3- ELEKTRİK ENERJİSİ TALEP TAHMİNLERİ
5.2. Elektrik Enerjisi Üretim Planlaması 1. Elektrik Enerjisi Üretim Planlaması
5.2.6. AB Elektrik Direktifi ve Plan
contextos de risco no campo
De certo que um modelo “desenvolvimentista” como o que impulsiona a implementação do Perímetro Irrigado Santa Cruz em Apodi/RN não existirá sem causar severas transformações no contexto dos grupos vulneráveis. Como consequência, as saúdes do trabalhador e ambiental das comunidades da Chapada do Apodi potiguar estarão sujeitas às mutações oriundas desse processo. Tal compreensão pode ser corroborada por alguns autores que aproximam as duas áreas (Saúde do Trabalhador e Saúde Ambiental), antes, espaçadas nos contextos de discussão científica, mas, intimamente, relacionadas nos cenários cotidianos das populações.
Ao dialogar com Karl Marx e Asa Cristina Laurell, Rigotto (2003) traz à baila, o trabalho é compreendido, aqui, enquanto um processo no qual o Homem intercambia-se com a Natureza, transformando-a ao passo em que é transformado por ela. Com uma articulação tão íntima entre os dois entes ressaltados, os fenômenos interferentes nesse intercâmbio geram alterações no processo saúde-doença que os envolve, já que este “é determinado pelo modo como o Homem se apropria da natureza em um dado momento, apropriação esta que se realiza por meio do processo de trabalho, baseado em determinado grau de desenvolvimento das forças produtivas e relações sociais de produção” (LAURELL, 1982 apud RIGOTTO, 2003, p. 391).
Assim, o modelo econômico que impera na sociedade atual determina a configuração do que se tem enquanto efeitos para as populações e interfere no processo saúde-doença do coletivo. Um modelo que, como já discutido, está ancorado na acumulação de capital e expansão mercadológica a partir de meios de produção que degradam a vida. Tal lógica penetra na natureza, desnaturaliza-a e implica exposições diferenciadas aos indivíduos, com riscos que podem acarretar danos à saúde (RIGOTTO, 2003). Uma ilustração que pode
exemplificar as reflexões acima colocadas é a Matriz (ou Marco) Causa-Efeito para a saúde e o ambiente (Figura 1), que foi traduzida e adaptada de Organización Panamericana de Salud (2000 apud RIGOTTO, 2003).
A Matriz revela que o modelo de desenvolvimento vigente exerce uma pressão social no que concerne ao aumento da produção-consumo, o que implica alterações na disponibilidade de recursos, perigos naturais e novos níveis de contaminação. Tais alterações e perigos sujeitam os indivíduos à exposição externa a agentes ou situações (efeitos), geralmente, nocivos ao seu processo saúde-doença. Tem-se, portanto, um modelo econômico que se expande, em muitos territórios, a partir de situações concretas de degradação do bem- estar de grupos vulneráveis e seus ambientes.
Figura 1 – Matriz ou Marco Causa-Efeito para a saúde e o ambiente
Fonte: Organização Mundial de Saúde (2000).
A exemplo, podem ser citados os perímetros irrigados que são instalados no Nordeste brasileiro, que servem para manter as agroindústrias altamente poluentes e com efeitos discrepantes para a saúde do ambiente e a do trabalhador; riscos não mais permitidos em países desenvolvidos.
Os países ‘desenvolvidos’ do hemisfério Norte – pressionados pela sociedade e pelo
Estado a uma reforma ecológica – estariam exportando riscos para os países ‘subdesenvolvidos’ ou ‘emergentes’ do Sul. Aqueles processos mais consumidores de recursos naturais, mais geradores de poluentes e que se caracterizam por processos de trabalho mais insalubres e perigosos – a ‘indústria suja’ – tenderiam a
se localizar em alguns locais: os que apresentem legislações ambientais e trabalhistas menos rigorosas; em que o aparato institucional de vigilância não tenha condições de fazer valer as políticas consensadas; em que a população e os trabalhadores estejam fragilizados pelas precárias condições de vida e dispostos a
‘aceitar qualquer coisa’ em troca de uma fonte de renda; em que a sociedade civil
não esteja suficientemente informada e organizada para defender seus interesses. (FRANCO, 1998; RIGOTTO, 2002 apud RIGOTTO, 2003, p. 393, grifo nosso).
