9. PAZARLAMADA FİYAT KARARLARI
9.2. Fiyatlandırma Amaçları
Este capítulo evocará constantemente as filosofias de Nietzsche e de Bergson. Acreditamos que a aproximação fecunda da psicanálise com essas duas linhagens de pensamento deve prosseguir, não obstante tudo o que já rendeu. Com o tratamento que damos à noção de pulsão e tendo em vista um melhor esclarecimento da mesma, esperamos, de nossa parte, contribuir um pouco mais para esse diálogo clínico-filosófico.
Um sonho à velocidade da luz
Zélia se vê num lugar ao ar livre, onde se desenvolvem treinamentos físicos para jovens da polícia federal. Era requerido dos atletas algo próximo ao movimento de reviravolta observado em natação, quando se chega à margem e se impulsiona, com o pé, o reinício do nado. Embora o exercício não fosse na água, o pé se aplicava, do mesmo modo, a um suporte que permitia a renovação do impulso. Zélia, que deveria participar desse treinamento, reage, rindo, com excelente bom humor: onde se viu, na sua idade, submeter-se a tal acrobacia! Isso servia para a gente forte e atlética da polícia, não para ela. Em seguida, procura instalar-se numa prancha de madeira que funcionava à base de corda. Para colocá-la em aceleração máxima, de modo a atingir a velocidade da luz, era necessário dar pelo menos dez voltas na corda. Desvia a atenção da prancha, por alguns instantes, ao perceber a presença de M., mulher admirável, já falecida, e que se envolvera, no período da infância de Zélia, em lutas agrárias. Era uma dessas mulheres capazes de empunhar carabina e de liderar movimentos de resistência. M. lhe entrega uma espécie de dossiê, muito bem escrito, de todo o estado de corrupção política do país, mapeado com todas as suas nuances e inter- relações. Pensa imediatamente que A., da polícia federal, e S., sua assessora, amiga recente de Zélia, deveriam ser os primeiros a ler aquele primoroso e claríssimo texto. Volta à prancha, desta vez com A., e a corda exigida é dada. Disparam e somem na velocidade da luz.
Nunca um sonho de Zélia pareceu tão claro. Como pode o sonho ser notoriamente mais preciso, mais lúcido, que a vigília? Era exigido, ou ela se exigia, pouco importa nesse estágio da interpretação, um esforço, uma capacidade atlética, uma habilidade para fazer piruetas que, embora fossem oniricamente admissíveis para jovens treinados, eram inimagináveis para as condições físicas de uma mulher como ela, já de certa idade. Tratava-se de uma metáfora magistral do esforço psíquico a que se entregava há mais de dois anos, com o intuito de colaborar nas investigações de corrupção
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deflagradas pela polícia federal. Mais de um especialista sugeriu-lhe que havia uma proporção de delírio nesse envolvimento intenso, segundo estimativas que variavam de vinte cinco a três por cento, conforme as flutuações da racionalidade clínica. O esforço despendido, desproporcional à sua condição de cidadã comum, combinava-se com a idéia, explicitada no sonho, de uma extrema aceleração. Logo atingiria a velocidade da luz, se desmaterializaria e sumiria. O texto perfeitamente escrito confirmava, feito prova suplementar, essa leitura do dado onírico, pois Zélia já detinha de maneira clara e exaustiva todo o mapa das irregularidades no país, antecipando-se às pesquisas que o eminente investigador da polícia ainda precisaria efetuar. Em ulterior apreciação do sonho, Zélia informa que o dossiê continha também uma descrição minuciosa da estratégia de ação, ampla e complexa, que seria empregada para o saneamento total do estado de coisas. Ela percorre assim, em velocidade máxima, seu miraculoso mapa. É por isso que, pela terceira vez
que decide caminhar – de maneira a realizar, por motivo de saúde, um
exercício físico ultra-recomendado –, torce o pé e cai. A velocidade
vertiginosa, à beira da desmaterialização, mantém seus pés longe do chão. O sonho, como já dissemos, problematiza os termos de uma experiência, indicando vias de mudança, linhas de fuga, dimensões existenciais e linhas de abolição, para usar termos de Mil platôs. Será que se trata, para Zélia, de desacelerar, de reencontrar, por assim dizer, o ponto em que a linha vertical de puras virtualidades se cruza com a horizontal de
