BÖLÜM III: YÖNTEM
3.2. Evren ve Örneklem/ Çalışma Grubu
3.2.2. Evren ve Örneklem
Da leitura do artigo de Martins (2008) retém-se uma perspetiva interessante sobre os aspetos éticos da investigação científica em enfermagem, a qual se convida a refle- tir. Designadamente, o autor refere que “a ética não é um conjunto de regras feitas (…). É antes um conjunto de valores e princípios que permitem optar “pelo melhor para o investigado” (p.23). Tendo como objeto de estudo o Homem e as suas res- postas às situações de saúde ou doença, a investigação em enfermagem deve sus- citar o interesse pelas respetivas questões éticas, de um modo que deve ser espon- tâneo e natural. “Como a investigação no domínio da saúde envolve seres humanos, as considerações éticas entram em jogo desde o início da investigação” (Fortin, 2009, p.180).
Na realização de um estudo de abordagem qualitativa, torna-se necessário conside- rar determinados princípios éticos, particularmente no que respeita a confidenciali- dade e a vida privada dos indivíduos que são alvo de investigação. Independente- mente dos aspetos estudados, a investigação em enfermagem deve ser concebida no respeito pelos direitos da pessoa (Fortin, 2009), sendo respeitados os princípios éticos estabelecidos a nível nacional e internacional (Martins, 2008). Na conceção do presente estudo foram assim tidos em conta alguns desses princípios, de forma a minorar potenciais problemas éticos, designadamente os princípios de não malefi- cência, autonomia, beneficência e justiça (Carpenter & Streubert, 2002).
No que respeita o princípio da autonomia, “os investigadores devem obter consenti- mento informado (…) do informante” (Carpenter & Streubert, 2002, p.38). O consen- timento significa que os participantes detêm informações adequadas em relação à pesquisa e a autonomia de, com essa informação, decidir sobre a sua participação. Daí que no presente estudo se tenha estabelecido como um dos critérios de exclu- são o facto de os clientes, dos quais foram recolhidos os dados da apreciação inicial e das notas de enfermagem, não apresentarem o impresso “Auditoria clínica e/ou
113
projectos de auditoria da qualidade” (ver Anexo 2) autorizado e assinado pelos seus representantes legais. Este impresso é habitualmente preenchido no momento da admissão do cliente sendo, através do mesmo, que os representantes legais autori- zam ou desautorizam os possíveis estudos realizados sobre a documentação produ- zida pelos vários profissionais de saúde sobre o cliente. Também aqui importa evi- denciar o princípio do respeito pelos grupos vulneráveis, nos quais se incluem os menores (menos de dezoito anos75), sendo o consentimento fornecido aos pais ou tutores.
Outro princípio que se colocou consistiu no direito à privacidade, tanto dos clientes cujos dados da documentação de enfermagem mobilizada no processo de diagnós- tico foram recolhidos, como dos enfermeiros da UIPIA, do CHLC, que participaram no GF. Havendo uma profunda relação com os enfermeiros assim como os dados identificativos dos clientes (por meio da vinheta de identificação e da própria docu- mentação de saúde), a plenitude do anonimato tornou-se impossível, sendo neces- sário estabelecer outros meios de sigilo. Designadamente, a informação de identifi- cação foi codificada, restringindo-se assim o acesso à mesma por outros indivíduos que não a investigadora (Beck, Hungler & Polit, 2004).
Não obstante, importa referir que durante o estágio hospitalar e comunitário foram considerados os princípios gerais do código deontológico do enfermeiro, no qual se encontram expressos os “princípios gerais, à luz dos quais se identificam os valores, se enunciam os princípios orientadores e se desdobram os deveres” (OE, 2005, p.59). “No exercício das suas funções, os enfermeiros deverão adoptar uma conduta responsável e ética e actuar no respeito pelos direitos e interesses legalmente pro- tegidos dos cidadãos” (OE, 2012, p.17).
75
Se o menor tiver maturidade suficiente para compreender a informação envolvida no consentimento, o investi- gador pode obter também o seu consentimento informal, evidenciando o respeito pelo seu direito à autodeter- minação.
114
6. CONCLUSÕES
Na introdução deste relatório, surge que, com a realização do estágio integrado no CMESMP, pretendeu-se adquirir as competências do EESM a um nível de «inicia- do», de acordo com o modelo de aquisição de competências desenvolvido por Ben- ner (2001). Sobre esse nível de competência, Benner define que, mesmo um enfer- meiro experiente numa determinada área de enfermagem, quando muda de contexto de cuidados, inicia-se nessa nova área. No papel de EESM estagiária, entendo que me iniciei, da mesma maneira, no perfil de competências específicas do EESM. É certo que a minha experiência anterior, na área de saúde mental e psiquiatria da infância e adolescência, constitui um pilar fundamental de todo esse processo, vincu- lando-se, com a frequência do CMESMP e realização do estágio, a uma compreen- são mais consistente e aprofundada sobre o cliente e sobre o próprio papel do enfermeiro na área de saúde mental e psiquiatria.