Desse modo, essa “indústria suja”, mais especificamente, a proveniente da modernização agrícola (como o agronegócio), acarreta riscos modernos19 e, consequentemente, doenças do desenvolvimento nos países do Hemisfério Sul. Tais riscos têm sua “origem relacionada à ‘infusão de conhecimento humano no meio ambiente material’. [...] A natureza transformada pela ação humana, através da produção de bens de consumo, envolve cada vez mais uma divisão global do trabalho” (LENZI, 2006 apud GONDIM, 2008, não paginado).
Dessarte, a conjuntura preconizada para os territórios da Chapada potiguar está permeada de riscos à saúde daquela população (apesar de omitidos no Relatório de Impacto Ambiental, a ser discutido posteriormente). Lembra-se que, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (2002), entende-se risco à saúde como a “probabilidade de que uma pessoa sofrerá um dano devido a uma ameaça em particular. Pode-se reduzir o risco evitando determinadas atividades, porém não se pode eliminá-lo por completo. No mundo real não existe risco zero” (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, 2002 apud GONDIM, 2008, não paginado). Isso pode ser reforçado com a concepção de que mesmo comunidades que vivem preservando e perpetuando os traços culturais dos seus antepassados, respeitando seus processos de trabalhos e o ambiente, como as da Chapada, apresentam em seu escopo os chamados riscos tradicionais20
. Porém esses últimos são, deveras, muito menos agressivos que os riscos modernos já comentados.
Vale ressaltar que os riscos modernos - inerentes ao modelo econômico atual - são percebidos e vivenciados em todas as esferas da vida pública e privada. Beck (1992 apud GONDIM, 2008, não paginado) traz para o centro dessa discussão o termo “sociedade de
19
“[...] contaminação da água pelos núcleos de população, indústria e agricultura intensiva; contaminação do ar urbano pelas emissões de motores de veículos, centrais energéticas e indústria; acumulação de resíduos sólidos e perigosos; riscos químicos e por radiação devidos à introdução de tecnologias industriais e agrícolas; risco de doenças infecciosas novas ou emergentes; desflorestamento, degradação do solo e outras mudanças ecológicas importantes nos níveis locais e regionais; mudança climática, esgotamento da camada
de ozônio da estratosfera e contaminação transfronteiriça.” (ORGANIZACIÓN PANAMERICANA DE
SALUD, 2000 apud RIGOTTO, 2003, p. 394).
20 “[...] falta de acesso à água potável, saneamento básico deficiente nas moradias e na comunidade, contaminação dos alimentos por organismos patógenos, contaminação do ar interior pelo uso de carbono ou combustíveis de biomassa para aquecimento e cozinha, sistemas insuficientes de eliminação de resíduos sólidos, riscos de acidentes de trabalho na agricultura e indústria domésticas; catástrofes naturais, como inundações, terremotos, secas; vetores de doenças, especialmente insetos e roedores.” (RIGOTTO, 2003, p. 394).
risco” como sendo um coletivo produto de transformações, como a globalização (processo que separa as relações no tempo e espaço, cuja principal consequência é a desterritorialização), a individualização (está relacionada com o processo de destradicionalização) e a reflexividade (revisão permanente dos aspectos da vida social e das relações com a natureza) (SPINK, 2001 apud GONDIM, 2008).
Diante disso, por compreendermos risco como a probabilidade de dano a outrem; que os riscos atuais estão associados às atividades do homem; e que sociedade de risco está relacionada à desterritorialização, destradicionalização e necessidade de reflexão acerca da relação sociedade-natureza, concebemos o território previsto para a implantação do Perímetro Irrigado Santa Cruz como um espaço que pode perceber os riscos/impactos provenientes da modernização agrícola no local. Esse fato necessita ser pensado junto com os agricultores familiares locais, para que sejam preconizadas e executadas ações intersetoriais de acordo com o que é abordado pelo Marco Causa-Efeito.