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Ainda que o principio da isonomia não esteja expressamente previsto dentre os objetivos da seguridade social, traçados no parágrafo único do art. 194 da Constituição Federal, representa verdadeira linha mestra e ideal a ser seguido pelo ordenamento jurídico pátrio, revelando-se por diversas facetas ao longo do texto constitucional, ainda que previsto genericamente em seu artigo 5º, caput122.

Conforme se extrai do entendimento de JOSÉ AFONSO DA SILVA, tem se que a igualdade constitui signo fundamental da democracia, pois repudia privilégios que a

121 BORGES, José Souto Maior. Teoria Geral da Isenção Tributária. 3' ed. São Paulo: Malheiros, 2001, p. 56. 122 Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos

estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

liberdade integral propicia, contrariando, portanto, o sentido em que se assentava a democracia liberal burguesa123.

Neste ínterim, assevera-se que as constituições tem reconhecido no seu sentido jurídico-formal a igualdade perante a lei, conforme disposto no artigo 5º da Magna Carta, que dispõe serem “todos iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”.

Ressalte-se que, a Constituição de 1988 faz expressa referência à redução das desigualdades sociais e regionais, e veementemente repulsa qualquer forma de discriminação (art. 3, III e IV), elegendo estas diretrizes como fundamentos da República do Brasil124.

No Brasil, a partir da proclamação da República, a igualdade atingiu patamares mais elevados, uma vez, passou a não admitir privilégios de nascimento, desconhecendo foros de nobreza e extinguindo as ordens honoríficas existentes e todas as suas prerrogativas e regalias, bem como os títulos nobiliárquicos e de conselho125.

Sublinhe-se que a igualdade implica numa relação tripartite, pois consiste em apreciar dois ou vários sujeitos em relação a uma ou mais qualidades. Por conseguinte, é intrínseco ao conceito de igualdade o tertium comparationes, que deverá ser estabelecido em cada caso126.

Neste diapasão, com relação ao mundo do direito, o citado tertium comparationis deve ter pertinência jurídica. Com isso, três são as etapas apontadas pela

123 SILVA, Jose Afonso da. Curso de Direito Constitucional positivo. 18 ed. São Paulo: Malheiros, 2000, pág.

214/215.

124 Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:

I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; II - garantir o desenvolvimento nacional;

III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;

IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

125 Art. 72 da CF de 1891 - A Constituição assegura a brasileiros e a estrangeiros residentes no País a

inviolabilidade dos direitos concernentes à liberdade, à segurança individual e à propriedade, nos termos seguintes:

§ 1º - Ninguém pode ser obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei. § 2º - Todos são iguais perante a lei.

A República não admite privilégios de nascimento, desconhece foros de nobreza e extingue as ordens honoríficas existentes e todas as suas prerrogativas e regalias, bem como os títulos nobiliárquicos e de conselho.

doutrina de CELSO ANTONIO BANDEIRA DE MELLO a fim de ser apurada quebra ou não de isonomia, quando da seleção do termo de discriminação.

Conforme ensina CELSO ANTONIO BANDEIRA DE MELLO, há a necessidade de se identificarem alguns requisitos intrínsecos (etapas), para se comprovar o desrespeito à isonomia. Destarte, o reconhecimento das diferenciações que não podem ser feitas sem quebra da isonomia se divide em três questões:

a) A primeira diz com o elemento tomado como fator de desigualação;

b) A segunda reporta-se a correlação lógica abstrata existente entre o fator erigido em critério de discríminen e a disparidade estabelecida no tratamento jurídico diversificado;

c) A terceira atina à consonância desta correlação lógica com os interesses absorvidos no sistema constitucional e destarte juridicizados127.

Seguindo-se os ensinamentos do evidenciado doutrinador, é importante ter em mente que, ao analisar a eventual ocorrência de ofensa a igualdade, tem-se de investigar, de um lado, aquilo que é adotado como critério discriminatório; de outro lado, cumpre verificar se há justificativa racional, isto é, fundamento lógico, para, a vista do traço desigualador acolhido, atribuir o especifico tratamento jurídico construído em função da desigualdade proclamada128.

