4. KONU İLE İLGİLİ ÇALIŞMALAR
1.4. HADİSLERDE TEVESSÜL
1.4.3. Peygamberlerin Zatı ve Duası İle Tevessül
1.4.3.7. Ömer b Hattâb Rivayeti
A busca pela capoeira como prática implicada na existência do capoeirista reclama pela conversão do olhar, na direção daquilo que se passa pelo corpo: o movimento. Trata-se, portanto, de uma prática de cuidado. Como já observado no primeiro capítulo desta pesquisa, o cuidado não é feito sem relação. O capoeirista movido por um cuidado que brota dentro de si se lança em um campo relacional, onde tece, dentro de um plano coletivo, o lapidar de si mesmo. Em meio às práticas que compõem este campo relacional se inscreve os cuidados do mestre de capoeira.
As falas dos mestres nos colocam às voltas com este cuidado. Quando perguntado sobre o papel do mestre de capoeira, contramestre Buda assim pontuou:
é aquele que se preocupa né... Eu tenho meus alunos como se fosse cria minha, filho meu, né... Tenho muita preocupação com eles né... tanto que até brigo com eles quando faltam do treino e não me dão satisfação... (Entrevista
realizada em 31/10/2008).
O excerto acima lembra a leitura de Foucault, como vimos, sobre a condução do mestre em Platão, na antiguidade clássica:
o mestre é aquele que cuida do cuidado que o sujeito tem de si mesmo e que, no amor que tem pelo discípulo, encontra a possibilidade de cuidar do cuidado que o discípulo tem de si próprio. (2006a, p. 73-74).
Ao se ocupar com o aprendiz, o mestre não só transmite um saber, mas compõe com o aprendiz o campo no qual este saber se traduz em prática. Desta forma, a intervenção dissolve
a assimetria entre as partes e rompe os limites da relação pedagógica, em função de uma aproximação franca, que comporta algo de amoroso e intensivo.
Na fala de professor Minhoca encontramos algumas pistas que mostram como mestre e aprendiz forjam esta aproximação franca na capoeira:
eu não sou um cara que mitifica meu mestre... Eu não coloco ele como um Deus, pelo contrário... eu gosto dele porque eu sei todo o caminho dos erros dele. Tudo que ele tem de ruim, que, pelo menos pra mim é visto como ruim, eu conheço e eu acho que isto é que é interessante, porque o que é bom e fácil é tranqüilo, agora o difícil é você lidar com a diferença, e a gente é muito diferente. Pensa numa coisa diferente, sou eu e ele [risos]. Primeiro, de idade, de formação, de tudo cara, de tudo, só que no fundo a gente se dá muito bem... E assim, o que eu acho que é mais forte nele é esta persistência e o gosto: ele gosta de capoeira... ele não tem nenhuma intenção de... ou melhor, ele tem as intenções, mas é que o gosto é soberano, tanto é que todas as intenções dele são fracassadas [risos]... fracassam porque o gosto dele é tão grande pela coisa que quando ele tem uma intenção eu acho isto muito puro...uma pureza assim de espírito, que é muito rica... é muito puro, é uma jóia pura, bruta... (Entrevista realizada em 11/08/2009).
Professor Minhoca não poderia falar sobre seu mestre nestes termos se não o colocasse a seu lado, fora do pedestal que a relação pedagógica, muitas vezes, insiste em colocá-lo, para se lançar com ele nas intempestividades do convívio em torno da prática em que se envolvem.
No campo onde este convívio é cultivado, uma ética vai sendo gerada – a ética da mandinga, na leitura de Alvarez (2007). Tal ética não se firma por uma relação estatutária de poder – que confere ao mestre, por força de direito, a condução do ensino – mas por relações horizontais de poder mobilizadas na prática da capoeira.
A fala de mestre Ananias ajuda a pensar a condução do mestre dentro destas relações horizontais de poder. Assim demarca: “é preciso seguir o regulamento do mestre... olhar bem
o que o mestre fala, olhar o jeito que o mestre faz e explica tudo... tem que se guiar pelo mestre” (Entrevista realizada em 31/08/2009). O “regulamento do mestre”, neste caso, nada
tem a ver com um registro prescrito que normatiza a relação com o aprendiz. Antes, aponta para um exercício de apropriação que convida o aprendiz a lançar-se com o mestre à prática que os mobilizam.
