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4. KONU İLE İLGİLİ ÇALIŞMALAR

1.4. HADİSLERDE TEVESSÜL

1.4.3. Peygamberlerin Zatı ve Duası İle Tevessül

1.4.3.3. Enes b Mâlik Rivayeti

Na roda de capoeira vários elementos se cruzam, intensificando a experiência ritual. O centro da roda é o espaço no qual o jogo corporal é afetado por estes elementos, dando vazão à experiência performativa. A fala a seguir ajuda a compor esta ideia:

a roda [...] é um momento especial onde todos os elementos se juntam [...] A partir do momento que você joga dentro deste contexto, com todos estes elementos: com os instrumentos, com o canto, com o coro... todos estes elementos se interagem e isto gera também uma reação em quem tá jogando, né... (Entrevista com Mestre Gladson e professor Vinícius realizada em

19/11/2008).

Professor Vinícius descreve a roda de capoeira como um “momento especial” onde

todos os elementos interagem. Estes elementos são de várias ordens. Dentre os elementos mobilizados no jogo corporal podemos citar as capacidades físicas e as habilidades – como testemunhas de um poder disciplinado e regular forjado no espaço do treino – mas, também a disposição ao improviso, a persuasão e a dissimulação, além da malícia e da malandragem – testemunhas de uma potência furtiva que age sob as habilidades treinadas, deformando-as.

Além destes domínios, os afetos e desafetos que o jogador nutre para com aquele que será seu oponente em meio à roda ajuda a compor a experiência performativa, dando-lhe densidade e drama. Contramestre Buda assim pontua sobre esta influência no jogo:

dependendo da pessoa com quem a gente vai jogar a gente muda, né... Depende da pessoa. Você tem que, às vezes, dar uma mudada no seu comportamento dentro da roda, né... Geralmente as pessoas entram como um “axé” positivo na roda, aí fica mais fácil de se jogar. Mas quando alguém entra com um “axé” negativo dentro da roda e você tem um “axé” positivo,

aquilo se choca de uma forma que você tem que lidar com aquilo. Aí você muda a expressão... (Entrevista realizada em 31/10/2008).

Como já observado, a roda é um centro de envolvimentos, em que o capoeirista envolve e é envolvido pelas relações que trama. A disposição à receptividade mantém aberto este ciclo de envolvimentos. Para tanto, é preciso se abrir ao diálogo corporal com o outro. Tal abertura não é um domínio dado de antemão, mas está sempre a se conquistar nos desafios porvir em meio à roda. Por isto, a receptividade não é algo que se tem, mas, antes, é algo que surge quando o capoeirista se coloca à espreita dos acontecimentos porvir das relações em ato. É justamente este domínio não palpável que expõe a atuação às demandas do imprevisível, definindo o caráter mágico e misterioso que cerca o jogo corporal na roda.

O ambiente musical e rítmico que envolve a vigência da receptividade na roda de capoeira dramatiza o jogo corporal, pois o cerca dentro de uma experiência ritual. Como desdobramento a percepção sensível é aguçada, frente ao curso das dramatizações que se engendram no centro da roda.

Ao direcionar a atenção para o curso das dramatizações, o jogo corporal irrompe como movimento de resolução que tenta dar conta das demandas em curso. Assim, os ataques, as defesas, as esquivas e as negaças surgem como resoluções eventuais e episódicas que tecem certo drama: o jogo corporal em ato. Enquanto a percepção, em meio ao jogo, se ocupar com o movimento eventual das resoluções, a roda se mantém num espaço virtual de deslocamento, em que se localizam os “dinamismos espaciotemporais”.20 Do que se trata? A fala de mestre Plínio ajuda a situar a localização destes dinamismos em meio ao jogo. Assim pontua:

muitas vezes o cara tá no movimento, um golpe vêm de um jeito e ele dá uma quebrada de corpo que depois ele nem sabe o que ele fez... A galera que tá de fora fala: “uau! O que foi aquilo que você fez?” e o cara responde: “pow, eu nem sei como é que eu saí! (Entrevista realizada em 26/03/2009, grifo

nosso).

O termo “depois”, em grifo no fragmento acima, registra um desnível perceptivo entre

o momento em que o ato se deu – como resolução física frente a um golpe imprevisto – e o momento posterior, onde a percepção estranha: “eu nem sei como é que eu saí!”. Tal estranhamento dá testemunho da presença de uma autoria furtiva emersa lá no momento

20 Para retomar o conceito de “dinamismo espaciotemporal”, a partir da leitura de Deleuze (2006a), ver: segundo

mesmo em que o feito, digno de exclamação, se deu como ato – algo que Deleuze diria tratar- se da atuação do “sujeito larvar” (2006, pp. 303; 308; 351).

