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Entegre Raporlama İle İlgili Teze Katkı Sağlayan Ulusal ve Uluslararası Çalışmalar (Literatür Görüşleri)

ENTEGRE RAPORLAMA

2.6. Entegre Raporlama İle İlgili Teze Katkı Sağlayan Ulusal ve Uluslararası Çalışmalar (Literatür Görüşleri)

Quase um ano após a crítica de Rolmes Barbosa, o nome de Cora Coralina emerge novamente no mesmo Suplemento Literário do jornal O Estado de São Paulo, inclusive, ao lado da coluna de Rolmes. Dessa vez, entretanto, a crítica tecida por Alcântara Silveira em relação ao livro Poemas dos Becos é, embora breve, negativa.

O crítico, guiado pelo contexto social conservador não apenas da literatura, mas também da ideologia política vigente, nessa edição do jornal, intitula sua coluna como Um instante,

leitor!, que é um empréstimo do nome do programa Um instante, maestro!, apresentado por Flavio Cavalcanti, como explica o próprio autor da coluna. O empréstimo do título se deve ao conteúdo do programa que, dentre os poucos que o crítico diz assistir na televisão, o agrada. O

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programa é apresentado pelo radialista Flávio Cavalcanti e, nas palavras do próprio radialista, citado por Alcântara Silveira, esse programa tem a missão de “policiar e higienizar” letras de músicas, “realçando as aceitáveis e combatendo as nocivas, as imorais e as ‘burras’”.

Na vez de Cora Coralina, Alcântara Silveira introduz o tópico: “Mas não é só na ficção que encontramos livros ilegíveis” e, em seguida, a referência ao livro da escritora goiana: “Também em matéria de versos a safra seria enorme [...], como provam estes ‘Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais’, de D. Cora Coralina. (Livraria José Olympio)”. O trecho citado pelo crítico é do poema que ele nem sequer cita o nome, Antiguidades:

Até os nomes, que não se percam: / D. Aninha com Seu Quinquim. / D. Milécia, sempre às voltas / com receitas de bolo, assuntos / de licores e pudins. / D. Benedita com sua filha Lili. / D. Benedita - alta, magrinha. / Lili - baixota, gordinha. / Puxava de uma perna e fazia crochê. / E, diziam dela línguas viperinas: / "- Lili é a bengala de D. Benedita".

Após a citação, a crítica à obra de Cora Coralina se encerra com um singelo “Mas deixemos de lado o livro de D. Cora Coralina”, comentário que sintetiza o contexto cognitivo do crítico que, nos mesmos moldes, passa a satirizar outra escritora, D. Cinzica Monti Rolli e sua obra,

Incêndio das rosas. Dessa forma, por meio do Controle, tais representações são instauradas e tendem a serem assimiladas pelos leitores do jornal como leituras que devem ser evitadas por serem de má qualidade.

A estratégia discursiva de Alcântara Silveira é a mesma utilizada por outros críticos, ao usar trechos das obras como amostras e, a partir deles, tecem a avaliação. Positiva ou negativa, uma vez construída a avaliação a partir desses fragmentos, compromete-se o valor da totalidade da obra, uma vez que a representação já se instaurou na mente do leitor, que passa a ter essa informação como referência que guia a experiência pessoal sobre as obras citadas. O sentido atribuído pelo leitor à resenha do crítico resulta da soma das percepções que o leitor tem em relação: a) ao jornal O Estado de São Paulo; b) ao crítico Alcântara Silveira; c) ao apresentador Flávio Cavalcanti; d) à ideologia militar do regime político. Cabe ressaltar ainda que essa última recebeu apoio das classes mais abastadas da sociedade e dos núcleos centrais do saber e da grande cultura, que compartilhavam, se não de toda, de boa parte da ideologia a serviço da mentalidade progressista nos moldes em que se configurou naquela.

A maneira como construímos nossas representações pessoais, ou seja, nossa versão sobre o mundo, sobre fatos e pessoas é construída com base nas representações socialmente

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compartilhadas. São essas representações que orientam as condutas e os comportamentos das pessoas nas relações sociais, permitindo a cada indivíduo interiorizar suas experiências, práticas e modelos de conduta. Para Moscovici (2003), são esses modelos de experiência que ativam nossa consciência, nos fazendo perceber e interpretar as coisas do mundo. Para esse autor, a materialidade das representações e do seu processo aos olhos dos sujeitos, seu deslocamento, sua naturalização e projeção (a que outros teóricos poderiam chamar, negativamente, de alienação), consiste num mecanismo psicossocial de apresentação/ construção social da realidade. Em geral as pessoas não se dão conta dos valores que defendem: a maneira como representam as coisas são tributárias de pontos de vista sobre o mundo.

