3.2. Şekil Bilgisi
3.2.6. Fiilden İsim Yapım Ekleri
Nas entrevistas que realizei com os agricultores sem a presença dos extensionistas, várias foram as vezes que ouvi relatos de que recomendações sugeridas pelos técnicos não eram seguidas. Sugestões sobre mudanças nos hábitos alimentares, por exemplo, como as que desaconselhavam o consumo de produtos industrializados – chocolates, refrigerantes, condimentos, entre outros – eram reconhecidas como relativamente pertinentes pelos agricultores que, no entanto, me confidenciaram continuar consumindo os produtos. O principal limite desse tipo de recomendação parecia não requerer esforços de comprovação mais elaborados. O simples fato de tomar consciência de uma situação de risco não é suficiente para o indivíduo eliminar uma prática. Um fumante, por exemplo, dificilmente desconhece os malefícios causados pelo uso do cigarro. Porém, essa tomada de consciência é, em muitos casos, insuficiente para que o indivíduo abandone o hábito de fumar. No caso das recomendações sobre alimentação, os extensionistas sustentavam suas sugestões em um recorte da realidade que se referia aos efeitos negativos que alguns produtos industrializados poderiam causar à saúde dos indivíduos. Não eram considerados, porém, os motivos que levavam ao consumo62, a frequência do uso, a possibilidade de acesso a produtos substitutos que fossem – por assim dizer – mais saudáveis e diversos outros aspectos que não são objetivo deste trabalho discutir em profundidade.
Os agricultores familiares citaram também como inadequadas recomendações relacionadas às atividades produtivas por eles desenvolvidas. O uso de insumos – como ração, fertilizantes, inseticidas, sementes – que representavam um custo com o qual os agricultores familiares não podiam arcar era um exemplo de sugestão não acatada. Os custos envolvidos na aquisição desses insumos causavam no agricultor J.A. a impressão de que os extensionistas indicavam essas medidas como se estivessem orientando agricultores com maior poder aquisitivo – ou um “fazendeirão grande” – nos termos do entrevistado.
62
Uma agricultora que entrevistei me disse que a forma que ela encontrou para que os seus filhos pequenos “ficassem quietos” foi dar um pacote de “salgadinho” para cada um deles. Assim ela tinha “sossego” para lidar com as tarefas domésticas e da propriedade rural em que habitava com os filhos e o marido que trabalhava fora.
“às vezes a gente vai pedir a eles [os extensionistas] uma dica... eles dão pra gente uma dica igual a de um fazendeirão grande, né? e sempre a gente não tem essa condição [financeira] de fazer daquele tipo que eles pedem... aí a gente mesmo faz da dica da gente... a gente faz do modo que a gente pode fazer e sempre dá certo... sempre dá sim... a gente faz do jeito que a gente vê que dá condição da terra fazer... sem dica deles, né? porque eles têm negócio de... tem que colocar adubo... tem que colocar... passar um veneno assim... assim... passar um remédio para planta de outro modo... como não tem condição de comprar adubo... comprar esses remédios caros para passar nas plantas... a gente mesmo faz o trem aí é na tora [como dá]... sem... sem dica... sem nada, né? a dica é da gente mesmo, né? e sempre Deus abençoa que dá tudo certinho... dependendo da chuva... é Deus mandar a chuva... aí produz...” (J.A.)
A racionalidade técnica dos extensionistas acabava por se impor quando eles idealizavam situações em que os agricultores pudessem atingir, em suas atividades produtivas, níveis de melhoria muitas vezes incompatíveis com sua capacidade de investimento e – o mais importante – incompatíveis mesmo com os objetivos que pretendiam atingir.
Para dar um exemplo desse descompasso recordo o episódio em que o extensionista 4 – um veterinário especialista em bovinocultura – classificou como “quase extrativismo” a forma como os agricultores familiares criavam gado na região. Como referência para o seu julgamento, o extensionista considerou as modernas tecnologias disponíveis, como o uso de sementes transgênicas que garantiriam maior produtividade das plantações de milho, um grão muito utilizado para alimentação dos bovinos.
Assim como quando as sementes híbridas foram difundidas por meio da Revolução Verde (CHAMBERS, 1997; CHAMBERS; PACEY; THRUPP, 1989; McMICHAEL, 2008; WIT, 1990) – tópico discutido no capítulo 2 – a utilização de sementes transgênicas também exige a aquisição de um pacote tecnológico de alto custo formado por fertilizantes e defensivos químicos, além de não poder prescindir de assistência técnica frequente e da instalação de sistemas de irrigação. Para a absoluta maioria dos agricultores familiares do Norte de Minas é impossível arcar com os custos envolvidos na adoção dessa tecnologia.
Para estar em linha não só com as demandas, mas também com as possibilidades financeiras dos agricultores familiares, um conceito a ser considerado para uma atuação conjunta entre extensão rural e centros de pesquisa é o de “tecnologias intermediárias” (SCHUMACHER, 1999). Tecnologias de ponta – além de terem um custo normalmente elevado – nem sempre correspondem à solução técnica de que o usuário precisa em termos de sofisticação na
operação, de produtividade oferecida ou do nível de qualidade alcançado. O desenvolvimento de tecnologias intermediárias poderia gerar soluções mais simples e adequadas às demandas da agricultura de pequena escala, como implementos agrícolas63 para áreas de dimensões restritas – como hortas, por exemplo. Essas tecnologias além de contribuírem para melhorias na produção devem possibilitar um trabalho mais seguro – ou livre de riscos de acidente – e menos penoso no campo. Outro aspecto importante é a facilidade de operação e de manutenção para dar ao agricultor maior autonomia em relação ao uso e à conservação dos utensílios e equipamentos. Porém, para que essa possibilidade de adequação tecnológica às especificidades da agricultura familiar seja possível, é necessário envolver os agricultores o mais precocemente possível nos processos de inovação e de desenvolvimento de produtos (FRIEDERICHSEN et al., 2013). Envolvimento esse que pode ser viabilizado pela atuação dos extensionistas como intermediários privilegiados na relação entre agricultores e pesquisadores, designers, engenheiros, entre outros profissionais64.