Quando perguntado sobre os movimentos que a roda de capoeira provoca, mestre Zequinha assim pontuou:

quando você bota ordem e coloca o canto, a bateria cantando, aquilo muda de um jeito que aquela mesma coisa que a gente faz ali... aquilo muda que eu não consigo explicar... Eu mesmo quando tô jogando, de repente a gente faz uma manobra ali que eu me arrepio inteiro, perguntando pra mim: “o que é isto? De onde saiu isto?”... (Entrevista realizada em 20/03/2009).

É possível observar, a partir destes excertos que, lá na roda, quando em ato, o corpo é atravessado por movimentos que irrompem sem a mediação de um Eu contemplativo – consciente de tudo aquilo que faz – pois frente à investida imprevista do outro, a “quebrada de

corpo” torna incautas as pretensões desta consciência, que tudo que dobrar sobre seus

domínios e, nesta quebra faz irromper uma energia viva, sem a qual não se engendra a resolução eventual, ou seja, o “pulo do gato”.

Frente à eminência do “pulo do gato”, resta à percepção consciente a questão: “O que

foi isto? De onde saiu isto?”. A pergunta infundada revela, ao menos, um excesso que escapa

ao escrutínio do Eu contemplativo que reclama a autoria dos eventos.

A fala de mestre Marcial ajuda a compor esta ideia que torna elíptica a relação entre a percepção imersa no ato e a percepção que contempla e descreve o feito vivido. Assim pontua:

“não consigo descrever tudo que envolve a hora do jogo”. E complementa: “é um mistério a roda...” (Entrevista realizada em 01/11/2008). Tal observação reforça a ideia de que há uma

outra cena de sentidos no momento da roda de capoeira.21

A roda é um momento mágico, né... É onde você põe em prática o seu aprendizado [...], onde você troca experiências com o outro, porque é sempre com o outro. [...] É um diálogo ali entre dois corpos [...]. É uma força espiritual que vêm... e isto só acontece na roda e não acontece em toda roda. Então o que é a roda? Depende da roda, [...] porque depende das pessoas que estão tocando, depende das pessoas que estão cantando, depende das pessoas que estão ali, da intenção que elas estão ali, entendeu? Porque é uma coisa que não sei como, mas contagia. [...] tem que ter um equilíbrio, uma harmonia no ritmo, né, para que você possa desenvolver os

21 Na ocasião da dissertação de mestrado, traçamos uma discussão sobre a percepção em meio à experiência da

dança, que ajuda a compor esta outra cena de sentidos aqui suscitada. Observamos que quando em dança, o corpo se encontra num estado de insólita percepção. É como se a unidade do Eu se evadisse revelando, na vazão deste egresso fugaz, a atuação de um corpo Outro por ele próprio desconhecido, daí seu caráter inconcebível no escrutínio da percepção consciente (ALVES, 2006, p. 40).

movimentos... porque tendo este equilíbrio, esta energia que parte do ritmo, do ritual [...] a roda acontece... (Entrevista realizada em 01/11/2008).

Em outro momento da entrevista, mestre Marcial pontua sobre a experiência ritual da roda: “é um ambiente fora do comum.” (Entrevista realizada em 01/11/2008). Tal formulação ajuda a pensar a energia como uma presença mágica – e, por que não dizer: sobrenatural – que atravessa a roda, dando-lhe ânimo. Todavia, o mestre reitera: “isto não acontece em toda

roda”, o que impossibilita o controle sobre aquilo que por lá se passa.

Para que a roda se eleve à experiência ritual ela precisa emanar um efeito de contágio, do contrário não há energia viva. A leitura de Deleuze ajuda a compor esta idéia. Para tanto, aproximamos a experiência ritual àquilo que ele denomina “forma vazia do tempo” (2006, p.

166). Segundo o autor, a “forma vazia do tempo” dá testemunho de uma síntese temporal totalmente distinta, na qual se instalam atos vivos – os chamados “dinamismos

espaciotemporais” –, destinados a sobreviver ao estado provisório e parcial no qual são

mobilizados: no espaço “entre”, onde são deslocados na virtualidade dos acontecimentos (2006, pp. 158; 164; 303).

Ao que parece, a “forma vazia do tempo” de que fala Deleuze (2006) se aproxima

daquilo que Eliade (1992) diz tratar-se do tempo mítico, onde transcorre um passado imemorial transcendente, no qual coexistem o antes e o depois: o conhecido e aquilo que há de vir no exercício de se implicar na experiência ritual.

Assim, em meio à virtualidade do ato, a roda lança os capoeiristas num plano de intensidades – “dinamismos espaciotemporais” – onde a experiência ritual se instala e, sobre a qual se engendram os movimentos de resolução que dão curso ao jogo corporal com o outro.