Neste “caminho”, a oportunidade de integrar o projeto de implementação da CIPE®, versão βeta 2, no SIE informático, do CHLC76, tornou-se um fator coadjuvante, que apesar de exigente (pela simultânea elaboração do presente relatório), surgiu no momento certo, com os profissionais certos. Salienta-se que a documentação de enfermagem, na área de saúde mental, não se encontra ao mesmo nível de equida- de do que os restantes contextos de cuidados (Sequeira, 2006), sendo essa uma realidade percebida desde as várias tentativas de implementação da CIPE®, no HDE, em que a identificação dos diagnósticos e intervenções de enfermagem no âmbito da UIPIA, era considerada, pelos diferentes grupos de trabalho, como quase utópica. Quando se afirma que o referido projeto, envolveu os profissionais certos, fala-se do facto de estes também acreditarem no verdadeiro potencial da CIPE® e na sua transversalidade às diferentes áreas de cuidados. E o que é certo é que, o que parecia impossível tornou-se possível, ainda com as lacunas que esse projeto cer- tamente apresenta. Além do mais, entende-se que a CIPE® encontra-se em perma- nente evolução, tal como a compreensão que é feita acerca da própria profissão de enfermagem. Cada vez mais se pensa na enfermagem numa lógica conceptual (Sil-
76
115
va, 1995, 2006), e isso, naturalmente, alarga a compreensão da natureza da CIPE® e do seu uso nos SIE.
O projeto de estágio desenvolvido vincula-se ao programa dos PQCE, principalmen- te no que respeita o seu enunciado descritivo “3.6. A organização dos cuidados de enfermagem”, onde se preconiza, entre outros aspetos, a “existência de um quadro de referências para o exercício profissional de enfermagem” e “a existência de um sistema de registos de enfermagem que incorpore (…) as necessidades de cuidados de enfermagem do cliente, as intervenções de enfermagem e os resultados” (CE, 2001, p.18). Com vista à sua aplicação nos SIE, analisou-se a informação clínica que os enfermeiros da UIPIA, do CHLC, documentam durante o processo de diag- nóstico do cliente (designadamente, os dados da apreciação inicial e os dados das notas de enfermagem), cumprindo-se os objetivos, geral e específicos, estabelecidos para o estudo.
No que respeita a análise dos dados da apreciação clínica do cliente, verificou-se que, durante a entrevista inicial, os enfermeiros da UIPIA, do CHLC, tendem a reco- lher diferentes tipos de dados, entre os quais constam os “Dados Gerais”, “Dados Objetivos” e “Dados Subjetivos”. Contudo, do discurso oral e escrito dos enfermeiros, é notória a existência de discrepâncias entre aquilo que consideram ser importante recolher (ideal) e os dados que, realmente, recolhem (real). Numa tentativa de com- preensão dessa dicotomia, surgiu uma importante conclusão deste estudo, no que respeita a entrevista inicial revestir-se como um momento basilar, de início da RT com a criança/adolescente e sua família/figura tutelar. A necessidade do enfermeiro estar disponível para iniciar uma RT parece, assim, incorrer sobre a recolha de dados do cliente e sua família. Esta perspetiva parece adquirir maior significado no que respeita os dados objetivos, dos quais se verificou que a sua documentação não foi sistemática. Provavelmente, os dados subjetivos, que são fornecidos pelo cliente e sua família, fluem de forma mais autêntica, no decurso da entrevista inicial, do que os dados objetivos, que necessitam de ser descobertos pelo enfermeiro. Neste sen- tido, “assume particular importância um conjunto de factores referidos pelos [clien- tes] e pelas enfermeiras como facilitadores da aproximação, bem como a componen- te do “Processo de avaliação diagnóstica” (p.306), misturando-se “elementos de
116
natureza estritamente clínica (…) com outros de sensibilidade humana (…), resul- tando numa acção profissional com um perfil próprio e identificativo” (Lopes, 2006, p.306). É interessante compreender-se que estes resultados complementam-se, e interligam-se, com os resultados obtidos da análise de conteúdo do GF, onde emer- giu, como quadro conceptual orientador da prática de cuidados, a teoria de Hilde- gard Peplau, na qual o processo interpessoal é central.