A roda de capoeira é o momento no qual este exercício horizontal de poder se evidencia, alcançando não só a relação entre mestre e aprendiz, mas também as outras relações coletivas, em grupo. O registro de uma impressão vivenciada em campo ajudar a sustentar esta ideia:
A relação de oposição entre os corpos se desenvolve como uma dança. Frente ao oponente, a eminência da luta parece apontar para uma dimensão de poder, na qual o corpo aclama suas possibilidades de atuação, para se afirmar perante seu oponente. O jogo dá curso a este investimento, traçando o itinerário do gesto, e o desafio atravessa esta dimensão de atuação, intensificando-a. Entre um fôlego e outro, a ginga traz a face da dança e sob este olhar faz ver o movimento como uma faísca de êxtase que mantêm o desejo pelo jogo a cada traço de movimento na roda.
E o êxtase atravessa o corpo [...]. Interessante pensar na imagem do atravessamento... ela vem de “fora-a-fora” perpassando a todos num mesmo plano horizontal [...] Este atravessamento corre paralelo ao chão e transita no espaço da roda, num nível médio e baixo, mantendo os corpos arqueados, na eminência de uma aproximação cada vez mais íntima com o chão... Quanto mais íntimo, isto é, quanto mais próximo ao chão, mais “jogo de dentro”.
[...] Tal atravessamento não demarca iguais condições entre os
adversários, mas expressa uma dinâmica potencial. Um jogo de forças que produz vetores que divergem e convergem no espaço da roda, num cruzamento contínuo que dá ânimo à roda, dando-lhe volume e clima...
Quando um ou outro jogador impõe seu jogo, no máximo, o que há é a eminência de um declive nesta relação horizontal de forças. Assim, a relação nunca se verticaliza, do contrário não há oponente... não já jogo de forças. A potência de um precisa da potência do outro – oponente – não tanto para se afirmar sobre ele, mas para permitir o jogo... a relação. (Diário n. 24).
Conforme o excerto acima, encontramos a roda como campo onde forças horizontais transitam. Sem este trânsito de forças não haveria jogo, tampouco relação com o outro e, sem relação, não há aprendizagem da capoeira.
O exercício horizontal de poder não acontece somente na roda, o espaço da vadiação também lhe abre caminho. Aliás, é na vadiação que o aprendiz aprende a lidar com estas forças horizontais, preparando-se para encará-las no espaço ritual da roda. Um exercício do brincar entre dois parceiros de treino pode disparar o trânsito destas forças, como registrado no diário a seguir:
Estou sentado num canto da sala em frente à parede de berimbaus. No outro canto, aninhados, estão três ou quatro atabaques e sobre eles pandeiros e réco-récos. Dois ou três meninos por lá estão, fuçando, experimentando o toque dos instrumentos. Imersos dentro daquele espaço musical, nem mesmo se dão conta que meu olhar os acompanha.
Um deles [...] diverte-se distraído, tirando som de um atabaque. Por trás dele se aproxima sorrateiro outro garoto que, de súbito engata uma rasteira que surpreende o colega distraído, destabilizando-o. Sem demora, o menino distraído gira sobre os calcanhares alçando um golpe giratório. Por um momento, mantém a perna elevada, quase esticada em frente ao oponente, impondo uma distância sobre ele, dali se deixa cair para a ginga, aproximando-se do provocador... gostou da brincadeira, quer continuar. O
outro, no entanto, vacila e interprela, apressado: “pára, pára!” A atenção se volta novamente para os instrumentos.
Um tempo depois a brincadeira se repete. A cada momento é um que provoca. A intenção é pegar o outro desprevenido. Parecem se testar: ver quem consegue responder com improviso a um golpe pelas costas... malícia, ginga, vontade... a expressão faceira e dissimulada é provocativa, atraente... nos chama também à brincadeira... Vejo ali um jogo lúdico, totalmente sem compromisso... espontâneo: um jogo de vadiação, onde o lance é responder ao outro com dissimulação, precisão e esperteza...
Olho pro lado: não está tendo roda, não começou o treino, a capoeira, no entanto, está ali presente, no corpo, nos modos de agir. A brincadeira travada entre os garotos parece alimentar a vontade pela capoeira... (Diário
n. 29).
O exercício do brincar dispara o exercício horizontal do poder. Ao pautar a relação com o outro estando receptivo ao trânsito destas forças horizontais o capoeirista aprende a “se virar” e faz deste aprendizado um exercício tanto para o jogo da capoeira quanto para a sua
própria existência.
Quando a relação com o outro abre vazão ao trânsito destas forças a aprendizagem é potencializada. O mestre de capoeira é aquele que convida e acompanha o aprendiz ao mergulho neste espaço relacional. Muitas vezes, este convite acontece em meio ao jogo jogado, no diálogo corporal tramado na roda. A fala de mestre Plínio ajuda a sustentar esta ideia:
eu me recordo do primeiro treino que tive com o mestre Gato,... o primeiro treino, ele me deu uma “meia-lua-de-frente” ou uma “chapa”, não me recordo agora qual era o golpe... aí eu desci, eu me esquivei totalmente do golpe e instintivamente e o golpe me acertou, embora eu tenha me esquivado. No segundo movimento, o mestre fez a mesma coisa e eu já saí melhor... ele não me passou nenhuma defesa, ele queria exatamente, que eu reagisse...”