atualizações existenciais, o ponto crucial, portanto, da encarnação – en corps,
encore...? Seja como for, a pulsão é, nela própria, correção, ajuste, medida para o imensurável, graduação para o intensivo, sendo ela mesma imensurável, ela mesma intensiva. É saber dela própria, e por isso, como insistimos ao longo deste trabalho, é saber de não-senso. Ou seja, não um saber meramente intelectual, ou meramente racional, e sim um saber vivo, afetivo, intensivo, imperioso do ponto de vista da pulsão, por mais que possa ser desconhecido, recusado. O sonho coloca um problema quanto à escolha em jogo: neste ritmo, nesta velocidade, empreendendo tamanho esforço psíquico, Zélia irá sumir do mapa. Diz, portanto, que ela deve calibrar o ritmo, não chegar à corda máxima, às dez voltas. Exprime assim um saber pulsional, isto é, um saber da condição de escolha. O texto onírico se resolve como um ensaio fronteiriço, e algo decisivo, de interlocução inconsciente ou de trans- monadismo, conforme a expressão de Guattari; conta, por assim dizer, com a intervenção analìtica e sua ética originária: “é isso, finalmente, o que você
quer – desaparecer?”
Zélia parece freqüentar um mapa ideal, decidido de uma vez por todas e inteiramente definido, ainda que sua efetuação esteja em curso. Ela espera
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impaciente; desmaterializa-se, pois todo o mapa já foi percorrido à velocidade
da luz. Mapa-ideal-em-velocidade-máxima – o que será isto? Ela se lança,
decidida, em uma linha de abolição, o que não se confunde com o que Deleuze e Guattari chamam de desterritorialização. Qual é a diferença? Desterritorializar não é desencarnar. Embora se faça relativa em numerosos casos, a desterritorialização tende a ser absoluta, enquanto uma linha de abolição não é outra coisa que a interrupção dessa tendência. Neste caso, a vida em suas condições superiores, absolutas, não será mais alcançada, não por meio daquela linha. Uma bússola secreta, inconsciente, indica, contudo, a
direção segundo a qual a tendência ao absoluto – ou a tendência absoluta –
não será interrompida, ainda que se demore, se gradue, dê voltas, serpenteie: ela esposa sempre uma linha de retidão. Que bússola é esta? Talvez venha de Bergson a resposta mais profunda: é a duração, é o tempo, o devir. É que ali onde se perdeu de vista a duração, a morte espreita. Deixemos isto mais claro. No sonho de Zélia exerce-se um poder de avaliação, um poder do vivo, cujo domínio é o da duração. O saber pulsional não reside em um princípio de realidade, mas em um princípio do vivo, no qual se funda o ato livre, por mais raro que seja. Procuremos esclarecer um pouco mais. O domínio da duração é o domínio das tendências vitais, e o que aí se encontra em jogo, fundamentalmente, são as tendências a um aumento de vida e à sua diminuição. O limite da diminuição coincide com a interrupção mortal de que falávamos. O aumento, em contrapartida, é ilimitado. Ora, o saber se refere a um poder de escolha, e de tal modo isso é de consistência ética que esse poder – só existindo em ato, como tudo o que diz respeito à pulsão – já é uma escolha em curso. Dela só pode resultar um aumento do mesmo poder = aumento de vida. Acreditamos que uma linha de vida superior, de modo geral obscura, se deixe entrever aqui e ali nas formações do inconsciente, e muito especialmente nos processos sublimatórios diretos. É ela que garante, na medida do seu exercício, uma estranha univocidade do ser, que não é mais ontológica que prática e ética: “... para cada dia, e cada hora, só uma ação possìvel da gente é que consegue ser a certa”. Mas, por isso mesmo, não se deve esquecer que a escolha em curso, fazendo justiça a um poder pulsional de escolha, não é necessariamente escolhida, não é naturalmente exercida. Muito pelo contrário. Ela só existe mediante um esforço, uma determinação ética, e só se resolve, efetivamente, como prática constante.