E continua o ilustre Mestre, asseverando que é deveras importante, analisar se a correlação ou fundamento racional abstratamente existente é, in concreto, afinado com os valores prestigiados no sistema normativo constitucional. A dizer: se guarda ou não harmonia com eles129.

127 MELLO, Celso Antonio Bandeira de. O conteúdo jurídico do principio da igualdade. 3 ed. São Paulo:

Malheiros, 2009, pág. 21.

128 MELLO, Celso Antonio Bandeira de. O conteúdo jurídico do principio da igualdade. 3 ed. São Paulo:

Malheiros, 2009, pág. 22.

129 MELLO, Celso Antonio Bandeira de. O conteúdo jurídico do principio da igualdade. 3 ed. São Paulo:

Sintetizando de forma precisa e objetivo, explica o renomado jurista que: importa que exista mais de uma correlação lógica abstrata entre o fator diferencial e a diferenciação conseqüente. Exige-se, ainda, haja uma correlação lógica concreta, ou seja, aferida em função dos interesses abrigados no direito positivo constitucional. E isto se traduz na consonância ou dissonância dela com as finalidades reconhecidas como valiosas na Constituição.

Por fim, ressalta a prescindibilidade de preenchimento cumulativo dos requisitos, uma vez que, a hostilidade ao preceito isonômico pode residir em quaisquer deles. Não basta, pois, reconhecer-se que uma regra de direito é ajustada ao principio da igualdade no que pertine ao primeiro aspecto. Cumpre que o seja, também , com relação ao segundo e terceiro130.

Resta incontestável e, inclusive é corolário lógico, que a ofensa a requisitos da primeira questão é suficiente para desqualificá-la como isonômica. Incontinenti, o mesmo, ocorrerá por ofensas a exigências das demais questões, porém é de vital importância ressaltar a necessidade de que a norma jurídica observe cumulativamente aos reclamos provenientes de todos os aspectos mencionados para ser ofensiva em face do principio isonômico131.

Assim, conforme se extrai dos termos do posicionamento doutrinário de CELSO ANTONIO BANDEIRA DE MELLO haverá ofensa ao preceito constitucional da isonomia quando:

I – A norma singulariza atual e definitivamente um destinatário determinado, ao invés de abranger uma categoria de pessoas, ou uma pessoa futura e indeterminada.

II – A norma adota como critério discriminador, para fins de diferenciação de regimes, elemento não residente nos fatos, situações ou pessoas por tal modo desequiparadas. É o que ocorre quando pretendo tomar o fator “tempo” – que não descansa no objeto – como critério diferencial.

130 MELLO, Celso Antonio Bandeira de. O conteúdo jurídico do principio da igualdade. 3 ed. São Paulo:

Malheiros, 2009, pág. 24

131 MELLO, Celso Antonio Bandeira de. O conteúdo jurídico do principio da igualdade. 3 ed. São Paulo:

III – A norma atribui tratamentos jurídicos diferentes em atenção a fator de discríminen adotado que, entretanto, não guarda relação de pertinência lógica com a disparidade de regimes outorgados.

IV – A norma supõe relação de pertinência lógica existente em abstrato, mas o discríminen estabelecido conduz a efeitos contrapostos ou de qualquer modo dissonantes dos interesses prestigiados constitucionalmente.

V – A interpretação da norma extrai dela distinções, discrimens, desequiparações que não foram professadamente assumidas por ela de modo claro, ainda que por via implícita132.

Neste diapasão, ocorrendo algumas das hipóteses citadas, ainda que de forma isolada (não é necessária a cumulatividade), restar-se-ia atacado o preceito isonômico, motivo pelo qual a norma padeceria de inafastável vício insanável, visto que ofensiva a um dos preceitos basilares da Constituição e do Estado de Direito.

A aplicação do princípio da isonomia implica, pois, na idéia de justiça social de sorte que não deverá ser visto como um princípio único, mas como um complexo de princípios, que sobrepostos nos apontam um senso humanitário.