(Entrevista realizada em 26/03/2009).
O trecho acima remonta a lembrança de um jogo entre mestre e aprendiz. Cada ação/reação dispara um vetor horizontal de força que, embalado pela movimentação circular do jogo, vai gerando um centro de envolvimentos. Em meio a este centro, mestre e aprendiz se vêem às voltas com um jogo corporal que força ambos a pensar resoluções eventuais às investidas do outro. No campo onde estas resoluções irrompem a aprendizagem se tece como uma disposição que vai se mantendo aberta ao rumo dos acontecimentos.
O diálogo com o outro no jogo coloca, assim, os oponentes em um campo de aprendizagem, onde ambos aprendem indefinidamente. O mestre, em seu papel de preceptor
ajuda o aprendiz a compreender que não se conquista uma aprendizagem na capoeira sem antes colocá-la à prova nas relações porvir que se desdobram da aventura de se abrir ao que vêm do outro. Desta forma, a relação com o outro movimenta a aprendizagem. A fala de mestre Brasília ajuda a compor esta ideia:
tem uma frase que eu aprendi que diz assim: “não há ninguém que não tenha nada pra ensinar, como não há ninguém que não tenha nada pra aprender”, não é? Todos nós, por mais que sabemos, a gente sempre tem alguma coisa pra ensinar e alguma coisa pra aprender. (Entrevista realizada em
02/12/2008).
O saber da tradição oral resume a ideia de aprendizagem aqui proposta. A humildade de aprender com todos e com tudo lança a condução do mestre a num plano coletivo, em que a aprendizagem aponta ao porvir das relações que se desencadeiam na coletividade.
Assim, imersa no plano coletivo, a condução do mestre chama a atenção do aprendiz para os relacionamentos que o lançam frente ao desafio do convívio, do jogo com o diferente. Não obstante, o aprendiz, muitas vezes, resiste a este desafio, limitando a vazão de sua receptividade. Neste caso, é o mestre quem é desafiado, a fala de mestre Plínio compor com esta ideia:
O mestre João Pequeno fala uma coisa muito interessante [...] “Hoje estou aprendendo com meu aluno mais duro”... eu acho isto muito profundo, porque é o aluno mais duro que desafia o conhecimento do mestre... Quando você joga capoeira com um cara que já sabe jogar capoeira, você pode até adivinhar o que o cara vai fazer, mas com o aluno que tá chegando agora ele te chuta de qualquer jeito, de qualquer maneira, e muitas vezes aquele aluno que você passou a ginga, que você virou as costas, e você olhar... ele tá fazendo errado... você tem que parar tudo pra voltar a dar atenção pra ele, então o aluno mais duro é o que ensina o mestre (Entrevista realizada em
26/03/2009).
O desafio do mestre é dissolver a dureza que distancia o aprendiz de um corpo receptivo, aberto às intempéries dos acontecimentos. O desafio traz a eminência do jogo, da relação, reclamando pela mobilização do conhecimento. Quando esta relação é tecida frente a um jogador experiente, o diálogo corporal, muitas vezes, se estabiliza. Isto acontece quando os capoeiristas se lançam em um jogo regular que não vai além dos automatismos forjados no treinamento. A convivência com o outro, muitas vezes, faz com que os capoeiristas conheçam o estilo de jogo de seus companheiros de treino, todavia, o espaço ritual da roda convida ambos a ir além do contorno já traçado de um estilo.
Cabe ao mestre romper com a posição cômoda que resguarda os aprendizes dentro do estilo que os caracteriza, pois na posição de comodidade a dureza do aluno se fortalece, impedindo a ousadia, a transgressão do estilo.
No caso de um aprendiz iniciante, as marcas do estilo ainda não são suficientemente fortes para tramar seu espaço de comodidade, assim, sem o suporte previdente dos automatismos (dos esquemas motores memorizados), as respostas corporais forjadas estão livres das regularidades treinadas, abrindo espaços para o improviso.
Eis aí o desafio: jogar para além do enquadre das regularidades. Tal desafio surge frente à dureza de uns, rendidos à comodidade do estilo, ou frente à irregularidade de outros, aprendizes iniciantes. Enquanto o primeiro – o duro – precisa dissolver a couraça que o coloca às voltas com automatismos, o segundo – o iniciante – precisa jogar sem sucumbir às regularidades que assimilou. Ao mestre cabe a tarefa de lidar com o duro e com o iniciante, colocando-os em relação, pois é na relação que o desafio desponta, mobilizando a aprendizagem.