O dizer obscuro que leva o nome de Zélia não deixa de insinuar no texto onírico a seguinte proposição filosófica: por mais complicada que seja a trama da corrupção no país, subsiste um poder de escolha e uma indeterminação tais que atravessam de longe essa trama, à velocidade da luz. Virtualmente, a dita trama tem seus dias contados. Uma linha de fuga, cruzando mundos muito
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mais complexos, levará de roldão, e à luz do dia, o conjunto das
irregularidades políticas e das estratégias de limpeza geral 147. O processo
onírico parece esposar, assim, uma insuspeitada imanência, subscrevendo a observação de Freud de que um sonho nunca é suficientemente analisado. Não
se trata de otimismo, mas de realismo pulsional – o que, repetimos, não
garante a vida real a ninguém, pois ele precisa ser exercido. Espécie de “cavaleiro da fé”, Zélia erra, no entanto, o alvo, pois tudo lhe parece decidido de antemão, quando tudo só se decide em ato, a cada vez.
Já vimos que o umbigo do sonho se esclarece, de modo geral, como
poder de escolha. Será que se encontra no cruzamento do virtual e do atual –
ponto móvel em que o vivo alcança a sua potência máxima? Potência de agir, liberdade de movimento. Não se deve, entretanto, confundir o virtual com o ideal. Deleuze insiste: o virtual é real. Mas o que os distingue? A experiência tende a confundi-los, por razões a serem exploradas em cada caso. Se o mapa virtual se redefine por inteiro a cada vez, em consonância com as atualizações existenciais, o ideal está decidido de uma vez por todas. O ato livre decorre diretamente do todo virtual, mas está eliminado do mapa ideal, ao qual correspondem, em contrapartida, os atos de abolição, ou o que denominamos de pulsão de morte. Eu ideal e ideal de eu efetuam assim, em suas projeções mais avançadas, uma linhagem sombria, mortuária. Zélia, a bem dizer, não precisa de um corpo, mas a pulsão não a livra do corpo. Pelo contrário, ao avesso e de modo contundente, exprime a encarnação-Zélia e uma potência de escolha. Ou seja, subverte, no limite do limite, o plano ideal. É outra maneira de dizer que o virtual não pode ser pensado sem aquilo que o atualiza (e em que ele se atualiza) diretamente, a saber, o afeto. Como dissemos, as potências da vida estão no cruzamento. Por que no cruzamento? Não existe vida, por mais desconhecida, sem o ato que a atualiza em certo aspecto. Desse lugar móvel saem, como numa espécie de jorro constante, as formações do inconsciente. Elas testemunham com maior ou menor intensidade o que Deleuze, ao analisar a pintura de Bacon, descreveu como próprio das
sublimações originárias – esse modo pelo qual a vida grita para a morte e a
expõe à luz, tornando-a visível e até mesmo aliada. A vida julga a morte, e não o inverso, “no qual nos comprazìamos”. Parecia, até então, que estávamos vivendo, mas estávamos morrendo. Postulamos o seguinte: as formações do inconsciente são como pequenos ensaios de sublimação, um murmúrio
147 Há uma espécie de mensagem filosófica de Bergson, em A evolução criadora, que poderia corresponder à
proposição do sonho de Zélia: “O animal tem a planta como ponto de apoio, o homem cavalga na animalidade, e a humanidade inteira, no espaço e no tempo, é um imenso exército que galopa ao lado de cada um de nós, à frente e atrás de nós, numa arremetida capaz de vencer todas as resistências e de atravessar todos os obstáculos, talvez até a morte” (Bergson, H., A evolução criadora, p. 267, Coleção dos Prêmios Nobel de Literatura, Editora Delta, RJ, 1964).
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incessante. É toda uma inquietação do real, toda uma justiça, indissociável do exercício móvel e mutante da micro-língua.