De volta à percepção dos agricultores sobre o trabalho da extensão rural, vários entrevistados reconheceram também as contribuições da extensão rural para melhorias nas atividades produtivas e nas condições de vida de suas famílias. Considerando que os benefícios do acesso às políticas públicas já tenham sido suficientemente explorados nos capítulos anteriores deste texto, gostaria de me concentrar em outras duas contribuições dos extensionistas: as recomendações que eram implementadas pelos agricultores e os serviços especializados prestados pelos próprios extensionistas. O agricultor J.A., por exemplo, reconheceu o extensionista 4 como prestador de um valioso suporte quando chamado a examinar vacas suspeitas de prenhez. Tratava-se de um procedimento técnico por meio do qual o extensionista colocava à disposição dos agricultores familiares a experiência acumulada ao longo de mais de trinta anos de prática na veterinária. No caso desse procedimento, extensionista e agricultor não cogitavam a possibilidade de aprendizagem da técnica. A avaliação positiva do agricultor relacionava-se, portanto, ao papel de prestador de
63
Implementos agrícolas são equipamentos mecânicos acoplados a tratores ou animais e são utilizados em diferentes tarefas na agricultura – como no preparo da terra, no plantio e na colheita.
64
A proposta de desenvolvimento de tecnologias intermediárias, embora mereça registro, não tem gerado os frutos esperados. A discussão que emerge é o direcionamento da tecnologia de ponta para as necessidades dos mais pobres. No caso da engenharia genética, por exemplo, Hugh Lacey – filósofo da ciência e professor no Swarthmore College, na Pensilvânia, Estados Unidos – propõe concepções alternativas de desenvolvimento que conferem papel fundamental aos movimentos populares.
um serviço especializado para solução de um problema e não pela capacitação para que ele mesmo – o agricultor – realizasse o procedimento.
Dentre as recomendações dos extensionistas colocadas em prática pelos agricultores estavam aquelas relacionadas à avicultura, como a vacinação de pintinhos citada por diversos agricultores como uma novidade que havia reduzido o adoecimento dos animais. Ainda em relação à avicultura, instruções sobre limpeza do galinheiro e utilização das fezes das aves como fertilizante também foram citadas como úteis pelos agricultores. Técnicas de produção orgânica foram mencionadas por agricultores que reconheciam vantagens como a redução dos custos com defensivos e fertilizantes químicos, a consequente melhoria da qualidade da alimentação das famílias e a possibilidade de ampliar os canais de comercialização dos produtos. O uso de técnicas de produção orgânica era incentivado pelos extensionistas junto aos agricultores que participavam dos programas governamentais de aquisição de alimentos originados da agricultura familiar para merenda escolar e para a composição de cestas básicas.
Nota-se que as recomendações dos extensionistas consideradas úteis e colocadas em prática pelos agricultores estavam relacionadas principalmente a novidades em relação aos procedimentos até então adotados por eles. A vacinação dos pintinhos não era realizada antes porque os agricultores relataram desconhecer a existência de tais vacinas até serem divulgadas nos Dias de Campo do Projeto Quilombolas. A produção orgânica também era novidade, se não pelas técnicas envolvidas – que em muitos casos coincidiam com modos tradicionais de fertilização e de combate a pragas –, mas pelo processo formal de certificação da produção e pelos trâmites para cadastramento como fornecedor junto aos programas governamentais. Portanto, também nos casos em que as recomendações dos extensionistas foram adotadas pelos agricultores sobressaiu o caráter difusionista da extensão rural. A mesma abordagem de transferência de tecnologia que dificulta as relações entre extensionistas e agricultores quando as soluções precisam ser construídas e não simplesmente reproduzidas pode gerar efeitos positivos em determinadas circunstâncias. Ora, novidades realmente precisam – pelo menos em um primeiro momento – ser objeto de divulgação. Nos casos da imunização das aves e do processo de certificação da produção orgânica havia, de fato, instruções a serem divulgadas. Logo, era a mensagem que estava a priori apropriada ao meio e não o meio que se adequou à mensagem. A mesma coincidência entre meio e mensagem não ocorria em casos em que os agricultores já executavam – ao seu modo – procedimentos que os extensionistas sugeriam substituir. Nessas situações, os agricultores não se convenciam pela retórica ou pela
propaganda (FREIRE, 1971) e as recomendações, como vimos, normalmente não eram incorporadas à prática do agricultor.
A análise dos dados de campo indica, portanto, que os agricultores aprendem com os extensionistas principalmente em situações em que eles divulgam tecnologias ou procedimentos oportunos para os agricultores. A perspectiva de transmissão de conhecimentos mostra-se adequada quando o objetivo é reproduzir instruções explícitas e formalizadas que podem prescindir de elementos do contexto em que serão utilizadas. A vacinação de aves, por exemplo, é um procedimento que conta com insumos, utensílios, cronograma e técnicas estáveis que podem ser objeto de instrução e serão reproduzidas sem diferenças significativas em diversos contextos. O problema da extensão rural não está no recurso à transmissão de conhecimentos explícitos, de caráter mais instrucional. O ponto problemático é utilizar a instrução em situações nas quais o que está em jogo é a transformação de uma prática e não a mera divulgação de procedimentos. Nesses casos há um divórcio entre instrução e aprendizagem, o que torna inócuos os esforços educacionais65.