Face à identificação dos diagnósticos de enfermagem, documentados em linguagem natural nas notas de enfermagem e à sua, consecutiva, categorização de acordo com a CIPE®, versão βeta 2, obteve-se, por meio da análise documental, uma lista representativa dos mesmos. Mais importante do que a percentagem obtida a respei- to da documentação de cada diagnóstico de enfermagem, consistiu a sua própria identificação, que deverá constar no SIE informático do CHLC. Essa estrutura, deve- rá contemplar um espaço onde os enfermeiros possam dar visibilidade à atividade de diagnóstico, de modo a conseguirem fundamentar o seu processo de pensamen- to crítico e a sua tomada de decisão. Atendendo-se a este critério, torna-se possível o enfermeiro documentar dados do cliente e sua família que não sendo um diagnós- tico de enfermagem efetivo, constituem áreas de atenção sobre as quais ele desen- volve um conjunto de intervenções no sentido de avaliar a sua evolução. No caso da UIPIA, do CHLC, a atividade de diagnóstico possibilita não só o rastreio de possíveis alterações psicopatológicas significativas da criança/adolescente, como também permite avaliar áreas em que a criança/adolescente apresenta, ou não, autonomia e que, portanto, poderão necessitar da intervenção do enfermeiro.
A teoria de Peplau, que surgiu como o quadro orientador da prática de cuidados dos enfermeiros da UIPIA, do CHLC, permite, no aqui e agora, descrever essa prática de um modo mais consciente e efetivo. Mediante o GF, abraçaram-se as diferentes compreensões dos enfermeiros sobre a prática de cuidados de enfermagem na UIPIA, do CHLC, no sentido de se identificar aspetos comuns e se “caminhar” em direção de um conceito bem definido (Fawcett, 1995). Não faria, de todo, sentido, deixar de envolver a equipa de enfermagem nesse propósito, de “mudança centrada na reflexão sobre as práticas” (Silva, 2006, p.34). Segundo o mesmo autor, citando Hoy (1997), “não pode analisar-se os SIE sem considerar as pessoas, as estruturas
117
organizacionais e os processos de recolha, processamento e utilização da informa- ção” (p.34). Optou-se pela vinculação dos enfermeiros, aos fenómenos em estudo, com o recurso à sua participação, direta (no GF) e indireta (por meio da respectiva documentação de enfermagem), de modo a obter-se a sua motivação, em vez de se instituir um modelo perante o qual eles não se revissem ou identificassem. Todavia, salienta-se que “não há uma prática de enfermagem: há práticas de enfermagem” (p.306), pelo que cada contexto de cuidados deverá encontrar a sua. “Os modelos só serão úteis se funcionarem no contexto das práticas e se forem consonantes com os modelos de cuidados em uso” (Silva, 2006, p.306).
Quanto ao valor do estágio em si, “só uma preparação longa, uma formação diversi- ficada, uma maturidade progressiva e escalonadamente conseguida e solidamente estruturada, bem como uma ponderação forjada em rica e quente experiência de vida permitirão qualificar, ao nível que se deve exigir, o profissional de psiquiatria da juventude” (Coimbra de Matos, 2012, p.49), e da criança, acrescente-se. Um “cami- nho” que, nesse sentido, deverá ancorar o desenvolvimento das competências pro- fissionais, sem descurar o crescimento da própria “pessoa da pessoa”, pois ambos estes fatores se inter-relacionam e são determinantes para a RT que se estabelece com o cliente e sua família. Daí a importância atribuída por Santos (2007) ao “ser” do terapeuta: “o terapeuta, [que] vale mais pelo que é, do que pelo que sabe” (p.244). No decurso do processo interpessoal, que ocorre durante a prática de enfermagem, os enfermeiros devem ser capazes de reconhecer os seus próprios comportamen- tos, no sentido de ajudar os clientes a identificar as suas dificuldades (Peplau, 1988), o que implica o desenvolvimento constante do conhecimento de si enquanto pessoa e profissional – a primeira competência do EESM (CIE, 2010). Também, atualmente, sinto-me mais consciente das minhas caraterísticas, potencialidades e resistências, que influenciam a minha forma de ser, e estar, como instrumento terapêutico.
Considera-se essencial que outras unidades específicas de cuidados possam identi- ficar, através do uso da metodologia de investigação, os modelos conceptuais orien- tadores da sua prática. Além disso, torna-se emergente o desenvolvimento da CIPE®, nos SIE em uso, pelas várias instituições de saúde existentes em Portugal, para que os próprios objetivos dessa linguagem classificada façam sentido a nível
118
nacional, e se possam, assim, obter indicadores de enfermagem mais consistentes. “Tais indicadores são concebidos como marcadores específicos do estado da saúde das populações, capazes de traduzir o contributo singular do exercício profissional dos enfermeiros para os ganhos em saúde da população” (OE, 2007b, p.2). Será, igualmente, interessante, perceber, no futuro, as repercussões da aplicação deste projeto de estágio na prática, principalmente no que respeita a qualidade dos cuida- dos prestados ao cliente, o envolvimento da equipa de enfermagem no novo padrão de documentação, a possibilidade de se cruzarem dados com vista à gestão, forma- ção e investigação. Por fim: “α”77.
77
Primeira letra do alfabeto grego, com significado cristão, de início; aplicado neste contexto, no sentido em que se pretende que o projeto de estágio não seja um fim em si mesmo, mas antes o início de um percurso de melhoria, pela reflexão sobre as práticas de cuidados, por meio do SIE informático.
119