Assim, uma das imagens do sonho em questão é o plano ideal em que Zélia se instala (o dossiê completo e, equivocamente, a prancha na velocidade
da luz – na medida em que remete tanto ao ideal como ao virtual); mas o plano
onírico inteiro compreende o plano virtual-real em que os problemas se
colocam e mais a sua atualização afetiva, existencial – o conjunto, portanto,
do que chamamos de poder de avaliação e de escolha em ato (ou decisão em
curso). É evidente que o afeto “atualizador” só pode ser pensado em vista do
plano virtual que ele atualiza em certo aspecto, ainda que um afeto possa
atualizá-lo por inteiro em determinados casos 148. Mas o que se deve pensar
desse plano virtual-real, em que consiste? Já o abordamos em outro momento,
referindo-nos à vida em suas condições superiores 149. Existem filões de vida
inconsciente ainda não realizada, graus de poder e de avaliação ainda não experimentados. O virtual remete assim a uma vitalidade inconsciente, real, porém não realizada, e que não pode ser destruída ou abolida. Graus e graus de vida desconhecida. É em relação a essa vitalidade que situamos os afetos originários, afetos que a atualizam diretamente, e que parecem ser dotados de
148 Atualização por inteiro do virtual – acreditamos que consista nisto a conjugação feita por Deleuze do
plano de imanência com uma vida. Ora, essa atualização por inteiro do virtual é, sem dúvida, uma vida (= um modo de ser afetado...), o que Lawrence chamava de vida maior. É uma espécie de acontecimento eterno. O plano de imanência, o virtual por inteiro (atualizando-se) e a univocidade do ser designam, provavelmente, a mesma coisa. O que nos interessa acrescentar é que essa coisa só existe, só se atualiza, mediante uma prática. Não existe sem que seja feita. Daí a importância da atualização, da existência, do afeto, do agenciamento, da sublimação. Talvez o que chamamos de pulsão seja o cruzamento... Cabe ainda a seguinte observação: o virtual por inteiro é o aberto, não o completo, e por isso só se esclarece pelo poder de escolha e pelo ato livre. A mesma necessidade lógica (e ética) faz Lacan dizer que o analista pertence ao conceito de inconsciente. Não haveria inconsciente sem analista, isto é, sem ato de intervenção inconsciente, isto é, sem pulsão.
149 A assimilação do virtual às condições superiores da vida já aparece em Bergson, especialmente em A
evolução criadora, “onde a própria vida é comparada a uma memória, correspondendo os gêneros e as espécies a graus coexistentes dessa memória virtual”. Bergsonismo, op. cit., p. 61. Diz Bergson na obra mencionada: “Se, no seu contato com a matéria, a vida pode ser comparada a um impulso, considerada em si mesma é uma imensidão de virtualidade, uma apinhar-se de mil e uma tendências, que todavia só serão „mil e uma‟ depois de exteriorizadas em relação umas às outras, isto é, uma vez espacializadas. (...) Efetivamente, a matéria divide o que só virtualmente era múltiplo, e, nesse sentido, a individuação é em parte obra da matéria, em parte efeito do que a vida contém em si”. A evolução criadora, op. cit., p. 256. Essa parte relativa ao que a vida contém em si, e que se insinua e se preserva, em intensidades variáveis, na individuação, permite falar em uma atualização do todo virtual ou do virtual por inteiro, pois é isto que sempre acontece. O todo virtual, segundo Bergson, se dissocia segundo linhas de diferenciação – é o seu modo de se atualizar -, mas em cada linha de atualização dá testemunho ainda de sua totalidade subsistente. “A diferenciação é sempre a atualização de uma virtualidade que persiste através de suas linhas divergentes atuais”. Bergsonismo, op. cit., p. 76. Embora o homem mesmo seja uma linha de diferenciação da vida, a margem de presença ou de subsistência do virtual nessa linha de atualização específica parece, contudo, não ter limites. A atualização ilimitada se efetua como sublimação (enquanto destino originário da pulsão). “Dir-se-ia que no homem, e somente no homem, o atual torna-se adequado ao virtual. Dir-se-ia que o homem é capaz de reencontrar todos os níveis, todos os graus de distensão e de contração que coexistem no Todo virtual... E as durações que lhe são inferiores ou superiores são ainda interiores a ele. Portanto, o homem cria uma diferenciação que vale para o Todo e só ele traça uma direção aberta, capaz de exprimir um todo aberto” (p. 87).
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sua virtude – como ela, são indestrutíveis, imperecíveis. Não é sem razão que
a prancha é de madeira, à base de corda, como um brinquedo de infância, e que Zélia se depare com M., heroína dos seus primeiros anos. A força do sonho ou do delírio é o afeto extemporâneo, imperecível. Há, além disto, um gozo evidente, de conteúdo erótico, na parceria com A., ambos instalados, finalmente, na prancha infantil, à velocidade da luz. O notável é que esse gozo é saber, saber do sonho, saber vital. A, o investigador, é o conhecimento de
Zélia, e tal é, sem dúvida, o desejo do sonho.