Evidentemente isso não quer dizer que não sejamos capazes de agir criativamente, realizando conexões conscientes ou até mesmo reestruturando conhecimentos e convenções aos quais estamos expostos no cotidiano de nossas relações. Apenas indica, isso sim, que somos tributários de duas formas de ilusão. A ilusão referencial, que nos faz acreditar que há uma relação direta e natural entre o conhecimento que temos sobre as coisas e a coisa propriamente dita. E a ilusão que diz respeito ao fato de que, embora os sentidos que atribuímos às coisa se realizem apenas em nós, eles são determinados pela maneira como nos inserimos histórica e socialmente no mundo e, exatamente, por isso é que eles significam para nós e para os outros.

6.3.3.1 Crença literária de Alcântara Silveira

A crença de Alcântara Silveira sobre o que é e o que não é literatura pode ser verificada pelo uso de ironia e expressões agressivas por meio do satírico “Flavio Cavalcanti das letras”, idealizado pelo crítico para que possa tecer seus juízos de valor sobre o que ele não considera Literatura. Ao incorporar o programa Um instante, Maestro!, o crítico assume sua postura conservadora em relação à literatura, revelando uma visão elitista ao desprestigiar publicações que fogem à sua concepção da prática literária. A primeira avaliação é sobre o mercado editorial:

[...] “o Flavio Cavalcanti das letras não teria tempo de examinar toda essa baboseira pseudocientífica que hoje se edita aos borbotões, pois só a leitura da ficção e da poesia obrigá-lo-ia a um terrível esforço de separação do joio e do trigo”.

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Em seguida, o crítico discorre sobre a publicação de romances, começando pela obra O Viúvo, de Oswaldo França Junior. Em relação à obra, Alcântara Silveira a avalia a partir das expressões “fiquei surpreso (mas não empolgado)”, “romance corriqueiro e chão”, “em que não há nada, absolutamente nada, que se salve sob o ângulo artístico”, “mas é inútil estar citando trechos isolados, quando todo o volume precisaria ser editado”.

O próximo livro, Linha do Vento, de Rodrigues Marques, o crítico anuncia como “Outro livro que não merecia ser editado”. O autor ainda ironiza o escritor Permínio Asfora, que elogiou a obra de Rodrigues Marques: “Não fiquei boquiaberto com a opinião de Permínio Asfora, pois, depois que ‘A faca e o Rio’, de Odylio Costa Filho, foi elogiado por gregos e troianos, nada mais me assunta...”.

Em relação à poesia, além da obra de Cora Coralina, o crítico ridiculariza outra autora, Cinzica Monti Rolli. Com relação aos elogios à obra, que constam no próprio livro, Alcântara Silveira escreve: “Leiamos alguns versos para mostrar com que facilidade se elogia entre nós”. Após citar trechos de um poema do livro ganhador de dois prêmios, Alcântara Silveira termina a crítica sobre a obra com um irônico “Parabéns!”.

Embora o crítico não especifique o que é boa literatura para ele, por meio das críticas tecidas na coluna fica evidente o que ele considera como má literatura. O tom usado pelo crítico, adotando o estilo agressivo do radialista Flávio Cavalcanti, não apenas qualifica negativamente as obras citadas por ele, como as desqualifica de qualquer atributo literário. É interessante a expressão “policiar e higienizar”: cabia a ditadura “policiar”, entre outras coisas, as produções e atividades culturais, sempre atentos a materiais tidos como subversivos ou contra a moral, a família e os costumes. Após a detecção, vem a “higienização”, que é a remoção do conteúdo “sujo” do convívio social, proporcionando, dessa forma, uma higiene, que seria “mental”. Em outras palavras, “policiar e higienizar” é detectar e remover da sociedade qualquer conteúdo contrário à ordem estabelecida pelo regime militar. De acordo com Oliveira (2001), Flavio Cavalcanti tinha uma ligação muito forte com a ditadura, a ponto de representar em seu programa Um instante, maestro! toda a ideologia daquele grupo de poder. Era comum ao apresentador, por exemplo, quebrar discos de Caetano Veloso ou denegrir homossexuais em nome dos valores morais conservadores - tudo ao vivo e muitas vezes na presença de alguns ilustres convidados ligados ao poder político da época.

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Alcântara Silveira não apenas empresta o nome do programa como também sugere que o modelo da atração televisiva seja utilizada em outras atividades humanas, inclusive na Literatura e, no caso dessa, “se tentasse obstar senão a publicação de livros que não merecem ser editados, pelo menos a sua leitura”. E a partir de tal proposta, o crítico passa a construir juízos de valor sobre vários livros contemporâneos por meio de um “Flávio Cavalcanti das letras”. Nessa perspectiva, evocar Flávio Cavalcanti é incorporar a ideologia da ditadura militar. Dessa forma, Alcântara Silveira - atuando como Controle nessa estrutura discursiva institucionalizada - coloca o jornal O Estado de São Paulo inserido na ideologia dominante.