ser compreendido como interstício entre o texto de partida e o texto traduzido. Nesse lugar de passagem, podemos perceber em que aspectos estéticos a tradução se aproxima do texto original e em que medida são colocadas escolhas que são próprias do signo tradutor. Trata-se, na verdade, de um movimento de repetição e transformação que caracteriza, como veremos, o conceito de reciclagem cultural.
Para tomar tais confluências, ora explícitas, ora mais subjacentes nos documentos de processo analisados, buscamos compreender como o gesto tradutório de Carvalho passa por um pensar complexo sobre a configuração de escolhas do original. Compreendemos que a obra Romance d’A pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta guarda em sua gênese os preceitos do chamado Movimento Armorial e, nesse sentido, o diretor buscou evidenciar aspectos significativos dos preceitos armoriais em sua microssérie. Assim, a gênese do romance está presente na gênese da microssérie, em outras palavras, nos livros de processo, temos acesso ao gesto tradutório do diretor que pesquisou o modo de significar do original para recriá-lo na sua tradução.
141 PLAZA. Tradução Intersemiótica. p.30. 142 PLAZA. Tradução Intersemiótica. p.71.