A ciência dos processos oníricos deveria ser, como pretendia Freud, a psicanálise. Mas ela só é ciência dos sonhos quando parte do pressuposto de que o sonho é, ele próprio, ciência, ciência do outro, ciência em movimento, ciência em processo, e isto em vários sentidos. Por exemplo, existe a
participação do investigador no sonho de Zélia – aquele que deve tomar
conhecimento do mapa (virtual/ideal); alude, possivelmente, ao analista e à sustentação de um saber ignorado. Mas há também M., referência ideal, que detém o mapa e oferece-o a Zélia: dir-se-ia que o inconsciente é concebido assim, sob uma forma idealizada, como A Mulher, sem que o A esteja barrado, o que significa o seu fechamento. É em sua abertura, porém, é em seu devir que o inconsciente se mostra no sonho, sendo o processo onírico mesmo a abertura, o anúncio e já o devir. O sonho é o ato, é o novo, mas na medida em que integra um terceiro momento, além do sonho propriamente dito e de sua recordação em vigília, que é o de seu relato e de sua decifração em análise, conforme o caráter “trans-monádico” ou extra-pessoal apontado anteriormente. Todos os “outros” – A., M., o analista – remetem à pulsão, que os atualiza como dados de um problema, não sem se atualizar ela mesma sob o aspecto móvel e imprevisto da formação onírica e sua decifração. Esta, contudo, se distingue cada vez menos do saber de não-senso em ato.
Agir, avaliar, dizer, existir
O fenômeno clìnico e cotidiano da “negativa” 150, versão intelectual do
recalque, demonstra em ato a separação, verificável em muitos campos da atividade humana, entre as funções intelectuais e os processos afetivos, supostamente unidos na origem. Em que realidade primitiva, embrionária, não-realizada ou superior estariam unidos? É um dos nódulos da descoberta freudiana: a pulsão é ao mesmo tempo idéia e afeto, força e sentido, natureza e cultura. Para se entender essa conjugação originária, é preciso ter em conta
150 A negativa (ou denegação) é um meio de inclusão na argumentação consciente de uma idéia até então
recalcada, com a condição de que essa idéia seja negada – “eu não quis dizer isto” –, permanecendo excluído o afeto correspondente.
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que a expulsão ou separação regida pelo princípio do prazer, conforme se lê no texto sobre a “negativa”, procede do eu e de sua constituição ideal, e não da pulsão que, nesta operação, se reduz ao não-eu, ao estranho, ao exterior e
ao mal – tornando-se, paradoxalmente, objeto de rechaço e recalque. O eu
ideal se constitui ao separar-se do que não poderia de modo algum incorporar, e assim deixa de fora as diferenças irredutíveis que fariam dele um eu estilhaçado. Estado ideal, idealizado, subsiste em confronto com a multiplicidade real e seu devir, isto é, com o nomadismo pulsional. Mas o que chamamos de pulsão em psicanálise não é, por sua vez, um estado de natureza, em eventual confronto com as instâncias egóicas e culturais, e sim a reconstituição ativa e constante, mediante ensaios e atos sublimatórios, daquela multiplicidade real. Neste caso não há mais distinção entre vida e pensamento. E o que é o desejo (essência da realidade, segundo Lacan) senão
isso – vida e pensamento?
A separação re-atualizada pela negativa parece garantir, todavia, a função da consciência e mesmo do pensar, conforme uma das proposições do texto freudiano. Mesmo assim, de nossa parte, deixamos de conceber um estado primitivo de indistinção inconsciente para insistir, em contrapartida, em uma realidade superior onde a separação não mais se verifica, embora permaneça não-realizada. Como resolver esse impasse no plano especulativo, sem fazer a consciência submergir de novo na inconsciência, uma vez que, para uma leitura já canônica do dito texto, a negativa, apesar de contornar o afeto, salva a consciência e libera o pensar? Ao ingressarmos, porém, no terreno da análise, a questão deixa de ser apenas especulativa e passa a ser